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Revista Brasileira de Ciência do Solo

Print version ISSN 0100-0683

Rev. Bras. Ciênc. Solo vol.35 no.6 Viçosa Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-06832011000600005 

DIVISÃO 2 - PROCESSOS E PROPRIEDADES DO SOLO
COMISSÃO 2.1 - BIOLOGIA DO SOLO

 

Avaliação da interação micorrízica em cultivares de oliveira (Olea europea L.)1

 

Assessment of mycorrhizal interaction in olive tree (Olea europea L.) cultivars

 

 

Vanessa Cristina Silva VieiraI; Rogério MelloniII; João Vieira NetoIII

IMestre em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Universidade Federal de Itajubá - UNIFEI. Av. BPS 1303, Pinheirinho, Caixa Postal 50, CEP 37500-903 Itajubá (MG). E-mail: vanessamicrobiologia@gmail.com
IIProfessor Associado I do Instituto de Recursos Naturais, UNIFEI. E-mail: rogerio.melloni@gmail.com
IIIEngenheiro-agrônomo, Doutor em Agronomia/Fitotecnia, Pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Ituporanga. Estrada Geral 453, Lageado Águas Negras, CEP 88400-00 Ituporanga (SC). E-mail: joaoneto@epagri.sc.gov.br

 

 


RESUMO

A maioria dos estudos com oliveira no Brasil e no mundo tem sido direcionada à produção e ao manejo. Apesar da importância para o crescimento vegetal e resistência a estresses diversos, não há estudos sobre a ocorrência de associação micorrízica em oliveira, no Brasil. O objetivo do presente trabalho foi avaliar a interação micorrízica em cultivares de oliveira na Fazenda Experimental de Maria da Fé - MG (FEMF - EPAMIG), a qual serve como ponto de partida na produção de inoculantes comerciais de fungos micorrízicos arbusculares para a cultura. Amostras de solo e de raízes de sete cultivares de oliveira foram coletadas para determinação do comprimento de micélio extrarradicular ativo e total e avaliação da percentagem e intensidade de colonização micorrízica, bem como da densidade e diversidade de esporos. Nas rizosferas das cultivares de oliveira, foram isoladas nove espécies de fungos micorrízicos: Acaulospora denticulata, Acaulospora scrobiculata, Acaulospora sp1, Acaulospora sp2, Entrophospora sp1, Gigaspora sp1, Glomus mosseae, Scutellospora pellucida e Scutellospora sp1. Os resultados comprovaram o micotrofismo da espécie. No entanto, não houve efeito das cultivares na distribuição dos propágulos de FMAs, os quais estiveram homogeneamente distribuídos nas diferentes rizosferas.

Termos de indexação: fungo micorrízico arbuscular, micotrofismo, potencial de inóculo.


SUMMARY

Most studies on olive trees in Brazil and in the world have focused on yield and management. Despite the importance for plant growth and resistance to various stresses, there are no studies on the occurrence of mycorrhizal association in olive trees, in Brazil. The objective of this study was to evaluate the mycorrhizal interaction in olive trees on the Fazenda Experimental de Maria da Fé - MG (FEMF - EPAMIG), underlying the production of commercial inoculants of arbuscular mycorrhizal fungi for olive. Soil and roots samples of seven olive tree cultivars were collected to determine the length of active extraradical and total mycelium, and the rate and intensity of mycorrhizal colonization and spore density and diversity. Form the rhizosphere of the olive trees, nine AMF species were isolated (Acaulospora denticulata, Acaulospora scrobiculata, Acaulospora sp1, Acaulospora sp2, Entrophospora sp1, Gigaspora sp1, Glomus mosseae, Scutellospora pellucida and Scutellospora sp1). The results confirmed the mycotrophism of the species. However, no effect of cultivars was observed on the distribution of AMF propagules, which were evenly distributed in the different rhizospheres.

Index terms: arbuscular mycorrhizal fungi, micotrophism, inoculum potential.


 

 

INTRODUÇÃO

Fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) são microrganismos do solo que pertencem ao filo Glomeromycota, classe Glomeromycetes, a qual possui quatro ordens, 10 famílias, 13 gêneros e cerca de 180 espécies (Azevedo, 2008). Esses fungos associam-se às raízes da maioria das plantas, numa relação de mutualismo, em que ambos os organismos normalmente são beneficiados. Essa simbiose tem sido considerada a mais importante de todas as que envolvem plantas e microrganismos (Gomes et al., 2007; Siqueira et al., 2010). É amplamente aceita e documentada na literatura a capacidade dos FMAs de incrementar a absorção de nutrientes e água da planta à qual estejam associados. As hifas fúngicas aumentam a absorção de nutrientes minerais, como o fósforo e o nitrogênio, importantes para o crescimento e desenvolvimento das plantas (Colozzi Filho & Cardoso, 2000; Moreira & Siqueira, 2006; Zsögön, 2006; Silveira & Freitas, 2007; Azevedo, 2008; Cardoso et al., 2010; Siqueira et al., 2010).

Conforme referenciado em literaturas (Santos-Antunes, 2002; Caravaca et al., 2003; Querejeta et al., 2003; Calvente et al., 2004; Porras-Piedra et al., 2005; Castilho et al., 2006; Pinet et al., 2007; Meddad-Hamza et al., 2010), micorrizas arbusculares são encontradas em oliveira, cultura cujo interesse econômico em Minas Gerais, e no Brasil, está em expansão devido, principalmente, aos esforços para a produção do primeiro azeite de oliva nacional e ao potencial que a cultura apresenta de agregação de valor (Uceda et al., 2006).

A oliveira, planta da família Oleaceae, é uma espécie exótica, de clima temperado e que foi introduzida no Brasil no início do século XIX, nas regiões Sul e Sudeste, sendo ainda hoje uma espécie pouco cultivada (Vieira Neto et al., 2008). A produtividade das culturas perenes (Bonfim et al., 2008) - entre estas, a da oliveira - é sustentada por uma diversidade de fatores, principalmente de ordem biológica, que podem ocorrer na sua parte aérea ou no solo sob cultivo.

Calvente et al. (2004) avaliaram a comunidade micorrízica de três plantações de oliveiras no Mediterrâneo; duas espécies (G. intraradices e G. mosseae) proporcionaram aumento de crescimento nas cultivares de oliveira Arbequina e Leccino. Em outros estudos com inoculação de plantas de oliveira sob condições controladas, Santos-Antunes (2002), Caravaca et al. (2003), Querejeta et al. (2003), Porras - Piedra et al. (2005), Castillho et al. (2006) e Pinet et al. (2007), mostraram que os FMAs melhoraram o desenvolvimento das plantas hospedeiras quando estas foram expostas a causas de estresse, como falta de água ou mesmo ataques de agentes patogênicos.

Pesquisas recentes de Meddad-Hamza et al. (2010) com a inoculação de duas espécies de FMAs (Glomus mosseae e Glomus intraradices) em plantas de oliveira confirmaram resultados positivos no desenvolvimento das plantas, quando comparadas com aquelas não inoculadas, principalmente pela melhor resistência ao transplantio e estresse hídrico.

Apesar da importância dos FMAs para a sustentabilidade da cultura e das dificuldades de enraizamento, brotações e produções de mudas da espécie (Oliveira et al., 2003; Dutra et al., 2004), são inexistentes os estudos com FMAs em oliveiras no Brasil. O objetivo do presente trabalho foi avaliar a interação micorrízica em cultivares de oliveira cultivadas no sul do Estado de Minas Gerais.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado nas dependências da Fazenda Experimental de Maria da Fé (FEMF), pertencente à Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), no município de Maria da Fé, microrregião da serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais. O experimento foi instalado em 2007, sobre Argissolo Vermelho-Amarelo (Quadro 1), em blocos casualizados, com sete cultivares de oliveira (Quadro 2) e três plantas por parcela, com quatro repetições por tratamento.

As amostragens do solo foram realizadas no final do verão (março) de 2009, na profundidade de 0-10 cm, totalizando 84 amostras. As amostras foram retiradas com auxílio de uma enxada desinfestada com álcool etílico a 70 %. As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos, devidamente etiquetados, e submetidas às análises microbiológicas, químicas e físicas.

As análises microbiológicas corresponderam à avaliação do potencial de inóculo (propágulos) de FMAs. Foram determinados: o comprimento de micélio extrarradicular ativo e total, a percentagem e intensidade de colonização micorrízica e a densidade e diversidade (morfotipos) de esporos de FMAs nas respectivas amostras. O método para extração e determinação do comprimento de micélio extrarradicular ativo (MEA) e total (MET) foi baseado em Melloni & Cardoso (1999), compreendendo lavagem das amostras de solo em água de torneira, seguida de agitação, filtração a vácuo em membrana quadriculada e visualização em microscópio óptico sob luz comum, para determinação de MET, e luz ultravioleta, para determinação de MEA.

A colonização radicular por FMAs foi determinada em raízes de oliveira obtidas do peneiramento de amostras de solo em peneira de 2 mm, posteriormente lavadas em água corrente, clarificadas e coradas de acordo com método de Vierheilig et al. (1998). A percentagem de colonização das raízes foi determinada pelo método da placa quadriculada, segundo Giovannetti & Mosse (1980). A intensidade de colonização radicular foi quantificada em segmentos radiculares distribuídos em lâminas de microscópio, atribuindo-se notas de 0 a 100, conforme a ocupação da área radicular pelas estruturas fúngicas (Bethlenfalvay et al., 1981).

A extração de esporos de FMAs seguiu método descrito por Gerdemann & Nicolson (1963), em que porções de solo rizosférico foram lavadas e peneiradas e a densidade determinada pela contagem dos esporos em placa concêntrica, em microscópio estereoscópico. Para determinação da diversidade, os esporos foram separados e agrupados conforme formato, tamanho e cor, antes da identificação (Schenck & Pérez, 1987). Com o número e abundância relativa de cada espécie de FMA, calculou-se o índice de diversidade (H') de Shannon-Weaver.

Os dados microbiológicos obtidos, com exceção de micélio extrarradicular ativo e total, foram transformados para arcsen (x+1)0,5 e submetidos à análise de variância, empregando-se o teste de Duncan a 5 % para comparação das médias entre as cultivares de oliveira, utilizando-se o programa Sanest (Zonta et al., 1984). Os atributos microbiológicos foram submetidos ainda à análise de correlação, e as significâncias entre as correlações, testadas a partir da ferramenta de regressão do software Excel®.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Micélio extrarradicular ativo (MEA) e total (MET)

Verificou-se grande diferença entre os valores de MEA e MET (Quadro 3), sendo o comprimento do micélio ativo inferior ao do total. Os valores de MEA variaram de 0,11 a 0,44 m g-1 de solo seco entre as cultivares; aquele obtido na rizosfera da cultivar Arbequina foi superior aos obtidos nas cultivares Grappolo 561, Grappolo 575, Leccino e Maria da Fé. O comprimento de MEA não diferiu nas demais cultivares (Ascolano 315 e Grappolo 541). Não houve diferença entre os valores de MET para as cultivares, e a variação desse comprimento foi de 2,4 a 3,7 m g-1 de solo seco.

 

 

A razão MEA/MET variou de 3,0 %, na cultivar Grappolo 561, a 14,0 %, na cultivar Arbequina, mostrando que, além de menores valores observados para MEA, houve também variação na proporção entre as estruturas ativa e inativa. O comportamento obtido de menores valores de MEA, quando comparado ao de MET, concorda com o observado por Melloni et al. (2000) em estudos de avaliação da influência do fósforo e de FMAs em limoeiro-cravo, onde o comprimento de MEA variou de 0,5 a 1,0 m, e o de MET, de 6 a 12 m g-1 de solo - bem superiores aos observados para oliveira. Valores maiores para MET em comparação com MEA são esperados, já que, do total de micélios extrarradiculares produzidos pelo fungo, somente parte dele está ativa, absorvendo e translocando nutrientes para a planta (Melloni & Cardoso, 1999).

Intensidade e percentagem de colonização radicular

Todas as amostras de raízes de oliveira apresentaram colonização intrarradicular por FMAs. A taxa de intensidade de colonização radicular variou de 23,6 a 32,2 % e não foi significativamente diferente entre as cultivares (Quadro 4). Também não houve diferença significativa na percentagem de colonização radicular entre as cultivares, com variação entre 1,21 e 5,83 % - valores considerados baixos para a mesma cultura, em condições controladas.

 

 

Porras-Piedra et al. (2005), ao estudarem a influência de FMAs no crescimento de plantas jovens, obtiveram resposta positiva da inoculação ao testarem três espécies de fungos do gênero Glomus. Utilizando os mesmos métodos vistos no presente trabalho para coloração das raízes e avaliação da colonização micorrízica, os pesquisadores encontraram 100 % de colonização nas plantas inoculadas. Castilho et al. (2006), em estudos da influência de FMAs no controle de nematoides, encontraram percentagem de colonização para a cultivar Arbequina, inoculada com diferentes espécies de FMAs, variando de 78 a 94,6 %. Ressalta-se que os trabalhos supracitados para oliveira foram realizados em condições controladas, ao contrário do presente trabalho, cujas amostras de raízes foram retiradas diretamente de plantas sob condições de campo, as quais, normalmente, apresentam resultados inferiores de colonização (Córdoba et al., 2002; Moreira & Siqueira, 2006).

Apesar da ausência de diferenças entre as cultivares de oliveira em ambos os métodos de quantificação da colonização micorrízica, quando comparada com a intensidade de colonização radicular, a percentagem de colonização apresentou valores inferiores. Esse resultado pode estar relacionado às diferenças metodológicas de observação e quantificação da colonização, em que a intensidade de colonização é observada sob microscópio e a percentagem de colonização, em placa quadriculada sob lupa. A maioria das raízes da oliveira, depois de coradas e observadas em lupa, apresentaram-se muito escuras, o que dificultou a observação da colonização em microscópio estereoscópico. Em vista disso, a percentagem de colonização radicular pode ter sido subestimada em relação à intensidade de colonização.

No entanto, não há estudos publicados na literatura nacional que relacionem colonização micorrízica em oliveira. Pelo presente trabalho, recomenda-se que seja dada preferência à quantificação da intensidade e não à percentagem de colonização radicular, pela maior facilidade de observação das estruturas micorrízicas em segmentos radiculares, sob microscópio óptico.

Densidade e diversidade de esporos

Não houve diferença na densidade de esporos para as sete cultivares estudadas; o número médio de esporos por 50 g de solo variou de 12,01 na cultivar Arbequina a 29,55 na cultivar Ascolano 315 (Quadro 5).

 

 

Da mesma forma que para colonização micorrízica (Quadro 4), não há estudos publicados na literatura nacional que relacionem densidade e diversidade de esporos de FMAs em solo rizosférico de oliveiras. De acordo com Costa et al. (2007), o conhecimento da diversidade das populações de FMAs, bem como de seu papel e das interações com o meio abiótico, é requisito fundamental para explicar o crescimento de plantas micorrizadas. O estudo da diversidade revela aspectos ligados à sobrevivência e persistência de espécies em determinado ambiente ou rizosfera, podendo ser usado na avaliação dos efeitos benéficos da simbiose e dos impactos do manejo agrícola e ambiental aplicado nessas culturas de interesse.

Com base nas características morfológicas, foram identificados esporos pertencentes a nove espécies de FMAs (Quadro 6), para as diferentes cultivares de oliveira.

Os gêneros Acaulospora, Entrophospora e Scutellospora foram encontrados nas sete cultivares estudadas. Conforme Melloni et al. (2003), espécies dominantes de FMAs estão relacionadas à presença de mecanismos especiais de adaptação para suportarem as variações dos fatores bióticos e abióticos, com baixa especificidade quanto ao habitat. Já os gêneros Gigaspora e Glomus, principalmente o primeiro, não foram detectados em algumas cultivares, em virtude da presença de condições e, ou, de hospedeiro favorável à sua esporulação.

Os resultados do índice de diversidade (Quadro 5) mostram que, exceto para a cultivar Grappolo 575, que apresentou menor diversidade de FMAs, os valores de H´ para as demais cultivares foram semelhantes, com valor médio de 1,39. A baixa diversidade de FMAs na cultivar Grappolo 575 está relacionada ao menor número de espécies (ausência de Gigaspora sp1) e à dominância de outras (A. denticulata e Acaulospora sp2). No entanto, essa menor diversidade não comprometeu a micorrização da cultivar (Quadro 4). Por sua vez, Calvente et al. (2004) avaliaram a comunidade micorrízica de três plantações de oliveiras no Mediterrâneo e identificaram somente quatro espécies de FMAs, todas pertencentes ao gênero Glomus: Glomus intraradices, G. mosseae, G. clarum e G. viscosum. O maior tamanho dos esporos de Gigaspora pode ter, ainda, dificultado a disseminação destes na área de estudo, impedindo a sua sobrevivência e multiplicação, conforme também observado por Warner et al. (1987) em outras condições de estudo.

Análise de correlações

Quanto às correlações (Quadro 7), o micélio extrarradicular ativo (MEA) apresentou a maior correlação negativa com intensidade de colonização radicular (r=-0,79), seguido de micélio extrarradicular total (MET) e intensidade de colonização radicular (r=-0,73). A maior correlação positiva foi obtida entre micélio extrarradicular total (MET) e diversidade de esporos (r= 0,58).

 

 

O comprimento de micélio extrarradicular total (MET) foi o atributo que apresentou maior número de correlações significativas com os demais atributos microbiológicos estudados. O MET mostrou correlação significativa negativa com a intensidade de colonização radicular e positiva com a densidade e diversidade de esporos. A correlação negativa entre MET e intensidade de colonização indica que, quanto maior a quantidade de hifas de FMAs no solo (dada pelo comprimento de micélio extrarradicular total), menor a quantidade no interior das raízes (medida pela intensidade de colonização radicular). Isso sugere que o crescimento de micélio extrarradicular total, para esse caso, independe da colonização interna da raiz pelos FMAs. As correlações positivas entre MET e densidade e diversidade de esporos indicam que, neste estudo, o comprimento de micélio externo apresenta relação de proporcionalidade com a quantidade e diversidade de esporos no solo rizosférico.

O comprimento de MEA, assim como ocorreu com o MET, apresentou correlação negativa significativa com a intensidade de colonização radicular (r=-0,79), o que indica que o número de hifas ativas do solo, capazes de absorver e translocar nutrientes, está inversamente relacionado à colonização interna, crescendo independentemente desta. Entre as estruturas de FMAs, o micélio extrarradicular é o que apresenta maior extensão e biomassa (Melloni & Cardoso, 1999), e a correlação significativa com esses propágulos demonstra a complexidade da formação dos propágulos, regulada por influências biológicas, edáficas e ambientais (Siqueira et al., 2010).

A diversidade de espécies de FMAs tem correlação positiva com o número de esporos encontrados (densidade); quanto maior o número de esporos, maior a riqueza (r=0,37). A diversidade de esporos também mostrou correlação positiva com a presença de hifas de FMAs (MET) e negativa com a quantidade de hifas do fungo dentro da planta (intensidade de colonização radicular) (r=0,58 e -0,41, respectivamente); quanto maior a diversidade de esporos no solo rizosférico, menor a percentagem e intensidade de colonização radicular. Nesse contexto, Azevedo (2008) considera que não se sabe se as espécies mais abundantes detectadas no solo, por meio da identificação com base na morfologia dos esporos assexuais, são também as mais abundantes no interior das raízes, devido às dificuldades para identificação dos FMAs nessa região.

Pela homogeneidade de distribuição dos propágulos de FMAs na rizosfera e nas raízes das diferentes cultivares de oliveira, na Fazenda Experimental de Maria da Fé, pode-se inferir que isso deve-se, provavelmente, à homogeneidade do manejo do solo aplicado e a melhorias na sua fertilidade (Quadro 1), e à baixa diversidade genética das cultivares, apesar das diferentes origens (Quadro 2), reduzindo a interferência do hospedeiro na formação e funcionalidade desses propágulos. Nesse sentido, alguns estudos sobre a diversidade genética de cultivares de oliveira revelam a importância do conhecimento da origem e do efeito da região agroecológica de cultivo (Gemas et al., 2004), e outros confirmam a semelhança genética entre as cultivares (Martins-Lopes et al., 2007; Cordeiro et al., 2008), a existência de clones entre elas (Rony et al., 2009) e a necessidade de garantir a diferença entre as cultivares para fins de certificação (Gomes et al., 2009).

 

CONCLUSÕES

1. A oliveira apresenta interação com fungos micorrízicos arbusculares nas condições ambientais estudadas.

2. Os propágulos de fungos micorrízicos arbusculares estão homogeneamente distribuídos nas proximidades da rizosfera das cultivares de oliveira, sem diferença significativa entre micélio extrarradicular ativo e total, densidade, diversidade de espécies e colonização radicular.

3. Na área de estudo, estão presentes nove espécies de fungos micorrízicos arbusculares (Acaulospora denticulata, Acaulospora scrobiculata, Acaulospora sp1, Acaulospora sp2, Entrophospora sp1, Gigaspora sp1, Glomus mosseae, Scutellospora pellucida e Scutellospora sp1), distribuídas na rizosfera das cultivares de oliveira Ascolano 315, Arbequina, Grappolo 541, 561 e 575, Leccino e Maria da Fé.

 

AGRADECIMENTOS

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de bolsa de mestrado à primeira autora, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo apoio, e ao pesquisador Sidney Stürmer, da Universidade Regional de Blumenau (FURB), pela identificação dos esporos de fungos micorrízicos arbusculares.

 

LITERATURA CITADA

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1 Trabalho Extraído da Dissertação de Mestrado em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Universidade Federal de Itajubá - UNIFEI, Itajubá (MG). Financiado pela CAPES. Recebido para publicação em 24 de dezembro de 2010 e aprovado em 1 de setembro de 2011.