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Cadernos de Pesquisa

versão impressa ISSN 0100-1574versão On-line ISSN 1980-5314

Cad. Pesqui. vol.45 no.157 São Paulo jul./set. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/198053143190 

Artigos

Fazer pão e votar: estética da vida no diário de agricultores

To make bread and to vote: the aesthetics of life in the diary of farmers

Hacer pan y votar: estética de la vida en el diario de agricultores

Vania Grim Thies I  

IProfessora do Departamento de Ensino da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas - UFPel -, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil; vaniagrim@gmail.com

RESUMO

O artigo apresenta alguns resultados de pesquisa e discute os processos da autoria e a organização estética do gênero diário, tendo a escrita como ato ético e responsável de interação entre o mundo da vida e o mundo da teoria. O material de análise corresponde a 21 diários escritos por três irmãos agricultores, que foram problematizados com base nos princípios da análise dialógica do discurso do Círculo de Bakhtin. Os resultados da análise demonstram que a estética da vida está inscrita no ato ético e responsável da escrita realizada pelos três irmãos agricultores e organizada pelos autores-criadores nos diários como gênero do discurso.

Palavras-Chave: Educação; Diários; Teoria Bakhtiniana; Autoria

ABSTRACT

This paper presents some results of a research that discusses the processes of authorship and the aesthetic organization of the diary genre, where writing is considered an ethical and responsible act of interaction between the world of life and the world of theory. The material comprises 21 diaries written by three farmer brothers, which were examined based on the principles of Bakhtin's dialogical discourse analysis. The results of the analysis show that the aesthetics of life is inscribed in the ethical and responsible act of writing performed by the three farmer brothers and organized by authors-creators in the diaries as a genre of discourse.

Key words: Education; Diaries; Bakhtinian theory; Authorship

RESUMEN

El artículo presenta resultados de una investigación y discute los procesos de la autoría y la organización estética del género diario, en el que la escritura es considerada como un acto ético e responsable de interacción entre el mundo de la vida y el mundo de la teoría. El material de análisis corresponde a 21 diarios escritos por tres hermanos agricultores, que fueron problematizados en base a los principios del análisis dialógico del discurso del Círculo de Bakhtin. Los resultados del análisis demuestran que la estética de la vida está inscrita en el acto ético y responsable de la escritura realizada por los tres hermanos agricultores y organizada por los autores-creadores en los diarios como género del discurso.

Palabras-clave: Educación; Diarios; Teoría Bakhtiniana; Autoría

Há algo mais trivial do que escrever que "Sarita teve um terneiro",1 ou, mesmo, "realizamos o nosso noivado"? Ou, ainda, escrever que se fez pão e que participou da mesa eleitoral?2 Esses e outros enunciados estão presentes nos diários de três irmãos da família Schmidt:3 Aldo, Clemer e Clenderci,4 três homens, agricultores, moradores da zona rural de municípios da região sul do Rio Grande do Sul, que escreveram diários em diferentes momentos de suas vidas. Entre os três irmãos, o caso de Aldo destaca-se porque ele foi o precursor da escrita de diários na família, em 1972, e permanece escrevendo atualmente, diferente dos outros dois, que escreveram apenas por algum período de suas vidas.

O texto evidencia alguns resultados de uma pesquisa mais ampla,5 cujo objetivo geral foi verificar como os autores-criadores, agricultores, inscrevem sua vida esteticamente no ato da escrita de diários no cotidiano rural. Para este artigo, o foco é a análise do autor-criador e a estética da vida registrada nos diários. Um dos aspectos problematizados é o processo de autoria na organização estética do gênero diário, tendo a escrita como ato ético e responsável de interação entre o mundo da vida e mundo da teoria (BAKHTIN, 2010a [1919/20]). Os pressupostos teóricos do trabalho estão ancorados nas ideias desenvolvidas pelos autores que fizeram parte do que ficou conhecido como "Círculo de Bakhtin"6 (BAKHTIN, 2008 [1965], 2010a [1919/20], 2010b [1929], 2010c [1975], 2010d [1981]; BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2009 [1929]). O aporte teórico também contou com o diálogo de autores que têm seus estudos baseados na teoria bakhtiniana, tais como Clark e Holquist (2008), Faraco (2009, 2010, 2011), Brait (2005, 2009, 2010), Fiorin (2008), Amorim (2003, 2004, 2009), Sobral (2009, 2010), entre outros.

Cabe ressaltar que o presente estudo não é generalizável para o meio rural, pois se trata de um caso singular de análise sobre a produção escrita de três irmãos agricultores. No entanto, é de extrema importância observar que esses sujeitos têm a preocupação de registrar fatos do cotidiano de um modo muito particular, tais como aspectos referentes ao clima, ao lazer, ao trabalho e aos acontecimentos da vida comunitária, relatando os fatos ocorridos durante o dia. O tema da escrita dos diários é a vida cotidiana e vários assuntos estão presentes, como o nascimento de um bezerro, a plantação, o casamento, a morte de pessoas conhecidas da família, o ato de fazer o pão ou de votar na eleição municipal, entre outros acontecimentos. Isso revela que se trata de um autor de fatos concretos, que não se diferenciam na vida cotidiana; "tudo é importante e significativo" (BAKHTIN, 2010c [1975], p. 327).

Um estudo dessa natureza traz, também, contribuições à educação, uma vez que é possível pensar como questões de autoria dos alunos se fazem presentes na escola. Ou seja, escrever um bilhete para o colega, uma carta para a professora ou mesmo manter um diário na escola são práticas de escritas diferentes de uma produção de texto solicitada pelo professor. Surge, com isso, um questionamento: temos ensinado o aluno a escrever textos escolares ou textos que fazem parte da vida vivida? É oportuno lembrar que a educação não se faz presente somente dentro da escola, estando em constante dinamismo com as diferentes culturas do cotidiano, extrapolando, portanto, os muros escolares.

Nesse sentido, o cotidiano da vida precisa estar presente dentro da escola, pois, caso contrário, teremos novamente um dualismo entre o mundo da teoria e o mundo da vida. Se quisermos superar esse dualismo entre esses dois mundos, precisamos apostar no ato ético e responsável (BAKHTIN, 2010a [1919/20]) da escrita. Ser um aluno autor na escola significa "autorizar-se" a dizer e produzir enunciados com sentido. Muitas vezes, os enunciados que carregam sentidos importantes para os alunos passam despercebidos pelas exigências da cultura escolar (livros didáticos e modelos para a produção de textos) e acabam não sendo valorizados. Pensar a prática da escrita fora da escola, em outros contextos, como é o caso dos registros em diários, traz contribuições para repensar essa prática dentro do ambiente escolar.

O ato responsável na escrita de diários

O trabalho está ancorado no pressuposto bakhtiniano do ato ético e responsável como interação possível entre dois mundos: o da vida e o da teoria (BAKHTIN, 2010a [1919/20]). Segundo o autor, se não considerarmos o ato, o dualismo entre os dois mundos permanece. Assim, a escrita dos diários foi problematizada como ato ético e responsável, no qual os agricultores realizam a interação entre os dois mundos por meio do registro da vida cotidiana no diário.

A análise da escrita dos diários mostra como os agricultores inscrevem seu agir no mundo por meio da linguagem nesse gênero do discurso. Para Bakhtin (2010a [1919/20], p. 44, 47), "a vida é uma espécie de ato complexo" e "tudo é um ato meu, inclusive o pensamento e o sentimento". Assim, o ato corresponde às ações de sujeitos humanos que compõem a "vida inteira na sua totalidade" (BAKHTIN, 2010a [1919/20], p. 44), sem a possibilidade de ser substituído a partir do lugar que cada pessoa ocupa. Cada ato compõe dois momentos: a parte prática, que se refere ao lugar no qual o ato acontece singularmente, o mundo da vida; e a parte teórica, que diz respeito ao lugar no qual se objetiva o ato da atividade de cada um, o mundo da teoria. O mundo representante, ético, é diferente do mundo representado, cognitivo.

O ato, na sua totalidade, deve encontrar o plano para que, no seu sentido e no seu existir, as duas direções incomunicáveis possam interagir. É somente no evento singular do existir que se pode constituir a unidade entre os dois mundos (antes) isolados, criando, assim, uma dialética entre o sensível (mundo da vida/Lebenswelt) e o inteligível (mundo da teoria). Na perspectiva bakhtiniana, a preocupação está em problematizar as singularidades dos atos concretos sem que estas sejam perdidas de vista.

Se a interação entre o mundo da teoria e o mundo da vida só é possível pelo ato - evento singular do existir -, é na escrita dos diários (como ato) que os irmãos agricultores realizam a interação entre a teoria (mundo da cultura) e a vida. Tal escrita também possui, como consequência, a interação entre a infraestrutura (linguagem do cotidiano) e a superestrutura (linguagem dos sistemas instituídos).

Segundo Bakhtin (2010a [1919/20]), o mundo da vida vivida é o lugar no qual o ato acontece, a vida acontece e no qual o cotidiano mais efêmero e prático está presente. Esse mundo, como uma sucessão de atos, começa no nascimento e acaba na morte. Nos diários dos agricultores, quando o autor inscreve sua vida vivida (evento único e irrepetível), ele está ao mesmo tempo colocando-a ao lado de outras culturas oficiais, outras ideologias, como a política e a religião. Portanto, a vida e a teoria estão juntas em um evento único do Ser.

O ato responsável da escrita une a validade teórica e a realidade em uma entonação avaliativa e, por isso, precisa ser assumido no seu interior (BAKHTIN, 2010a [1919/20]), sem desculpas, porque é sem álibi. O ato é de responsabilidade do sujeito pelo fato de o seu "não álibi" não existir. O sujeito é, então, responsável pelos seus atos, não havendo justificativas para não assumi-los, pois "cada pessoa ocupa um lugar singular e irrepetível, cada existir é único" (BAKHTIN, 2010a [1919/20], p. 96-97). O ato da escrita do diário é não apenas responsável, mas também ético, visto que só o sujeito autor é quem pode pensar aquilo que pensa. Seu lugar no mundo é único, uma vez que ele o assina, reafirmando seu ato responsável de pensar, de enunciar.

Percebe-se, então, que é possível ver a teoria na vida. Pode-se olhar o evento da vida como uma sucessão de atos responsáveis (um "eu" que age no mundo concreto) e responsivos (esse "eu" em constante interação com "outros"). Isso porque, a cada pensamento e acontecimento, o autor responsável é convocado a responder pelo seu ato.

O outro convoca o "eu" a dizer seu pensamento e a assumi-lo com sua assinatura responsável. Há, portanto, uma responsibilidade pelo ato, conforme indica Sobral (2010b, p. 64): a responsabilidade do ato e a responsividade aos outros sujeitos no âmbito das práticas em que os atos são realizados. O outro convoca a dizer, a inscrever, a pensar e a responder, uma vez que esse é um dos princípios da linguagem, do seu caráter dialógico. O discurso, portanto, não é produzido monologicamente, mas sim entre o "eu" e o "outro", entre os "outros" e o "eu".

Nos registros em diários, os agricultores inscrevem seu agir no mundo por meio da linguagem. Para Bakhtin (2010a [1919/20], p. 44, 47), "a vida é uma espécie de ato complexo" e "tudo é um ato meu inclusive o pensamento e o sentimento". Assim, o ato constitui as ações de sujeitos humanos que compõem a "vida inteira na sua totalidade" (BAKHTIN, 2010a [1919/20], p. 44) sem a possibilidade de ser substituído a partir do lugar que cada pessoa ocupa. O mundo da vida é enunciado pelos agricultores e passa a ser reinterpretado socialmente pelo ato ético da escrita do diário e por tudo o que é vivido, real e concretamente. Além disso, ele é ressignificado, a cada dia, pela linguagem utilizada na escrita do diário como ato, ou seja, o mundo da vida objetivado pelo ato da inscrição da vida no diário.

O ato responsável/responsivo e ético pressupõe uma estética, porque há um acabamento (não uma finalização) entre o "eu" e "o outro", como um signo que ressoa e faz com que o autor o responda pela linguagem. A estética diz respeito à maneira como o autor organiza suas ideias, seu modo de pensar no seu discurso em permanente interação com o outro. A estética, como maneira de organizar o discurso, está presente na inscrição da vida por meio do ato que é realizado por um autor. Observando o material empírico apresentado a seguir, pode-se dizer que é o coletivo da família que convoca o autor (criador) a realizar a ação de responder e de se responsabilizar pelo ato de enunciar, produzindo, assim, uma estética de inscrever a vida no diário.

14 Setembro, Domingo, tempo nublado e a tarde chuveu muito pouco, demanhã todos em casa, a tarde Nane veio e levou s. Augustinho a venda, trazendo-o a noite, eu Nádia e Gerusa fomos pescar no Forqueta, eu pesquei 4 peixes, Gerusa 2 e Nádia 19. 7 (Clenderci Schmidt, Caderno nº 4, setembro de 1986)

Os diários revelam que a autoria, mesmo quando está sob a responsabilidade de apenas uma pessoa, traz aspectos relacionados ao coletivo da família, como o excerto demonstra: quem foi à venda, quem ficou em casa, quem foi pescar, etc. Assim, é por meio do diálogo com outros enunciados da família que a autoria é manifestada. Os familiares, bem como as demais pessoas da comunidade na qual residem, constituem o conjunto e o diálogo das vozes sociais, embora apenas uma pessoa se responsabilize pela escrita diária.

É relevante observar, ainda, a especificidade do ato da escrita de cada um dos três irmãos, sem fazer generalizações, mas estando atento para "o que diz" o ato singular. Conforme afirma Bakhtin (2010a [1919/20], p. 94), "o que encontramos em cada caso é uma constante singularidade na responsabilidade". Assim, cada ato é singular, único e irrepetível, e cada sujeito é responsável pelo seu próprio ato.

A prática das escritas de diários dos três irmãos agricultores se define do seguinte modo: entre 1972 e 1974, somente Aldo, solteiro e morador na casa paterna, escrevia os diários. Em 1975, além de Aldo, Clemer também começou a escrever diários, a pedido de seu pai. Assim, em 1975 e 1976, há uma escrita concomitante dos irmãos, ambos ainda solteiros e moradores da casa do pai, mas cada um mantinha o seu próprio diário. Em 1982, Clenderci, já fora da casa do pai, também iniciou sua escrita.

Em 1976, Aldo casou-se, constituiu sua família e continuou escrevendo diários no contexto do novo lar. Clemer, ainda solteiro, permaneceu escrevendo na casa do pai até 1979, quando se casou e, então, parou de escrever. Clenderci acompanhou a escrita coletiva dos diários na casa paterna e, quando se casou, em 1982, deu início à própria escrita de diários com sua nova família.

É importante ressaltar que esses três irmãos são oriundos de uma família de agricultores composta por 12 irmãos, na qual a prática da leitura e da escrita é cotidianamente presente. Contudo, optou-se em investigar somente os três em razão da disposição em participar do estudo e emprestar seus diários. Além disso, eles eram referência entre os demais nas questões de escrita de diários. Na casa paterna, a escrita de diários nunca deixou de ser realizada, desde 1972, quando Aldo - o precursor da escrita - iniciou essa atividade.

A análise considerou um conjunto de 21 diários e foi realizada em uma perspectiva dialógica (AMORIM, 2004) entre os três processos de autoria, de maneira descritiva e comparativa entre um autor e outro, indicando diferenças e semelhanças nas formas arquitetônica e composicional da escrita dos diários de cada agricultor.

A seguir, a relação de cada autor e seus diários.

Diários de Aldo Schmidt

Aldo Kolhs Schmidt (67 anos) é o segundo filho da família. O agricultor iniciou a escrita de diários em 1972, especificamente na data de seu aniversário de 25 anos, quando morava com seus pais e demais irmãos na Colônia Santa Áurea, município de Pelotas (RS). Ele frequentou a escola até o 5º ano e, posteriormente, fez seleção para entrar no ginásio, mas, apesar de ter obtido aprovação, optou pelo trabalho na lavoura com os demais irmãos.

Em 1976, Aldo casou-se com Nair Belletti e foi morar na Colônia Santo Antônio, 7º distrito de Pelotas (RS). O casal teve dois filhos homens, que optaram por permanecer no campo com o pai e que o ajudam nas plantações de frutas, tais como pêssego e laranja, no cultivo de vassouras,8 no manejo com vacas leiteiras e na plantação de milho e soja. A família possui cerca de 20 hectares de terra e arrenda mais outros hectares próximos de sua casa.

No conjunto de diários de Aldo, o precursor, estão 11 cadernos, totalizando 35 anos de escritas (até o ano da coleta do material, em 2007), sem deixar de fazer o registro escrito em um dia sequer. Ele ainda segue escrevendo atualmente.

  • Diário nº 1: 5 de julho de 1972 a 17 de fevereiro de 1976;

  • Diário nº 2: 18 de fevereiro de 1976 a 16 de junho de 1979;

  • Diário nº 3: 17 de junho de 1979 a 31 de dezembro de 1984;

  • Diário nº 4: 1º de janeiro de 1985 a 31 de dezembro de 1987;

  • Diário nº 5: 1º de janeiro de 1988 a 11 de março de 1991;

  • Diário nº 6: 12 de março de 1991 a 31 de dezembro de 1994;

  • Diário nº 7: 1º de janeiro de 1995 a 10 de julho de 1997;

  • Diário nº 8: 11 de julho de 1997 a 17 de fevereiro de 2000;

  • Diário nº 9: 18 de fevereiro de 2000 a 27 de agosto de 2002;

  • Diário nº 10: 28 de agosto de 2002 a 31 de dezembro de 2004;

  • Diário nº 11: 1º de janeiro de 2005 a 30 de abril de 2007.9

Aldo denomina seus 11 cadernos como diários. A cada novo caderno, é escrito na capa o número referente ao diário, juntamente com o ano a que se refere (exemplo: Diário nº 8 - 1997), com exceção dos três primeiros cadernos nos quais há somente o número do diário (exemplo: Diário nº 3).

Aldo iniciou seus registros em diários no dia em que comemorou seus "25 verões", em 5 de julho de 1972. A referência aos "25 verões" tem uma entonação avaliativa, ou seja, o autor firma um valor ao escrever aquilo que pensa e esse valor sempre será dito a partir de certa posição que o autor assume. Para Bakhtin (2010d [1981], p. 293), "selecionamos as palavras segundo a sua especificação de gênero" e, para esse caso, Aldo está começando a escrita de seu diário trazendo à tona a memória de sua vida desde a infância até a idade adulta, portanto os "25 verões" caracterizam o tom valorativo para esse início de escrita diária.

Diários de Clemer Schmidt

Clemer Kolhs Schmidt (64 anos) é o quinto filho da família de 12 irmãos. Estudou até o 5º ano do ensino primário. Ele iniciou a escrita dos diários em 1975, posteriormente ao irmão Aldo, quando morava na casa paterna, tendo sido encarregado pelo seu pai para realizar a escrita coletiva dos diários da família. Dessa maneira, eles não eram seus, individualmente, mas sim da família. Em 1979, Clemer casou-se, constituiu nova família e parou de escrever, deixando que os demais irmãos prosseguissem a escrita.

Atualmente, Clemer mora na Colônia Santa Bernardina, próximo a Pelotas, no município de Morro Redondo (RS), com a esposa Hilma. Ele trabalha com a agricultura, cultivando milho, feijão e pêssego, em uma propriedade de 23 hectares. Entretanto, as terras não são suas; ele apenas mora e trabalha nesse local desde que casou. O modo de produção é em sistema de parceria e a produção é dividida: 25% vão para seu parceiro de produção, o dono da terra. Clemer também cultiva quatro hectares de terra que pertencem à esposa Hilma e que ficam um pouco mais distante do local onde mora.

  • 1º caderno: 27 de janeiro de 1975 a 22 de julho de 1975;

  • 2º caderno: 23 de julho de 1975 a 27 de abril de 1978;

  • 3º caderno: 28 de abril de 1978 a 22 de outubro de 1980.

É importante salientar que, na casa paterna, esses registros nunca deixaram de ser realizados. Mesmo com a saída de Clemer, os outros irmãos que permaneciam na casa davam continuidade às escritas.10

Diários de Clenderci Schmidt

  • Caderno nº 1: 8 de março de 1982 a 6 de agosto de 1983;

  • Caderno nº 2: 7 de agosto de 1983 a 21 de julho de 1985;

  • Caderno nº 3: 22 de julho de 1985 a 8 de junho de 1986;

  • Caderno nº 4: 9 de junho de 1986 a 17 de abril de 1988;

  • Caderno nº 5: 18 de abril de 1988 a 22 de março de 1990;

  • Caderno nº 6: 23 de março de 1990 a 18 de fevereiro de 1991;

  • Caderno nº 7: 19 de fevereiro de 1991 a 26 de novembro de 1992.11

O início do registro em diários, depois de seu casamento, indica que ele acompanhou a escrita na casa do pai, quando Clemer era o responsável.

O autor-criador e o diário como gênero do discurso

Escrever em diários há mais de 30 anos, como é o caso de um dos agricultores, não é uma prática comum. Cada autor, com sua escrita e o ato ético e responsável, revela a importância da linguagem do cotidiano. Isso porque os autores exercem sua posição autoral e, embora o façam de maneira diferente, em alguns aspectos suas escritas se aproximam, uma vez que o gênero diário foi constituindo-se na esfera familiar.

Mas, afinal, quem é o autor dos diários? A problematização é realizada não somente com o autor de "carne e osso", mas também com o autor que constitui a posição axiológica do todo da obra, o autor responsável pela organização arquitetônica do diário como gênero do discurso.

Segundo Bakhtin (2010a [1919/20], p. 79), o autor é "aquele que pensa teoricamente, contempla esteticamente e age eticamente". Desse modo, é o autor que busca, por meio da relação enunciativa, uma totalidade de sentido na unidade da obra. Autorar significa "dizer por si" (ser o responsável pelo ato, pelo discurso) e, nesse processo, o autor compõe uma organização estética do gênero (diário) a partir da posição valorativa sobre o tema, que, para o caso dos diários, é a vida cotidiana.

O autor é aquele que cria uma forma de linguagem e edifica uma arquitetônica para atuar e compor sua obra. O autor assume sua posição autoral e, dessa forma, utiliza a linguagem de maneira peculiar, expressando seu mundo segundo sua visão estética.

Nas palavras de Voloshinov/Bakhtin (1926, p. 11), "o poeta, afinal, seleciona palavras não do dicionário, mas do contexto da vida onde as palavras foram embebidas e se impregnaram de julgamentos de valor". Da mesma maneira, os autores dos diários, não como autores poetas, mas sim como agricultores-autores, que inscrevem a sua vida esteticamente, retiram as palavras "impregnadas de julgamentos de valor" do cotidiano da vida rural, ou seja, do cotidiano da vida real, do mundo da vida vivida.

A palavra manifesta "os diferentes modos de discurso, sejam eles interiores ou exteriores" (VOLOSHINOV/BAKHTIN, 1926, p. 43). Conforme registram Bakhtin/Voloshinov (2009 [1929], p. 37), "a palavra como material semiótico da vida interior, da consciência (discurso interior)", é o material flexível e transportável pelo corpo. A linguagem dos diários é o discurso do cotidiano, como é também produzida no cotidiano, trazendo as interações entre os sujeitos e, assim, aproximando o mundo da vida e o mundo da teoria por meio da reflexão e refração da realidade.

A vida do cotidiano é narrada, descrita e reinterpretada a cada novo dia pelos autores, que possuem, nos elementos da ordem do dia e juntamente com os fatos extraordinários, a motivação para a organização estética de seus enunciados. A Figura 1 e o excerto apresentado a seguir demonstram alguns desses fatos.

Figura 1 Diário nº 6, Aldo Schmidt (1º de agosto de 1991) 

No excerto que segue é possível verificar os vários tópicos no enunciado, bem como as diferentes vozes sociais que dialogam com o autor na produção do discurso.

8 de Julho, Domingo, tempo bom, de madrugada eu e Nádia levamos Gerusa ao médico no Pronto Socorro da Beneficiência, Neca foi conosco (nada grave resfriado) voltamos ao clarear o dia e depois eu fui buscar inço no prédio os demais em casa, Nene e o Carlinhos vieram caçar hoje a Alemanha ganhou da Argentina na final da copa da Itália 1 X 0, e foi tri campeã mundial. (Clenderci Schmidt, Caderno nº 6, julho 1990)

Carregar cisco e podar pessegueiros12 faz parte do cotidiano do trabalho na lavoura, porém nevar é um fato extraordinário. A fim de marcar a excepcionalidade do ocorrido, o autor destaca com letras maiúsculas, na margem do caderno, a palavra "neve" e, no texto, salienta o vocábulo "nevou" com dois círculos.

No excerto de Clenderci, há vários tópicos presentes: a saúde da filha, a alimentação para os animais ("buscar inço"13), a caçada e o destaque para a Copa do Mundo de 1990. Os vários tópicos do enunciado demonstram que o cotidiano - tudo aquilo que fazemos no transcorrer do dia, como as tarefas rotineiras do trabalho, o lazer, os sentimentos, etc. - é dinâmico, e o ato da escrita está permeado por vários acontecimentos.

Nesse sentido, a matéria-prima dos enunciados surge do contexto da vida, a qual é vivenciada em categorias axiológicas. Segundo Bakhtin (2010d [1981], p. 28), há uma forma de viver sua autoria em categorias axiológicas:

Todas as minhas reações volitivo-emocionais, que apreendem e organizam a expressividade externa do outro - admiração, amor, ternura, piedade, inimizade, ódio, etc. -, estão orientadas para o mundo adiante de mim; não se aplicam diretamente a mim mesmo na forma em que eu me vivencio de dentro; eu organizo meu eu interior - que tem vontade, ama, sente, vê, e conhece - de dentro, em categorias de valores totalmente diferentes e que não se aplicam de modo imediato à minha expressividade externa.

O autor é comprometido com o ato humano da vida, como um ato responsável: "é o agente da unidade tensamente ativa de todo acabado, do todo da personagem e do todo da obra, e este é transgrediente a cada elemento particular desta" (BAKHTIN, 2010d [1981], p. 10). Ele ultrapassa as fronteiras do enunciado e é responsável pelo todo da obra, sendo o seu criador. O autor pode, também, ser transgredido segundo cada elemento particular da própria obra, o que acentuará particularidades de seu personagem a cada acontecimento, a cada traço seu, ao seu sentimento, "da mesma forma como na vida nós respondemos axiologicamente a cada manifestação daqueles que nos rodeiam" (BAKHTIN, 2010d [1981], p. 3).

Para Faraco (2009, p. 87), autorar é "orientar-se na atmosfera heteroglóssica; é assumir uma posição estratégica no contexto da circulação e da guerra das vozes sociais", é trabalhar nas fronteiras. Dessa maneira, o autor nunca está sozinho, visto que se movimenta entre um conjunto múltiplo e de diferentes vozes sociais por meio de uma tensão sempre criativa (e responsiva) para dizer a sua palavra e manter a sua posição autoral.

A abordagem estética do Círculo de Bakhtin sobre a autoria demonstra como o autor-pessoa cria uma personagem que pode ser um autor-criador ou uma personagem propriamente dita. Há, portanto, um autor que é real, o escritor (autor pessoa) e um "outro" que é criado pelo autor-criador (que poderá ser uma personagem ou mesmo um autor-criador). O autor-criador é quem constitui e dá forma ao objeto estético: organizando, recortando e reorganizando os acontecimentos da/na vida.

O autor-criador nos ajuda a compreender também o autor-pessoa, e já depois suas declarações sobre sua obra ganharão significado elucidativo e complementar. As personagens criadas se desligam do processo que as criou e começam a levar uma vida autônoma no mundo, e de igual maneira o mesmo se dá com o seu real criador-autor. (BAKHTIN, 2010d [1981], p. 6)

Há, portanto, uma organização estética na autoria. Todavia, a estética não diz respeito à beleza (no sentido belo/bonito), mas sim a uma forma arquitetônica de estruturar o discurso. Ela é o acabamento que o autor-criador dá ao acontecimento do agir humano provocado pela interação e acabamento do(s) outro(s). Esse acabamento é realizado no dialogismo das vozes do autor e do "outro" que o completa, discorda, afirma, refuta, entre outras coisas.

Segundo Faraco (2010, p. 40), "o discurso do autor-criador não é a voz direta do escritor, mas um ato de apropriação refratada de uma voz social qualquer de modo a poder ordenar um todo estético". O autor-criador organiza um novo mundo, pois realiza a transposição de um plano de valores para outro. Além disso, ele reorganiza esteticamente os valores que são recortados pelo viés do autor-pessoa.

É o posicionamento valorativo do autor-criador que rege a harmonização do todo constituído. Dessa forma, sua posição é sempre uma voz refratada e refratante. Nesse caso, é refratada porque se trata de uma posição axiológica recortada pelo viés do autor-pessoa; e refratante, porque é a partir dessa posição axiológica do autor-pessoa que se recortam e se reordenam esteticamente os eventos da vida (FARACO, 2009).

O autor está sempre em negociação com duas vozes (a do próprio escritor e a do autor-criador) que não coincidem no acontecimento estético. A voz do autor-criador precisa do deslocamento para trabalhar em sua linguagem, permanecendo fora dela em um princípio de exterioridade. Ele, assim, é visto em outro plano, não é disponível ou visível, não podemos vê-lo nem tocá-lo, porque há um excedente de visão no qual o autor conhece mais que sua personagem, olha e enxerga para outro sentido que é inacessível a ela.

Um aspecto da teoria bakhtiniana que não pode ser esquecido é o fato de que o mundo vivido é diferente do mundo da teoria. Os agricultores-autores dos diários escrevem aquilo que vivenciaram durante o dia, porém, ao registrar os fatos, passam do mundo vivido para o mundo da teoria numa interação possível pelo ato da escrita. Contudo, o autor-criador está em outra instância de vivenciamento axiológico: a do autor-pessoa, pois o autor-criador "realiza a transposição de um plano de valores para outro plano de valores, organizando um mundo novo (por assim dizer)" (FARACO, 2009, p. 108).

No caso dos diários, não há a criação de uma personagem, mas cada um dos agricultores cria um autor-criador para si. Assim, o autor-pessoa Aldo cria um autor-criador Aldo; igualmente, o autor-pessoa Clenderci cria um autor-criador Clenderci; e, por fim, o autor-criador Clemer cria um autor-criador Clemer. Dessa maneira, cada autor-criador é quem inscreve esteticamente a vida, trazendo os aspectos mais cotidianos e efêmeros do mundo rural, da sua realidade concreta, para serem objetivados no diário, ou seja, o mundo da vida vivida é organizado no mundo da teoria por meio de uma estética de inscrição da vida pela posição refratada e refratante do autor-criador.

Segundo Sobral (2010, p. 59), "os sujeitos entram em relação com o mundo dado no âmbito de suas relações com o mundo postulado". Esse aspecto está presente nos diários dos agricultores, pois, ao escrever os acontecimentos do dia, o autor-criador utiliza uma entonação avaliativa, refutando alguns fatos e ressaltando ou escamoteando outros. Esse aspecto pode ser observado em alguns exemplos da escrita de um dos agricultores em dois sábados consecutivos:

2 de junho Sábado tempo bom eu e Nádia e Gerusa fomos a feira, os demais por casa, nós voltamos só a noite. (Clenderci Schmidt, Caderno nº 6, junho 1990)

9 de junho, Sábado, tempo bom muito frio eu e Gerusa fomos a feira, os demais por casa Nádia capinou a horta, D. Erna foi no casamento do Marcão Fiss (foi com o Nene) demanhã o Antônio Fiss veio buscar azeitona. (Clenderci Schmidt, Caderno nº 6, junho 1990)

Nesses dois excertos, o autor escreve os acontecimentos segundo uma dada posição que envolve o coletivo familiar - a esposa, a filha e os demais membros da casa. No enunciado do dia 2 de junho, ele não descreve nada sobre a feira nem sobre os produtos vendidos, como poderia ter enunciado (lucro que obteve, movimentação de fregueses, etc.). Já no enunciado do dia 9 de junho, ele também não relata como estava a feira, porém registra o que as pessoas da casa fizeram: capinaram, foram ao casamento, ficaram em casa, etc. O autor-criador seleciona o que vai ser enunciado no diário, oculta algumas informações, esclarece outras e vai selecionando aquilo que quer dizer, dando um tom emotivo-volitivo, que é o valor afirmado por aquele que pensa.

Também é possível perceber que a autoria é um ato dialógico, uma vez que as "marcas" deixadas pelo autor-pessoa são elementos com os quais o autor-criador dialoga, recorta e reordena para produzir seus enunciados com sentido. Essas marcas presentes nos diários representam outros discursos já produzidos anteriormente, que, somadas à posição axiológica do autor-criador, constituem novos discursos. Assim, é possível afirmar que nas questões de autoria dos três irmãos, Clemer e Clenderci constituem o ato da escrita do diário pela prática do irmão Aldo, precursor do gênero na família. Segundo Bakhtin (2010d [1981], p. 294):

Em cada círculo social, em cada micromundo familiar, de amigos e conhecidos, de colegas, em que o homem cresce e vive, sempre existem enunciados investidos de autoridade que dão o tom [...] nas quais as pessoas se baseiam, as quais elas citam, imitam, seguem.

Dessa forma, os dois irmãos que começaram a escrever diários depois de Aldo levaram consigo o tom valorativo assimilado pelo irmão precursor das escritas. Por meio de uma alteridade constitutiva, cada um reelaborou e/ou reacentuou e respondeu aos enunciados à sua maneira, ainda que permeados pelas palavras do "outro". Conforme afirma Bakhtin (2010d [1981], p. 297), "cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva".

A visão dialógica dos diferentes discursos sociais ajuda na construção da relação entre o "eu" e o "outro". As duas dimensões do dialogismo são importantes para a construção da autoria, uma vez que, de um lado, revelam a relação dialógica entre eu/outro e, de outro, "dizem respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade" (BRAIT, 2005, p. 94).

O excerto a seguir, que representa a escrita de Clemer, demonstra o diálogo de vozes sociais presentes no cotidiano de um dos três irmãos agricultores:

21 de maio Quarta Demanhã carregaram o resto das toradas no caminhão e levaram para a cerraria o Cleber o resto quebraram milho de tarde carregaram o milho no caminhão e os caibros e os barrotes mas deixaram o caminhão no Clóvis caregado trabalharam 8 pessoas. (Clemer Schmidt, Caderno 1, maio de 1975)

No caso de Clemer, o discurso é narrado na terceira pessoa. O autor-criador dialoga com o coletivo de sua família, pois Clemer é o responsável pelo diário, mas quem constitui o seu discurso são os demais irmãos (12 no total). O autor-criador é quem o organiza esteticamente, segundo a voz refratada e valorada pelo viés do seu autor-pessoa - uma posição refratada e refratante do autor-criador, conforme já dito anteriormente.

O coletivo familiar está expresso nos signos "o resto", "trabalharam" e "deixaram", entre outros exemplos. Nesses enunciados, especificamente, o autor-criador afirma que trabalharam oito pessoas, porém não é comum nos demais enunciados a explicitação do número exato de participantes das tarefas. O autor-criador revela, então, quem são as pessoas que participam de seu discurso, mesmo não explicitando os nomes.

O diálogo é produzido com e entre esse coletivo, além de outras vozes presentes que "respingam" nos enunciados, como pode ser percebido no signo "cerraria", lugar onde são levadas as toradas14 para serem serradas. Isso porque a serraria é um contexto novo nesse enunciado, diferente do local de trabalho da lavoura na qual o restante das pessoas quebrou e carregou o milho. Esse novo contexto também configura uma nova voz social que participa do diálogo.

Fica claro, então, que o autor-criador dá forma ao conteúdo. Para Faraco (2009, p. 163), "ser autor é assumir, de modo permanentemente negociado, posições que implicam diferentes modalidades de organização dos textos, a partir da relação do autor com o herói ou tópico, e com o ouvinte". O autor-criador Clemer é o responsável pela organização textual, articulando o seu projeto arquitetônico com as vozes negociadas de seus ouvintes e com o tópico do dia.

O excerto apresentado a seguir mostra a maneira como o autor-criador Clemer negocia com as demais vozes participantes do discurso e conquista uma linguagem para si:

31- Demanhã o Cleber foi no Leopoldo arrumar o pineu do caminhão; o resto apanharam uva e de tarde moemo 475 kg de uva (Clemer Schmidt, Caderno 1, janeiro de 1975).

Ao se referir aos irmãos que "apanharam uva", Clemer se coloca na terceira pessoa do plural (eles) como se não participasse da realização desse trabalho. Porém, ao enunciar que moeram a uva ([nós] "moemo"), o autor se coloca como participante desse ato.

Embora Clemer estivesse presente em todas as tarefas do dia, há uma negociação no ato da escrita entre o autor-criador e o autor-pessoa. Essa negociação ocorre para que o autor-criador Clemer possa organizar, esteticamente, os fatos do dia no ato da escrita. Essa organização só é possível porque no trabalho estético o autor-criador trabalha em outra unidade de sentidos. Ele transporta para outro plano os elementos do mundo da vida e da cognição. Trata-se de um olhar de fora que permite o acabamento em uma nova unidade axiológica criada pelo fazer estético do autor-criador. O autor-pessoa é o participante do mundo da vida e do mundo da cultura e, portanto, só o autor-criador poderá olhá-los de fora, porque ele não é o real participante, mas sim o organizador de um novo mundo (BAKHTIN, 2010d [1981]).

Nesse sentido, é possível responder à pergunta: o que faz com que o autor-criador inscreva lado a lado "fazer o pão e votar"?

Dia 15: eu todo dia participei da mesa Eleitoral na 71 cessão e a Nair foi votar e fez pão de tarde ceifou o asevém e capinou vassoura. (Aldo Schmidt, Diário nº 2, novembro de 1978)

O fato é que as duas tarefas, muito diferentes, podem comprovar o sentido da escrita para o autor, porque é ele o autor de acontecimentos da vida concreta, da sua vida vivenciada, sendo responsável pelos atos na vida ordinária e inscritos pelo autor-criador no enunciado do diário. O sentido é construído na escrita com os eventos da sua vida ordinária. Segundo Bakhtin (2010c [1975], p. 237):

Os indivíduos são os representantes da entidade social, os acontecimentos da vida deles coincidem com os da entidade social, e a importância desses acontecimentos, tanto no plano individual como no social, é a mesma. O aspecto interior se funde com o exterior: o homem está totalmente do lado de fora. Não há nem pequenos assuntos privados, nem a vida ordinária: todos os detalhes da vida - comida, bebida, artigos de uso doméstico - têm o mesmo valor dos grandes acontecimentos, tudo é importante e significativo.

Convém ressaltar que é o autor-criador quem trabalha na realização da arquitetônica nos enunciados do diário, organizando a interação entre as diferentes vozes sociais e entre a infraestrutura e a superestrutura. Os autores-criadores Clemer, Clenderci e Aldo são os responsáveis pela configuração do material, buscando uma forma composicional para a arquitetônica escolhida, organizando, assim, o diário como gênero do discurso.

Considerações finais

Pensar os agricultores como autores dos enunciados diários é pensar a complexidade da linguagem na vida humana, segundo a perspectiva bakhtiniana: uma posição avaliativa que organiza esteticamente a vida no cotidiano rural, no seu contexto concreto, por meio da linguagem do cotidiano. Esses registros produzidos no dia a dia, fora do ambiente escolar, também trazem contribuições para pensar as práticas sociais e culturais da escrita, a qual serve, antes de tudo, para a vida! A estética da vida está inscrita no ato ético e responsável da escrita realizada pelos três irmãos agricultores e organizada pelos autores-criadores nos diários.

Uma das contribuições deste estudo é mostrar que há interação entre o mundo da teoria e o mundo da vida por meio do ato único e responsável da escrita diária. O ato do agir humano é trazido do mundo da ética (da vida) para o mundo da cognição (ciência) e inscrito no diário pela estética do autor-criador. Essa organização estética é feita pelos autores-criadores Aldo, Clemer e Clenderci, em constante diálogo com os autores pessoas. O ato de escrita diz respeito a toda a vida humana expressa na linguagem do cotidiano, na singularidade do ser agricultor na inscrição diária, demonstrando diferentes pontos de vista sobre o mundo, reinterpretando-o a partir de seus projetos arquitetônicos.

Assim, cada autor-criador moldou uma estética de dizer a vida (inscrita no diário) à sua maneira. Essa estética é inacabada e aguarda o acabamento (não como finalização) do "outro". O "outro", que constitui o acabamento estético dos enunciados, é o próprio autor-criador que olha os acontecimentos de fora, porque ele não é o real participante, mas sim o organizador de um novo mundo. Além desse "outro" - autor-criador responsável pela organização estética dos enunciados -, o contexto social e as diferentes vozes sociais de cada um dos autores também se configuram como o(s) outro(s) presente(s) na autoria, por meio de um constante diálogo que acaba por revelar a vida. A vida vivida é objetivada no ato da escrita do diário e os autores são autores da vida e na vida, sem separações dos diferentes aspectos do cotidiano.

REFERÊNCIAS

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1Escritas de Clenderci Schmidt (Diário nº 1, 1982).

2Escritas de Aldo Schmidt (Diário nº 2, 1978).

3A família é composta por 12 irmãos, mas na pesquisa são evidenciados apenas três (Aldo, Clemer e Clenderci), que se dispuseram a participar do estudo e emprestar o material.

4A utilização dos nomes, dados pessoais e demais materiais para a pesquisa foi autorizada por escrito, por meio de termo de consentimento.

5Tese de Doutorado em Educação defendida no PPGE/FaE/UFPel, sob a orientação da Profª Drª Eliane Peres, com o título: "O autor-criador e o(s) outro(s): a estética da vida na escrita de diários de irmãos agricultores".

6O Círculo era um grupo multidisciplinar e tinha em vista um interesse comum pelas questões da linguagem, sendo que um dos seus destaques foi o russo Mikhail Mikhalovich Bakhtin (1895-1975). O Círculo de Bakhtin não formava, em nenhum sentido, uma organização fixa, constituindo-se simplesmente de um grupo de amigos que gostavam de se encontrar e debater ideias e que tinham interesses filosóficos em comum. Às vezes, reuniam-se todos, porém, outras vezes, apareciam apenas dois ou três para discutir determinada obra particular (CLARK; HOLQUIST, 2008, p. 125).

7As transcrições foram mantidas no original, conforme os diários, sem correções.

8Vegetal que depois de seco serve para a fabricação de vassouras.

9Para a pesquisa foram utilizados os 11 diários, mas há mais cadernos que continuaram sendo escritos após a coleta do material na casa de Aldo.

10Na pesquisa, foram utilizados somente os diários escritos por Clemer.

11No mesmo caderno, há o início da escrita em 1993 (de 1º de janeiro a 5 de janeiro), porém a maioria das folhas permanece em branco no restante do caderno.

12Diamante é uma variedade de pêssego cultivada por Aldo. Carregar o cisco significa retirar da lavoura palhas secas. O autor costuma dar nome às lavouras que cultiva, por isso o nome BR ("carregamos sisco do meio dos BR").

13É uma semente que serve para alimentação de galinhas e demais animais.

14Toradas (toras) são madeiras grossas usadas para fazer tábuas.

Recebido: Março de 2015; Aceito: Maio de 2015

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