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Revista Brasileira de Ciência do Solo

versão On-line ISSN 1806-9657

Rev. Bras. Ciênc. Solo vol.25 no.3 Viçosa jul./set. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-06832001000300004 

SEÇÃO II - QUÍMICA DO SOLO

 

Caracterização de ecossistemas da mata atlântica de tabuleiros por meio das formas de húmus(1)

 

Characterization of tableland atlantic forest ecosystems according to humus forms

 

 

A. KindelI; I. GarayII

IDoutoranda do Departamento de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Departamento de Botânica, Instituto de Biologia, CCS, UFRJ, Ilha do Fundão, CEP 21941-590 Rio de Janeiro (RJ). E-mail: kindel@connection.com.br
IIProfessora Adjunta do Departamento de Botânica, UFRJ e pesquisadora do CNRS, França

 

 


RESUMO

O conhecimento das formas de húmus permite a caracterização de ecossistemas primários, bem como dos interferidos. Dentro desta perspectiva, pretendeu-se identificar as formas de húmus, estudando-se os horizontes holorgânicos em relação às variáveis do solo mineral, em três áreas de Mata Atlântica de Tabuleiros do norte do Espírito Santo: duas matas primárias, a Mata Alta e a Mata de Córrego, e uma mata secundária, resultante do corte e da queima da vegetação há mais de 40 anos (Capoeira Queimada). Na Mata Alta, encontrou-se um mull mesotrófico tropical, caracterizado por uma rápida decomposição dos aportes foliares dos horizontes holorgânicos e por uma percentagem de saturação por bases em torno de 50-70% no horizonte hemiorgânico. A Mata de Córrego teve a estrutura do seu perfil húmico alterado em comparação com a Mata Alta, ou seja, verificou-se maior acúmulo nas camadas holorgânicas, representando menor velocidade na decomposição, como o oligotrofismo do solo mineral (V%: 14-35%). Estes resultados levaram à classificação da forma de húmus na Mata de Córrego como um mull oligotrófico. Na Capoeira Queimada, o estoque dos horizontes holorgânicos foi de 2 t ha-1 maior que na Mata Alta, com o desenvolvimento esporádico da camada F2. No horizonte A1, porém, o estoque de matéria orgânica foi inferior e observou-se, igualmente, uma percentagem de saturação por bases menor (30-56%), indicando que o ciclo de carbono e de nutrientes ainda não foi restabelecido. A forma de húmus da Capoeira Queimada foi classificada como mull mesotrófico.

Termos de indexação: decomposição, fertilidade, mata secundária, mata primária, matéria orgânica, serapilheira, solo, floresta tropical.


SUMMARY

Humus forms allow the characterization of either a natural forest ecosystem or disturbed forests. Under this perspective, we aimed to identify the humus forms in three Tabuleiro Forest sites in northern Espírito Santo: two primary forests, "Mata Alta" and "Mata de Córrego", and one secondary forest resulting from slash and burn, over 40 years old (Capoeira Queimada). Therefore, the holorganic horizons were studied in regard to the pedological parameters of the mineral soil. At "Mata Alta", a mesotrophic mull was found, characterized by high litter decomposition rates in the holorganic horizon, and by base saturation values around 50-70% in the hemiorganic horizon. The humus profile in "Mata de Córrego" was different from that at "Mata Alta" both due to the higher accumulation in the holorganic horizon, which reflected lower decomposition rates, and soil oligotrophism (V%: 14-35%). These results lead to the classification of the humus form in the "Mata de Córrego" as an oligotrophic mull. In the "Capoeira Queimada", the stock in the holorganic horizons was 2 t ha-1 higher than in the Mata Alta, with sporadic presence of the F2 layer. Nevertheless, regarding the A1 horizon, both the organic matter stocks and the base saturation ratio were lower (30-56%), showing that the carbon and nutrient cycle were not reestablished. The humus form in the "Capoeira Queimada" was classified as an mesotrophic mull.

Index terms: decomposition, fertility, litter, organic matter, primary forest, secondary forest, soil, tropical forest.


 

 

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

 

 

AGRADECIMENTOS

Ao Sr. Renato Moraes de Jesus, diretor da Reserva Florestal de Linhares (de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce), pelo apoio inestimável e por ceder os dados meteorológicos. Aos seus funcionários Gilson e Agostinho (in memorian), pela ajuda de campo. À EMBRAPA-CNPS, nas pessoas de Daniel Vidal Pérez, pela análise das amostras de solo, e de Raphael Davi dos Santos, pelos dados e explicações de tipos de solos da RFL. À Patrícia Barbosa, pelo auxílio no tratamento das amostras. Aos revisores que muito contribuíram para uma melhor compreensão do trabalho.

 

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Recebido para publicação em novembro de 1999
Aprovado em abril de 2001

 

 

(1) Parte da Tese de Mestrado do primeiro autor, apresentada à Universidade Federal do Rio de Janeiro para obtenção do título de Mestre em Ecologia. Trabalho financiado pelo CNPq, sub-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Fundação José Bonifácio e FAPERJ.

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