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Cadernos de Pesquisa

Print version ISSN 0100-1574

Cad. Pesqui. vol.42 no.146 São Paulo May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742012000200013 

OUTROS TEMAS

 

Análise de periódicos na história da educação: princípios e procedimentos

 

Analysis of journals in the history of education: principles and procedures

 

 

Fabiana Silva FernandesI; Moysés Kuhlmann JúniorII

IPesquisadora da Fundação Carlos Chagas. fsfernandes@fcc.org.br
IIPesquisador da Fundação Carlos Chagas e professor da Universidade São Francisco. mkj@fcc.org.br

 

 


RESUMO

O trabalho discorre sobre a elaboração da Base de Dados do "Boletim Interno da Divisão de Educação, Assistência e Recreio", da Secretaria de Educação e Cultura do Município de São Paulo, publicação mensal que circulou nos Parques Infantis paulistanos no período de 1947 a 1957. A criação da base justifica-se pela necessidade de se sistematizarem informações sobre a estrutura e a organização do Boletim Interno e identificar tendências educacionais e temas enfocados. Tornou-se orientação o princípio de que a definição dos campos de registro não deve ocorrer, a priori, sem um exame prévio da publicação. Considera-se a base como um primeiro processo de análise que, para prover elementos para a pesquisa, precisa ser composta por campos analíticos adequados às especificidades da publicação, ultrapassando a formalidade de registros.

Palavras-chave: história da educação; base de dados; parque infantil periódico


ABSTRACT

The study describes the setting up of a database for the "Internal Bulletin of the Education, Assistance and Recreation Division - Boletim Interno da Divisão de Educação, Assistência e Recreio" of the São Paulo Municipal Secretariat for Education and Culture, a monthly publication that circulated among kindergartens in the city of São Paulo from 1947 to 1957. We justify the setting-up of the database because of the need to systematize the information on the structure and organization of the Internal Bulletin and identify educational trends and topics that were focused on. The guiding principle was that recording fields should not be defined, a priori, without prior examination of the publication. The database is deemed to be a first analytical process, which in order to provide information to the study, needs to be composed of analytical fields that are suitable to the specificities of the publication, going beyond the formality of records.

Keywords: history of education; data base; preschools periodicals


 

 

Entre os anos de 1947 e 1957, a Divisão de Educação, Assistência e Recreio, órgão vinculado à Secretaria de Educação e Cultura, do Município de São Paulo, patrocinou a publicação de um Boletim Interno, editado mensalmente e direcionado à rede de instituições ligadas à Divisão - Parques Infantis, Recantos Infantis, Centros de Educação Familiar, Centros de Rapazes e de Moças1. Trata-se de referência importante para estudos sobre variados aspectos dessas instituições, especialmente os parques infantis paulistanos, uma vez que o Boletim traz informações sobre propostas institucionais e pedagógicas da administração pública e esse longo período de publicação ainda está pouco explorado na história da educação da criança brasileira.

Este artigo tem por finalidade contribuir para o debate sobre a pesquisa com fontes dessa natureza, ocupando-se da discussão metodológica sobre a produção de uma base de dados, como instrumento para subsidiar as investigações.

Na historiografia educacional, há vários estudos sobre a utilização de periódicos (CATANI, 1989; DIAS, 2001; FERNANDES, 2004; MARGOTO, 2001; VILLELA 2001, entre outros), pautados especialmente pela referência à história cultural, na vertente de Roger Chartier, mas também pela sociologia de Bourdieu ou por filiação à chamada corrente pós-estruturalista. Esses estudos privilegiam os periódicos educacionais, voltados para a difusão das modernas teorias pedagógicas e concentram sua análise na materialidade dos impressos, nas representações, nos processos de circulação e apropriação, na constituição de campos, ou em discursos presentes nos textos. Outra influência refere-se à produção de repertórios analíticos realizados em França e Portugal, destinados a inventariar os periódicos educacionais publicados durante extensos períodos (CASPARD, 1981-1991; NÓVOA, 1993, BASTOS, 2001).

A análise de um periódico não pode tomar a fonte como se fosse um sujeito histórico, independente das pessoas reais e das tensões existentes nas relações sociais em que se produzem os discursos e os bens culturais. Entende-se que é necessário situar o impresso como fonte de pesquisa no interior da história social, evitando-se tratar isoladamente a dimensão cultural, o que requer a busca de articulações com a história mais ampla, ou seja, os movimentos sociais e políticos, a conjuntura histórica do período da publicação e os movimentos e formações sociais em relação aos quais uma determinada publicação se articula de modo mais específico (CRUZ, PEIXOTO, 2007; DE LUCA, 2005; WILLIAMS, 2007).

O estudo específico do periódico é um elemento importante a ser considerado, pois a publicação não é um mero reflexo das relações sociais, mas componente delas. De acordo com Raymond Williams (2000, p. 207-8), a distinção da cultura como um sistema de significações realizado tanto abre o espaço para o estudo de instituições, práticas e obras manifestamente significativas, em sua especificidade, como, por meio dessa ênfase, estimula o estudo das relações entre essas e outras instituições, práticas e obras, pois a sua interpretação vigora nos dois sentidos. "Na verdade, só de maneira abstrata se pode separar o 'sistema social' e o 'sistema de significações', uma vez que, na prática, em graus variáveis, são mutuamente constitutivos" (WILLIAMS, 2000, p. 215-216).

Para a elaboração de uma análise crítica dessa fonte, foi necessário buscar o entendimento do seu projeto gráfico e editorial, das condições de sua produção, de sua circulação e significação. Cabe salientar que o Boletim Interno é distinto das publicações como as revistas pedagógicas, que tinham um caráter mais estruturado, produzidas em editoras e gráficas.

O Boletim é uma publicação semi-artesanal, datilografado e reproduzido em mimeógrafo à tinta, com uma diagramação simples, em folha no tamanho 30x21cm, impresso em papel timbrado da Prefeitura de São Paulo, sinal dessa produção "caseira", com a utilização de papel da Secretaria Municipal (FILÓCOMO, 2005; KUHLMANN JR., 2005; KUHLMANN JR. et al., 2007). A primeira página de cada edição indica o mês, o número e o ano do exemplar, faz referência à instituição promotora, à responsabilidade da Seção Técnico-Educacional e apresenta o sumário2.

Considerando-se a expansão da rede ocorrida ao longo dos 11 anos da publicação, depreende-se que ela terá contribuído para disseminar as propostas da Divisão de Educação, Assistência e Recreio, com diretrizes às unidades socioeducativas do município. No Boletim do mês de novembro de 1947 (p. 216-7), são listados 7 Parques e 1 Recanto Infantil em funcionamento e mais 17 Parques e 1 Recanto Infantil em construção, com suas diretoras já nomeadas. No último número do Boletim, referente a agosto e setembro de 1957 (p. 120-124), relacionam-se 39 Parques, 5 Recantos e 48 Recreios Infantis3. O Boletim foi distribuído amplamente pelas instituições educativo-assistenciais, como indica relatório da Divisão, de 1951, que menciona em média uma tiragem de 400 exemplares e uma distribuição de 380 (MICARONI, 2007, p. 36).

Nos artigos publicados, nota-se o peso do Conselho Técnico Consultivo da Divisão, instalado em 1947 para subsidiar o trabalho das instituições e direcionar propostas de formação para os funcionários das instituições educativo-assistenciais. A colaboração do Conselho se dava, fundamentalmente, na publicação de propostas de atividade e de textos de caráter formativo sobre a educação, assistência e saúde, norteando a proposta educacional dos parques infantis, bem como das outras instituições.

O Conselho Consultivo era o elo de ligação entre as instituições educativo-assistenciais e as partes diretivas que constituíam a Divisão. Em sua composição, reunia um conjunto de especialistas de diferentes áreas, incumbidos de dar orientações às atividades das instituições. Como afirmou João de Deus Bueno dos Reis, chefe da Divisão, no momento da sua instalação, em fevereiro de 1947, o Conselho contribuiria para "o constante progresso do seu pessoal especializado e para o entrosamento e a uniformização de técnicas" (1947, p. 37). As suas propostas tinham por objetivo a organização do espaço educativo e assistencial marcado pelas prescrições da ciência. A análise sobre os conselheiros, sua formação e a trajetória, assim como de outros autores, escapa aos objetivos deste artigo e será feita futuramente, no processo de exame dos dados, mas apresenta-se abaixo a lista daqueles que tomaram posse no ato de instalação do órgão4:

 

 

O Boletim Interno apresentava informações sobre a rotina das instituições sócio-educativas, particularmente dos parques infantis, e sobre a atuação da Divisão de Educação, Assistência e Recreio. Seu conteúdo percorria desde assuntos mais gerais, sobre inaugurações, festividades e visitas de autoridades, até assuntos mais específicos, relacionados com o cumprimento de normas e instruções da Divisão pelos profissionais das unidades socioeducativas. Também apresentava artigos de caráter mais teórico sobre medicina, higiene, odontologia, psicologia, educação, educação física, música, educação especial; planilhas da administração interna da Divisão sobre movimentação de materiais, dados de frequência e horários dos funcionários. Os temas privilegiados eram tratados ou como "parte integrante de artigos e orientações mais amplas ou como foco central de artigos e orientações específicas. Isso evidencia a importância do seu estudo, pelo período e pelo tipo de documentação a ser analisada" (KUHLMANN JR., 2005, p. 7).

A publicação possibilita a compreensão de modelos, princípios e práticas educativas dos Parques Infantis, pois traz informações sobre a dinâmica de atividades propostas. No entanto, é necessário considerar a influência dos editores no conteúdo publicado, no valor atribuído às notícias divulgadas e na qualidade das informações produzidas e selecionadas. É preciso atentar-se para o fato de que o retrato da vida institucional apresentado na publicação foi desenhado a partir de um projeto redacional - com um caráter político, organizacional e pedagógico explícito e bem demarcado - da Divisão de Educação, Assistência e Recreio. Esse fato traz implicações na tentativa de compreensão da dinâmica da rede de instituições socioeducativas vinculadas à Divisão Técnica, na medida em que há a intermediação do órgão na configuração de uma possível identidade para os Parques Infantis. No caso do Boletim Interno, pode-se supor que ele oferece informações importantes para compreender o cotidiano da rede e das instituições, mas não é possível perder de vista que esse retrato da vida institucional traz uma configuração posta pela Divisão Técnica, que não se confunde com a realidade das instituições. Nas notícias sobre o que ocorre nos Parques, selecionam-se aspectos que interessam e não um quadro real deles. Os artigos também representam temas e enfoques selecionados pela Divisão (KUHLMANN JR., 2005).

Mas encontram-se também artigos do Boletim escritos por funcionários, como relatos de experiências nas unidades e outros depoimentos, o que abria espaço para a sua participação e contribuição com as propostas educativas, mesmo que se considere terem sido selecionados pelos editores.

Além disso, uma vez que as propostas para a educação da infância possuem espaço nas formações sociais - o que implica que suas configurações só podem ser reconhecidas na ação de diferentes sujeitos que se organizam a fim de elaborar e difundir concepções e de promover propostas político-institucionais -, é preciso considerar que o Boletim, como fonte de pesquisa, tem seus limites, pois não substitui outros meios complementares para se compreender a organização, o funcionamento e as práticas desenvolvidas nos parques infantis.

Levando em consideração esses aspectos delimitativos da fonte de pesquisa, pode-se afirmar que o Boletim Interno apresenta indícios sobre as relações estabelecidas entre as instâncias política e administrativa e as instituições e sobre as propostas políticas e institucionais formuladas, seja em relação à organização da rotina das instituições, seja em relação aos trabalhos, de cunho educativo e assistencial, desenvolvidos nas instituições.

 

A BASE DE DADOS SOBRE O "BOLETIM INTERNO DA DIVISÃO DE EDUCAÇÃO, ASSISTÊNCIA E RECREIO" (BDBOL)

Algumas pesquisas sobre periódicos educacionais têm se voltado para analisar poucas variáveis relacionadas a descrições formais sobre a sua estrutura e duração, acrescidas de aspectos selecionados previamente, o que pode produzir interpretações parciais, sem a apreensão do conjunto da publicação. A proposta de elaborar uma Base de Dados como instrumento para a análise do Boletim Interno teve como fundamento a ideia de que, para se compreender as particularidades da publicação, seria necessário elaborar campos que permitissem extrair tanto dados referentes à estrutura da publicação, como também de categorias analíticas necessárias para a análise do Boletim.

O registro realizado procurou ser o mais abrangente possível. Esse procedimento representa a adoção de uma metodologia que persegue um caminho longo, sem pretender obter resultados apressados e já previsíveis de antemão.

Dessa forma, foi realizada uma leitura prévia da publicação que permitisse a elaboração dos campos de registro da Base de Dados. O modelo de ficha final, após a realização de algumas simulações, foi aperfeiçoado de modo a compor um conjunto de campos de entradas que favorecessem a compreensão de sua estrutura, suas finalidades e intenções, seus conteúdos e suas características, considerando que o Boletim era um meio de divulgação e orientação pedagógica da Prefeitura de São Paulo.

Durante a sua produção, realizaram-se também estudos sobre alguns aspectos da história do Parque Infantil paulistano, tais como: a finalidade da publicação, as propostas pedagógicas, as programações e comemorações, os materiais didáticos, a educação especial, a educação física e a recreação, a educação moral e higiênica5.

A elaboração da estrutura da Base de Dados se deu mediante a utilização do software de livre uso CDS/Isis, distribuído pela Unesco. Foram elaborados dois níveis de registro: um referente aos dados de identificação do texto e outro, a dados interpretativos. A estrutura da base, portanto, foi composta por campos descritivos e interpretativos que permitissem a extração de informação e a composição de categorias pertinentes à análise do Boletim Interno, por meio do registro de todos os artigos veiculados ao longo dos 11 anos da publicação, totalizando mais de 2.000 fichas.

O primeiro grupo de registro, de caráter mais restritivo, tem por propósito o reconhecimento da estrutura da publicação. São os campos que se referem a informações pertinentes para localizar o artigo e situá-lo no contexto da publicação: seção, autor, título, volume, número, página, mês e ano da publicação.

O segundo grupo permite obter informações sobre a natureza da publicação: tipos de artigo, descritores, resumo, informações sobre o autor e notas. Esses campos de registro ainda podem ser divididos em dois grupos: um que permite o registro de informações sobre o conteúdo do artigo (descritores e resumo) e fornece vestígios para a articulação de dados da publicação com o contexto social mais amplo (informações sobre o autor e notas) e outro, formado pelo campo tipos de artigo, que permite o registro de categorias de análise relacionadas com as finalidades de cada artigo publicado no Boletim. Essas categorias podem ser apreendidas mediante a verificação da estrutura do artigo e das intenções manifestas nas mensagens produzidas e transmitidas aos profissionais da Divisão de Educação, Assistência e Recreio.

É importante observar que, embora os campos do primeiro grupo sejam mais usuais, a sua definição não cumpre uma mera formalidade de registro, pois auxilia no trabalho de análise da publicação. O campo "Seção", por exemplo, foi proposto, porque possibilita o agrupamento de artigos por núcleos de significado, uma vez que há, no Boletim, agrupamentos de artigos relacionados com a mesma temática ou problema, enquanto outros se apresentam isoladamente. Esse campo de registro foi definido dada a organização do conteúdo da publicação, disposta, fundamentalmente, em seções temáticas, explicitadas no índice. Algumas seções repetem-se mensalmente, como, por exemplo: Educação, Material Didático, Museu e Material Didático, Noticiário e Biblioteca Especializada; outras não têm uma frequência regular, alternando-se nos boletins, como Educação Sanitária, Educação Física, Educação Musical, Medicina e Pediatria. Há também artigos que não se encaixam em nenhuma seção, sendo indicados de forma isolada no índice. Foram observadas também novas seções no Boletim, como a seção Aproveitamento de material aparentemente inútil, em 1954, e Problemas Educacionais, em 1955, o que indica uma maleabilidade na estrutura da publicação, para atender a interesses da Divisão e a demandas das próprias unidades socioeducativas.

No segundo grupo, o campo "Notas" permite o registro de informações que não se acomodam em outros campos, mas que são pertinentes para a análise da publicação, como, por exemplo, a indicação da origem do artigo, da continuidade do artigo em números precedentes e procedentes do Boletim, de informações que articulam o artigo com fatos exteriores à publicação e descrições das figuras existentes no artigo.

O campo de registro "Descritores" foi inserido na base com o propósito de consignar não somente palavras-chave, mas também termos que indicassem lugares geográficos, nomes citados, instituições e ocupações profissionais da Divisão.

Finalmente, o campo "Tipos de Artigo" foi definido a partir da necessidade de se compreenderem os propósitos ou intenções dos artigos publicados no Boletim e as formas e estratégias encontradas para transmiti-los. Procurou-se identificar se o artigo: determina, orienta, organiza e apresenta dados, informa, sugere, esclarece, forma, exemplifica. Também procurou-se saber se ele era um relatório, uma narrativa, uma poesia, um documento administrativo, uma tradução; ou, ainda, se vinha acompanhado de outros formatos gráficos, como desenhos, planilhas e partituras (KUHLMANN JR., 2005).

No momento da elaboração das fichas procurou-se qualificar os artigos, quando possível, com termos que indicassem a estrutura do texto e a finalidade da publicação, de modo a fazer uma articulação entre a proposta do artigo e a forma utilizada para divulgá-lo. Mediante as informações registradas nesse campo, pode-se perceber que o Boletim Interno apresenta em relação à estrutura e a finalidade dos artigos:

a. orientações gerais sobre saúde, cuidados com o corpo e a alimentação, comportamentos das crianças, entre outros;

b. calendários agrícolas e informações sobre agricultura e pecuária, cujo propósito é orientar sobre os alimentos cultivados em cada mês, mas também apresentar informações sobre hortas cultivadas em algumas unidades educativas e proporcionar um momento de fruição, como em um almanaque;

c. biografias de personalidades históricas, como Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Tiradentes, Barão do Rio Branco, Santos Dumont, Padre Anchieta, entre outros, com o intuito de propor uma atividade educativa ou mesmo de informar os educadores;

d. letras de música, poesias, partituras e desenhos, cuja finalidade era, fundamentalmente, propor uma atividade educativa para os educadores, os educadores musicais e os professores de educação física;

e. traduções e transcrições de trechos de livros de autores ligados à Psicologia, à Educação, à Assistência Social e Sanitária, de modo a transmitir algum ensinamento para os profissionais das instituições;

f.  calendários sobre as atividades a serem realizadas em cada mês, de modo a orientar o trabalho educativo;

g. relatórios sobre a rotina de instituições, ocupações profissionais e programas ou projetos desenvolvidos nos estabelecimentos, cujas finalidades são, fundamentalmente, três: informar a comunidade, apresentar a proposta como um exemplo de trabalho para ser desenvolvido em outras unidades ou por outros profissionais e dar satisfação à Divisão de Educação, Assistência e Recreio sobre as atividades desenvolvidas nas unidades educativo-assistenciais;

h. noticiários dos acontecimentos da rotina institucional da Divisão, como as inaugurações, visitas, comemorações, entre outros;

i.  documentos administrativos, em formatos de quadros, planilhas e gráficos que comunicavam a rede de instituições sobre a composição de horas de trabalho de funcionários, a rotatividade de atendimentos odontológico e médico, a movimentação de livros e materiais da Biblioteca e do Museu e Material Didático e os horários e locais de reuniões de trabalho;

j.  instruções da Divisão de Educação, Assistência e Recreio, geralmente sobre atividades ligadas à administração ou ao registro de fichas e formulários sobre a conduta e o desenvolvimento das crianças;

k. editoriais, cujo propósito era comunicar-se com o público-alvo sobre demandas de artigos, apresentar uma nova proposta de sessão temática que circularia nos boletim ou explicitar a opinião dos editores sobre assuntos da publicação, sobre datas comemorativas, acontecimentos nas instituições, entre outros; e

l.  narrativas cujas finalidades eram as mais variadas: depoimentos, ensinamentos aos educadores, tentativas de transmitir alguma lição ou exemplos a serem seguidos, manifestações de amizade e homenagens.

Por meio dessas orientações, foi possível compor o seguinte quadro de tipos de artigo:

 

 

Há que se fazer algumas considerações sobre termos utilizados no referido campo. A primeira é sobre o termo pronunciamento: as manifestações de afetividade que se configuravam em agradecimentos, reconhecimentos, etc. foram indicadas como pronunciamento, pois eram escritos que manifestavam intenções e sentimentos que deveriam se tornar públicos. Era como se o interlocutor estivesse declarando, publicamente, seus desejos (FERNANDES, 2007).

Em relação ao termo "preleção", foi eleito após uma consulta a diferentes termos que fossem convenientes para substituir o termo "artigo", empregado inicialmente no processo de elaboração da base, utilizado como referência para os textos que possuíam um caráter mais teórico. A opção por substituir o elemento "artigo" se deve ao fato de ele ser ambíguo e pouco esclarecedor, na medida em que todos os escritos reunidos no Boletim Interno são artigos. Pela leitura das fichas elaboradas para a composição da base, pôde-se perceber que o uso do termo artigo para definir "tipo de artigo" ocorreu nas situações em que a finalidade do texto impresso era explicar ou elucidar temas relacionados à atividade docente, ao comportamento infantil, às questões relacionadas à aprendizagem e desenvolvimento e ao trabalho educativo. Tanto que a primeira opção foi escolher o termo esclarecimento para substituir "artigo". No entanto "esclarecimento" é tão equivocado quanto "artigo", pois não permitiria fazer uma distinção entre os textos de caráter mais teórico e os ofícios e os documentos informativos. Sendo assim, tendo em vista que esses textos tinham um propósito formativo, mais do que esclarecedor, procurou-se um termo que expressasse essa característica. Após fazer um levantamento de possíveis substitutos, como "noções gerais", "ensinamentos", "lições", optou-se por "preleção", na medida em que significa ministrar uma lição sobre um determinado assunto ou discorrer sobre um determinado tema com o propósito de formar.

Com relação aos artigos que tinham por finalidade dar uma orientação pedagógica e direcionar os temas e problemas educacionais, identificamos os trabalhos que possuíam um caráter de esclarecimento e de subsídio para auxiliar os profissionais das instituições nos cuidados com as crianças e no seu relacionamento com elas e com seus familiares; os artigos que buscavam transmitir algum ensinamento aos educadores e que, portanto, foram denominados "preleção"; relatos sobre projetos desenvolvidos e rotinas de trabalho e os textos que apresentavam alguma proposta de atividade para ser desenvolvida nas unidades socioeducativas. Eram artigos que tinham por propósito a formação e a orientação dos profissionais, dentro de uma variedade de temas sobre a psicologia e o desenvolvimento, a saúde e a educação sanitária, a educação física, a educação moral e cívica, a educação musical e a educação sexual.

Esses artigos, dado o seu caráter diretivo para o trabalho educativo, eram assinados, preponderantemente, por funcionários que tinham um cargo de chefia, representados por chefes de seção e diretores de instituições e por membros do Conselho Técnico Consultivo.

Em relação ao Conselho Técnico Consultivo, pode-se observar que os funcionários das instituições, em particular dos Parques Infantis, recebiam orientações de diferentes membros do Conselho, nas diversas áreas representadas pelos conselheiros, para o desenvolvimento de projetos educativos ou para a resolução de problemas. Além de artigos de caráter mais teórico ou formativo, os conselheiros atuavam junto às unidades educativas, pelo que se pôde observar em trabalhos relatados no Boletim Interno. Entre outros, pode-se mencionar a experiência da Cruzada da Saúde, que foi um projeto de educação sanitária, organizado no Parque Infantil D. Pedro II e relatado por Noêmia Ippólito, mensalmente, nos Boletins de janeiro de 1948 até agosto de 1949. Outro exemplo é o relatório de Maria Ignez Longhin, que assinou como Conselheira das Visitadoras Sociais Psiquiátricas, sobre uma pesquisa de frequência dos educandos, realizada no Parque Infantil do Brooklin, com o intuito de identificar os motivos das baixas frequências na unidade, publicado no Boletim de agosto de 1951.

Ainda sob o nome de "artigo", havia alguns textos cuja finalidade era descrever ou relatar atividades ou procedimentos de ensino que foram desenvolvidos em um espaço educativo, para informar o segmento do público ao qual se destinava o Boletim Interno. A esse grupo de escritos denominou-se "relatório", termo que já estava presente na Base de Dados e que também contempla a exposição de atividades da administração e a relação dos principais fatos colhidos sobre um determinado assunto.

A "proposta de atividade" é um termo selecionado para qualificar as publicações que têm por finalidade apresentar uma metodologia ou recurso didático que poderão ser utilizados nas instituições.

O "tipo de artigo" designado "orientação" refere-se aos textos que apresentam informações sobre temas relacionados a saúde, comportamento, alimentação, entre outros, com o propósito de orientar educadores e familiares e criar hábitos que refletem em um corpo e uma mente saudáveis. É interessante observar que a família também fazia parte dos objetivos da publicação, que difundia propostas que pudessem orientar os Parques Infantis e os Centros de Educação Familiar no trabalho a ser realizado com ela. Um exemplo é o artigo intitulado "Indicações aos pais sobre a maneira de construir brinquedos em casa", publicado nos exemplares de setembro a dezembro de 1951. O artigo, mencionado na publicação como uma versão portuguesa do livro Home Play and Play Equipment for the Preschool Child, publicado pelo Departamento da Criança da Direção Federal de Previdência Social, classifica tipos de brinquedo, apresenta o significado do brinquedo para a criança e alguns modelos que poderiam ser confeccionados em casa, a partir de materiais como carretéis, prendedores de roupa, pedaços de madeira e colheres.

Já os escritos que procuram dar ciência sobre reuniões, encontros, eventos, ou têm por finalidade dar satisfações ao público-alvo ou promover pareceres e averiguações foram nomeados "comunicado". Num primeiro momento, procurou-se desmembrar o termo "comunicado" em informe e notificação, conforme a natureza da comunicação, mas essa ideia foi revista, na medida em que esse procedimento já implica um processo de análise da base que, provavelmente, dificultaria a consulta.

Em relação ao termo "notícia", refere-se aos artigos que têm por finalidade divulgar fatos que envolviam a Divisão de Educação, Assistência e Recreio, entre eles eventos, visitas e nomeações para os cargos de chefia.

A diferença entre "comunicado" e "notícia" é que o primeiro termo tem um caráter de uma comunicação mais interna e está pautada nas ações que caracterizam a vida institucional e administrativa da Divisão de Educação, Assistência e Recreio, e a notícia divulga fatos ocorridos na rede no sentido de dar uma visibilidade para o trabalho realizado.

Já a "instrução" refere-se aos documentos que procuram orientar os educadores para o preenchimento de formulários, de fichas de avaliação, enfim, para o cumprimento de algumas exigências da administração.

Com relação aos documentos com informações administrativas, optou-se por caracterizá-los pela estrutura textual, denominando-os documentos administrativos. Isso porque esses documentos se constituem em dados objetivos sobre os recursos humanos e materiais e a rotina das instituições educativas. Se fossem caracterizados pelas suas intenções acabariam ocultados no meio dos outros artigos, uma vez que, se fossem denominados, por hipótese, "informações" ou "esclarecimentos", seria difícil identificá-los entre os dados da base.

Há que se considerar também que, em alguns artigos, havia figuras, o que permitiu a inclusão do termo "figura", no campo de registro "tipos de artigo". É interessante observar as figuras presentes nesses artigos, que são desenhos feitos a mão, com traços irregulares, oferecendo imagens às vezes disformes ou desproporcionais e com linhas de espessura heterogênea. Essas ilustrações tinham, fundamentalmente, dois propósitos: o primeiro era adornar algum artigo e o segundo, indicar esquemas de realização de alguma atividade educativa.

Os desenhos que tinham por finalidade ilustrar o artigo eram mais usuais em situações relacionadas com datas comemorativas, principalmente nas festividades religiosas e cívicas, como, por exemplo, no Boletim de junho de 1947 (p. 126), nas festividades juninas:

 

 

Sobre o segundo tipo de ilustração, relaciona-se com propostas de atividades físicas, como a dança e a ginástica, ou a trabalhos manuais, como no exemplo abaixo, em que são ilustradas atividades de alinhavo, no Boletim de maio de 1954 (p. 49).

 

 

Ou, então, esta ilustração de dobradura, de janeiro de 1953 (p. 7):

 

 

É interessante observar também os croquis elaborados para ilustrar movimentos de dança, exercícios físicos, marchas, entre outros, como no exemplo abaixo, em que a professora de educação física Rudyl Soares apresenta movimentos para dança com fita (Boletim Interno, agosto e setembro de 1957, p. 116).

 

 

Depois de revisada a base de dados, foi obtida a seguinte frequência de "tipos de artigo", organizados na tabela abaixo, tendo-se em vista a estrutura e a finalidade dos artigos publicados no Boletim:

 

 

Percebe-se que grande parte dos tipos de artigo obtidos são documentos administrativos, notícias e propostas de atividade. Há um número grande de matérias com tabelas e gráficos, os quais se concentram basicamente nos documentos administrativos. Nos artigos que não contêm o registro "documento administrativo", foram observadas 22 tabelas e 12 gráficos, principalmente na sessão de Medicina, com informações sobre profilaxia e desenvolvimento físico das crianças frequentadoras das instituições.

Embora o tipo de artigo "documento administrativo" seja o mais frequente, não se pode afirmar que a administração seja o tema mais importante do Boletim, pois mais da metade desses artigos refere-se à divulgação de informações estatísticas sobre frequências nas instituições educativo-assistenciais, a arrecadações e empréstimos de livros e materiais didáticos (156 registros são das seções referentes a frequência, 57 estão na Seção "Agência Arrecadadora"; 122, na Seção "Biblioteca Especializada"; 55, nas seções referentes ao plantão médico e 87, na Seção "Museu e Material Didático"). Os artigos que têm por finalidade organizar e regular a rotina das instituições, referentes às normas e instruções, bem como às reuniões organizadas pela Divisão de Assistência com os profissionais das unidades representam menos de 50% das fichas que contêm o registro "documento administrativo". Embora essa documentação represente menos de 50%, em relação à difusão das instruções da Divisão Interna para as unidades subordinadas e de controle da rotina administrativa da rede de instituições, percebeu-se que o Boletim Interno foi um meio de comunicação largamente utilizado. A Divisão utilizava o Boletim para informar os funcionários sobre documentos normativos que regulamentavam o trabalho na rede; para apresentar laudos técnicos sobre questões de infraestrutura; para esclarecer sobre problemas relacionados com a conduta e o trabalho dos funcionários; para instruir sobre o preenchimento adequado de fichas e formulários; e para comunicar datas de reuniões futuras e pautas de reuniões passadas.

Sobre os problemas relacionados com a conduta e o trabalho dos funcionários, cabe destacar a preocupação do órgão diretivo em instruir as unidades para o seguimento de determinadas propostas de trabalho, como, por exemplo, a elaboração de relatórios, bastante discutida em todo o Boletim Interno. Em artigo publicado no exemplar de agosto de 1950, assinado por Noêmia Ippolito, apontam-se os erros encontrados nos relatórios dos Diretores das unidades educativo-assistenciais e enviados à Divisão. São dedicadas sete páginas do Boletim para descrever todos os problemas encontrados, desde questões formais sobre a organização dos documentos, passando pelos relatórios individuais de cada profissional - recreacionistas, jardineiras, educadoras musicais, educadoras sanitárias, enfermeiros, dentistas, médicos - até o atraso nas entregas dos textos, que deveriam ser enviados à unidade diretiva uma semana após o encerramento de cada mês.

O Boletim Interno também foi um instrumento para a organização de reuniões da Divisão Interna com os profissionais da rede. Um exemplo interessante sobre isso é o disposto no Boletim de março de 1948 (p. 54), que convocava os funcionários para uma reunião denominada Técnica Conjunta, "a cargo do Dr. Antônio Lefèvre, Neurologista", que iria falar sobre o desenvolvimento motor da criança, e um conjunto de Reuniões Especializadas, tanto do Conselho como das categorias profissionais de médicos, educadoras sanitárias, professoras de educação física, recreacionistas, diretores, educadoras musicais, assistentes sociais e enfermeiros.

Pelo exemplo acima, percebe-se que a Reunião Técnica Conjunta teria um caráter formativo ao reunir os profissionais das unidades junto com um especialista, para discutir uma determinada temática de interesse para o trabalho nas instituições. Já as reuniões especializadas parecem ter por propósito tanto questões formativas, relacionadas às propostas de programação, quanto a discussão de pautas voltadas para as questões funcionais das instituições e a rotina de cada categoria profissional.

Em alguns casos, havia uma nota convocando profissionais específicos para determinadas Reuniões Técnicas Especializadas com alguma categoria específica, como se pode observar no Boletim de fevereiro de 1947 (p. 13):

 

 

No exemplo acima, além da definição das datas e horários das reuniões, foram apresentados os locais e as pautas das reuniões. Cabe destacar que os temas das pautas dos educadores - instrutoras, recreacionistas, instrutores, educadoras sanitárias - são bastante variados, o que, provavelmente, se deva a demandas específicas de cada categoria.

Em relação ao controle da rotina administrativa da rede, cabe destacar ainda que o Boletim Interno divulgava mensalmente dados administrativos sobre os seguintes assuntos: frequências nas unidades educativo-assistenciais, plantão médico, quadros de horários de funcionários, relatórios sobre a circulação de materiais do Museu e Material Didático e a circulação de livros da Biblioteca Especializada. Os dados, organizados pela Divisão Interna, eram provenientes de relatórios produzidos pelas unidades educativo-assistenciais e demais setores do órgão. Alguns desses dados foram apresentados de forma equivocada ou forneciam informações pouco relevantes para se pensar a rede de instituições, como, por exemplo, o gráfico de frequência dos parques e recantos infantis, publicado no Boletim de janeiro de 1953 (p. 23) e a tabela de movimentação de livros da Biblioteca Especializada, de fevereiro de 1951 (p. 56).

O gráfico de frequência nos parques e recantos infantis, relativo ao mês de outubro de 1952, como se pode observar acima, é uma representação inadequada dos dados, uma vez que apresenta uma linha de variação para unidades diferentes. Uma forma correta seria um gráfico de colunas, por exemplo.

 

 

Outro exemplo é um quadro elaborado pela Biblioteca Especializada, publicado regularmente, que faz uma relação entre a quantidade de livros emprestados e as diferentes categorias profissionais e os assuntos mais procurados, como se pode observar na figura 7.

 

 

Acredita-se que esse tipo de informação tivesse por finalidade divulgar quais os profissionais que mais emprestavam livros e quais os gêneros consultados. No entanto não é possível estabelecer uma comparação entre as categorias profissionais que mais leem, na medida em que não se sabe a quantidade de funcionários de cada categoria. A porcentagem apresentada também não esclarece muito, pois apresenta a proporção dos leitores em relação ao total de livros emprestados. Sobre os livros consultados, a informação produzida permite verificar o tipo de leitura e a quantidade de consultas, mas não permite, por exemplo, estabelecer uma comparação entre categorias de funcionários e classes de livros consultadas. Diante desses problemas, que se repetem nos números do Boletim Interno, verifica-se uma imprecisão na produção de informações relevantes para a administração da rede.

A Base de Dados, após a conclusão e revisão, conta com 2118 fichas sobre o Boletim Interno, que representam a análise de cada artigo que compõe a publicação. Registraram-se até aqueles pequenos excertos que cumprem uma função de preenchimento de página, como tipo de artigo denominado "reflexão", uma vez que eram avisos administrativos ou mensagens pautadas em temas e perspectivas e modos de percepção sobre aspectos ligados à afetividade e à moral, como, por exemplo, um pensamento de Marco Aurélio no boletim de março de 1948 (p. 37): "Não é fácil encontrar-se quem seja infeliz por não ter observado o que se passa com os outros. No entanto, para os que se descuidam dos próprios sentimentos, a infelicidade é fatal". Ou, ainda, um escrito sem autor, extraído da Revista de Educação Física, no Boletim de novembro de 1948 (p. 259): "Na criança, tôda a atividade dirigida deve aproximar-se da natural até identificar-se com ela, cheia de autenticidade e conteúdo vital; não é possível distinguir quando se educa e quando se recreia".

A identificação dessas formas para o "tipo de artigo" pareceu adequada para os propósitos de se identificar o formato de comunicação entre o Boletim e o público destinado e as intenções da publicação. Com isso, pode-se evidenciar que o Boletim Interno, como um instrumento de comunicação entre a Divisão de Educação, Assistência e Recreio e os funcionários, atuou como meio de orientação pedagógica e de direcionamento de temas e problemas educacionais; de difusão das instruções do órgão para as unidades subordinadas e de controle da rotina administrativa da rede de instituições.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando-se a estrutura da Base de Dados, pode-se afirmar que a sua produção já se constituiu em um primeiro processo de análise da publicação, na medida em que exigiu o esforço para interpretar as informações que comporiam os dados; identificar tendências e temas abordados pela publicação; classificar os artigos da publicação em termos de sua estrutura e finalidade e definir descritores.

Foi possível perceber que o Boletim Interno destacou-se como um meio de comunicação entre a instância administrativa e as instituições, funcionando como uma "imprensa organizadora" que dava uma direção para as práticas organizacionais e determinava os procedimentos utilizados pela administração, de modo a controlar a rotina da rede.

No entanto cabe destacar que o Boletim Interno não funcionou apenas como um meio unidirecional de transmissão da Divisão para a rede, pois havia um espaço para a manifestação das experiências profissionais, pessoais e afetivas. Percebeu-se que nos artigos denominados narrativas, com intenções de depoimentos, pronunciamentos e explanações sobre os mais diferentes assuntos, havia uma participação maior dos funcionários, embora não se possa esquecer que esses artigos foram indicados ou selecionados pelos responsáveis pelo Boletim.

Mesmo nos artigos mais diretivos, em que a Divisão Interna instruía os funcionários e exigia o cumprimento de alguma norma ou procedimento, não se pode afirmar que o órgão tinha por finalidade, exclusivamente, o exercício do controle sobre a rede e a punição das más condutas. A Divisão também se utilizava desses recursos para promover uma articulação das propostas de trabalho de seus profissionais, como no caso da exigência dos relatórios, bem como de formulários e fichas das crianças, que forneciam informações sobre a rotina de trabalho das unidades, proporcionando meios para o órgão intervir, mas também divulgando a experiência da rede, como forma de incentivar práticas bem-sucedidas e colocar em discussão problemas que acometem um ou mais estabelecimentos. Da mesma forma, não se pode afirmar que as instruções da Divisão Interna eram meros instrumentos de controle da administração que reforçavam práticas burocráticas.

A questão anterior também remete a um outro impasse, que é a segmentação entre as atividades administrativas e educacionais. Embora se possa fazer uma classificação da publicação, organizando-a de modo a identificar distintas finalidades dos artigos, fundamentalmente sobre seu caráter administrativo e pedagógico, percebe-se que muitos aspectos ligados à administração não podem ser desarticulados das questões educacionais, pois a proposição de determinadas atividades que, muitas vezes, são julgadas como ritos burocráticos são formas de racionalizar o trabalho educativo.

Percebe-se também que a Divisão Interna tinha por intenção conferir ao trabalho das unidades socioeducativas um caráter científico, mediante a classificação das crianças e a fundamentação das ações educativas pelas descobertas das ciências médicas, da psicologia e da pedagogia. O Boletim Interno fornecia subsídios para a orientação das práticas assistenciais e educativas e apresentava um conjunto de propostas e modelos de atividades a serem desenvolvidas com as crianças. Cabe destacar a tentativa de uma homogeneização das crianças, mediante a proposição de atividades que trabalhassem e fortalecessem o corpo e que conduzissem as mentes para a formação de ideias e a concretização de hábitos e atitudes condizentes com os padrões prescritos pela medicina, a higiene mental e sanitária e a educação cívica e moral.

Está além dos limites deste texto analisar o conteúdo dessas orientações da Divisão Interna; o que se pode afirmar é que o órgão tinha por propósito incentivar o desenvolvimento de uma prática educativa direcionada, intencional.

O Boletim Interno da Divisão de Educação, Assistência e Recreio promoveu a configuração de uma diretriz educacional aos trabalhos desenvolvidos nas unidades educativo-assistenciais, num momento em que houve uma expansão da rede, o que leva a crer que uma das estratégias da Divisão, com a publicação do Boletim, era dar um rumo às instituições, estabelecendo princípios, objetivos e práticas comuns. Além disso, é preciso considerar que os funcionários das unidades socioeducativas, particularmente dos parques infantis, enfrentavam uma situação de definição profissional, mediante a determinação de seus espaços de atuação e das formas de trabalho, o que também proporcionou à Divisão uma possibilidade de intervenção, dentro das opções e dos recursos que o órgão tinha a sua disposição, seja em relação às condições políticas, organizacionais, seja em relação ao conhecimento.

Sendo assim, a elaboração dessa Base de Dados foi o primeiro passo para a análise sistemática da publicação, seja da publicação como um todo, seja dos diferentes temas apresentados no documento. Há inúmeras possibilidades de exploração da base, o que constitui um incentivo à pesquisa dessa fonte e à busca de informações sobre os Parques Infantis no período de existência desse periódico.

 

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Recebido em: MARÇO 2011  
Aprovado para publicação em: ABRIL 2012

Texto elaborado no âmbito dos projetos Fontes e Tendências Historiográficas na História da Educação Infantil (Fundação Carlos Chagas, Auxílio FAPESP) e Historiografia da Educação: relações sociais e história (Universidade São Francisco, Apoio CNPq: Auxílio e Bolsa de Produtividade).

 

 

1 Em 1947, a denominação era Secretaria de Cultura e Higiene. Os Recantos Infantis eram instituições como os Parques Infantis, situados em regiões com muitos prédios de apartamentos.
2 O Boletim foi digitalizado na íntegra e está disponível na página "História da Educação e da Infância": <http://www.fcc.org.br/pesquisa/jsp/educacaoInfancia/index.jsp>.
3 Os Recreios começaram a funcionar no final de 1954 e situavam-se em espaços mínimos (out. 1955, p. 165).
4 Embora a instalação oficial do Conselho Consultivo tenha ocorrido em fevereiro de 1947, há menção ao seu funcionamento já no mês de janeiro daquele ano (Boletim Interno, fevereiro de 1947, p. 14).
5 O registro inicial das fichas foi feito pelos alunos de Iniciação Científica (USF): Diego Vinícius da Silva, Silvana Alves da Silva e Juliana Santana da Silva, com bolsa IC Fapesp, e Glaucia Soares da Silva, voluntária. Posteriormente, os campos de registro e o conjunto das fichas foram padronizados e revisados. Três dissertações de mestrado, desenvolvidas no âmbito deste projeto, abordaram como principal fonte primária o Boletim Interno: Filócomo (2005) tratou do tema da educação especial; Micaroni (2007) analisou a Educação Física nos Parques Infantis paulistanos; e Paiva (2008) estudou o uso da música nas propostas educacionais dos Parques Infantis.