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Revista Brasileira de Entomologia

On-line version ISSN 1806-9665

Rev. Bras. entomol. vol.54 no.2 São Paulo Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262010000200010 

BIOLOGIA, ECOLOGIA E DIVERSIDADE

 

Composição, abundância e riqueza de Calliphoridae (Diptera) das matas e clareiras com diferentes coberturas vegetais da Base de Extração Petrolífera, bacia do Rio Urucu, Coari, Amazonas

 

Composition, abundance and richness of Calliphoridae (Diptera) in the forests and gaps with different forest covers from the oil extraction field located at Urucu River, Coari, Amazonas

 

 

José Roberto Pereira de SousaI,II; Maria Cristina EspositoII; Fernando da Silva Carvalho FilhoII

IDepartamento de Química e Biologia, Centro de Estudos Superiores de Imperatriz, Universidade Estadual do Maranhão. Rua Godofredo Viana 1300, Bairro União, 65901-430 Imperatriz-MA, Brasil. jrszoo@hotmail.com
IIPrograma de Pós-Graduação em Zoologia, Universidade Federal do Pará. Instituto de Ciências Biológicas, Rua Augusto Correa, s/n, Caixa Postal: 8607, 66074-150 Belém-PA, Brasil

 

 


RESUMO

Este trabalho foi realizado na base de extração petrolífera, bacia do Rio Urucu, Coari, Amazonas, nos meses de abril, junho e outubro de 2007. Um total de 16 áreas foram amostradas, 12 delas de clareiras e quatro de florestas, sendo categorizadas em quatro ambientes (clareiras pouco recuperadas, clareiras semi-recuperadas, clareiras bem recuperadas e floresta preservada). Um total de 7.215 califorídeos foram capturados pertencentes a 16 espécies e uma única delas, a Chloroprocta idioidea (Robineau-Desvoidy, 1830), representou 88,06% deste total. Os padrões de abundância da família não diferiram entre os ambientes, porém eles diferiram para as seguintes espécies: Eumesembrinella randa (Walker, 1849), Hemilucilia semidiaphana (Rondani, 1850) e Paralucilia adespota Dear, 1985. A riqueza estimada variou significativamente entre os ambientes, formando dois grupos: I, clareiras pouco recuperadas (C1) e clareiras semi-recuperadas (C2); e II, clareiras bem recuperadas (C3) e floresta preservada (MT).

Palavras-chave: Amazônia Brasileira; varejeiras; Oestroidea; Região Neotropical.


ABSTRACT

This research was carried out in the oil extraction field located in Urucu River Basin, Coari, State of Amazonas, Brazil, during the months of April, June and October of 2007. A total of 16 areas were sampled, 12 of them were gaps and four forests, arranged in four environments (gaps litlle-recovered, gaps semi-recovered, gaps well-recovered and preserved forest). A total of 7,215 calliphorid flies was captured belonging to 16 species and only one species, Chloroprocta idioidea (Robineau-Desvoidy, 1830), represented 88.06% of this total. The abundance patterns of the family were not different among the environments, however they were different for the following species: Eumesembrinella randa (Walker, 1849), Hemilucilia semidiaphana (Rondani, 1850) and Paralucilia adespota Dear, 1985 The estimated richness was significantly different between the environments and showed two groups: I, gaps litlle-recovered (C1) and gaps semi-recovered (C2); II, gaps well-recovered (C3) and preserved forest (MT).

Keywords: Brazilian Amazon; blowflies; Oestroidea; Neotropical Region.


 

 

Os dípteros da família Calliphoridae são popularmente conhecidos no Brasil como moscas varejeiras (Lenko & Papavero 1996) e podem ser considerados um dos grupos de insetos mais comuns do mundo, tendo em vista sua ampla distribuição e por ocorrerem nos mais diferentes ambientes (Erzinçlioglu 1996). Apesar dos califorídeos serem amplamente distribuídos e muito abundantes, quando comparada com outras de Oestroidea, esta família possui um número bem menor de espécies. Pont (1980) registrou a ocorrência de 1.020 espécies em todas as regiões biogeográficas e conforme Shewell (1987), a fauna de califorídeos na região Neotropical é conhecida por apresentar um número reduzido de espécies. James (1970) listou para esta região menos de 100 espécies válidas e quatro subfamílias: Mesembrinellinae, Toxotarsinae, Calliphorinae e Chrysomyinae. As duas primeiras são exclusivamente Neotropicais, sendo que Mesembrinellinae é típica das florestas tropicais úmidas das Américas do Sul e Central e Toxotarsinae é restrita às regiões de clima frio da América do Sul (Dear 1979; Mello 2003).

Segundo vários autores (Ferreira 1978, 1983; Baumgartner & Greenberg 1984; Mendes & Linhares 1993; Paraluppi & Castellón 1994; Esposito 1997), houve uma mudança drástica na composição da fauna de califorídeos brasileira nas últimas décadas, devido a invasão das espécies exóticas do gênero Chrysomya Robineau-Desvoidy, 1830.

Dessa forma, as comunidades de moscas das cidades e matas urbanas brasileiras tem apresentado um forte predomínio das espécies exóticas, tendo estas, deslocado algumas espécies nativas, como por exemplo, Cochliomyia macellaria (Fabricius, 1775) e Lucilia eximia (Wiedemann, 1819) (Ferreira 1978, 1979, 1983; Guimarães et al. 1978, 1979; Linhares 1981; Paraluppi & Castellón 1994).

Na Amazônia, trabalhos já realizados em áreas naturais e em ambientes urbanos detectaram que a riqueza de califorídeos varia entre oito e 17 espécies. Neste contexto, Carvalho & Couri (1991) registraram nove espécies em ambiente natural na Ilha de Maracá, município de Boa Vista, Roraima, Paraluppi & Castellón (1994), 10 espécies para Manaus, Amazonas, Paraluppi (1996), sete espécies para as matas e clareiras da região da bacia do alto rio Urucu, Coari, Amazonas, e Esposito (1999), 17 espécies para a Floresta Nacional de Caxiuanã, Pará, 10 espécies para Portel, Pará, oito espécies para Belém, Pará e nove espécies para Tefé, Amazonas. Embora existam estes estudos, Couri et al. (2000) enfatizam que o conhecimento dos dípteros na Amazônia ainda é fragmentário, e os catálogos para a região Neotropical mencionam poucos registros para a região.

A região da Bacia do Rio Urucu, município de Coari, localizada na Amazônia Central, afastada de qualquer centro urbano, oferece uma ótima oportunidade para o estudo de Calliphoridae, pois possui extensas áreas de florestas preservadas, bem como algumas áreas de clareiras abertas para a prospecção de petróleo e gás natural. Segundo Barthem et al. (2004), a abertura de clareiras gera impactos na biota terrestre e aquática, principalmente por meio de perda e modificação dos habitats. Assim, em decorrência dessas ações antrópicas nesta região da Amazônia, se fazem necessários estudos para constatar as possíveis mudanças ocorridas na dinâmica da fauna de califorídeos.

Este trabalho teve como objetivo caracterizar e comparar a fauna de moscas da família Calliphoridae em termos de composição, abundância e riqueza nas matas e clareiras com diferentes coberturas vegetais desta região. A hipótese de trabalho é a de que as áreas mais recuperadas e preservadas tenham maior riqueza e abundância de Calliphoridae.

 

MATERIAL E MÉTODOS

As coletas foram realizadas no pólo de extração petrolífera da PETROBRÁS S. A., Base Operacional Geólogo Pedro de Moura (BOGPM) localizado na região da Bacia do rio Urucu, município de Coari, Amazonas. A área de amostragem localiza-se a 600 km oeste da cidade de Manaus, situada entre os paralelos 4º 51' 18" e 4º 52' 16" S e os meridianos 65º 17' 58" e 65º 20' 01" W, com altitude entre 60 a 70 m e com uma área de 514.000 ha (Fig. 1).

 

 

Foram selecionadas 16 áreas para a amostragem, sendo 12 de clareiras em diferentes estágios de recuperação da vegetação, que foram diferenciadas com base na altura da cobertura vegetal, e quatro de matas (Fig. 1) Estas áreas foram categorizadas em quatro ambientes distintos, conforme descrição a seguir: Ambiente C1, apresentando clareiras pouco recuperadas, com predominância de herbáceas e altura variando de 30 a 50 cm; Ambiente C2, apresentando clareiras em estágio médio de recuperação, com predominância de arbustos e altura entre 50 cm e 2 m; Ambiente C3, apresentando clareiras bem recuperadas, com predominância de árvores de 2 a 5 m de altura; e Ambiente MT, áreas de floresta preservadas.

Foram realizadas três expedições de 12 dias cada, nos meses de abril, junho e outubro de 2007. Em cada área foram colocadas quatro armadilhas, totalizando 16 por ambiente e 192 ao final das três coletas. As armadilhas foram dispostas no centro da área das clareiras observando as posições norte – sul e leste – oeste, distanciadas a pelo menos 50 m umas das outras. Nas áreas de matas, as armadilhas foram dispostas da mesma forma, porém a 300 m da borda da mata. Tanto em relação às áreas de clareiras quanto às de floresta, foram escolhidas àquelas mais afastadas dos alojamentos de trabalhadores. Estas áreas de amostragem ficaram a uma distância mínima de 1 km entre si (Fig. 1). As réplicas foram as quatro áreas de cada ambiente, sendo que cada uma dessas áreas representou uma unidade amostral.

Foram utilizadas armadilhas específicas para coleta de dípteros saprófagos, descritas por Almeida et al. (2003) e utilizadas por Paraluppi (1996) e Esposito & Linhares (2002) na coleta de califorídeos. As armadilhas, contendo 50 g de pulmão bovino, mantidas por 24 h em temperatura ambiente antes de sua utilização, ficaram expostas por um período de 48 h. Porém, os sacos coletores foram retirados e repostos a cada 24 h, para evitar danos ao material biológico coletado. As moscas capturadas foram identificadas utilizando-se as chaves de Guimarães (1977); Ribeiro & Carvalho (1998); Carvalho & Ribeiro (2000) e Mello (2003). Parte do material foi preparado em meio seco e depositado na Coleção Entomológica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), e o restante acondicionado em meio líquido (álcool 70 %).

A razão sexual de califorídeos foi avaliada utilizando o teste não paramétrico do Qui – quadrado, no qual os valores possuem uma regência ou padrão conhecido de uma proporção de 1:1, ou 50 % para cada acontecimento. O teste foi realizado através do programa estatístico BioEstat 5.0 (Ayres et al. 2007).

A riqueza de espécies foi avaliada utilizando-se os estimadores Jack-Knife 1 e Jack-Knife 2, através do programa EstimateS 8.0 (Colwel 2006) e pelo método de rarefação baseado no número de indivíduos por espécie, realizado pelo programa BioDiversity Pro 2.0 (McAleece et al. 1997).

Para comparar as diferenças nos padrões de abundância da família e das espécies mais representativas e da riqueza estimada entre os ambientes, foram realizados testes não paramétricos de Kruskall-Wallis (Zar 1999), pois os dados não apresentaram distribuição normal, conforme o teste Lilliefors. Estas análises foram feitas utilizando o programa estatístico BioEstat 5.0 (Ayres et al. 2007), sendo consideradas significativas quando p < 0,05.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Composição e Abundância. Foram coletados 7.215 califorídeos, pertencentes a três subfamílias, oito gêneros e 16 espécies (Tabela I). A subfamília Chrysomyinae, foi a que apresentou a maior abundância relativa, (94,78 %), seguida de Mesembrinellinae (4,93 %) e Calliphorinae (0,27 %). Paraluppi (1996) registrou para a região da Bacia do Rio Urucu, Coari, AM, apenas sete espécies pertencentes às subfamílias Calliphorinae e Chrysomyinae. Foram registradas pela primeira vez no Estado do Amazonas, as ocorrências de Hemilucilia benoisti Séguy, 1925 e Paralucilia xanthogeneiates Dear, 1985.

 

 

As espécies com maior abundância relativa foram: Chloroprocta idioidea (Robineau-Desvoidy, 1830), (88,06 % do total de indivíduos), seguido por Paralucilia adespota Dear, 1985, (4,35 %), Eumesembrinella randa (Walker, 1849), (3,74 %) e Hemilucilia semidiaphana (Rondani, 1850), (1,48 %) do total das amostras (Fig. 2). As demais espécies foram representadas, cada uma, por menos de 1 % do total de espécimes coletados. As espécies exóticas foram representadas por Chrysomya albiceps (Wiedemann, 1819) e Chrysomya putoria (Wiedemann, 1819).

 

 

A espécie C. idioidea destacou-se como a mais abundante em todas as áreas amostradas. No trabalho já mencionado de Paraluppi (1996), realizado no período de 1992 a 1994, esta espécie foi a segunda mais abundante, com 1.667 (11,3 %) dos espécimes coletados e C. macellaria foi a primeira, com 12.643 espécimes (85,9 %). Em contraste, foram coletados apenas 29 espécimes (0,4 %) de C. macellaria.

Os trabalhos de Guimarães et al. (1979) e Prado & Guimarães (1982) registraram decréscimos populacionais de C. macellaria em várias regiões do Brasil, após a invasão das espécies exóticas do gênero Chrysomya. No entanto, apenas 21 espécimes de C. albiceps e quatro de C. putoria foram coletados no presente trabalho, não justificando, portanto, a possível diminuição de C. macellaria devido à presença das espécies exóticas.

Paraluppi (1996) coletou apenas um espécime de C. albiceps e um de C. putoria, sugerindo que o número reduzido de espécimes do gênero Chrysomya era significativo para demonstrar o grau de oportunismo exibido por estas moscas ao usufruírem dos mecanismos de dispersão disponíveis (fluxo de pessoas e de víveres através do transporte aéreo e fluvial), levando em consideração às condições de localização e acesso à região estudada.

Com relação à razão sexual houve predomínio de fêmeas, que representaram 56,07 % dos espécimes coletadas. A comparação entre os escores observados e os esperados para a razão sexual (50 % para machos e fêmeas) pelo teste do Qui-Quadrado de aderência (X2) mostrou que a diferença entre fêmeas e machos é significativa (X2 = 106,116; GL = 1; p < 0,0001).

A maior proporção de fêmeas também foi verificada por outros autores que utilizaram iscas protéicas para coleta de moscas (Ferreira 1978; Paraluppi & Castellón 1994; Lomônaco & Almeida 1995a; Esposito & Linhares 2002). O fato das fêmeas terem sido mais comuns nas armadilhas deve estar relacionado com a necessidade de obtenção de nutrientes necessários ao desenvolvimento de seus ovócitos e à procura de substratos para oviposição (Avancini & Prado 1986; Avancini & Linhares 1988). Entretanto, é possível que o posicionamento das armadilhas também tenha influenciado tal resultado, pois de acordo com Luvchiev et al. (1981), fêmeas são capturadas em maior número quando as armadilhas são colocadas até 1,5 m do solo.

A abundância de califorídeos para as 16 áreas amostradas neste estudo está representada na Tabela II. As áreas de clareiras semi-recuperadas (C2) J37, J23 e C12 apresentaram as maiores abundâncias relativas, 22,90 %, 22,55 % e 15,09 %, respectivamente. Por outro lado, as áreas de clareiras pouco recuperadas (C1) L12 e L8 com 1,35% e 1,20 %, respectivamente e a área de clareira bem recuperada (C3) J16, com 1,06 %, foram as áreas com menor abundância relativa. A espécie C. idioidea ocorreu em todas as áreas, enquanto que H. benoisti foi exclusiva da área C12 (clareira semi-recuperada-C2) e P. xanthogeneiates da área R7 (clareira bem recuperada-C3). Verificou-se ainda que as espécies Hemilucilia segmentaria (Fabricius, 1805), Mesembrinella batesi (Aldrich, 1922) e Mesembrinella bicolor (Fabricius, 1805) foram exclusivas das áreas pertencentes aos ambientes de clareiras bem recuperadas (C3) e floresta preservada (MT).

O teste de Kruskal-Wallis (H) não apontou diferenças entre os ambientes quanto à abundância da espécie C. idioidea (H = 5,5809; GL = 3; p = 0,1339). Entretanto, a análise indicou diferenças na abundância entre ambientes para E. randa (H = 11,8; GL = 3; p = 0,0081); H. semidiaphana (H = 8,6233; GL = 3; p = 0,0347) e P. adespota (H = 8,3278; GL = 3; p = 0,0397). O teste de comparações múltiplas (Student-Newman-Keuls) a posteriori evidenciou diferença significativa entre: I- os ambientes pouco recuperados (C1) e bem recuperados (C3) para E. randa (p = 0,0259); II- os pouco recuperados (C1) e floresta preservada (MT) também para E. randa (p = 0,0008); III- os pouco recuperados (C1) e floresta preservada (MT) para H. semidiaphana (p = 0,0042); e IV- os ambientes semi-recuperados (C2) e floresta preservada (MT) para P. adespota (p = 0,0042).

A maior abundância de E. randa nos ambientes de floresta preservada (MT) e nas clareiras bem recuperadas (C3) pode estar relacionada ao fato de ambos ambientes possuirem estruturas vegetacionais similares. Esta espécie e os demais mesembrinelíneos são considerados como assinantrópicos (Ferreira 1978), visto que são espécies encontradas exclusivamente em florestas (Guimarães 1977). Da mesma forma, Furusawa & Cassino (2006), comparando a fauna de moscas em três pontos localizados em um gradiente da borda até o interior de um fragmento de Mata Atlântica secundária, no município de Engenheiro Paulo Frontin, RJ, verificaram que os mesembrinelíneos eram mais frequentes no interior do fragmento.

A maior abundância de H. semidiaphana em área de floresta preservada (MT) do que em ambiente de clareira pouco recuperada (C1), reflete as diferenças extremas nos valores de abundância desses ambientes de modo geral. Esta espécie tem sido apontada como independente de áreas urbanas (Mello 1972; Vianna et al. 1998). D'Almeida & Lopes (1983) relataram que as espécies do gênero Hemilucilia Brauer, 1895 são típicas de áreas florestadas.

A espécie P. adespota esteve mais relacionada aos ambientes de clareiras, com um discreto aumento no ambiente de clareira semi-recuperado (C2). Esposito (1999) também verificou que a referida espécie foi mais abundante nas áreas abertas próximos às residências dos riberinhos do que nas matas primárias da Floresta Nacional de Caxiuanã, Melgaço, PA.

Riqueza. A análise dos padrões de incidência e abundância de espécies para o total de amostras, estimou o mínimo de 15 (Jack-Knife 2) e o máximo de 17 espécies (Jack-Knife 1) (Fig. 3). Para avaliar a eficiência da metodologia de amostragem empregada foi observado o comportamento das espécies raras nas amostras (espécies que ocorrem em apenas uma ou duas amostras, unicatas e duplicatas, respectivamente), observando-se 1 unicata e três duplicatas. A curva de espécies unicatas alcançou a estabilização, porém, a curva de espécies duplicatas não demonstrou ter atingido a estabilidade (Fig. 4).

 

 

 

 

A ordem de riqueza observada de califorídeos para cada área está representada na Fig. 5. A riqueza variou de 11 espécies na área J28 (área de clareira bem recuperada-C3) a quatro nas áreas L8, L17 (clareiras pouco recuperadas-C1) e L12 (clareira semi-recuperada-C2). A estimativa de riqueza de espécies de califorídeos para cada área, pelo método de rarefação, indicou a seguinte ordem de riqueza: um mínimo de 2,93 para L17 e C12, respectivamente em clareiras pouco (C1) e semi-recuperadas (C2) para um total de 77 espécimes coletados e cerca de 7,09 na área M28 em ambiente de mata preservada (MT), a maior estimativa com o mesmo número de indivíduos coletados. As áreas dos ambientes de clareiras pouco (C1) e semi-recuperadas (C2), com exceção da área J48, que apresentaram um número estimado de espécies inferior a cinco, constituíram as áreas com os menores valores de riqueza de espécies por indivíduo (Fig. 5.) A observação da curva de rarefação indica a formação de dois grupos, um deles constituído pelos ambientes de clareiras pouco (C1) e semi-recuperadas (C2), e o outro, pelos ambientes de clareiras bem recuperadas (C3) e floresta preservada (MT) (Fig. 5).

 

 

O teste de Kruskal-Wallis (H) apontou diferenças entre os ambientes quanto à riqueza estimada de califorídeos, ao nível de 77 espécimes, (H = 9,9908; GL = 3; p = 0,0186) e o teste de comparações múltiplas evidenciou diferença significativa entre: I-os ambientes pouco recuperados (C1) e os bem recuperados (C3) (p = 0,0193); II- os ambientes pouco recuperados (C1) e floresta preservada (MT) (p = 0,0193); III- os ambientes semi-recuperados (C2) e os bem recuperados (C3) (0,0343); e IV- semi-recuperados (C2) e floresta preservada (MT) (0,0343). Dessa forma, a análise reconheceu dois grupos de ambientes quanto à riqueza estimada, o grupo formado por ambientes pouco recuperados (C1) e semi-recuperados (C2) e o grupo formado por ambientes bem recuperados (C3) e floresta preservada (MT).

As curvas de todos os estimadores, de espécies raras, bem como a de espécies observadas, apresentaram sinais de estabilização (assíntota). Segundo os parâmetros de classificação de Toti et al. (2000), as estimativas para esta família apresentaram um bom desempenho, sugerindo que o esforço amostral foi suficiente para amostrar a riqueza da área.

As diferenças nos padrões de riqueza estimada entre os grupos de ambientes sugerem adaptação diferencial dos califorídeos a estes ambientes possivelmente em decorrência de seu grau de sinantropia. A redução da riqueza também foi verificada por Lomônaco & Almeida (1995b), que sugerem ser esta um elemento indicador dos efeitos da interferência humana na taxocenose de dípteros muscóideos. Dessa forma, a maior riqueza nos ambientes mais bem preservados deve-se às espécies intimamente associadas a estes tipos de ambientes, pois das 16 espécies coletadas neste trabalho, oito pertencem a gêneros de moscas consideradas como assinantrópicas (Eumesembrinella Towsend, 1931 e Mesembrinella Giglio-Tos, 1893) ou hemissinantropicas (Hemilucilia Brauer 1895) (Ferreira 1978).

 

CONCLUSÕES

Os padrões de abundância das espécies E. randa, H. semidiaphana e P. adespota apresentaram diferenças entre os ambientes amostrados. Em relação à riqueza estimada, os ambientes foram separados em dois grupos: aquele que reúne os menos recuperados (C1 e C2), com menor riqueza e aquele que agrupa os ambiente mais bem preservados (C3 e MT), com maior riqueza de espécies, evidenciando assim, que as espécies dessa família apresentam ampla variedade de adaptação, ou seja, espécies com maior valência ecológica, adaptadas a todos os tipos de ambientes, e outras mais seletivas, restritas a ambientes mais preservados.

Agradecimentos. À rede de pesquisa "Avaliação da dinâmica e recomposição bio-ecológica de áreas alteradas pela exploração petrolífera", na área do Urucu – AM, projeto "Dinâmica de Clareiras sob Impacto da Exploração Petrolífera – DICLA" financiado pela FINEP/CTPETRO e ao CNPq pela concessão de bolsa de Mestrado ao primeiro autor.

 

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Recebido em 16/09/2008; aceito em 09/04/2010

 

 

Editor: Mauricio Osvaldo Moura

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