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Cadernos de Pesquisa

Print version ISSN 0100-1574

Cad. Pesqui. vol.42 no.146 São Paulo May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742012000200011 

OUTROS TEMAS

 

O papel da igreja na educação escolar masculina na década de 1950

 

The catholic church's role in male education in the 1950's

 

 

Miriam Waidenfeld Chaves

Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - e pesquisadora do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade - Proedes. miriamfeld@terra.com.br

 

 


RESUMO

É possível afirmar que estudos sobre colégios católicos, ao propiciarem uma compreensão acerca das estratégias de socialização por eles utilizadas, estariam cooperando para elucidação das novas configurações de poder da Igreja. Acreditamos que os valores e comportamentos ali fabricados constituam a base da ação de sua liderança leiga, que expressariam certos modos de pensar da Igreja. Este texto pretende mostrar que o trabalho educacional religioso, desenvolvido por um tradicional colégio católico para moços no Rio de Janeiro nos anos 1950, ao moldar certo tipo de aluno, espera que a moral cristã impregne suas vidas. Os conceitos de socialização e juventude, o Rio de Janeiro e a Igreja nos anos 1950 são os temas abordados num primeiro momento. Em uma segunda etapa, chama-se a atenção para o conjunto de práticas de educação religiosa utilizado pela escola, bem como para algumas características sociais dos alunos que se encontravam sujeitos a essa ação pedagógica.

Palavras-chave: escolas religiosas; igreja católica; educação religiosa; elites


ABSTRACT

It is possible to claim that studies on Catholic schools, while providing an understanding on the strategies of socialization, also contribute to make visible new configurations of the Catholic Church's power. We believe that the values and behaviors produced in the Catholic Church are the basis for the actions of its lay leadership, which could even express certain specific ways of thinking inside the Church. This paper aims to demonstrate how the religious educational work developed by a traditional Catholic school for boys in Rio de Janeiro in the 1950's hopes to instill Christian morality in the boys' lives while molding a certain type of student. The concepts of socialization and youth in addition to Rio de Janeiro and the Catholic Church in the 1950's will be explored at first. Further, the focus of the paper will turn to all the practices of religious education used by the above mentioned traditional Catholic school as well as some social characteristics of the students who were subject to such pedagogical framework.

Keywords: religious institutions; catholic church; religious education; elites


 

 

Não há dúvida de que historicamente a Igreja tem desempenhado um importante papel na fermentação de nossa cultura nacional. Entretanto, com o advento da República, se vê obrigada a reformular suas relações tanto com a sociedade quanto com o aparelho de Estado. Seus estabelecimentos de ensino, no entanto, ao se transformarem em um poderoso instrumento de formação de grupos de dirigentes que mais tarde ocuparão as posições dominantes no interior da divisão social do trabalho, possibilitam que continue influenciando os rumos da Nação. Seus colégios, ao disseminarem certo tipo de ethos, fundamentariam a ação variada de uma liderança católica leiga que, assim, a conservaria atuante no cenário social.

Estudos acerca das escolas católicas, ao proporcionarem uma compreensão sobre as estratégias de socialização por elas utilizadas, estariam, portanto, cooperando para a elucidação das novas configurações de poder utilizadas pela Igreja. Tem-se como hipótese a ideia de que seja possível analisar a atuação da Igreja a partir das formas educacionais propagadas por seus estabelecimentos de ensino. Acredita-se que os valores e comportamentos por eles fabricados constituam a base da ação de sua liderança leiga que, segundo nossa premissa, expressaria certos modos de pensar da própria Igreja.

Nesse sentido, este texto tem como finalidade mostrar que o trabalho educacional religioso desenvolvido por um tradicional colégio católico para moços no Rio de Janeiro1 nos anos 1950, ao moldar certo tipo de aluno, espera que a moral cristã impregne sua vida, inclusive adulta.

Os conceitos de socialização e juventude, o Rio de Janeiro nos anos 1950, a situação da Igreja nesse mesmo período e os novos desafios que teria de enfrentar são os temas abordados num primeiro momento. Em uma segunda etapa, através da revista escolar A Vitória Colegial, fonte privilegiada deste estudo, serão analisados alguns artigos que irão apontar para o conjunto das práticas de educação religiosa utilizadas pela escola, bem como serão ressaltadas algumas características sociais e culturais dos alunos que, justamente, se encontravam sujeitos a essa ação pedagógica. Tem-se como intuito mostrar que essa atividade dirigia-se a um público específico - alunos pertencentes à classe média alta ou a uma burguesia tradicional carioca - que, ao se deixar contaminar pelas lições ensinadas, teria sua participação social atravessada por esses mesmos valores; logo a educação escolar católica teria cumprido a sua missão: ao mesmo tempo em que manteria a Igreja em uma posição de destaque no campo educacional2, também contribuiria para a educação de parcela da juventude católica laica, garantindo, novamente, à própria Igreja um lugar privilegiado no rol das agências socializadoras de parte das elites da cidade.

A temática aqui desenvolvida encontra-se, portanto, no âmbito da Sociologia da Educação. Primeiro, porque essa investigação sobre as elites dá margem para que se percebam as suas próprias formas de reprodução no âmbito escolar. Segundo, porque o texto, ao se referir a uma instituição escolar católica, permite que se compreendam certas especificidades acerca da socialização escolar religiosa. Enfim, possibilita que se articule a sociologia escolar que, no caso, se interessa por estudos sobre estabelecimentos de ensino privados católicos de excelência, com a sociologia das elites. Evidencia a posição estratégica do campo escolar no conjunto dos instrumentos da reprodução social das elites (BOURDIEU, 2002).

Sugere, também, que a Igreja, de acordo com uma sociologia das religiões, seja entendida como uma instituição como outra qualquer, que tem como fim a manutenção de sua posição privilegiada no jogo pelo poder. Assim, as disposições pedagógicas de ordem religiosa utilizadas pelo colégio em foco passam a ser definidas como uma estratégia que objetiva transformar o ethos - sistemas de esquemas implícitos de ação e de apreciação - em ética - conjunto sistematizado de normas explícitas (BOURDIEU, 2007, p. 46). Ou seja, nosso interesse atém-se à maneira pela qual a socialização religiosa e a nobreza espiritual praticadas pelo Colégio Santo Antônio garantem ao seu público escolar uma aura de distinção que, em última instância, lhe confere força simbólica suficiente para que seja altamente reconhecido socialmente e, assim, ainda se identifique como membro de um grupo seleto de indivíduos que se encontra à parte dos demais grupos sociais.

 

ESCOLA E FAMÍLIA: A SOCIALIZAÇÃO DAS ELITES JOVENS CATÓLICAS

Uma das características centrais da educação das elites, principalmente católicas, é que escola e família compartilham das mesmas ideias sobre o tipo de ensino que se deve praticar. Acreditam em uma escolarização que tanto amplie o capital escolar e social quanto estimule um programa de socialização que reforce aprendizagens de maneiras de ser.

Trata-se de uma educação que procura desenvolver certos atributos que conferem aos jovens alunos das famílias católicas o sentimento de pertencer a um grupo que os posicionaria à parte dos demais alunos, devido à crença em suas qualidades religiosas. Esse sentimento ainda seria reforçado pelo próprio colégio que, centenário e com uma história a contar, legaria ao seu público e às famílias prestígio e distinção, ou seja, capital simbólico. Garantiriam reputação social, honra e senso de família, predicados essenciais para as famílias católicas pertencentes a uma sociedade que, na década de 1950, se encontrava em franca modernização (SAINT MARTIN, 2002, p. 134). Por meio dessa ação pedagógica, as famílias católicas conservariam sua posição, assim como manteriam a coesão, e a Igreja alcançaria seu intento: formar jovens católicos que se encontrariam nos postos-chave da sociedade, podendo-se concluir que as intermediações de Igreja, ação pedagógica e seus estabelecimentos de ensino e novas elites católicas - ex-alunos dos tradicionais colégios religiosos - têm pertinência. As palavras de um aluno publicadas na revista do colégio confirmam essa premissa: "Prometemos defender e elevar ainda mais o nome já famoso do Santo Antônio e todos os preciosos ensinamentos nele recebidos serão os meios com os quais construiremos nossas vidas, tendo por sólida base a religião" (A Vitória Colegial, nov./dez. 1950, p. 12).

A seleção dos alunos, bem como a dos professores, também contribui para a realização dessa estratégia educacional. Permite, sem grandes percalços, que esses colégios deem continuidade à educação familiar que, desse modo, tem garantido uma escolarização marcada pela confiança e pelo conhecimento recíprocos entre pessoas do "mesmo meio".

A atitude pressupõe a existência de um só sistema de valores que, ao embasar as relações sociais no interior da escola, abonaria um tipo de educação escolar marcado pela homogeneidade social, aspecto basilar para a reprodução social das elites. E a maior prova de que o aluno estaria "no seu lugar" seria o fato de ser irmão, filho ou, ainda, neto de algum ex-aluno (SAINT MARTIN, 1999, p. 107).

Esses colégios, como territórios fechados, destinados a uma educação especificamente masculina, também indicam que as relações sociais ali construídas induzem à fabricação de redes de sociabilidade que se estendem para toda a vida. A associação dos ex-alunos existiria justamente para facilitar a concretização desse intento. Para que esse projeto fosse alcançado, seria desenvolvida uma "educação total" (FAGUER, 1997) que, por meio de mecanismos duradouros de inculcação, procuraria fixar um tipo de ensinamento que combinasse tradição, autoridade e influência. Uma educação cuja ligação com Deus predispunha que o público escolar se percebesse como um grupo seleto, por causa dessa experiência particular.

Esse modelo educacional, ao fomentar modos de apreender o mundo e de se relacionar, como foi dito, teria de se ancorar na similitude entre as propriedades sociais das famílias dos alunos e o tipo de socialização escolar efetivado pelos colégios (PEROSA, 2008, p. 65). O modelo, ao mesmo tempo em que reforça os valores familiares, produz uma competente estratégia de socialização que, por meio de um tempo integral, procura manter o controle sobre a vida dos alunos (FAGUER, 1997, p. 24).

Os métodos de transmissão de conhecimentos de ordem cognitiva utilizados, a educação de modos de comportamento e valores ensinados, os estilos de vida privilegiados e as representações de si valorizadas, juntamente com a prática da educação religiosa, constituem a base dessa "educação total", que expressa o tipo de escolarização almejado pelas famílias católicas.

Essa premissa, identificada na revista escolar do colégio, se torna ainda mais necessária a partir dos anos 1950, na medida em que a sociedade brasileira, cada vez mais diversificada, encontra-se atravessada por uma série de valores que poderiam ameaçar a homogeneidade tanto cultural quanto moral de suas elites.

Além disso, se historicamente a socialização dos jovens pertencentes aos grupos dominantes ocorria mais por meio da família do que da escola, a partir do pós-guerra, com o surgimento dos teenager (PASSERINI, 1996, p. 352), a ação pedagógica escolar passa a ser indispensável, principalmente para as famílias das elites católicas, ciosas de preservar seus valores.

Distantes de sua prole em razão das novas necessidades sociais, as famílias se veem impotentes diante dos apelos culturais da época - música, cinema, vestimentas -, que conduzem seus filhos a um tipo de vida cada vez mais baseado em "valores superficiais" (p. 358) e menos fundamentada nos sólidos princípios morais das famílias católicas de "berço". Uma possível desagregação de seu universo social as encorajaria a escolher um colégio que proporcionasse a continuidade de sua "boa" educação e, consequentemente, reforçasse a coesão familiar.

Os jovens, como um universo em si, se distinguem do restante da sociedade, e mais afastados tanto dos pais quanto dos professores, que eram os que mais os influenciavam, iniciam um convívio mais intenso com seus pares, consolidando-se ainda mais como um grupo com identidade própria. Pedro Moreira Barbosa, aluno do colégio, consciente desse momento de sua vida, expressa o tipo de sentimento que vivencia ao se sentir jovem:

Cremos já sermos algo na vida, pois atingimos a altura de um metro e setenta centímetros, a voz torna-se quase adulta, uma leve penugem sombreia nosso rosto de rapaz, e aí se surge diante a vontade de libertar-se do jugo amoroso de nossos pais. Agora já podemos com mais liberdade sair à noite, ir às festas e outras diversões mundanas. Desejamos um lugar fechado para guardar nossos objetos, queremos nossos próprios quartos, onde possamos usar da mais completa liberdade. Nessa idade nosso cérebro povoa-se de mil e uma coisas, surgem as mais esquisitas ideias. Ambicionamos tudo e nada ambicionamos, queremos ser célebres e queremos ser humildes, esses pensamentos percorrem-nos em volúpias coloridas. Instintivamente pensamos na vida; aparece-nos o futuro ainda envolto nas brumas da inexperiência... (A Vitória Colegial, maio 1950, p. 29)

Essa experiência, conectada a um estilo de vida cada vez mais urbano, amplia-se, conferindo ao próprio jovem maior mobilidade social. Circulando da casa para a high school e daí para os clubes, os bailes, as festas, o automóvel e os bares, esses novos espaços de convivência indicam que esses mesmos jovens precisariam de proteção e ajuda particulares para que não fossem desviados de seu caminho (PASSERINI, 1996, p. 353).

Novamente A Vitória Colegial confirma essa premissa, na medida em que o aluno do terceiro clássico, Francisco Durval C. Pimpão, descreve as novas situações às quais muitos jovens se encontram expostos:

O cinema, o livro, os periódicos, são unânimes em apontar a desorganização, o vício, a inércia dos pais como gérmen em potencial, pronto a eclodir na ambiência social sob a forma, sempre crescente, de jovens desajustados moral e socialmente. As manchetes dos jornais e das revistas não opõem o desmentido a essa observação. São crimes, são assaltos à mão armada, são perversões do sexo, são vícios abomináveis, tudo a contaminar a juventude pelo exemplo nefasto. Como consequência vemos passar uma coorte de rapazes e de moças cariocas, chamados "transviados", perambulando sem destino pelas ruas da cidade... Mas essa mocidade não é, positivamente, uma mocidade "transviada"... essa mocidade é, apenas, uma mocidade mal orientada. ("Juventude mal orientada... não transviada", set. 1957, p. 15)

Essa possível ameaça aos "bons" valores é vista com temor tanto pelas famílias quanto pela Igreja, que acreditam na necessidade de uma ação pedagógica eficiente para que se perpetuem os valores de ambas as instituições sociais nesse recém-criado grupo social.

A educação religiosa seria uma estratégia eficiente para manter o jovem católico dentro dos trilhos, uma vez que, ao entregar sua vida às causas superiores, permaneceria longe desses possíveis "perigos": "A Congregação [Mariana] do ginásio é para aqueles que querem valorizar sua juventude, dedicando-se a uma causa sagrada: a honra de Maria. Doação, eis o que soa a palavra Congregado! Doação de minha juventude, de meus ideais, de minha vida" (A Vitória Colegial, ago. 1952, p. 15).

Seria, além disso, necessário que essa geração de jovens, a partir de determinados padrões de experiência, fixasse, pelo "contato original" (MANNHEIM, 1982, p. 75), um conjunto de valores e comportamentos que deveriam permanecer nessa nova etapa. Mesmo que o resto de suas "vidas consistisse num longo processo de negação e destruição da visão de mundo natural adquirida na infância, a influência dessas impressões iniciais ainda seria predominante" (p. 80).

A escola, principalmente a partir dos anos 1950, por um esforço redobrado, precisaria garantir uma passagem automática à nova geração de seu próprio ethos, a fim de que esses novos tempos não a deixassem em dúvida em relação aos valores aprendidos no seio daquela instituição social. Família e Igreja poderiam, nesse caso, tranquilizar-se, uma vez que, pela ação da escola, teriam sua cultura assim como seu sistema de valores perpetuados.

Poder-se-ia afirmar que o Colégio Santo Antônio, por meio da revista A Vitória Colegial, cumpre esse intento, ao conectar seu público-alvo às suas referências culturais e morais. Nas páginas dos artigos, ao mesmo tempo em que se dá voz a esse recém-criado grupo social, pela "livre" expressão, também têm como objetivo fazer com que incorporem valores e comportamentos da educação jesuítica, congregação a que pertence o Colégio Santo Antônio.

A associação de ex-alunos do colégio e a própria frequência com que sua história se faz presente na revista são apenas alguns exemplos de como o periódico constitui uma ponte entre o passado da instituição escolar, a tradição, e o presente, a jovem geração de alunos que, por ventura se encontra sujeita às inovações comportamentais, muitas vezes duvidosas para a formação do caráter cristão.

Como afirma Mannheim (1982) haveria a necessidade de se manter o vínculo entre essa nova geração e seus antecessores, perpetuando-se, consequentemente certa homogeneidade das atitudes (p. 91). Mais do que pertencentes a uma geração de jovens, que poderia balançar os alicerces da "boa sociedade" (ELIAS, 2000, p. 19), os alunos do Colégio Santo Antônio, por exemplo, deveriam, segundo seus dirigentes, considerar-se e serem considerados como parte de uma geração jesuítica que teria como tarefa guardar e respeitar a vida, os sentimentos e os costumes da instituição:

Muitos de nós iremos para longe, iremos para as faculdades, iremos trabalhar e enfrentar a luta pela existência: todos, porém, saberemos ser sempre gratos ao colégio e aos incansáveis mestres e heróis do púlpito e do altar! Prometemos defender e elevar ainda mais o nome já famoso do Santo Antônio e todos os preciosos ensinamentos nele recebidos serão os meios com os quais construiremos nossas vidas, tendo por sólida base a religião. (A Vitória Colegial, nov./dez. 1950, p. 12)

Ao garantir caráter e direção, o colégio estaria possibilitando que a socialização dos jovens da classe média alta e da burguesia tradicional carioca, que por ventura frequentassem o seu ambiente escolar, fossem formados segundo certos modos tradicionais da educação católica.

Ter-se-ia, então, perpetuado a geração do Colégio Santo Antônio e, ainda, os princípios da Igreja, que assim teria mais probabilidades de ter seus valores influenciando a sociedade, uma vez que muitos desses jovens assumiriam posições dominantes no mundo do trabalho.

Esse período de vida, portanto, marcado por um processo de individuação mais acelerado, ao se constituir sob o controle da instituição escolar, estaria dando margem para que seus ensinamentos fossem internalizados sem grandes resistências, apesar das transformações culturais oriundas dos novos tempos. As estratégias da educação escolar cristã estariam, nesse caso, cumprindo suas metas: a formação do "homem perfeito" (A Vitória Colegial, maio 1950, p. 5).

Esse alto grau de expectativa, inclusive, permite que se conclua que o programa educacional posto em prática pelo colégio constituía um importante regulador da experiência de seus alunos, contribuindo sobremaneira para a modificação da representação que teriam de si mesmos e a que os outros teriam deles. Apresentariam, afinal, a competência, as habilidades, a sensibilidade e as disposições apropriadas para uma determinada participação na sociedade, segundo os critérios de uma educação católica. (ALMEIDA, 2003, p. 136).

Outro aspecto importante a ser ressaltado e que poderia contribuir para o entendimento desta questão refere-se aos anos 1950. Agitados, anunciavam novos tempos para a Nação, que teria de se deparar com algumas questões nem sempre bem-vindas para a Igreja, mas que a própria A Vitória Colegial procurava enfrentar: divórcio, espiritismo, comunismo e a corrida pelo espaço, por exemplo.

 

OS NOVOS DESAFIOS DA IGREJA: AS MUDANÇAS POSSÍVEIS

A partir dos anos JK, sobretudo, o Brasil, cada vez mais diversificado, possibilita que sua população entre em contato com diferentes opiniões acerca dos mais variados temas. A urbanização, a industrialização e a tecnologia introduzem novas questões para a sociedade brasileira, instigando-a a buscar novas referências para sua vida. Ao mesmo tempo, esse fenômeno da metropolização (SEVCENKO, 2008) pressupõe uma ruptura com as noções tradicionais de hierarquia e de autoridade (p. 607).

A televisão, no entanto, fonte de novos modelos, evoca um padrão cultural que envolve música, dança, esporte, programas de auditório, notícias, publicidade e, sem dúvida, cinema. Pressupõe uma ética do consumo que atinge diretamente os jovens, que imediatamente se identificam com esse "novo mundo", que, ao adentrar o espaço doméstico, modifica a intimidade de seus espectadores.

O Rio de Janeiro, capital do país desde 1763, sofre de maneira direta a influência desse "clima", e seus espaços sociais, culturais e educacionais são impregnados por essa atmosfera que procura inovar o comportamento e as atitudes de seus moradores.

O Distrito Federal vive a tensão entre a assimilação das ideias modernas e a reafirmação dos valores tradicionais, constituídos por uma forte influência da doutrina católica que, inclusive, procura manter a sua ascendência sobre esse novo estilo de vida.

Sede da Rádio Nacional, do teatro de revista, do cinema novo, da bossa nova e da música de protesto, a cidade irradia para a Nação um clima de euforia devido ao fim do Estado Novo e da Segunda Guerra, e de protesto resultante das novas percepções sobre a nossa história. Se, por meio das plumas e paetês das nossas vedetes e, mais tarde, da bossa nova, celebra-se a alegria, Nélson Pereira dos Santos, com o filme Rio 40 graus, cuja canção de Zé Keti, A voz do morro, transforma-se na cara de um novo Brasil que se quer conhecer, contribui para a consolidação de uma vertente crítica da nossa cultura que parcela da intelectualidade carioca ajuda a criar.

Essas múltiplas manifestações culturais impulsionam a transformação social, ao mesmo tempo em que são modificados os comportamentos e atitudes tanto das instituições quanto dos grupos de indivíduos que por elas transitam. A Igreja, por conseguinte, percebe a necessidade de repensar a sua missão (MAINWARING, 2004, p. 33), e os colégios católicos se veem obrigados a alterar alguns pressupostos de sua pedagogia. Mediante uma nova postura, procuram dar outra interpretação para alguns conceitos que se encontram presentes no seu dia a dia escolar.

Essa prática pode ser percebida na forma pela qual a Igreja lida com a questão do acelerado desenvolvimento científico nacional durante os anos 1940/1950. Sem negar a necessidade de a ciência desenvolver-se, lembra, entretanto, da importância em se ter esse fazer humano subjugado às questões religiosas, o verdadeiro esteio da humanidade. Assim, ao acreditar que a universidade seja o lugar por excelência do trabalho científico, resolve criar, em 1941, no Rio de Janeiro, uma universidade católica para, desse modo, garantir a continuidade da formação de seus ex-alunos que, socializados nos moldes da pedagogia católica, saberiam distinguir a verdade da pseudociência.

Além disso, cabe ressaltar que, para o mundo católico, a competência religiosa encontra-se intimamente ligada à competência escolar ou intelectual. A própria excelência religiosa e os meios de ocupação dos cargos superiores no interior da hierarquia católica não são obtidos sem a conquista de uma alta qualificação acadêmica; donde se conclui que se as "áreas profanas" do saber devem constar da educação religiosa, a universidade se transforma em um pré-requisito indispensável para aqueles que escolhem esse percurso (SEIDL, 2009, p. 266).

No artigo "Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro", citando palavras do Pe. Leonel Franca, de 27 de março de 1946, ao mencionar a fundação das Faculdades Católicas, hoje Pontifícia Universidade Católica, nas instalações do próprio Colégio Santo Antônio, a revista indica como essa questão é tratada pela Igreja:

Formar sábios, investigadores intelectuais, habilitá-los ao trabalho que faz progredir a ciência, laurear diretores ou ensinantes dos demais: função doutoral, função científica, formar profissionais das chamadas carreiras livres [...] Servir à ciência com toda a lealdade e com todo fervor [...] o investigador católico trabalha com alegria de quem está certo de que sondando os mistérios da natureza, repensam os pensamentos do Criador [...] Servir à sociedade, formando os que, nos postos de maiores responsabilidades, hão de assegurar-lhe a vitalidade sadia das funções mais importantes [...] Firma-se assim a alta missão social das Universidades Católicas. Preparar chefes em que a vida intelectual e a vida moral se tenham compenetrado na harmonia de uma síntese equilibrada não é conquistar um dos maiores títulos de benemerência social? (A Vitória Colegial, out. 1950, p. 11)

Diante das transformações dos anos 1950, a Igreja ainda se vê obrigada a se tornar mais tolerante, iniciando um trabalho pastoral mais intenso, por meio da adoção de uma política mais popular. Sua evangelização, agora em uma sociedade mais complexa e marcada pelas influências tanto do comunismo quanto das religiões protestantes e espíritas (MAINWARING, 2004, p. 52), é redefinida, e assim se tem o começo de um amplo trabalho em prol da justiça social. Com o objetivo de organizar uma série de programas sociais, cria, em 1952, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB - e, assim, intensifica suas relações com os estudantes, os operários e os camponeses (DELLA CAVA, 1975); porém, apesar de se misturar às camadas mais populares, não abre mão de seu trabalho junto às jovens elites3.

A Vitória Colegial incorpora essa ideia, convidando seus leitores, à altura de sua posição social, a conhecerem essa nova realidade atravessada pelas diferenças sociais. A reportagem "O verdadeiro amor", escrita por Guilherme E. Guinle, pertencente a uma das mais tradicionais famílias do Rio de Janeiro, nos anos 1950, descreve o significado dessa operação, pela exaltação do trabalho missionário jesuítico:

"Deus, charitas est". A verdadeira caridade, aprenderemos de nossos diretores, superiores e mestres, e conhecendo a verdadeira amizade, o verdadeiro amor, estaremos mais próximos do conhecimento de Deus e, consequentemente, mais próximos de sua posse, nossa perene felicidade. (out. 1957, p. 8)

Além desse aspecto, temas da atualidade como o petróleo, a corrida ao espaço, o socialismo e o espiritismo compõem alguns artigos da revista. Emblemático é aquele sobre o divórcio que, numa clara demonstração de que a revista não poderia ficar de fora dessas discussões, afirma: "A reportagem d'A Vitória não poderia ficar alheia ao discutido assunto que abala a cidade: O divórcio. Por este motivo é que decidimos empreender esta enquete dentro do próprio Colégio..." (out. 1951, p. 2).

A partir de 1958, ano em que se inicia a discussão sobre a transferência da capital para o cerrado goiano, a revista começa a publicar uma série de artigos - Arquitetura e urbanismo - com o propósito de também se incluir nesse debate nacional. Com uma linguagem técnica, dirigia-se aos futuros arquitetos e engenheiros do colégio, com o objetivo de tornar claros os princípios tanto arquitetônicos quanto urbanísticos que envolviam a construção de Brasília.

As propagandas da Coca-cola e dos voos da Painair na revista, respectivamente estimulando o "bom gosto" e um estilo de vida "mais luxuoso" demonstram que o colégio, ao se apropriar de alguns dos novos modelos de comportamento da sociedade de consumo, os insere em uma aura de refinamento, a fim de que seus alunos, leitores d'A Vitória Colegial, apesar de se encontrarem em contato com esse "novo mundo", não se esqueçam de sua origem social.

Esses exemplos comprovam o quanto o burburinho da cidade e os novos estilos de vida invadem o cotidiano do colégio. Entretanto, ao mesmo tempo em que constrói uma imagem de si mais moderna e arrojada ao se adaptar às inovações sociais, também procura reforçar suas ideias sobre religiosidade, como veremos a seguir.

 

O JOVEM ALUNO DO COLÉGIO JESUÍTA NA DÉCADA DE 1950

Os jesuítas, no Brasil desde 1567, fundam o Colégio Santo Antônio em 1900, no Flamengo, zona sul carioca, com o objetivo de ensinar música e preparar para a primeira comunhão. Três anos depois, já em Botafogo, bairro das antigas mansões dos barões de café, o colégio inicia sua trajetória exemplar na cidade do Rio de Janeiro, formando parcela significativa dos filhos de famílias católicas oriundas da classe média alta e da burguesia tradicional.

Além de A Vitória Colegial afirmar que mais de 70% dos alunos moravam em Copacabana4, bairro onde nos anos 1950 residiam políticos de renome, ex-presidentes e intelectuais, o site da associação dos ex-alunos mostra que os que se formaram ao longo dessa década e se encontram cadastrados na referida associação se tornaram engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, economistas, militares, diplomatas e empresários. Ao mesmo tempo, alguns artigos são assinados por alunos pertencentes à família Lacombe, Guinle e Guaraná, respectivamente tradicionais famílias cariocas de católicos, da alta burguesia e de políticos. Arnaldo Jabor e Mario Henrique Simonsen, por exemplo, também escrevem para a revista nesse período.

De outro lado, os artigos "O Santo Antônio na universidade", "Que faria você se fosse eleito presidente?", "Você quer ser engenheiro?", "Você quer ser médico?" "Arquitetura e urbanismo" e "Ex-alunos generais" de A Vitória Colegial, ao induzirem a escolha profissional de seus leitores, em última instância estariam reafirmando suas próprias posições sociais de origem familiar.

Essa pequena explanação evidencia que a instituição de ensino pesquisada era frequentada por alunos pertencentes às frações católicas de prestígio: sua moradia reproduz a divisão espacial das classes, conferindo aos alunos, desde a origem familiar, um sentimento de pertencer aos grupos dominantes; as carreiras sugeridas pela revista e, de fato, escolhidas pelos alunos são aquelas que direcionam os jovens para as posições privilegiadas da divisão social do trabalho, e, por último, os nomes de alguns autores dos artigos já indicam de antemão a origem social igualmente privilegiada dos alunos.

Esse agrupamento de jovens, portanto, não se encontra no Colégio Santo Antônio por acaso; ao contrário, suas famílias o escolhem porque é capaz de reproduzir o tipo de educação necessária para seus filhos. Essas famílias têm a expectativa de que o fluxo de informações, gerado tanto pelo cinema quanto pela televisão, não distancie os filhos de seus valores sociais. Esperam, assim, que o colégio promova o seu convívio com a cultura dominante, o conhecimento e os valores cristãos necessários para que se coloquem como seus representantes na divisão social do trabalho.

 

A EDUCAÇÃO DA ALMA

A Encíclica consagrada à educação dos jovens cristãos, editada em 1929 por Pio XI, ao proclamar a necessidade de a Igreja e o Estado se encontrarem unidos pela educação, transforma seus colégios em verdadeiros espaços de difusão de suas ideias que, nesse caso, se materializarão segundo as especificidades de cada congregação religiosa. Suas estruturas administrativa, pedagógica e curricular poderiam, desse modo, dar continuidade ao processo socializador, já iniciado no ambiente familiar, uma vez que estariam se predispondo a garantir a formação do verdadeiro cristão, desenvolvendo todos os aspectos de sua vida - sensível, espiritual, intelectual, moral, individual, doméstica e social - (FOULQUIÉ, 1957, p. 228). Portanto, apesar de a Igreja ter de se adaptar aos novos tempos, principalmente a partir do Pós-guerra, a montagem desse tipo de educação pressupõe a reprodução dos valores católicos que, inclusive, se encontram presentes nos artigos da revista A Vitória Colegial 5 dos anos 1950.

 

A VITÓRIA COLEGIAL: AS PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA

Primeiro lugar na categoria de Revista Secundária Oficial na 2ª Exposição Brasileira de Publicações Estudantis, realizada em julho de 1955, na Associação Brasileira de Imprensa - ABI -, A Vitória Colegial é composta por edições regulares, que permanecem no cenário escolar por um longo período de duração. Editada desde a década de 1940, por alunos do curso secundário, mantém uma média de seis a oito revistas anuais.

Impressa em uma gráfica da cidade, mede 21x15cm, contém em torno de 35 páginas e se encontra recheada de fotografias do colégio, dos santos, da cidade e, principalmente, dos alunos.

Apesar de se intitular um periódico de alunos, de modo equidistante também é composta pelo grupo da direção, que "supervisiona" a sua elaboração. Como representantes desses grupos, alguns alunos e direção aparecem com seus nomes nas revistas, denunciando a existência de um forte processo de individuação.

Não pretendemos, entretanto, elaborar uma análise intensiva do impresso como suporte cultural, mas apontar para o fato de que através d'A Vitória Colegial é possível entender como a escola produz suas práticas de educação religiosa que, acreditamos, têm o intuito de elevar a alma e o espírito de seus alunos, transformando-os em indivíduos à parte, que têm fé na superioridade de suas qualidades morais. E, segundo nossa hipótese, essa ligação com Deus seria peça essencial na formação educacional jesuítica que, inclusive, marcaria para sempre o caráter daqueles que por ventura passassem por essa experiência.

Assim, se as reportagens da revista explicitam as várias atividades desenvolvidas pela escola para contribuir de forma competente com a internalização em forma de habitus (BOURDIEU, 1989) da educação católica jesuítica exposta acima, também indicam que a socialização religiosa levada a cabo pelo colégio pode ser entendida como um tipo de trabalho religioso que teria como finalidade perpetuar a própria posição da Igreja no campo religioso (BOURDIEU, 2007, p. 59).

Entre os artigos mais publicados, se destacam aqueles que dizem respeito aos retiros espirituais, à Congregação Mariana, às atividades da Cruzada, à caridade, ao sacerdócio, à importância da missa e do sentido de se tornar um jesuíta. Todos têm a função "de orientação da vida total" (A Vitória Colegial, mar. 1952, p. 1) dos leitores, que, sob esses competentes mecanismos de inculcação, não teriam a oportunidade de percebê-los, mas de experimentá-los como algo natural, positivo e inquestionável.

A CARIDADE: SOCORRO MATERIAL E ESPIRITUAL

A ajuda aos pobres se relaciona diretamente à prática do catecismo. Desde Anchieta, o dever de todo jesuíta pressupõe "campanhas religiosas que consistem em levar a fé e socorros materiais aos pobres que morrem de fome" (A Vitória Colegial, out. 1950, p. 9).

Renovada periodicamente por aqueles que estudam no Colégio Santo Antônio, essa missão permite que se dê continuidade a uma tradição que remonta às origens da própria congregação. Ao mesmo tempo, autoriza os jovens praticantes dessa boa ação a se sentirem parte de um grupo exclusivo que tem algo a doar seja material ou espiritualmente. Ou, ainda, permite que se sintam possuidores de certas qualidades que os colocam em uma posição especial - mais perto de Deus - que lhes garantiria superioridade social em relação aos demais jovens da cidade.

A MISSA E O TERÇO: UNIÃO DA FAMÍLIA

Práticas das mais simples dentre as várias exigências do mundo católico, a missa e o terço são prerrequisitos básicos de todo bom fiel. Não só reuniriam "as forças dispersas, concentrando nossa mente em pensamentos simples e santos" (A Vitória Colegial, mar. 1954, p. 26), mas também uniriam as famílias contra os perigos mundanos, como, por exemplo, o divórcio:

Diante tantos perigos que ameaçam a unidade da família, nada tão oportuno como a cruzada do terço em família que visa reunir numa mesma só oração todos os corações para que eles permaneçam unidos num mesmo amor e sob o mesmo lar. Só essas contas benditas saberão unir os corações para que a infâmia do divórcio não os separe. ("A família que reza unida permanece unida", A Vitória Colegial, mar. 1954, p. 28)

O depoimento do Dr. Alexis Carrel, homem da ciência, ao mostrar o poder da fé na cura de doenças, indica o desejo de que os jovens leitores da revista internalizem a ideia de que os benefícios do conhecimento científico terão mais resultados caso sejam acompanhados pela oração. Além disso, também quer provar que esse ambiente espiritual é tão legítimo quanto as coisas terrenas. Ou seja, não se trata de algo distante da vida cotidiana, mas, ao contrário, pertence a ela própria: "A oração é uma força tão real como a gravidade terrestre. No meu caráter de médico, tenho visto enfermos que depois de tentarem, sem resultado, os outros meios terapêuticos, conseguiram libertar-se da melancolia e da doença pelo sereno esforço da prece" (A Vitória Colegial, abr. 1953, p. 16).

OS RETIROS ESPIRITUAIS: PROXIMIDADE COM DEUS

Os artigos sobre os retiros espirituais são geralmente escritos e assinados pelos alunos do colégio que, após essa experiência, a relatam, emocionados:

Impressionou-me muito o retiro que fiz. Aquela casa branca situada no cimo da colina, toda envolta em solidão e em silêncio, convida-nos a deixar por instantes os nossos pensamentos terrenos e mesquinhos de cada dia, para alçá-los ao céu. Aquele ambiente nos convidava a pensar e a orar. [...] Ainda impressionado com as grandes verdades que nos expusera, contemplei o céu todo estrelado e a terra envolta em trevas: tínhamos sepultado no fundo de nós o homem que somos, deixando viver e agitar-se o homem que não devemos ser! (Alexandre Studart, "Minhas impressões do retiro", A Vitória Colegial, ago. 1950, p. 16)

No Alto da Gávea existe uma casa de silêncio, um "Padre-Nosso" caiado de branco e janelas azuis. [...] À medida que subíamos, a vida urbana desaparecia lentamente: a sinfonia pandemônica de luzes e movimentos à gasolina morria em surdina, até desaparecer por completo ao chegarmos ao topo da colina onde se acha a Casa de Retiros. Tínhamos cinco práticas espirituais por dia, sobre os mais importantes assuntos da juventude difícil que vivemos. [...] As cortinas de gasolina e as multidões encobrem, toldam, entopem nossa vida mental, que somente num oásis de oração como aquele poderá ser vista, encarada e resolvida. ("Três dias no paraíso", A Vitória Colegial, jul. 1958, p. 9)

Mediante os exemplos, percebe-se o significado dessa experiência. Ambiente de silêncio, com forte presença da natureza e longe do burburinho da cidade, os retiros, sempre realizados no alto de alguma colina, permitem que os jovens retirantes descubram dentro de si um outro ser que desconheciam, e que, por conseguinte, passariam a valorizar um outro estilo de vida, distante dos apelos de uma sociedade de consumo. Assim, esses momentos de recolhimento fariam com que os jovens descessem para a vida cotidiana transformados. Ao mesmo tempo em que os conduziriam a um contato mais íntimo com Deus, também os distanciariam de qualquer problema mundano que os estivesse impedindo de desenvolver dentro de si o caráter retilíneo que todo cristão deveria cultivar. Ou seja, como uma bússola, os retiros teriam a função de interferir duplamente na vida dos jovens retirantes: forjar um habitus tanto religioso quanto moral.

A CRUZADA EUCARÍSTICA E A CONGREGAÇÃO MARIANA: ELITES RELIGIOSAS DO COLÉGIO

Pertencer à Cruzada ou à Congregação Mariana implica fazer parte de uma elite religiosa. Pressupõe um grupo organizado que dedica parcela de seu tempo às atividades estabelecidas por essas mesmas instituições religiosas. Além disso, esses movimentos, ao aprofundarem as lições já iniciadas nos retiros, por meio de uma formação sistemática, procuram desenvolver em seus membros os valores de um "perfeito cristão", que, reconhecido pelas suas qualidades intrínsecas, passa a ser considerado e se considera melhor e superior que os demais alunos do colégio. O artigo "A cruzada e a formação das elites nos colégios", escrito pelo Pe. Romeu de Faria, trata de estimular essa ideia nos alunos, a fim de fazê-los acreditar nessa premissa:

Nos colégios não deveria faltar a Cruzada Eucarística que tanto concorre para a formação das elites entre os alunos. A experiência vai mostrando dia a dia que os melhores alunos são incontestavelmente os que fazem parte da Cruzada Eucarística do Colégio. Seu comportamento edificante, sua aplicação aos estudos, sua piedade encantadora e seu trato suave e atraente, as notas elevadas que conquistam durante todo o ano, confirmam eloquentemente que a Cruzada Eucarística é uma escola de formação integral que não deve faltar em nenhum Colégio que quer ver facilitada e realizada sua gloriosa missão. (A Vitória Colegial, ago. 1952, p. 20)

O SACERDÓCIO: UM CHAMAMENTO DIVINO

O sacerdócio seria o mais alto grau de aperfeiçoamento cristão que um jovem aluno do Colégio Santo Antônio poderia almejar. Para poucos, essa vocação, diferente de uma profissão qualquer, pressuporia uma "orientação total da vida para um ideal digno de consagração perfeita" (A Vitória Colegial, out. 1952, p. 1).

D. Manuel Pedro da Cunha Cintra, Bispo de Petrópolis, autor do artigo "Há um ideal no seu futuro", ao descrever as qualidades indispensáveis para o sacerdócio, alia ciência e alto desempenho intelectual à fé e bondade. Assim, sugere que por esses atributos se poderia fazer parte de uma elite que, com certeza, gera distinção:

Dentre as primeiras, releva ressaltar a capacidade intelectual para os estudos. Quem não fosse dotado de regular acuidade de engenho como poderia pretender atingir o Sacerdócio, meta final que é de longos estudos? Além da inteligência, o coração. O padre mais do que homem da ciência e cultura, é principalmente homem de fé e caridade. (A Vitória Colegial, out. 1952, p. 11)

Nesse caso, se o ambiente religioso for pensado como um mercado (BOURDIEU, 1983, p. 85) de bens imateriais, é possível afirmar que a vocação do sacerdócio é a que mais distinção poderá reservar àqueles que a professam. Mais próximos de Deus, serão naturalmente "inteligentes", "bons" e "generosos", mas, principalmente, se acredita que terão poder:

Antigamente, quando eu era pequeno queria ser tudo: lutador de Box, corredor de baratinha, aviador... Porém, depois que entrei para o colégio, já não tinha essa vontade de ser tudo... Quando vejo Pe. Barreto dando ordens e mandando no pessoal, tenho vontade de ser Padre prefeito geral, para reter muita gente e ser o mandachuva. (A Vitória Colegial, outubro de 1952, p. 30)

SER JESUÍTA: A AQUISIÇÃO DA AUTODISCIPLINA NECESSÁRIA

Se a produção de um bom cristão depende dos diferentes graus com que o jovem católico vivencia as experiências acima, tornando-o, assim, mais ou menos próximo de Deus, a possibilidade de se constituir como um jesuíta lhe abrirá as portas para esse estilo de vida.

O compromisso da Companhia de Jesus com a educação da juventude nos colégios e nas universidades garantiria, portanto, o acesso dos jovens alunos dessa congregação a esse ambiente sobrenatural, de modo que se sentissem como um "peixe dentro d'água". E seria por meio dos Exercícios advindos dos ensinamentos de Inácio de Loyola que esse objetivo se concretizaria: "escola de perfeição e formação cristã, os Exercícios são um verdadeiro trabalho espiritual" (A Vitória Colegial, nov. 1954, p. 2) em que o jovem, ao aperfeiçoar o corpo e o espírito, se aproximaria de Deus, tornando-se, enfim, um cristão "perfeito". Assim, permitiria um tipo de educação não apenas da alma, mas também do corpo e da mente. Pelos Exercícios, desenvolveriam a autodisciplina necessária para que mais tarde se encontrassem aptos para deliberar e decidir segundo as exigências de sua posição social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As afirmações acima demonstram os modos competentes de formação religiosa efetuados pelo Colégio Santo Antônio, principalmente nos anos 1950, momento de crise de autoridade de nossas instituições familiares, que, sem orientação, enxergam na educação escolar uma possibilidade de apoio e resposta às suas interrogações quanto ao modo de educar seus filhos.

Essas práticas de catequização, percebidas por meio da A Vitória Colegial, demonstram que o trabalho sistemático do colégio, no sentido de fixar esse tipo de formação em seu alunado, o modela, garantindo, assim, a reprodução desse padrão às novas gerações, que, inclusive, já se encontram ameaçadas por valores não tão católicos assim.

Pode-se acrescentar que essa prática pressupõe a criação de um ambiente religioso que, comparado a um mercado (BOURDIEU, 1983, p. 95) espiritual, ao mesmo tempo em que gera em seus agentes uma proximidade maior ou menor com Deus, conforme a frequência, regularidade ou o fervor com que se exercite naquilo que se encontra disponível no interior desse mesmo mercado, também possibilita a classificação de seus praticantes de modo diferenciado.

Nesse caso, para que os jovens do Colégio Santo Antônio se sentissem reconhecidos por esse mercado, teriam que se comprometer com as várias atividades da liturgia acima descrita. Ao praticarem essa educação religiosa em seus vários níveis, seriam alçados a um grupo seleto de católicos, que teria como missão divulgar os preceitos da educação cristã pretendida pela Igreja. Esse tipo de responsabilidade ainda faria com que se sentissem à parte dos demais jovens, na medida em que seriam considerados e se considerariam possuidores de uma superioridade tanto moral quanto intelectual, que lhes garantiria um lugar de destaque no colégio. Essa legitimidade, enfim, se imporia, rendendo- lhes prestígio e distinção.

A prática desse protocolo religioso pelo aluno do colégio, além disso, faria com que, já adulto, tivesse sua participação social marcada por essa experiência, o que, segundo nossa hipótese, pressupõe uma estratégia da Igreja para continuar mantendo o poder de influência sobre a sociedade. Assim, por meio de seus agentes - ex-alunos do colégio, por exemplo - a Igreja - tem sua autoridade moral fortalecida perante a coletividade, tendo, portanto, força suficiente para se posicionar de modo privilegiado no jogo social que, de acordo com as transformações sociais e políticas, vai se tornando cada vez mais competitivo, devido à entrada de outras crenças no mercado religioso.

Portanto, através de uma fonte documental pouco usual - revista de estudantes - acreditamos ter sido possível mostrar o quanto a socialização religiosa e a nobreza espiritual podem funcionar como competentes dispositivos pedagógicos de um colégio católico tradicional do Rio de Janeiro nos anos 1950. Igualmente demonstram o quão a Igreja é depositária de uma liturgia que, em última instância, fundamenta sua própria ortodoxia (BOURDIEU, 2007, p. 60) que, apesar dos novos tempos, precisa ser preservada, a fim de que perpetue sua posição de destaque na sociedade. Neste caso específico, pela participação social de seus seletos membros: ex-alunos do Colégio Santo Antônio.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: OUTUBRO 2010  
Aprovado para publicação em: MAIO 2012

 

 

1 Aqui denominado Colégio Santo Antônio.
2 O conceito de campo conforme utilizado por Pierre Bourdieu, 1989.
3 Cabe chamar a atenção para o fato de que nesse momento a Igreja, afetada pelas mudanças sociais, encontra-se dividida, e em seu interior é possível perceber pelo menos três grupos: os conservadores, adeptos da neocristandade; os modernizadores conservadores, que ao mesmo tempo que defendiam que a Igreja deveria mudar para se integrar à modernidade com mais competência, também se preocupavam com a secularização, com a expansão do protestantismo e do comunismo, e o núcleo reformista adepto de um trabalho pastoral mais intenso (MAINWARING, 2004, p. 57).
4 Informação que consta do artigo "Comissão de construção da piscina", publicado na edição de 1953.
5 Em visita ao colégio, em abril de 2008, encontrei em sua biblioteca 67 exemplares referentes à década de 1950. Os números de setembro de 1950, março de 1951 e novembro de 1952 não puderam ser encontrados.