SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.42 issue146EditorialThe construction of self through work activity: the professional socialization author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Cadernos de Pesquisa

Print version ISSN 0100-1574

Cad. Pesqui. vol.42 no.146 São Paulo May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742012000200002 

TEMA EM DESTAQUE
TRABALHO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES

 

Apresentação

 

 

A ideia que inspirou a organização do conjunto de textos que compõem este dossiê vem da importância de reorientar o eixo que liga os dois pilares sobre os quais se assenta a preparação de futuros professores, a formação na universidade e o exercício do magistério, para corresponder de maneira mais efetiva ao que se espera da atuação desses profissionais em nossas escolas da educação básica. Essa é a escola que atinge, ou deve atingir, todas as crianças em idade escolar, onde os professores (mais as professoras) têm a imensa incumbência de ensinar, ou melhor, de fazer aprender, "tudo a todos", isto é, de introduzir esses pequenos cidadãos no conjunto de conhecimentos considerados básicos pela sociedade à qual eles já pertencem. Essa tarefa, que parece fácil, na realidade se revela um desafio para os jovens recém-formados pela universidade, hoje responsável pela sua formação, ao enfrentar sua primeira turma de alunos e ao ver que a coisa é bem diferente de como lhes foi apresentada em seu curso de licenciatura.

Para saber como é a coisa é preciso se aproximar do seu desenrolar pelo trabalho do professor. Por isso propomos a inversão na orientação do eixo mencionado, fazendo-o voltar-se para a direção do trabalho docente, com todas as implicações próprias do "trabalho real", que pode se encontrar bem distanciado do "trabalho prescrito", com o qual a universidade parece estar mais familiarizada.

Para uma incursão no universo do trabalho do professor em suas escolas, buscando inspirações para pavimentar com traços de realidade o caminho cursado pelos futuros professores em direção à profissão docente, convidamos alguns estudiosos que vêm se dedicando a conhecer de perto as peculiaridades desse metiê, o magistério, procurando esclarecer e entender melhor seus percalços, analisando-os e discutindo suas implicações à luz da contribuição teórica pertinente.

Claude Dubar, sociólogo francês, cuja obra constitui referência obrigatória para estudos sobre socialização e identidade profissional, traz-nos, a partir de constatações de uma pesquisa focalizando o desenvolvimento profissional de auxiliares de enfermagem, análises indicando a influência do exercício do trabalho na constituição da profissionalidade desses trabalhadores. Considerando a contribuição de sociólogos que marcaram a evolução da Sociologia dedicada ao estudo das profissões, como Hughes e Wilensky, Dubar avança a proposta de que a profissionalidade, ou o caráter profissional de uma ocupação, não se restringe a algumas profissões consideradas como tais ao longo da história recente, das quais foram extraídos traços que passaram a representar componentes indispensáveis a toda profissão. Sabemos que este é um tema polêmico, em discussão entre seus estudiosos há muito tempo, mas queremos ressaltar no texto de Dubar a importância atribuída ao trabalho na formação de profissionais, que não pode ser resolvida no âmbito da escolaridade. De modo especial nas profissões cuja realização se dá em âmbito relacional, como é o caso do magistério. Somente o exercício do trabalho pode revelar esse âmbito e permitir a aprendizagem dos traços profissionais que lhe são próprios, contribuindo para a constituição da identidade profissional do trabalhador, como ocorreu na ocupação estudada por Dubar e nos estimula a considerar o caso do professor e sua formação.

Françoise Lantheaume, professora da Universidade Lumière Lyon II, tem trabalhado de maneira especial sobre a dificuldade sentida pelo professor ao encarar seu difícil trabalho e não perceber com clareza como enquadrá-lo nos parâmetros usualmente estabelecidos para considerá-lo um "bom trabalho". Diante de todas as mudanças que o magistério vem enfrentando, fica cada vez mais difícil para o professor guiar-se por aqueles parâmetros e cresce sua insegurança e insatisfação a respeito de seu próprio trabalho, que ele gostaria de poder considerar como bom. Lantheaume trata diretamente dessa questão em textos anteriores e avança em direção a possíveis estratégias, para auxiliar o professor em sua atual difícil situação de trabalho, no texto presente neste número.

Embora sua pesquisa trate diretamente da situação de professores hoje em seu país, a França, a autora acaba tocando em problemas que atingem docentes de outros países, entre eles o nosso, e consideramos muito oportunas as análises e sugestões que elabora a partir desses problemas, para a discussão do nosso tema neste dossiê. Conhecer a situação do "trabalho real" de professores, por meio de pesquisas que se aproximam de fato dele, entrando nas escolas e acompanhando como ele se desenvolve, ouvindo dos professores como enfrentam seus problemas e como buscam saídas para eles, constitui um recurso importante para a preparação de futuros professores. Saber que, a despeito das muitas dificuldades que cercam hoje a atuação dos professores em nossas escolas, eles continuam procurando (e encontrando!) estratégias para superá-las e assegurar a possibilidade de seu trabalho efetivo é uma informação fundamental a ser passada a nossos estudantes dos cursos de licenciatura, para que fiquem alertas e abertos para enfrentarem os problemas que encontrarão em seu futuro trabalho no magistério, com os recursos de que já dispõem hoje e outros que terão que descobrir em sua própria situação de trabalho.

Correia, Vaz e Pereira, professores da Universidade do Porto, os primeiros, e da Universidade de Aveiro, a última, também focalizaram em seu texto o professor em situação de trabalho, a partir de estudos realizados em escolas de educação básica em Portugal, uma realidade talvez um pouco mais semelhante à dos nossos professores do que a estudada por Lantheaume na França. Eles ampliam o âmbito de suas análises, partindo do contexto político de onde emanam decisões que recaem sobre professores e escolas, não apenas em seu país, como em toda a Comunidade Econômica Europeia, da qual ele faz parte. Sabemos bem que essas decisões e suas consequências ultrapassam as dimensões continentais europeias, atingindo em cheio nossas escolas e seus professores, de modo especial pela profusão de medidas avaliativas, numa definição contabilística da educação, que leva os autores a proporem a expressão "avaliocracia". A pesquisa realizada procurou conhecer de perto como professores do ensino médio reagem às políticas educativas propostas e suas repercussões sobre a profissão docente. Suas constatações levaram os autores a reconhecer uma série de atitudes defensivas, por parte dos professores entrevistados, por meio de comportamentos que se enquadram em dois regimes de ação profissional: o regime de estranheza e o regime do excesso.

Como grade para análise da ação pedagógica é utilizada a conhecida configuração, proposta por Houssaye, de um triângulo cujos vértices representam o saber, o professor e os alunos. A acentuação das relações entre dois dos três componentes, em geral, acaba provocando uma ação dual, ficando o terceiro relegado ao "lugar do morto". Para a estabilização da ação é preciso que este aceite as "regras do jogo". Entretanto, ponderam os autores, o presente contexto no qual são produzidas as "subjetividades profissionais" dos professores encontra-se muito perturbado pela tendência do "morto" a não aceitar as regras definidas pelos outros protagonistas da ação pedagógica: "O morto parece ter enlouquecido", assumindo qualidades e modos de ser distanciados dos esperados e desejáveis na instituição escolar. Ao longo do texto os autores analisam o "enlouquecimento" dos componentes relativos ao aluno e aos saberes, que estão na origem do "enlouquecimento" dos professores. São apontados exemplos extraídos das entrevistas, que configuram comportamentos caracterizados como de "estranheza", ou de "excesso", entre os docentes, indicando, como no estudo de Lantheaume, uma situação difícil vivida hoje pelos que exercem o magistério. A distância entre o trabalho ideal e o trabalho real parece cada vez maior, exigindo, como nos ensina Dubar, a familiarização com a realidade trabalhada, para a aprendizagem de requisitos básicos para o exercício da profissão, além dos conhecimentos assegurados pela formação inicial.

Vargas e Moreira trazem em seu texto uma incursão pelo complexo domínio da Educação Física, a partir de uma dissertação de mestrado (Vargas) e de vários relatos de experiências ligadas à Educação Física como disciplina nas escolas de educação básica. A crise de identidade epistemológica, que há muito tempo vem envolvendo os profissionais da área, foi tomada como ponto de partida para a discussão do tema central do dossiê, à luz da realidade focalizada pelo texto. A atração pelo caráter científico que a área poderia assumir, aos olhos de boa parte de seus profissionais, continua a exercer poderosa influência para o reforço da crise mencionada. A dualidade entre corpo e mente, e a fascinação pelo brilho do esporte também mantêm um viés bem exemplificado pelos relatos trazidos pelos autores. Em busca de uma via que possa proporcionar um olhar novo sobre o velho problema, os autores recorrem ao trabalho do pesquisador português Vieira, com sua proposta de um par de conceitos, que podem ajudar a entender um pouco melhor a dificuldade de definição do campo, que continuará, por certo, dizem os autores, a procurar seus bons caminhos. Trata-se dos conceitos de "oblatos" e "trânsfugas", cujas identidades podem se revelar esclarecedoras, pelo menos em parte, das indefinições sofridas pelo campo da Educação Física. Os primeiros, "oblatos", segundo o estudo de Vieira e de maneira bem sumária, são os que abandonam o campo original no qual já se desenvolveram e até receberam alguma formação, adquiriram hábitos, princípios, crenças, enfim, um conjunto de elementos culturais que já integram sua identidade. Tudo isso é abandonado, em favor de um novo conjunto que virá a ocupar o lugar do anterior. Os "trânsfugas", diferentemente, ao passar para um outro campo, não abandonam inteiramente o acervo que já constitui sua identidade, mas o integram ao novo acervo que irão receber, fazendo as possíveis junções e, assim, provocando a criação de novas identidades, para si e para todo o campo.

Os autores recorrem também a conceitos de Bauman, de modo especial ao que ele designa como de aprendizado de terceiro grau, que viria após o aprender a aprender, de segundo grau. Pelo de terceiro grau se intensificaria um processo de autorreflexão, pelo qual o estudante "adquire as habilidades de modificar o conjunto de alternativas que aprendeu a considerar e a enfrentar no curso do processo de aprender a aprender". Parafraseando Bauman: o tipo de hábito a ser adquirido é o hábito de viver sem hábitos. Segundo os autores, o processo de aprender a aprender precisa flexibilizar-se e se abrir para as mudanças e incertezas. No caso da Educação Física, o foco sobre o trabalho docente, com todos os desafios que o professor deve enfrentar, a começar pela sua própria identidade, pode favorecer processos de (auto)formação mais abrangentes, autônomos e críticos.

No último texto, de Lüdke e Boing, procuramos reunir a contribuição de vários autores que têm tratado recentemente da questão do trabalho docente e de sua importância para a formação de professores. Queríamos ressaltar como esses estudiosos estão percebendo, como nós mesmos, a necessidade de levar o foco da formação de futuros professores também para a situação na qual eles deverão desenvolver seu trabalho, nas escolas e não apenas em suas salas de aula. Inspirou-nos a ideia de inverter o movimento até hoje priorizado, de partir da formação para o trabalho dos que se dedicarão ao magistério. Sentimos que é chegada a hora de acentuar o que se passa na realidade do trabalho, para extrair sugestões que possam enriquecer o esforço e a contribuição indispensáveis oferecidos pela universidade para essa formação. É bastante consensual, na comunidade de pesquisadores da educação, o reconhecimento das limitações na parte que tem ficado sob a responsabilidade da universidade na preparação desses futuros profissionais. Um dos pontos mais visíveis dessas limitações reside justamente na distância entre o que a universidade pode oferecer e tem oferecido, em muitos casos, e o que está à espera do futuro professor ao se diplomar e precisar enfrentar o trabalho real nas escolas da educação básica. Esse desafio que o espera só poderá ser enfrentado pela familiarização e, se possível, pela própria vivência na cena onde se passa esse desafio, na escola. Ela é a segunda instituição, ao lado da universidade, responsável pela formação do futuro professor. As duas instituições se integram no trabalho formador, cada uma como responsável pela sua parte específica.

 

Menga Lüdke
menga@puc-rio.br