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Revista Brasileira de Ciência do Solo

On-line version ISSN 1806-9657

Rev. Bras. Ciênc. Solo vol.32 no.6 Viçosa Nov./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-06832008000600022 

SEÇÃO VI - MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA

 

Bibliometria, história e geografia da pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo1

 

Bibliometrics, history and geography of Brazilian research on accelerated soil erosion

 

 

Alberto Giaroli de Oliveira Pereira BarrettoI; Marcelo Geraldo Estriga BarrosII; Gerd SparovekIII

IPrograma de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ. Caixa Postal 09, Av. Pádua Dias 11, CEP 13418-900 Piracicaba (SP). E-mail: abarrett@esalq.usp.br
IIInstituto de Matemática e Estatística (USP/IME). E-mail: mestriga@gmail.com
IIIProfessor do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas, USP/ESALQ. E-mail: gerd@esalq.usp.br

 

 


RESUMO

Há poucos estudos sobre a história da ciência do solo e, no Brasil, essa matéria ainda não recebeu maior atenção por parte de sua comunidade científica. Este trabalho focaliza a formação histórica da pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo a partir de uma análise bibliométrica e geográfica, com base numa ampla compilação de artigos científicos publicados sobre o tema por autores vinculados a instituições brasileiras. A metodologia envolveu o armazenamento, em um banco de dados dimensional, estruturado especificamente para esse objetivo, de informações espaciais e bibliométricas. Indicadores quantitativos foram calculados, e a geografia da pesquisa foi mapeada por meio de consultas SQL e ferramentas de geoprocessamento. Os resultados apontaram para gênese recente da pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo e centralização da produção científica e formação de linhas em instituições e autores do Sul e Sudeste do Brasil. Ainda, a análise dos dados temáticos indicou predominância do enfoque da erosão a partir de uma perspectiva agrícola e grande ênfase na pesquisa dos fatores do modelo USLE de estimativa de erosão.

Termos de indexação: geoprocessamento, erosão hídrica, banco de dados.


SUMMARY

Soil science history studies are rare and the Brazilian scientific community has not given substantial attention to this subject yet. The present study focused on the formation of research on accelerated soil erosion in the Brazil from a bibliometric perspective. A comprehensive database of published scientific papers was organized in a relational database and analyzed by SQL queries and GIS tools. These data were used to calculate quantitative indicators and spatial distribution patterns. Results indicate a recent development of research on accelerated soil erosion in Brazil by few institutions and authors in the South and Southeast regions. Moreover, a thematic analysis indicated the agricultural perspective as the main focus of erosion studies, with a great emphasis on the USLE prediction model.

Index terms: GIS; water erosion; database.


 

 

INTRODUÇÃO

A ciência do solo é relativamente jovem. Ela se originou da apropriação de ferramentas e técnicas de ciências básicas, como a química, biologia, física, matemática, aplicando-as em problemas de cunho agrícola ou ambiental. Nesse processo, ela foi levada por direito à condição de ciência autônoma com o desenvolvimento de suas próprias técnicas e ferramentas e se fragmentou em várias subdisciplinas, das quais a história (da ciência do solo) foi sistematicamente negligenciada (van Baren et al., 2000), resultando em poucos, senão raros, trabalhos relacionados ao tema. Por outro lado, dados da CAB Abstracts® e Web of Science® (ISI), analisados por Hartemink (1999), mostram que, desde a década de 1960 até o final de 1990, o número de publicações relacionadas à área de ciência do solo aumentou continuamente (5 % ao ano), atingindo em 1999 aproximadamente 10.000 publicações por ano, das quais 70 % escritas em inglês e 99 % no formato de artigo científico. Nesse contexto, pesquisas históricas passam pela necessidade de análise de grande quantidade de material bibliográfico, reforçando o potencial de emprego de ferramentas bibliométricas2. Estudos bibliométricos, assim como históricos, são raros em ciência do solo. Exemplos deste tipo de abordagem podem ser consultados em: McDonald (1994), que investigou o desenvolvimento e as tendências da ciência do solo, empregando técnicas bibliométricas; Greenland (1997), que fez uma revisão histórica do que havia sido publicado nas 11 edições de "Soil Conditions and Plant Growth" entre 1912 e 1988; e Hartemink (2001), que analisou os 100 volumes da revista Geoderma publicados entre 1967 e 2001. Este trabalho se insere nesse contexto como uma revisão bibliográfica que focaliza a pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo desde sua formação, empregando ferramentas de bibliometria e tecnologia de informação (geoprocessamento, bancos de dados, Sistema de Informação Geográfica - SIG), ampliando o alcance de uma revisão bibliográfica tradicional.

Os objetivos deste trabalho foram: reconstituir a linha histórica da pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo publicada na forma de artigos científicos; identificar os principais atores institucionais e individuais, e descrever o papel de cada um; desenhar a geografia da formação e atuação desse ramo da ciência do solo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo foi investigada a partir dos artigos publicados em periódicos nacionais ou internacionais até abril de 2007, por autores vinculados a instituições de pesquisa brasileiras. O período selecionado foi de julho de 1949 a abril de 2007, englobando, portanto, quase 60 anos de pesquisa desde o primeiro artigo publicado no Brasil sobre o tema, em 1949, pela revista Bragantia, do Instituto Agronômico de Campinas.

Foram selecionados 225 artigos, oriundos de cinco periódicos nacionais e 21 estrangeiros, segundo os seguintes critérios: (a) o tema erosão acelerada do solo ser central e não acessório na definição dos objetivos do trabalho publicado; (b) algum dos autores do artigo indicar na publicação vínculo com instituições de ensino ou pesquisa brasileiras; (c) o periódico ser indexado na base de dados Web of Science® (ISI)3

O critério de seleção de artigos partindo da referência externa à Base ISI não compunha o plano original da pesquisa e surgiu da constatação de que aproximadamente 90 % dos artigos pré-selecionados atendiam a esse critério, de modo que não houve perda significativa de informação com essa restrição, a qual proporcionou ao conjunto analisado maior homogeneidade editorial e ao critério de seleção limites mais objetivamente definidos. A única exceção ao último critério foi a revista Bragantia, editada pelo Instituto Agronômico de Campinas. Esse periódico foi incluído mesmo não sendo indexado pela Base ISI, em razão do seu significativo valor histórico, já que essa é a única fonte de artigos relacionados à pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo antes de 1977.

Evidentemente, cometeram-se omissões pontuais, assumidas como erros intrínsecos ao método. Além disso, este não é um estudo histórico genérico sobre a pesquisa em erosão; há neste trabalho um viés temático que focaliza a erosão acelerada do solo e seu controle, o que inibiu a inclusão de artigos científicos em que a erosão é abordada sob outras perspectivas.

Todos os artigos selecionados foram digitalizados4 e cadastrados em banco de dados dimensional, que permite consultas analíticas complexas, estruturado especificamente para os objetivos deste trabalho. O intuito foi armazenar as informações contidas nos artigos necessárias para caracterizá-los como elementos bibliográficos (autoria, ano de publicação, periódico, etc.) e para descrevê-los tematicamente, segundo uma estrutura de tópicos organizados de forma hierárquica (objetivos tratados, métodos empregados, etc.). Para o cadastramento foi utilizada uma interface construída no "Microsoft Access 2003®", e nas análises foi utilizado o sistema OLAP (Online Analytical Processing) do Microsoft® SQLServer 2005.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo é recente. Embora os primeiros trabalhos tenham surgido ainda no final da década de 1940, aproximadamente metade da produção científica, na forma de artigos, foi publicada a partir de 1990 (Figura 1). A conseqüência imediata dessa distribuição é a falta de lastro que justifique a historiografia. A discussão dos dados foi feita num único bloco, não se atendo a uma descrição cronológica subdividida em períodos. Optou-se, em contraposição, por assumir alguns recortes regionais e enfatizar as particularidades das linhas de pesquisa conduzidas em cada instituição.

Embora o periódico Pesq. Agropec. Bras. (PAB) já existisse desde 1966, portanto antes da edição do primeiro número da Revista Brasileira de Ciência do Solo (RBCS) em 1977, o único meio de comunicação científica de trabalhos em erosão acelerada anterior a 1977 foi a revista Bragantia, editada pelo Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O objetivo principal da Bragantia na época era compartilhar o trabalho realizado em suas estações experimentais, localizadas em Campinas, Ribeirão Preto, Mococa e Pindorama. O primeiro conjunto de artigos brasileiros em erosão do solo foi, portanto, formado por 12 trabalhos publicados entre 1949 e 1972 por essa revista5. A maioria dos trabalhos foi conduzida em talhões experimentais de 100 a 1.000 m2, em que se procurava variar os fatores condicionantes do processo erosivo, como: solo, cobertura vegetal, sistemas de preparo, comprimento de rampa e práticas conservacionistas. Com esse tipo de resultado experimental, ampla gama de assuntos relacionados ao tema pôde ser abordada, como perda de nutrientes, relação erosão-produtividade e relação chuva-erosão; levando a resultados práticos em técnicas de controle (cobertura do solo e terraceamento) e na compreensão do processo erosivo. Pode-se dizer que o IAC iniciou, entre 1950 e 1970, a pesquisa brasileira em erosão do solo nas quatro estações experimentais citadas, resultando em artigos de síntese, baseados em longos períodos de experimentação. Os artigos abordaram todos os fatores da erosão conhecidos e representaram uma linha institucional de pesquisa, trabalhando conceitos e métodos que foram replicados em todo o Brasil nas décadas subseqüentes. O grupo de pesquisadores era composto por J. Bertoni, F. Grohmann, J.Q.A. Marques, entre outros (Grohmann & Catani, 1949; Bertoni, 1949; Alencar, 1952; Verdade et al., 1956; Grohmann et al., 1956; Bertoni, 1959; Marques & Bertoni, 1961; Marques et al., 1961; Barreto et al., 1961, 1962; Bertoni & Pastana, 1964; Lombardi-Neto & Pastana, 1972).

Os dados do quadro 1 evidenciam o pioneirismo da revista Bragantia na publicação de artigos sobre erosão do solo, bem como sua brusca substituição, a partir da década de 1980, pelos periódicos RBCS e PAB. Na avaliação dos periódicos, observou-se ainda que somente na década de 1990 inicia-se a publicação de artigos em periódicos de edição estrangeira.

A partir do final da década de 1970, o IAC continuou mantendo presença institucional significativa, mas a produção de outros centros de pesquisa passou a ter uma importância relativa maior no conjunto, principalmente de instituições da Região Sul do país, como a UFRGS e o IAPAR, marcando definitivamente os dois pólos geográficos mais representativos quantitativamente em produção de pesquisa brasileira em erosão do solo. As pesquisas realizadas no Estado de São Paulo, representado pelo IAC e mais tarde também pela USP e UNESP, e as pesquisas conduzidas na Região Sul, representadas por UFRGS, FEPAGRO, IAPAR, UFSM e UDESC, dominaram amplamente o conjunto da produção científica. Isso é evidenciado pelos dados do quadro 2, onde estão listadas instituições de pesquisa ordenadas pelo total de participações em publicações referentes ao tema erosão acelerada do solo ao longo do tempo.

A figura 2 complementa as informações do quadro 2 por meio do histograma da participação das instituições. Enquanto os dados médios mostrados no quadro 2 indicam uma distribuição equilibrada nas últimas duas décadas, o histograma da figura 2 ressalta a concentração das publicações. Aproximadamente metade das instituições tem apenas uma participação em artigos, respondendo por menos de 10 % do total de participações, ao passo que menos de 10 % das instituições concentram mais de 40 % das participações em artigos publicados.

Outra marca importante da polarização geográfica da pesquisa são as parcerias intra-regionais. No quadro 3 é possível identificar as co-autorias mais encontradas em artigos da pesquisa brasileira em erosão acelerada do solo, ficando claro, por um lado, a tendência das instituições em procurar parceiros dentro da mesma região e, por outro, indicando existência provável de afinidades temáticas que acompanham as parcerias.

Durante toda a década de 1980, a UFRGS realizou trabalhos focados na comparação de práticas de manejo e tipos de cobertura vegetal, influenciando as perdas de solo e de água. Os experimentos foram montados em parcelas e o uso de simuladores de chuva foi corrente (Eltz et al., 1977; Vieira et al., 1978; Eltz et al., 1984; Lopes et al., 1987; Bertol et al., 1989; Amado et al., 1989). Essa linha foi mantida durante a década de 1990 (Carvalho et al., 1990; Alves et al., 1995; Giasson & Cassol, 1996, 1999) e até a década de 2000 (Levien & Cogo, 2001; Morais & Cogo, 2001; Cogo et al., 2003; Streck & Cogo, 2003; Volk et al., 2004; Castro et al., 2006), com poucas modificações estruturais, e os artigos foram publicados principalmente na RBCS. N.P. Cogo foi a figura marcante na introdução, no desenvolvimento e na difusão dessa linha de pesquisa na Região Sul, contando com parcerias feitas com pesquisadores do IPRNR, mais tarde vinculado à FEPAGRO. A partir do começo da década de 1990, a UDESC passou a refletir a influência dessa linha em vários artigos (Bertol & Miquelluti, 1993; Bertol, 1994; Schick et al., 2000; Bertol et al., 2003, 2004a,b, 2005, 2006; Lemos-Mello et al., 2003; Leite et al., 2004; Guadagnin et al., 2005), nos quais Ildegardis Bertol teve participação quantitativa mais relevante. Nesses casos, ênfase maior foi dada à avaliação da relação erosão-perda de nutrientes, mas o contexto das pesquisas foi sempre semelhante à matriz que lhe deu origem.

Paralelamente, a partir da década de 1990, foram desenvolvidos trabalhos na UFRGS que tiveram forte interface com a física do solo e hidráulica do escoamento superficial. Essa linha foi conduzida em parceria entre a UFRGS e a UFSM, envolvendo vários pesquisadores, entre os quais sobressaíram pelo número de participações, E.A. Cassol e J.M. Reichert. A elaboração das pesquisas levou em consideração a subdivisão do processo erosivo em sulcos e entressulcos, conforme as características de fluxo e origem dos sedimentos, procurando abordar, entre outras questões, a relação entre índices de expressão de estabilidade de agregados e erodibilidade dos solos, além de determinar taxas de desagregação e a tensão crítica de cisalhamento, variando o tipo de solo, as práticas de manejo e a cultura (Veiga et al., 1993; Braida & Cassol, 1996; Albuquerque et al., 2000; Schafer et al., 2001a; Schafer et al., 2001b; Reichert et al., 2001; Cantalice et al., 2003; Cassol et al., 2004). O modelo Water Erosion Prediction Project (WEEP) utiliza esses conceitos, o que ampliou a aplicabilidade dos resultados em estudos de predição, que eram focalizados até então apenas na Equação Universal de Perda de Solo (USLE).

A formação das linhas de pesquisas do Sul e também do Sudeste do país sofreu, em grande medida, a influência dos temas e modelos trabalhados na Universidade de Purdue (EUA), onde pesquisadores brasileiros complementaram a formação de nível superior em programas de pós-graduação. Essa transferência ficou evidente na publicação de artigos em parcerias (Lombardi-Neto & Moldenhauer, 1992; Veiga et al., 1993; Cogo et al., 1996; Marques et al., 1998; Reichert et al., 2001; Cochrane et al., 2005; Favaretto et al., 2006) e se propagou no Brasil, repetindo o mesmo processo na relação centro-periferia do Sul-Sudeste com instituições de pesquisa do restante do País.

A atração temática pela USLE também ficou evidente. Praticamente todas as instituições ligadas à pesquisa em erosão do solo no Brasil publicaram, em maior ou menor grau, trabalhos ligados ao modelo. O padrão mais replicado de artigos nessa linha foi um tipo de pesquisa voltada à estimação do fator R do modelo USLE com base em séries históricas de estações meteorológicas. A metodologia foi replicada pontualmente para diversas localidades (Lopes & Brito, 1993; Bertol, 1993, 1994; Albuquerque et al., 1994; Silva et al., 1997a,b; Marques et al., 1998; Roque et al., 2001; Colodro et al., 2002; Dias & Silva, 2003; Silva & Dias, 2003; Silva, 2004). Contudo, é no conjunto de artigos publicados na década de 1980 e início da década de 1990, pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), que se observou o esforço mais conseqüente em estimar os fatores do modelo para uma grande extensão territorial (Biscaia et al., 1985; Cataneo et al., 1982; Castro-Filho et al., 1982; Roth et al., 1985; Rufino et al., 1985, 1993; Rufino, 1986). Ainda do Paraná, vale ressaltar a singularidade da contribuição de parcerias envolvendo a UFPR, Embrapa/CNPS, Embrapa/CPAC e, mais recentemente, IAPAR, centralizadas na pessoa de R.A.Dedecek. Os estudos, embora esparsos no tempo, focalizam, na maior parte das vezes, o bioma Cerrado e discutem conseqüências da erosão na degradação de solos e na relação da erosão com a produtividade, utilizando pela primeira vez a simulação de erosão por meio de remoção de camadas de solo (Dedecek et al., 1986; Dedecek, 1987; Rachwal & Dedecek, 1996; Gaertner et al., 2003).

Como já colocado, a Região Sudeste inaugurou a pesquisa em erosão acelerada do solo com os trabalhos do IAC entre os anos de 1950 e 1970. A partir de então, com o aumento de artigos publicados por outras instituições de pesquisa, logicamente a importância relativa do IAC diminuiu, porém a produção científica manteve-se significativa. Entre 1980 e 2000, o IAC mesclou estudos focados na estimativa de parâmetros da USLE com estudos de avaliação de diferentes condições de manejo, solo e cobertura na produção de sedimentos e enxurrada, muito semelhantes aos praticados na Região Sul (Benatti-Jr. et al., 1977; Dechen et al., 1981, Castro et al., 1986a,b; Lombardi-Neto et al., 1988; Carvalho et al., 1991; Lombardi-Neto & Moldenhauer, 1992; Vieira & Lombardi-Neto, 1995; Albuquerque et al., 1998; De-Maria & Lombardi-Neto, 1997; Nascimento & Lombardi-Neto, 1999). Fundamental nas contribuições do IAC foi a manutenção de parcelas experimentais com sistema coletor de sedimentos e enxurrada, instaladas em 1943 e 1945, gerando dados continuamente. Esses dados geraram a maior parte dos artigos publicados pelo IAC e, ainda, atendeu a objetivos de grupos de trabalhos internacionais no estudo das relações entre erosão, perda de nutrientes, produtividade e tempo (Tenberg et al., 1997).

A presença da USP na pesquisa brasileira em erosão do solo foi tímida até o fim da década de 1980; os poucos trabalhos publicados respondiam a linhas de pesquisas já traçadas pelos grupos da Região Sul do País ou pelo IAC. A partir de 1990, no entanto, a USP/Esalq deu início a uma seqüência de publicações que se distinguiu por discutir aspectos e conceitos variados em um contexto de planejamento de uso e ocupação da terra no meio rural. Essa linha multifacetada, conduzida, entre outros, por G. Sparovek, começou abordando a relação entre erosão e produtividade, migrando para a discussão do conceito de tolerância à erosão e desenvolvimento de indicadores de risco de degradação (Sparovek et al., 1991, 1993, 1997; Salviano et al., 1998; Ranieri et al., 1998). A partir do ano 2000, esse grupo desenvolveu trabalhos em que incorporou ferramentas de geoprocessamento mescladas a modelos de predição ou estimativa de erosão (USLE, WEEP, 137Cs) e à discussão de impactos ambientais. Esses trabalhos foram publicados, predominantemente, em periódicos de edição estrangeira (Sparovek et al., 2000, 2001; Sparovek & Schnug, 2001a,b; Ranieri et al., 2002; Sparovek & De-Maria, 2003; Bacchi et al., 2003; Jong van-Lier et al., 2005; Correchel et al., 2006). As parcerias nesse conjunto incluíram principalmente a USP/Cena, que, por sua vez, fez parcerias com a UEL na publicação de artigos utilizando a técnica de 137Cs (Schafer et al., 2001a; Andrello et al., 2001, 2003; Guimarães et al., 2003).

No Sudeste, vale ressaltar, ainda, as pesquisas desenvolvidas nas Universidades de Minas Gerais: UFV e UFLA. A primeira, até o princípio da década de 1990, publicou três ou menos trabalhos, vinculados principalmente ao modelo USLE. A partir da metade da década de 1990, entretanto, um grupo de pesquisa integrado por F.F. Pruski, entre outros, desenvolveu pesquisas em interfaces com engenharia agrícola e física do solo, abordando modelagem de escoamento superficial, cálculo da erosividade da chuva, avaliação de efeitos microestruturais da erosão, entre outros temas (Pruski et al., 1997, 2001; Griebeler et al., 2001, 2005; Schaefer et al., 2002; Nearing et al., 2004; Moreira et al., 2006). Na UFLA, o ritmo de publicação também se intensificou a partir da segunda metade da década de 1990 com os trabalhos de M.L.N. Silva e N. Curi focalizados no desenvolvimento de métodos para estimativa da erodibilidade de solos, publicados na revista PAB (Silva et al., 1994, 1999, 2000; Sá et al., 2004). Essa linha de pesquisa foi ligada ao modelo USLE e teve saliente interface com a física do solo.

A relevância quantitativa de autores das regiões Sul e Sudeste na participação em publicações é mostrada no quadro 4, em que os autores foram ordenados segundo o total de participações em artigos publicados.

À semelhança do que ocorreu com as instituições, o histograma da figura 3 mostra a concentração de mais de 20 % das participações nas autorias de artigos em pouco mais de 1 % dos autores relacionados ao tema erosão acelerada do solo. Por outro lado, quase dois terços dos autores tiveram apenas uma participação em artigos publicados. Essa concentração não é verificável pela média geral mostrada no quadro 4.

Na Região Nordeste do Brasil, foram detectadas quatro principais instituições que desenvolvem pesquisa em erosão do solo: UFRPE, UFPB, UFC e IPA/Embrapa. Ao contrário do que ocorre nas Regiões Sul e Sudeste, aproximadamente 75 % dos artigos foram publicados antes de 1995. Até essa data, os trabalhos foram pautados pela quantificação de fatores do modelo USLE em diferentes condições de manejo, cobertura e tipo de solo. O exemplo mais conseqüente dessa linha no Nordeste foi uma série de experimentos mantidos por longo prazo pela parceria entre UFRPE e IPA/Embrapa, cujos dados resultaram em vários trabalhos (Margolis et al., 1980, 1985, 1991; Nunes-Filho et al., 1990; Cantalice & Margolis, 1993; Silva et al., 1999). Esse conjunto evidencia a perenidade de uma linha institucional de pesquisa conduzida no Nordeste do Brasil, entre outros pesquisadores, por E. Margolis. No mesmo contexto, a UFPB, UFC e UFAL também publicaram trabalhos (Tavora et al., 1985,a,b; Martins-Filho & Silva, 1985; Silva et al., 1986; Campos-Filho et al., 1991; Campos-Filho et al., 1992; Melo-Filho & Silva, 1993; Albuquerque et al., 1994), cujo conjunto sugere a influência formativa de linhas de pesquisas desenvolvidas no Sul e Sudeste do país, principalmente na UFRGS, IAPAR, IAC e USP/Esalq6.

No quadro 5 foram tabulados os dados das categorias "Sujeito" e "Objetivo" do cadastro temático do banco de dados, que definiram sinteticamente o objeto que o trabalho em questão focalizou, a escala em que o trabalho foi desenvolvido e em que âmbito a finalidade do trabalho esteve inserida7. Esse resumo aponta, justamente, uma homogeneidade temática e metodológica dos trabalhos. Apesar de portarem diferenças intrínsecas aos seus objetivos específicos, grande porção dos trabalhos se encaixa em padrões moldados até o começo da década de 1980.

Conforme quadro 5, quase 80 % das pesquisas foram baseadas em estudos pontuais efetuadas em parcelas experimentais (item Escala+Pontual = 78 %); dois terços das pesquisas enfocaram os efeitos do uso ou cobertura do solo na erosão (item Fator+Uso da terra = 67 %); e aproximadamente a metade objetivou práticas de controle ligadas à cobertura ou manejo do solo (item Controle+Práticas de cobertura = 43 % e item Impacto+Físico = 61 %). Esses itens, quando selecionados no mesmo artigo (ver nota 25), correspondem a um tipo de trabalho cuja temática é quantificar a produção de água e sedimentos em parcelas em função de usos, manejos ou práticas de controle, sob um enfoque eminentemente agrícola. Outro tipo de estudo muito freqüente a partir da década de 1980 foi aquele ligado ao modelo USLE de predição de erosão, somando quase 40 % dos artigos compilados na base de dados (item Predição+USLE = 39 %).

Por outro lado, foram relativamente poucos os trabalhos que relacionaram erosão e produtividade (item Impacto+Agronômico = 11 %); avaliaram impactos indiretos da erosão (item Impacto+Ambiental = 4 %); desenvolveram o conceito de tolerância à erosão (item: Fator+Tolerância = 7 %); ou que estudaram a erosão do solo em escalas de microbacia hidrográficas (item Escala+Microbacia = 10 %).

Houve, portanto, no Brasil, uma concentração temática e geográfica da pesquisa, cujo efeito quantitativo na produção científica foi atestado pelos dados dos quadros 1, 2, 4 e 5 e cujo desenho geográfico está ilustrado na seqüência de mapas multitemporais das figuras 4, 5 e 6. O primeiro conjunto (Figura 4) traz a evolução da origem (sedes) em que foram conduzidas as pesquisas publicadas como artigos. O segundo conjunto (Figura 5) adiciona, ao primeiro, a origem das instituições que participaram na autoria dos artigos. Por fim, o terceiro conjunto de mapas (Figura 6) aponta a origem dos dados primários utilizados nas pesquisas. Nos três casos, a referência geográfica foi o município das instituições ou da coleta de dados.

A partir dos mapas das figuras 4, 5 e 6, foi possível evidenciar: a origem dos primeiros pontos de pesquisa nos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul antes da década de 1980 e a permanente centralização da pesquisa no Sul e Sudeste até a década de 2000; a difusão relevante da pesquisa para os estados do Nordeste já na década de 1980 para o restante das Regiões Sudeste e Sul nas décadas de 1990 e 2000; a pequena participação de instituições sediadas na Região Centro-Oeste e a quase ausência da Região Norte no conjunto de pesquisa publicado sobre erosão acelerada do solo; e a concentração da coleta de dados em torno dos centros geográficos das instituições, resultando, provavelmente, em grandes extensões territoriais cujas condições de meio físico e relações com a erosão não foram ainda estudadas.

 

CONCLUSÕES

1. A pesquisa científica brasileira em erosão acelerada do solo teve uma formação recente.

2. Apesar dos primeiros trabalhos terem sido publicados ainda na década de 1940, aproximadamente metade da produção originou-se nos últimos quinze anos.

3. Houve concentração autoral (autores) e institucional (instituições) na participação em artigos publicados.

4. Cerca de 1 % dos autores foram responsáveis por 20 % das participações; e menos de 10 % das instituições concentraram mais de 40 % das participações em artigos publicados. Aproximadamente metade dos autores e instituições participaram apenas uma vez na publicação de artigos científicos em erosão acelerada do solo

5. Houve centralização geográfica na formação de linhas de pesquisa e concentração quantitativa da produção.

6. A formação de linhas de pesquisa bem como a produção científica foi concentrada em instituições da Região Sul e Sudeste, seguidas em menor intensidade por instituições da Região Nordeste. As instituições das Regiões Centro-Oeste e Norte praticamente não focalizaram, até agora, o tema.

7. A pesquisa em erosão do solo foi regionalizada.

8. As instituições tenderam a desenvolver pesquisas cujos dados foram gerados próximos aos seus centros de origem. Isso sugere que há grandes porções territoriais cujas condições de meio físico foram pouco abordadas pela pesquisa em erosão do solo, principalmente nas Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.

9. Houve concentração temática na pesquisa.

10. Aproximadamente um terço dos artigos tiveram o objetivo central de comparar condições de manejo e culturas agrícolas na produção de sedimentos e enxurrada, visando sobretudo desenvolver técnicas de minimização da erosão em um contexto agrícola.

11. Aproximadamente um terço dos artigos foram relacionados ao modelo USLE de predição de erosão quer seja na sua aplicação, quer seja na estimativa de seus parâmetros.

 

LITERATURA CITADA

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Recebido para publicação em junho de 2007 e aprovado em setembro de 2008.

 

 

1 Parte da Dissertação de Mestrado apresentada pelo primeiro autor ao Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo - USP/ESALQ.
2 A bibliometria é definida como a análise estatística de material bibliográfico. A bibliometria surgiu com a intenção de desenvolver ferramentas que elucidassem questões gerais de determinado ramo da ciência operando sobre grandes bases de dados bibliográficas (ISI, PASCAL, BIOSIS, CAB Abstracts, etc.).
3 Os periódicos constantes na base ISI foram retroativamente analisados, isto é, os artigos foram considerados mesmo que a data de publicação fosse anterior à data de inserção do periódico na base ISI.
4 Os artigos obtidos diretamente em formato digital não sofreram nenhum processamento e os obtidos a partir de pesquisa direta em biblioteca foram escanerizados em formato PDF, compondo um anexo digital à dissertação de mestrado que deu origem a este trabalho.
5 A Bragantia só voltaria a publicar três artigos relacionados com a área em 2007.
6 Por outro lado, extraem-se do conjunto de publicações das instituições sediadas no Nordeste do Brasil, artigos que demonstram diversidade temática e metodológica. A avaliação de impactos ambientais causados pela erosão foi já em 1985 estudada em um artigo da UFC (Silva & Paiva, 1985). Do mesmo modo, há um artigo de discussão de métodos de definição de tolerância à erosão para os solos de Pernambuco (Galindo & Margolis, 1989) e, recentemente, a UFPB e UFPE descreveram o efeito em longo prazo da erosão na perda de nutrientes e carbono em diferentes usos da terra (Fraga & Salcedo, 2004).
7 Ressalta-se que a regra de preenchimento do cadastro não é exclusiva dentro de cada uma das categorias. Dessa forma, um mesmo artigo pode constar na contagem de dois ou mais ítens e a soma dentro de cada categoria não equivale ao número de artigos e sim ao número de vezes em que o item foi selecionado, de tal maneira que trabalhos de maior variedade metodológica ou variedade de objetivos tendem a ser contados mais vezes. Por esta razão, os subtotais foram omitidos. Por outro lado, a importância relativa de cada ítem pode ser avaliada com relação ao total de artigos conforme os dados das últimas duas colunas dessa tabela.

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