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Revista Brasileira de Entomologia

On-line version ISSN 1806-9665

Rev. Bras. entomol. vol.53 no.3 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262009000300012 

BIOLOGIA, ECOLOGIA E DIVERSIDADE

 

Registros da fauna de Collembola (Arthropoda, Hexapoda) no Estado da Paraíba, Brasil

 

Records of collembolan fauna (Arthropoda, Hexapoda) in Paraíba State, Brazil

 

 

Bruno Cavalcante BelliniI; Douglas ZeppeliniII, III

IDepartamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba - Campus I. 58059-900, João Pessoa-PB, Brazil. entobellini@yahoo.com.br
IICentro de Ciências Biológicas e Sociais Aplicadas, Universidade Estadual da Paraíba Campus V, João Pessoa-PB, Brasil
IIIAssociação Guajiru - Ciência - Educação - Meio Ambiente

 

 


RESUMO

No presente trabalho são listadas as espécies de Collembola encontradas no Estado da Paraíba, Região Nordeste do Brasil. Os espécimes foram coletados em seis municípios: João Pessoa, Cabedelo, Mataraca, Bananeiras, Cacimba de Dentro e Araruna. Os espécimens foram coletados através do processamento de material em funis de Berlese-Tullgren, armadilhas do tipo pitfall e aspiradores entomológicos. Em seguida foram montados entre lâminas e lamínulas de vidro para identificação sob microscópio. Foram identificadas 54 espécies de colêmbolos, distribuídas em 25 gêneros, em 13 famílias. Entomobryidae foi a mais diversa, com 22 espécies e Seira foi o gênero mais diverso, com 15 espécies. A maior parte das espécies foi encontrada em remanescentes de Mata Atlântica e Mata de Restinga. Foram encontradas 20 novas espécies de colêmbolos e serão descritas posteriormente. Os dados aqui apresentados indicam que a Paraíba é um hotspot de diversidade para o gênero Seira.

Palavras-chave: Brasil; Collembola; fauna edáfica; lista de espécies.


ABSTRACT

In this paper the species found in Paraíba State, northeatern Brazil are listed. The specimens were collected in six municipalities: João Pessoa, Cabedelo, Mataraca, Bananeiras, Cacimba de Dentro and Araruna. The specimens were collected using Berlese-Tullgren funnels, pitfall traps and entomological aspirators. After that they were mounted in glass slides for identification under microscope. It was found 54 species of collembolans, distributed in 25 genera, of 13 families. Entomobryidae was the most diverse family, with 22 species and Seira was the prevailing genus, with 15 species. Most species were found in fragments of Mata Atlântica and Mata de Restinga. Twenty new species were found and will be describe later. The data indicate that Paraíba is possibly a hotspot of diversity for the genus Seira.

Keywords: Brazil; Collembola; edaphic fauna; species checklist.


 

 

Colêmbolos são microartrópodes terrestres tradicionalmente considerados como hexápodes basais (Kristensen 1981). Entretanto, estudos de morfologia, ontogenia e aspectos biomoleculares indicam que Collembola está mais relacionado com "Crustacea" do que com Insecta (Bellinger et al. 1996-2008).

Apesar de habitarem diversos tipos de habitats, colêmbolos são animais intimamente relacionados ao solo. Esses animais estão entre os artrópodes terrestres mais abundantes, juntamente com os ácaros (Miranda-Rangel & Palacios-Vargas 1992; Zeppelini & Bellini 2004). Colêmbolos se alimentam principalmente de fungos, podendo também consumir bactérias, detritos vegetais e animais (Cassagne et al. 2003; Castaño-Meneses et al. 2004). Isso faz com que sejam extremamente importantes na ciclagem de nutrientes no solo. Populações de colêmbolos eventualmente atuam como controladores da biomassa de fungos presentes no solo, assim como podem servir de vetores de dispersão para os mesmos (Kooistra 1964; Cassagne et al. 2003). Seu tamanho diminuto faz com que se tornem presas para outros pequenos artrópodes. Assim, integram a base da cadeia trófica ao servir de alimento para vários animais, especialmente insetos e aracnídeos em início do desenvolvimento (Christiansen & Bellinger 1980, 1998).

Algumas espécies de Collembola são indicadoras de qualidade de solo (Bellinger et al. 1996-2008). A presença (ou ausência) de algumas espécies pode estar relacionada com alterações no pH, disponibilidade de determinados íons e água, presença de componentes de pesticidas ou mesmo cargas de metais pesados presentes em solos contaminados (Cassagne et al. 2003, 2004; Choi & Moorhead 2006). As espécies endêmicas também podem ser indicativas de impactos ambientais (Frampton 2000).

Até o momento foram descritas mais de 7600 espécies de Collembola, sendo a maior parte registrada em regiões de clima temperado. Entretanto, estima-se que uma maior diversidade do grupo esteja na região Neotropical. Atualmente, para essa região, totaliza-se pouco mais de 1200 espécies registradas (Mari-Mutt & Bellinger 1990, 1996; Mari-Mutt et al. 1998-2008; Bellinger et al. 1996-2008). O reduzido número de espécies reconhecidas para a região não condiz com sua grande diversidade de habitats. A baixa diversidade registrada para a região reflete um baixo esforço de coleta (Bellini & Zeppelini 2005). No Brasil foram registradas 223 espécies, representando 80 gêneros em 19 famílias (Zeppelini & Bellini 2004; Fernandes & Mendonça 2004; Abrantes & Mendonça 2005, 2007; Bellini & Zeppelini 2005; Zeppelini 2006; Mendonça & Fernandes 2007). Esse número é certamente incapaz de refletir a composição faunística existente no país (Culik & Zeppelini 2003).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os espécimes foram coletados entre 2002 e 2008, no Estado da Paraíba, nos municípios de João Pessoa, Araruna, Cacimba de Dentro, Cabedelo, Mataraca e Bananeiras (Fig. 1). Em João Pessoa, as coletas foram realizadas na Mata do Buraquinho, no Campus I da Universidade Federal da Paraíba, na Costa do Sol e na Praia da Penha; em Araruna, no Parque Ecológico da Pedra da Boca; em Cacimba de Dentro, na fazenda Cachoeira da Capivara; em Cabedelo, na praia Mar do Macaco; em Mataraca, na empresa de mineração Lyondell Chemicals; e em Bananeiras, na periferia da cidade.

 

 

As coletas foram feitas por amostragem de folhiço e solo e posterior processamento desse material em funis de Berlese-Tullgren; através de armadilhas do tipo pit-fall de tamanhos variados (variando entre 50 e 2000ml) contendo álcool 70%; e coletas diretas, com utilização de aspiradores entomológicos.

Os espécimes foram triados sob microscópio estereoscópico e armazenados em frascos do tipo Eppendorf, contendo álcool 70%. Em seguida, o material foi montando entre lâminas e lamínulas seguindo os procedimentos descritos por Christiansen & Bellinger (1980, 1998). Os espécimes foram identificados sob microscópio óptico com contraste de fases.

 

RESULTADOS

Foram registradas 54 espécies de colêmbolos, distribuídas em 25 gêneros e 13 famílias, por localidades conforme mostra a Tabela I.

As famílias com os maiores números de gêneros registrados foram Entomobryidae e Paronellidae, com quatro gêneros cada (Tabela I). O maior número de espécies encontradas foi em Entomobryidae, com 22 espécies (40,8% do total de espécies), seguido por Paronellidae e Dicyrtomidae, com cinco espécies cada (9,2% do total cada) (Fig. 2). Apenas três famílias apresentaram uma única espécie: Cyphoderidae, Neelidae e Sminthuridae (Tabela I, Fig. 2).

 

 

O gênero mais representativo foi Seira, com 15 espécies registradas (27,8% do total de espécies); seguido por Dicyrtoma, com cinco espécies (9,2% do total); e Lepidocyrtus, Entomobrya e Brachystomella, cada um com três espécies (5,6% do total cada) (Fig. 3).

 

 

A maioria das espécies foi registrada em apenas uma localidade (Tabela I). Apenas Lepidocyrtus nigrosetosus, Seira mirianae, Seira sp. n. 5, Brachystomella agrosa e Cryptopygus thermophilus foram coletadas em mais de uma localidade. Dessas, a espécie de distribuição mais ampla foi L. nigrosetosus, encontrada em todas as localidades estudadas (Tabela I).

A maior parte das espécies de colêmbolos foi encontrada em João Pessoa, Cabedelo e Mataraca, em áreas de remanescentes de Mata Atlântica e Mata de Restinga. Para essas áreas foram contabilizadas 43 espécies (79,6% do total) (Tabela I). Os municípios de Bananeiras, Cacimba de Dentro e Araruna,onde foram encontradas 14 espécies (25,9% do total), estão localizados em uma área de transição entre a Mata Atlântica e Caatinga, conhecida por Brejo de altitude (Tabela I).

Os gêneros Pseudosinella, Campylothorax, Arlesia, Sphyroteca, Rastriopes, Sminthurinus e Megalothorax foram registrados pela primeira vez no Estado da Paraíba. As ocorrências de Seira brasiliana, S. prodiga, S. xinguensis, Entomobrya nivalis, E. griseoolivata, Arlesia albipes, Brachystomella parvula, Sphyrotheca mucroserrata e Megalothorax minimus são os primeiros registros dessas espécies para a Paraíba (Culik & Zeppelini 2003; Zeppelini & Bellini 2004, Bellini & Zeppelini 2005). O registro de Sphyroteca mucroserrata é o primeiro para o Brasil.

 

DISCUSSÃO

A família Entomobryidae se destacou como a mais diversa no Estado da Paraíba (Tabela I, Fig. 2). Isso se deve, em especial, ao elevado número de espécies do gênero Seira (Tabela I, Fig. 3). O gênero é predominantemente tropical, com 176 espécies descritas (Bellinger et al. 1996-2008, Christiansen & Bellinger 2000). Anteriormente, para o Brasil, foram registradas 20 espécies de Seira (Culik & Zeppelini 2003; Zeppelini & Bellini 2006). O registro de mais seis espécies não descritas (Tabela I) torna o gênero o mais diverso conhecido no país, sendo Sphaeridia o segundo mais diverso, com 20 espécies registradas (Culik & Zeppelini 2003; Zeppelini & Bellini 2004).

O elevado número de espécies de Seira encontradas sugere que o Estado da Paraíba seja um hotspot de diversidade para o gênero. Comparativamente, em todo o território dos Estados Unidos e Canadá, apenas seis espécies de Seira foram registradas (Christiansen & Bellinger 1980, 1998). Embora Seira tenha sido o gênero mais diverso, a maioria das espécies do grupo foi observada em apenas uma localidade, com exceção de Seira sp. n. 5 e S. mirianae. Esse padrão foi observado para a maioria das espécies coletadas (Tabela I). Apenas Lepidocyrtus nigrosetosus mostrou ampla distribuição, ocorrendo em todos os municípios amostrados. Esses dados, entretanto, não restringem a distribuição das demais espécies de colêmbolos a áreas específicas. Maiores esforços de amostragem precisam ser feitos para indicar a distribuição das espécies de maneira mais acurada. Mais de 90% do território do Estado da Paraíba ainda não foi amostrado (Fig. 1).

A maior parte das espécies coletadas (79,6% do total) foi encontrada em remanescentes de Mata Atlântica e Mata de Restinga. Esse dado reforça a importância da conservação desses biomas, como reserva da biodiversidade de Collembola.

Foram registradas 20 espécies novas de colêmbolos no Estado da Paraíba, equivalendo a 37% do total de espécies (Tabela I). Isso demonstra a carência de especialistas atuantes na área no Brasil, especialmente no ramo da taxonomia. De fato, a real composição da fauna de Collembola no país, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, é pobremente conhecida.

Agradecimentos. Agradecemos a Alexandra P. Pais, Claudeci S. Silva, Rodrigo A. Costa, Valderêz H. Costa, Rembrandt R. A. D. Rothéa e Lúcia Raquel R. Berger pela ajuda em campo. O autor Sênior foi bolsista do CNPq.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 20/05/2008; aceito em 13/01/2009

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