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Revista Brasileira de Ciência do Solo

versão impressa ISSN 0100-0683

Rev. Bras. Ciênc. Solo vol.35 no.2 Viçosa mar./abr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-06832011000200024 

DIVISÃO 3 - USO E MANEJO DO SOLO
3.1 - FERTILIDADE DO SOLO E NUTRIÇÃO DE PLANTAS

 

Eficiência de adubação de batatinha com esterco e N mineral (15N) e efeito residual no cultivo do milheto1

 

Fertilization efficiency of potato with farm manure plus fertilizer-N (15N) and residual effect on millet

 

 

Fabio Freire de OliveiraI; Ignacio Hernan SalcedoII; Vânia da Silva FragaIII

IProfessor de ensino técnico e tecnológico, IFSertão-PE. BR 235, km 22, PSNC, CEP 56300-000 Petrolina (PE). E-mail: oliveiraff@yahoo.com.br
IIProfessor Titular, Departamento de Energia Nuclear, Universidade Federal de Pernambuco UFPE. Av Prof. Luiz Freire 1000, CEP 50740-540 Recife (PE). E-mail: salcedo@ufpe.br
IIIProfessora Associada, Departamento de Solo e Engenharia Rural, CCA, UFPB. Areia (PB). E-mail: vfraga@cca.ufpb.br

 

 


RESUMO

Os solos arenosos utilizados para o cultivo da batatinha (Solanum tuberosum) no agreste da Paraíba têm baixo teor de N. Adubações anuais com esterco e N mineral, realizadas empiricamente, têm resultado na acumulação e,ou, perda de nutrientes do solo. Por esse motivo, objetivou-se determinar a eficiência do sulfato de amônio (15N) mais esterco na adubação da batatinha e do efeito residual dessa adubação na produção e absorção de N pelo milheto (Pennisetum glaucum) cultivado em sequência. Em experimento de campo em Neossolo regolítico, foi comparada a combinação de 16 t ha-1 de esterco + 80 kg ha-1 de N, utilizada mais frequentemente na região, com doses de 11 t ha-1 de esterco combinadas com 0, 40 e 80 kg ha-1 de N em aplicação única ou parcelada. O sulfato de amônio utilizado foi enriquecido em 15N (2,5 % de abundância). Em todos os tratamentos, avaliou-se a produtividade de matéria seca de tubérculos e parte aérea do milheto, assim como a composição isotópica do N nesses materiais. Demonstrou-se que a adubação tradicional é excessiva nesse solo, uma vez que a redução para 11 t ha-1 de esterco e 40 kg ha-1 de N mineral não resultou em queda de produtividade das culturas; no entanto, houve queda com a aplicação isolada de esterco. O milheto recuperou grande parte do N mineral adicionado à batatinha e mostrou ser uma alternativa como forrageira em condições de semiárido.

Termos de indexação: agricultura familiar, Solanum tuberosumm, adubação orgânica.


SUMMARY

The N content of the sandy soils in the semi-arid region of Paraíba State cultivated with potato (Solanum tuberosum) is low. Annual applications of farm manure (FM) and mineral N, determined on an empirical basis, have led to accumulation and/or loss of soil nutrients. Thus, the objective of this study was to determine the efficiency of ammonium sulphate (15N) combined with FM applied to potato as well as the residual effects on subsequent millet. A field experiment on an Alfisol compared the combination of a rate of 16 t ha-1 FM + 80 kg ha-1 of mineral N, as most frequently used in the region, with a rate of 11 t ha-1 of FM combined with 0, 40 and 80 kg ha-1 of N in single or split applications. The ammonium sulphate was enriched in 15N (2.5 % 15N abundance). The dry weight of potato and millet aboveground mass was determined in all treatments, as well as the N isotopic composition of both materials. Fertilization at the traditional rate proved to be excessive for this soil, since crop yields were not reduced when the rates were reduced to 11 t ha-1 manure + 40 kg ha-1 mineral N. However, yields were lower with applications of manure alone. Millet recovered much of the mineral N added to potato and was a good alternative for forage production in the area.

Index terms: subsistence agriculture, Solanum tuberosum, organic amendments.


 

 

INTRODUÇÃO

A mesorregião do Brejo Paraibano tem peculiaridades climáticas bem distintas da maior parte do Nordeste, ou seja, temperaturas amenas e alto índice pluviométrico durante alguns meses do ano, sendo essas particularidades responsáveis pela entrada da bataticultura na região (Dias, 1993). O município de Esperança é o principal centro de produção, tendo a batatinha e a erva-doce como as culturas que oferecem maior viabilidade econômica (Sabourin et al., 2000). Os solos utilizados para produção de batatinha na região são muito arenosos (em média, 80 % de areia) e com baixa fertilidade natural, deficientes principalmente em N e P (Galvão et al., 2008), exigindo aplicação de fertilizantes. O manejo empírico da adubação tem resultado em produtividade média de 8 t ha-1. O esterco representa a principal entrada de nutrientes nessas áreas de agricultura familiar, com aplicações anuais em torno de 16 t ha-1. Junto com o esterco, os produtores adicionam também N-fertilizante comercial (sulfato de amônio ou ureia) em dose equivalente a 80 kg ha-1 ou menor, em razão da limitação de recursos financeiros.

A textura desses solos favorece as perdas de N e outros nutrientes, que são favorecidas pelo baixo teor de matéria orgânica, baixa capacidade de adsorção de cátions e pelo não parcelamento na aplicação do N-fertilizante. A pluviosidade média anual é de 800 mm, distribuídos entre os meses de abril a agosto, porém com irregularidade tanto na quantidade como na sua distribuição. O manejo otimizado do esterco e fertilizantes nitrogenados é fundamental para a melhoria das condições de produção de batatinha nessas áreas.

O uso de adubos marcados com 15N constitui-se em ferramenta importante para quantificar a eficiência da adubação mineral nitrogenada (Maximo et al., 2005), bem como as perdas e a recuperação em camadas mais profundas (Lange et al., 2008), possibilitando o desenvolvimento de técnicas mais eficientes de adubação nitrogenada. Além disso, é possível determinar quanto do fertilizante é recuperado por cultivos subsequentes, determinando-se o efeito residual da adubação.

No brejo paraibano, com curto período de chuva, o milheto é uma cultura interessante para o produtor que visa a uma maior integração lavoura-pecuária, pela sua produção de forragem. Por ser uma cultura de ciclo curto, tolerante ao estresse hídrico e com sistema radicular que atinge camadas de até 120 cm, o milheto pode recuperar nutrientes lixiviados em camadas mais profundas nesses solos arenosos (Menezes et al., 1997).

Por esses motivos, este trabalho foi realizado com o objetivo de avaliar a eficiência de adubação da batatinha com combinações de esterco e fertilizante nitrogenado (15N), bem como o seu efeito residual no milheto, em área de produção familiar com solo característico do agreste paraibano.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em área de produtor rural, que trabalha em sistema de agricultura familiar no município de Esperança, PB (06 º 59 ' 07 " S e 35 º 52 ' 14 " W), de abril a setembro de 2006, num Neossolo Regolítico com as seguintes características: 82 % de areia e 5 % de argila; C total: 11 g kg-1; N total= 1,1 g kg-1; pH (H2O) = 7,1; P (Mehlich-1) = 47 mg kg-1; K (Mehlich-1) = 230 mg kg-1; Al3+ = 0,0 cmolc kg-1; e Ca2+ e Mg2+ = 2,1 e 1,0 cmolc kg-1, respectivamente, determinados utilizando-se o método da Embrapa (1999). O esterco usado no ensaio apresentou as seguintes características: C total, 242 g kg-1; N total, 6,5 g kg-1; P total, 2,4 g kg-1; e K total, 8,7 g kg-1, analisados segundo Embrapa (1999); cinza, 470 g kg-1; e lignina, 180 g kg-1 (van Soest, 1963). A precipitação pluvial durante o experimento foi de 79, 56, 107, 46, 66 e 10 mm para os meses de abril, maio, junho, julho, agosto e setembro, respectivamente. A batatinha, cultivar Monalisa, foi plantada em 25 de abril e colhida em 12 de julho (78 dias). O milheto foi plantado no dia 2 de agosto e manejado no dia 13 de setembro (42 dias).

As parcelas experimentais constituíram-se de seis fileiras, com 5 m de comprimento, sendo a área útil os 12 m2 centrais. A batata, cultivar Monalisa, foi plantada em leirão com 0,8 x 0,33 m entre linhas e plantas, respectivamente. A batata-semente utilizada foi aquela que na safra anterior não se enquadrou no critério de seleção para comércio quanto ao tamanho (ø<8 cm) A batata-semente ficou armazenada em câmara fria, sendo retirada 30 dias antes do plantio. Antes do plantio, 15 dias, o esterco foi incorporado, com arado a tração animal, nas quantidades indicadas para cada tratamento (Quadro 1). A campina e amontoa foram feitas manualmente, com auxílio de enxada.

 

 

A adubação nitrogenada foi feita de acordo com os tratamentos descritos no quadro 1, tendo como fonte o sulfato de amônio (21 % N). A adubação em aplicação única foi efetuada de forma localizada, planta por planta, assim que ocorreu a emergência das plântulas. Nos tratamentos com parcelamento, aplicou-se metade na emergência e a outra metade no momento da amontoa, 30 dias depois do plantio. O tratamento testemunha (16 t ha-1 de esterco + 80 kg ha-1 de N em dose única) foi baseado na dose média utilizada pelos produtores. A dose de esterco de 11 t ha-1 foi baseada na extração de K, que é o nutriente exigido em maior quantidade pela batatinha, com base numa produtividade de 15 t ha-1. Na dose de 11 t ha-1 foram adicionados 60,7, 22,4 e 81,3 kg ha-1 de N, P e K, respectivamente. Os tubérculos foram separados em grandes e pequenos, tendo o diâmetro de 8 cm como divisor das classes.

Nas parcelas adubadas com N, colocou-se uma subparcela com adubo marcado com 15N, para quantificar o aproveitamento do N aplicado. O sulfato de amônio com abundância de 2,5 % átomos de 15N foi aplicado em três plantas de cada subparcela, com as doses e forma de aplicação dos seus respectivos tratamentos. O tratamento com 80 kg ha-1 de N parcelado (40 kg na emergência + 40 kg na amontoa) foi repetido três vezes, para viabilizar a marcação com 15N na primeira ou segunda aplicação e também nos dois momentos, a fim de quantificar o aproveitamento do adubo de cada parcelamento e da dose completa. A produtividade de matéria seca dos tubérculos foi determinada coletando-se toda a área útil 79 dias após o plantio. Seguidamente, efetuou-se a semeadura do milheto, cultivar IPA BULK 1 BF, melhorada para condições de estresse hídrico e baixa fertilidade (Tabosa et al., 1999). Entre linhas, usou-se o mesmo espaçamento da batata (0,8 m). Entre plantas, foi feito um desbaste após a emergência, deixando 15 plantas por metro. O milheto foi manejado 42 dias após plantio, sendo cortado rente ao chão, numa área útil de 4 m2; coletaram-se amostras para determinar matéria seca. As amostras foram secas em estufa de circulação de ar forçada a 60 ºC, para quantificação da produção de matéria seca.

Nas subparcelas com adubo marcado com 15N, os tubérculos de batatinha e parte aérea de milheto foram utilizados para quantificar os teores de 14N e 15N por espectrometria de massa (Rennie & Paul, 1971). Com esses dados, foram calculadas as percentagens de N derivado do fertilizante ( %Nddf), a quantidade de N derivado do fertilizante (Qndf) e as percentagens de N recuperado (Nrec).

Para analisar os resultados, considerou-se delineamento de blocos inteiramente casualizados com oito tratamentos e quatro repetições, em que cada tratamento era uma combinação específica de fonte, dose e forma da aplicação (Quadro 1). Para comparar o efeito dos tratamentos ou grupos de tratamentos nas variáveis massa de tubérculo grande e total, matéria seca do milheto, Nddf, Qndf e Nrec, utilizou-se a técnica dos contrastes ortogonais (Pearce, 1992; Alvarez & Alvarez, 2006).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As produtividades de tubérculo de batatinha (Quadro 2) foram superiores à media de 6.500 kg ha-1, determinada em um levantamento junto a 14 produtores da região (Oliveira & Salcedo, 2008). A diminuição na dose de esterco de 16 para 11 t ha-1 não provocou redução na produtividade da batatinha nem do milheto (Quadro 3), indicando que a dose de 16 t ha-1, normalmente aplicada na região, é excessiva, pelo menos para os solos que vêm sendo habitualmente adubados com esterco, como é o caso do Neossolo Regolítico da área do experimento. O capital economizado com a redução na dose de esterco, considerando que a maioria dos produtores adquire esse insumo fora da propriedade, representa a possibilidade de investimento em outros insumos visando otimizar a produção, como a aquisição de batata semente certificada.

A aplicação do sulfato de amônio, independentemente da dose e forma de aplicação, resultou sempre em maior produtividade que a do tratamento que não o recebeu (Quadro 3), o que mostra a dependência da batatinha na adição de fonte solúvel de N.

A queda da produtividade da batatinha para 7 t ha-1 quando adubada com esterco na ausência de sulfato de amônio (Quadro 2) indica que o esterco não é uma fonte imediata de N, devido à ampla relação C/N (48) e ao alto teor de lignina (180 g kg-1). Palm et al. (2001) consideraram que materiais com conteúdo de N < 25 g kg-1 combinado com teor de lignina > 15 g kg-1, como é o caso do esterco utilizado no presente estudo, são de baixa qualidade no fornecimento de N. A ampla relação C/N mantém um ambiente de imobilização temporária do N do solo. Em experimento de incubação em laboratório, Menezes & Salcedo (2007) observaram imobilização líquida do N do solo com adição de esterco durante 56 dias após sua adição. A falta de sincronia entre a liberação do N do esterco e a demanda da cultura leva à deficiência de N e, possivelmente, de outros nutrientes (Vanlauwe et al., 2005), sobretudo na fase inicial do ciclo da cultura, uma vez que, na ausência de fonte solúvel de N, é a mineralização do N orgânico do solo que supre a demanda da cultura. No entanto, as adições continuadas de esterco têm efeito acumulativo na melhoria da fertilidade do solo, pelo aumento gradual da matéria orgânica e de outros nutrientes (Galvão et al., 2008). Na área do experimento, o solo apresentava teor total de 1,0 g kg-1 de N, enquanto solos da região, que não tinham sido adubados com esterco nos últimos 20 anos, apresentaram em média 0,33 g kg-1 de N (Galvão et al., 2008).

A limitação da área disponível para o experimento impossibilitou estabelecer um arranjo fatorial completo das fontes de variação, faltando, dentre outros, uma testemunha absoluta, sem nenhuma adição, o que não permitiu, no tratamento 7, separar a contribuição do N do solo do N do esterco (Quadro 2). Entretanto, dados de Silva et al. (2007), para essa mesma condição de solo e clima, indicaram produtividade adicional de 2 t ha-1 no tratamento com esterco em relação ao sem esterco, o que representou uma retirada ao redor de 4 kg de N da fonte esterco menos de 7 % do N aportado pelo esterco. Descontando esse valor estimado do N retirado pela planta no tratamento 7, o solo teria contribuído com 23,5 kg ha-1 de N, que é equivalente à mineralização de 1,6 % do N total na camada de 0–20 cm em um período de 75 dias. Essa mineralização seria perfeitamente viável, considerando-se que é bem menor que a determinada no campo por Menezes & Salcedo (2007), de 70 kg ha-1 de N na camada de 0–15 cm, durante 120 dias, nas mesmas condições de solo e no mesmo período do ano.

A aplicação do N mineral parcelado não proporcionou ganhos de produtividade de tubérculos quando comparada com a aplicação em dose única (Quadro 3). O contraste entre doses de N (80 kg ha-1 x 40 kg ha-1) não foi significativo (p < 0,05) para produtividade de batatinha, porém o foi para a produtividade do milheto cultivado em sequência. O milheto cultivado nas parcelas que receberam 80 kg ha-1 de N apresentou ganhos na produtividade, favorecido pela manutenção de maior quantidade de N no perfil. Também deve ter contribuído o sistema radicular, com características de crescimento que permitem a exploração de camadas mais profundas (Menezes et al., 1997), uma vez que, nesse solo arenoso, é provável que parte do N do fertilizante tenha se deslocado em profundidade (Salcedo & Sampaio, 1984), sobretudo na dose maior.

A quantidade de N nos tubérculos da batatinha derivados do sulfato de amônio (Quadro 4, tratamentos 5 versus 8) não foi alterada pelo parcelamento, quando contrastado com aplicação única (Quadro 5).

Era esperado que a percentagem de N derivado do fertilizante ( %Nddf) aumentasse com o parcelamento. Isso provavelmente não ocorreu porque o ciclo da batatinha foi mais curto em relação ao esperado e a data do parcelamento (30 dias) foi embasada em dados de outras condições climáticas, já que não existem dados de curva de crescimento para a região.

No tratamento 4 (80 kg ha-1 parcelado), que recebeu 15N somente no segundo parcelamento da adubação, a recuperação de N pela batatinha foi muito pequena, pouco mais de 6 % (Quadro 4), o que indica que após o segundo parcelamento a fase mais ativa de absorção de N pela batata tinha praticamente finalizado. O aproveitamento de N pelo milheto, nesse tratamento, foi superior a 50 %, pois, com o baixo aproveitamento pela batatinha, uma grande quantidade do nutriente permaneceu no solo, sendo aproveitado pelo cultivo subsequente.

O milheto atingiu níveis de produtividade de matéria seca acima de 5 t ha-1, considerado alto (Tabosa et al., 1999), nos tratamentos em que foi feita adubação com fonte mineral de N (Quadro 2). Nas parcelas que não receberam N mineral a produção foi reduzida em 63 %, resultado do baixo estoque de N nesse solo em condições naturais, que também limitou a produção de batatinha.

A recuperação do N mineral pela batatinha, na dose 80 kg ha-1 parcelada ou não, foi em torno de 20 % (Quadro 4), o que representa um baixo aproveitamento. A utilização do milheto após cultivo da batatinha contribuiu para recuperar grande parte do N remanescente no solo (Quadro 5), que, somada à absorção pela batatinha, atingiu médias de recuperação de N do fertilizante superiores a 50 % em cinco dos seis tratamentos, chegando a 61 % na dose de 80 kg ha-1 parcelada (Quadro 4). Esse último valor supera a eficiência média da adubação nitrogenada, próxima a 50 %, para as culturas comerciais em geral (Cantarella, 2007).

Vale salientar que foi feita só uma capina durante o ciclo do milheto e nenhuma adição de adubo, mostrando que o milheto cultivado após a batatinha conseguiu recuperar grande quantidade do nitrogênio aplicado na cultura anterior e atingir alta produção, demandando baixos investimentos. Entretanto, o milheto é uma cultura desconhecida dos produtores do agreste paraibano, sendo necessários, portanto, mais estudos e difusão desse sistema alternativo de rotação, que contribui para maior integração lavoura-pecuária e para melhorar a eficiência no uso de adubo nitrogenado aplicado na batatinha. Esse aumento da eficiência é mais um argumento junto ao produtor para recomendar a adição de fertilizante nitrogenado juntamente com o esterco, visto que este último não se mostrou uma fonte adequada desse nutriente. No caso da batatinha, o esterco é de aplicação anual rotineira, embora em doses excessivas, enquanto a adubação com fertilizante nitrogenado depende de vários fatores socioeconômicos.

 

CONCLUSÕES

1. Não houve decréscimo da produtividade da batatinha ao se diminuir a dose de 16 t ha-1 de esterco combinada com 80 kg ha-1 de N mineral para 11 t ha-1 e 40 kg ha-1 N

2. A complementação da adubação orgânica com fonte de N mineral em solo arenoso do agreste paraibano proporcionou aumentos significativos de produtividade na batatinha e no milheto, em relação à adição isolada de esterco.

3. O milheto atingiu alta produtividade na presença de fertilizante nitrogenado, recuperando, em média, mais de 50 % do N mineral aplicado.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. José Nildo Tabosa, pesquisador do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), pelo fornecimento da semente de milheto e orientações sobre o manejo da cultura. Ao produtor Sr. Gilberto, por ceder área para experimento de campo. Ao CNPq, pelo apoio financeiro (Edital Universal e bolsa de doutorado).

 

LITERATURA CITADA

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1 Extraído da tese do primeiro autor. Recebido pra publicação em novembro de 2009 e aprovado em janeiro de 2011.