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Revista Brasileira de Entomologia

Print version ISSN 0085-5626

Rev. Bras. entomol. vol.54 no.3 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262010000300026 

OBITUÁRIO

 

Obituário: Jesus Santiago Moure

 

 

Danúncia Urban; Gabriel A. R. Melo

Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná, Caixa Postal 19020, 81531-980 Curitiba-PR, Brasil. urban@ufpr.br; garmelo@ufpr.br

 

 

A vida do Padre Moure (2.11.1912 - 10.07.2010) foi tão intensa e produtiva que merece os aplausos e admiração de todos aqueles que o conheceram, seus colegas e amigos, os estudiosos das abelhas, os colegas do convento e os seus familiares. Contar um pouco da sua história, a dedicação ao trabalho, o interesse em orientar pessoas para o melhor conhecimento das abelhas, nos enche de alegria.

Paulista de Ribeirão Preto, nascido a 2 de novembro de 1912, Jesus Santiago Moure, formou-se em Filosofia, incluindo Ciências Naturais, Física e Matemática, pelo Seminário Maior Claretiano, em Rio Claro (1929-1933) e a seguir, cursou Teologia no Seminário Maior Claretiano, em Curitiba (1933-1936). Foi nesse período que começou a se interessar pelo estudo dos insetos, como atesta correspondência trocada com o Museu Paulista (1933) e o Museu Nacional (1934).

Em 1937, permaneceu na cidade de São Paulo para concluir o curso de Teologia, tendo sido ordenado Sacerdote em 23 de maio de 1937, nesta mesma cidade. Durante sua estada em São Paulo, conheceu Frederico Lane do Museu Paulista, que o introduziu na taxonomia dos insetos. Em colaboração, os dois publicaram três artigos sobre espécies de Curculionidae (Coleoptera), e Lane sugeriu ao Pe. Moure o estudo das abelhas da coleção do Museu Paulista. Esta proposta abriu novos horizontes e foi o início de uma carreira científica extremamente produtiva. No início de seus estudos, a bibliografia foi copiada manualmente ou datilografada e, as citações referentes às espécies neotropicais das abelhas, manuscritas em tiras de papel, foram sendo feitas, dando origem ao seu Catálogo.

Ao retornar para Curitiba, em 1938, Moure passa a lecionar Ciências Naturais, Física, Química e Matemática no Seminário Claretiano e prontamente envolve-se também em atividades fora dos círculos eclesiásticos. Por sua amizade com José Loureiro Fernandes, dos tempos do Círculo de Estudos Bandeirantes, participa da fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, assumindo a cátedra de Zoologia. Essa Faculdade integrou-se com as demais-Medicina, Direito e Engenharia-para reformular, em 1946, a nova Universidade do Paraná, dentro dos moldes então exigidos pelo Ministério de Educação.

Também a convite de José Loureiro, passa a integrar o Museu Paranaense onde assumiu a Direção da Divisão de Zoologia, em 1939. Uma de suas primeiras iniciativas foi incinerar todo o acervo de animais empalhados, dado o precário estado de conservação em que se encontrava e a completa falta de informações para os espécimes. Em 1950 participou da reestruturação da Universidade do Paraná, que foi então federalizada, e logo a seguir foi Diretor do Museu Paranaense, de 1952 a 1954, época em que comprou vasto material bibliográfico iniciando a primeira biblioteca da Zoologia, que posteriormente, foi reintegrada ao Museu Paranaense.

Exceto por curtas estadas no estrangeiro-Argentina em 1953 e Chile em 1954- sua primeira grande viagem foi em meados de 1956, à Universidade de Kansas, Lawrence, nos Estados Unidos, juntamente com Charles D. Michener e seus familiares, que retornavam após um ano de permanência e muito trabalho em colaboração, em Curitiba. Permaneceu em Lawrence por seis meses, estudando a coleção de abelhas, tendo também participado do curso de Estatística ministrado por Robert R. Sokal e presenciado o desenvolvimento inicial da taxonomia numérica. A seguir estudou as coleções de outras Universidades norte-americanas, até junho de 1957. Ao voltar para Kansas recebeu um auxílio da National Science Foundation, obtido por Michener, para estada de um ano na Europa, a partir de agosto de 1957, uma viagem que foi "excepcional para sua formação", segundo suas anotações. Na Europa, visitou as coleções entomológicas dos museus de diversos países e prosseguiu com as anotações.

O retorno ao Brasil foi marcado por novos desafios. Em suas próprias palavras: "Voltei com grandes planos para a melhoria das nossas universidades, fazendo um longo relatório ao Prof. Anísio Teixeira. Foi entretanto grande a minha desilusão quando vi o Museu Paranaense [...] sem receber um só centavo [...] O referido museu havia passado a órgão ordinário da administração estadual, desligando-se da Universidade do Paraná [...] Havia perdido as coleções e a biblioteca, duas metas que persegui durante a minha gestão. Sabia do valor inestimável de ambas, em confronto com os grandes museus americanos e europeus nesse particular". Não desanimou, escreveu aos seus amigos e colaboradores, também do exterior e obteve auxílio da Rockefeller Foundation e refez a biblioteca da Zoologia, hoje incorporada à Biblioteca do Setor de Ciências Biológicas da UFPR.

Em viagens subseqüentes, nas décadas de 1960 a 1970, deu continuidade ao estudo dos tipos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Porém, faltava ainda examinar as abelhas da coleção do Museum für Naturkunde, em Berlim. Acompanhado por Olaf H. H. Mielke, em junho e agosto de 1996, realizou seu sonho executando todo o trabalho planejado. Voltou à Alemanha no ano seguinte e depois em 1999. Como resultado de suas viagens, produziu 1.700 páginas manuscritas com anotações sobre os tipos das abelhas neotropicais. Costumava levar abelhas em pequenas caixas de madeira, para comparar com os espécimes descritos. Suas anotações foram valiosas para estudos posteriores, tanto seus como de seus colaboradores.

Publicou mais de 220 artigos, dando a conhecer principalmente a riqueza de espécies da região neotropical, como único autor ou em colaboração com outros pesquisadores. Uma parte dos artigos foi publicada em revistas científicas dos Estados Unidos, Japão, Argentina e Peru. Propôs um total de 484 nomes do grupo-espécie, 218 do grupo-gênero, dos quais aproximadamente 158 são considerados válidos, e 17 do grupo-família. Suas contribuições principais para a sistemática de abelhas incluem a classificação para os gêneros e subgêneros de Centridini, Eucerini neotropicais, Tapinotaspidini, Meliponini e Xylocopini, bem como as bases para a classificação corrente adotada para muitos dos grupos neotropicais, em particular Emphorini, Nomadini (Epeolina), Diphaglossini, Paracolletini, Augochlorini, Anthidiini e Megachilini. Sua incursão principal no estudo de abelhas de outras regiões zoogeográficas se deu em 1961, com a publicação sobre Meliponini do Velho Mundo, propondo novos gêneros e chaves de identificação para as regiões Oriental, Australiana e Etiópica, depois de estudar o material-tipo de numerosas coleções.

Na sua produção constam três livros, dois deles em colaboração com Paul D. Hurd Jr. e o mais recente, em 2007, Catalogue of Bees in the Neotropical Region, organizado por Moure, Urban e Melo, onde estão citadas 5.029 espécies válidas e 16 espécies fósseis de abelhas, e reunindo todas as informações catalográficas desde suas primeiras notas manuscritas até os cartões que foram datilografados quando da sua primeira visita ao Michener e atualizadas posteriormente.

Iniciou sua coleção de abelhas capturando os espécimes nos fins de semana, nos arredores do Seminário e nos jardins do Convento. Doações e compra de material coletado, além de um técnico em coleta de insetos, Claudionor Elias, resultaram num acervo de cerca de 5.000.000 espécimes de insetos. Desse total, cerca de 340.000 espécimes são abelhas. Desde 1982, a coleção de insetos do Departamento de Zoologia da UFPR foi denominada "Coleção de Entomologia Prof. Pe. Jesus Santiago Moure".

Durante a década de 1960 (Fig. 1), organizou o Curso de Pós-Graduação em Entomologia do Departamento de Zoologia da UFPR, a nível de Mestrado e Doutorado, tendo sido Professor orientador de 11 teses de Doutorado e 35 dissertações de Mestrado. Desde 1980 até 1996 ministrou mini-cursos de Taxonomia numérica em Congressos, Universidades e Institutos de pesquisa, como também na Universidad Nacional Autónoma de México, Universidad Nacional de la Amazonía Peruana e Pontificia Universidad Católica del Ecuador. Mesmo tendo sido aposentado compulsoriamente em 1982, permaneceu bastante ativo, conduzindo suas atividades de pesquisa na UFPR por mais de 20 anos (Fig. 2).

 

 

 

 

Envolveu-se na fundação do CNPq e da Capes, principais órgãos relacionados à pesquisa e à ciência do Brasil; também da fundação da Sociedade Brasileira de Entomologia-SBE (1937), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC (1948) e da Sociedade Brasileira de Zoologia-SBZ (1978). Foi bolsista do CNPq desde 1953 até sua mudança definitiva para a residência dos Missionários Claretianos em Batatais, São Paulo, em 2005.

Em 1961, ingressou na Academia Brasileira de Ciências, da qual recebeu o "Prêmio Costa Lima", em 1970. Numerosos outros prêmios e homenagens foram a ele concedidos, destacando-se as mais elevadas condeco-rações concedidas pelo governo brasileiro a cientistas: "Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico" (1995) e "Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico" (1998). A Universidade Federal do Paraná conferiu-lhe os títulos de Doutor Honoris Causa (1982) e de Professor Emérito (1986). Em 2006, recebeu o Diploma de Pesquisador Emérito como parte das comemorações dos 55 anos do CNPq.

Dedicou-se tanto à ciência como às atividades religiosas, dizia "Deus fez o mundo pela evolução e nós procuramos, na medida do possível, reescrever a história desse mundo". Ao celebrar o casamento de algum dos colegas ou colaboradores, a homilia muitas vezes enveredava pelas lembranças das suas viagens científicas.

Padre Jesus Santiago Moure, ícone da pesquisa científica no país, faleceu no dia 10 de julho de 2010, aos 97 anos de idade, na residência dos Missionários Claretianos em Batatais, São Paulo.

Agradecimentos. Gostaríamos de agradecer ao Prof. Albino Sakakibara pela fotografia utilizada (Fig. 1) e ao Dr. James Roper pela revisão da gramática e estilo da versão em inglês.

 

 

Received 18/08/2010; accepted 26/08/2010

 

 

Editor: Claudio José Barros de Carvalho