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Ciência da Informação

versão impressa ISSN 0100-1965versão On-line ISSN 1518-8353

Ci. Inf. v.33 n.2 Brasília maio/ago. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-19652004000200006 

ARTIGOS

 

Henry Walter Bates: um viajante naturalista na Amazônia e o processo de transferência da informação1

 

Henry Walter Bates: a traveler naturalist in the amazon region and the process of information transference

 

 

Rubens da Silva Ferreira

M.Sc. em planejamento do desenvolvimento (UFPA/NAEA) com área de concentração em políticas públicas. Bibliotecário da Universidade Federal do Pará - Campus Bragança. E-mail: rsf@ufpa.br

 

 


RESUMO

A partir do século XVII iniciou-se na Amazônia toda uma movimentação de viajantes/naturalistas atraídos pela biossociodiversidade dessa região dominada por uma floresta tropical. Henry Bates (1825-1892), estudioso de história natural, foi um deles, tendo, porém, se deslocado para o Norte do Brasil entre os anos de 1848 e 1859. Nesse contexto, o presente paper tem como objetivo analisar o processo de transferência das informações produzidas por esse viajante naturalista após 11 anos de trabalho de campo. A partir do material bibliográfico reunido para esse fim, verificou-se que tal processo foi bem-sucedido, como evidencia a ampla circulação das obras publicadas por Bates. Transcorridos 156 anos dessa expedição, a produção científica de Bates continua a participar do circuito acadêmico de produção de conhecimento sobre a Amazônia na contemporaneidade, qual seja no campo da biologia, da zoologia, da sociologia, da história ou da antropologia.

Palavras-chave: Henry Walter Bates; Transferência da informação; Amazônia; História natural; Viagens.


ABSTRACT

From the XVII century on, in the Amazon it began a moving of traveler naturalists as they were attracted by the biosociodiversity of the region, which was dominated by a forest of a tropical type. Henry Bates (1825-1892), a Natural History's scholar, was one of them, though he dislocated to the North of Brazil later on, between the years of 1848 and 1859. In such a context and through this paper, it is intended to analyze the process of transference of information that was produced by this traveler naturalist after 11 years of fieldwork. With basis on the bibliographic material that was selected towards this endeavor, it was verified that such a process was successful as an ample circulation of the Bates' published work reveals it. Exactly after the 156 years of this expedition, the scientific production of Bates continue to participate of the academic knowledge's circuit referring to the Amazon in the contemporary times, be it in the field of the Biology, Zoology, Sociology, History or of the Anthropology.

Keywords: Henry Walter Bates; Information transference; Amazon; Natural History; Travels.


 

 

INTRODUÇÃO

As palavras informação e Amazônia são de grande ressonância no mundo contemporâneo. Mas enquanto a primeira destaca-se por seu caráter fenomenológico, sendo humanamente produzida e disseminada em diferentes contextos socioculturais, a segunda chama atenção por sua biossociodiversidade. Contudo, só mais recentemente a informação tem atraído estudiosos de diferentes domínios do saber, no sentido de compreender seus mecanismos de produção, processamento, transferência e uso. A Amazônia, por sua vez, tem despertado o interesse de homens ligados à ciência desde as primeiras décadas do século XVIII, quando europeus, como La Condamine, cruzaram o Atlântico para conhecer a geografia, a flora, a fauna e os modos de ser e de viver dos povos da América do Sul, em particular na floresta cujo nome lembra as mitológicas mulheres guerreiras que Gaspar de Carvajal (Belluzo, 1994; Papavero et alii, 2002) alegara ter visto em sua viagem ao norte do Brasil, no ano de 1542.

Do contato com uma realidade que se mostrava nova ao olhar europeu, foram produzidas informações de toda ordem que, disseminadas no Velho Mundo, acabaram por inspirar uma sucessão de outras expedições na Amazônia. As peculiaridades de sua floresta tropical que abriga espécies de mamíferos, aves, répteis, peixes, insetos, plantas e povos nativos cuja sobrevivência depende desses recursos alimentaram representações paradoxais sobre a vida nessa parte do Brasil. Exuberância natural e atraso socioeconômico, povos exóticos e inferioridade cultural foram algumas dentre as tantas impressões ambivalentes que os viajantes/naturalistas levaram de suas passagens pela Amazônia para a Europa, desde que ela foi "descoberta" nas primeiras décadas do século XVI.

Um misto de espírito aventureiro e curiosidade científica motivaram expedições como a de La Condamine (1701-1774), Spix (1781-1826), Martius (1794-1868), Spruce (1817-1893) e Wallace (1823-1913), em um país até então carente de quaisquer informações sobre seus recursos humanos e naturais. Diante desse contexto, como o próprio título sugere, interessa neste paper analisar o processo de transferência das informações produzidas pelo naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892), durante 11 anos de trabalho de campo na Amazônia2. De acordo com Loureiro (2004, p. 90), esse processo está circunscrito no âmbito da comunicação científica, a qual para Garvey (1979 apud Souza, 2004, p. 136) constitui-se das atividades complexas de "produção, disseminação e uso da informação" para o desenvolvimento da ciência. E, embora nos dias atuais a comunicação científica tenha sido facilitada pelas inovações tecnológicas, há de se considerar que, até a segunda metade do século XX, o intercâmbio de informações entre os que participavam da comunidade científica era significativamente afetado por barreiras espaço-temporais, como as que inviabilizavam o contato dos viajantes/naturalistas com os seus pares na Europa.

Ante o exposto, este paper está estruturalmente organizado em quatro partes. Na primeira, faz-se uma discussão acerca da informação e do seu processo de transferência na comunidade científica. Posteriormente, um breve apanhado sobre Bates e sua viagem é apresentado como forma de expor ao leitor o sujeito sobre o qual se fala, bem como o seu itinerário marcado por esplendores, perigos e desencantos em solo amazônico. Posteriormente, na parte terceira, procede-se à análise propriamente dita do processo de transferência das informações produzidas em campo por esse viajante inglês. A quarta parte, por sua vez, constitui-se das considerações finais quanto ao olhar lançado sobre tal processo, com enfoque na contribuição de Bates, cujo trabalho permanece como uma referência para os estudos contemporâneos centrados na biossociodiversidade da Amazônia. para a história natural.

 

A INFORMAÇÃO E SEU PROCESSO DE TRANSFERÊNCIA

O fato de que, desde as suas origens, o homem necessita permanentemente de informação para agir cotidianamente no mundo a torna um recurso de capital importância para a humanidade. Seu consumo diário e, por isso, similar a certas necessidades vitais acaba por mascará-la no pragmatismo da vida diária, tornando sua troca social quase que completamente imperceptível3. Desse modo, o que se quer dizer nessa direção é que o homem seja aquele inserido em sociedades simples ou complexas troca informações com a mesma mecanicidade com a qual come e/ou respira, sem que necessariamente ele tenha a consciência dessa prática. Notadamente essas considerações servem para mostrar que, antes de despontar como objeto de estudo na segunda metade do século XX,4 a informação ocupava uma dimensão comum na vida humana. Foram sobretudo as inovações tecnológicas nas comunicações alavancadas após a II Guerra Mundial que fizeram com que ela viesse a transpor esse nível comum para o status de recurso estratégico de desenvolvimento (Castells, 1999; Ferreira, 2003) não só para as nações, mas também para o homem em seu potencial criativo e intelectual.

Contudo, se na dimensão mais simples do cotidiano o acesso/uso da informação não exige uma ação mais sistemática, o mesmo não se dá no campo da ciência, uma vez que é nele que se realiza a produção de conhecimento científico e tecnológico. Nesse ponto, tanto a coleta quanto a análise e o uso das informações, reunidas no sentido de testar a aplicabilidade das hipóteses propostas para um determinado problema de pesquisa, envolve uma conduta metódica, haja vista que o pesquisador orienta essas atividades em direção à produção de novos conhecimentos sobre a realidade investigada. Desse modo, o cientista/pesquisador tem ou deveria ter , ao longo desse processo, a consciência plena da importância da informação enquanto matéria-prima que ele processa em seu ofício.

É dentro desse quadro de referência que a informação pode ser entendida como um elemento estruturador de conhecimento, seja ele de natureza empírica, filosófica, teológica ou científica. Ela, por sua vez, estrutura-se a partir de signos lingüísticos cognitivamente processados de modo a formar sentido sobre aquilo que o homem vê, ouve, sente e pensa, sendo então transferida por meio da ação comunicativa. Dado o seu caráter imaterial, a informação pode ser representada de formas diversificadas, tais como som, imagem e texto. Esta última, aliás, é a preferida pela comunidade científica, uma vez que a socialização dos resultados das pesquisas dá-se mais amplamente por meio de artigos de periódicos e livros. Ademais, conforme Price (1975), as informações resultantes da atividade científica só são incorporadas aos estoques de conhecimento depois de publicadas e julgadas como relevantes pelos demais cientistas para a produção de novos conhecimentos.

A partir do século XVII, a troca de informação entre cientistas ganhou inovação com a publicação dos primeiros periódicos científicos5. Por volta de 1850, já existiam cerca de mil títulos em circulação, que, em 100 anos, aumentaram dez vezes em número (Figueiredo, 1979; Smit, 1986). Como se vê, o volume de informações produzidas no campo científico se multiplicou à medida que a ciência foi se desenvolvendo, expandindo-se conseqüentemente em número de pesquisas. Assim, por trás dessa expansão, opera todo um processo de transferência, o qual está permanentemente a alimentar a comunidade científica. Tal processo corresponde à ação concreta de socialização da informação, a qual pode envolver um ou mais canais de comunicação. Esses canais podem ser tanto uma conferência quanto um paper, um e-mail ou um capítulo de livro (Souza, 2004; Loureiro, 2004). Desse modo, na figura 1 tem-se um modelo explicativo acerca desse processo no âmbito científico.

 

 

A idéia de processo, enquanto ação contínua, está bem representada nessa figura. Nota-se que o cientista participa desse processo em duas instâncias. Na primeira, ele se alimenta da transferência da informação para pôr em curso seu empreendimento científico. Em outra instância, ele passa a alimentá-la quando os resultados de sua pesquisa são comunicados, legitimados pelos seus pares e incorporados aos estoques de conhecimento científico (Souza, 2004; Loureiro, 2004), passando então a fazer parte desse processo como um sujeito ativo. É esse continuum que garante a "oxigenação" da ciência, contribuindo assim para que o conhecimento científico não seja algo estanque; mas que se renove e se transforme à medida que novos repertórios informacionais são agregados a ele. Prova disso são os estágios contemporâneos das ciências humanas e naturais em seus arcabouços teóricos, notadamente bem mais desenvolvidos que nos primórdios dos séculos XVII e XVIII.

Embora o processo de transferência da informação seja uma atividade seminal para a ciência, Figueiredo (1979) explica que ele não é de todo perfeito, como pode sugerir a simplicidade da figura 1. Decerto, este processo está sujeito a ruídos e interferências variadas, tal como ocorre em qualquer contexto comunicativo, e que, por isso, são fáceis de ser enumeradas. Problemas relacionados à linguagem,6 cultura informacional negativa em instituições de pesquisa, etnocentrismo científico, escassez de recursos para publicações, hermetismos acadêmicos e a falta de estímulos governamentais seriam algumas das perturbações às quais a transferência da informação estaria sujeita.

Quanto às dificuldades que se impõem a este processo, Oliveira (2004, p. 79) observa que a transferência da informação em países com diferentes níveis de desenvolvimento é marcada, também, pela desigualdade nas condições de produção e de circulação do conhecimento científico. Assim, enquanto nos países ricos os pesquisadores/cientistas conseguem alcançar grande visibilidade em seus estudos ao publicá-los em periódicos e livros estrangeiros, nos países em desenvolvimento a divulgação dos resultados das pesquisas fica concentrada em publicações nacionais, regionais ou locais. Para superar essa realidade, Oliveira (2004, p. 134) acredita que o uso das novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI) pode viabilizar uma circulação mais ampla do conhecimento produzido nas nações em desenvolvimento. Por outro lado, entraves temporais e espaciais também participam desse quadro de interferências, ainda que no advento de uma sociedade que Masuda (1982), dentre outros autores do pós-modernismo, interpreta como "da informação" tenham sido minimizadas com a introdução das redes de comunicação, como a Internet.

Em contraste com os avanços tecnológicos deste século, certamente eram várias as dificuldades enfrentadas pelos viajantes/naturalistas no processo de transferência da informação, em especial se levar-se em conta que a comunicação intercontinental dependia exclusivamente da via marítima. Mas, como se verá adiante, isso não impediu que Henry Bates socializasse as informações originadas de seu estudo sobre a Amazônia à comunidade científica oitocentista.

 

UM VIAJANTE/NATURALISTA, SUAS MOTIVAÇÕES, AVENTURAS E INFORTÚNIOS

Desde 1542, muitos foram os europeus que traçaram rotas de viagem à Amazônia. Alcides Dessalines D'Orgigny (1802-1857), Edward F. Poeppig (1798-1868), Carl Friedrich von Martius, Johann von Spix, Johann Natterer (1787-1845) e Richard Spruce são nomes ilustrativos das explorações científicas pioneiras nessa parte do Brasil (Cunha, 1991; Lorch, 2000; Pereira, 2003). Henry Walter Bates ali chegara em 1848, aportando na cidade de Belém no dia 26 de maio, em companhia de seu amigo Alfred Wallace (Bates, 1863, 1944; Cunha, 1991)7. Reunir informações em direção ao aprofundamento da teoria das espécies desenvolvida por Darwin era o norte que orientava o interesse desse inglês, que desde a infância inclinava-se pela história natural. Essa motivação permite situar a viagem de Bates no contexto das "expedições científicas" no Brasil, que buscavam especialmente contribuir para a ampliação do conhecimento em determinadas ramificações da ciência. Bates, nessa perspectiva, interessava-se pela entomologia.

Expedições dessa ordem tornaram-se possíveis aos viajantes não-portugueses graças ao casamento de dom Pedro I com a imperatriz Leopoldina. Antes dessa união matrimonial, negociada entre dom João VI e o imperador da Áustria, Francisco I (Norton, 1938; Cunha, 1991), a entrada de estrangeiros era proibida para assegurar a integridade da posse de Portugal sobre a colônia sul-americana. Exemplo disso foi a recusa para a entrada de Alexander Humboldt (1769-1859) na Amazônia, em meados do século XVIII (Oliveira Filho, 1987; Cunha, 1991; Belluzo, 1994), em função dos embates políticos que ocorriam na Europa entre o reino da França e a metrópole lusitana. A mudança de Leopoldina para o Brasil inaugurou, assim, um período de produção de informações de caráter científico, em um país sobre o qual pouco se conhecia acerca de seus recursos naturais e populações nativas. Com Bates e Wallace, a viagem à Amazônia seria facilitada pelas relações comerciais de longa data entre Portugal e Inglaterra.

Inicialmente Bates deteve-se em alguns levantamentos exploratórios da floresta no entorno da capital paraense, mais precisamente no largo de Nazaré, onde ficara a residência que o abrigara durante sua estada em Belém. Àquela época, a cidade era ocupada por uma população de 3.200 habitantes e circundada por uma mata que, como ele bem descrevera, era "um paraíso para os naturalistas, e se é contemplativo não há situação mais favorável para abandonar-se a esse pendor" (Bates, 1944, p. 84). Os insetos amazônicos o fascinavam, sobretudo por sua diversidade e tamanho. A tocandira (Dinoponera grandis), uma formiga carnívora comum na região, chamara a atenção de Bates por suas dimensões superiores às das formigas inglesas. Por conseguinte, esses contatos iniciais com uma fauna ímpar certamente alimentavam as expectativas desse viajante quanto ao que ele ainda poderia observar na Amazônia.

Em comparação ao que lera sobre a fauna do continente africano, Bates notara que a vida animal na floresta tropical brasileira era menos expressiva em número e variedade de mamíferos. Sobre esta evidência, comentara o viajante europeu que:

O Brasil é, entretanto, pobre em animais terrestres (...). Ficaria desapontado quem esperasse encontrar aqui bandos de animais comparáveis às manadas de búfalos, hordas de pesados paquidermes de África do Sul (Bates, 1944, p. 106).

O silêncio da floresta contrariara a multiplicidade de sons que ele esperava ouvir, sendo às vezes tocado por sentimentos de solidão e de melancolia em meio à mata. Mas era à medida que se distanciava de Belém, percorrendo o interior do Pará e do Amazonas, que os perigos começavam a pôr ânimo em sua expedição que passara pelo rio Tocantins e pelas cidades de Cametá, Santarém, Óbidos e Éga, esta última, aliás, conhecida contemporaneamente como Tefé (AM).

Às proximidades de Éga, ele e os homens que o acompanhavam depararam-se com uma sucuri (Eunectes murinus) e um jacaré-açu (Melanosuchus niger). Sobre o encontro com esse último animal, Bates descrevera que:

(...) o objetivo [da excursão] era encontrar tartarugas nos lagos da floresta (...). Depois que a rede estava arrumada em círculo e os homens haviam mergulhado, viu-se que havia um jacaré preso nas malhas da rede. Não houve pânico apenas receio de que o bicho a rasgasse (...). Um índio miranha perdeu o equilíbrio e ninguém mais conseguiu parar de rir e gritar. Finalmente, atendendo as instruções que dei da margem, um rapaz (...) o arrastou até a margem. Eu havia cortado um grosso pedaço de pau e, assim que o jacaré foi trazido para terra, dei-lhe uma forte paulada na cabeça, que o matou (...). Aquele era um caimã grande (...). Suas mandíbulas de 50 centímetros eram perfeitamente capazes de cortar ao meio a perna de um homem (...) (Bates, 1944, p. 253).

Mas, se a natureza oferecera aventuras desse tipo ao viajante/naturalista inglês, ela também o abatia no corpo. Na Amazônia do século XIX, a febre amarela era uma moléstia que assustava ao homem europeu. Bates, em suas idas ao campo, não escapara dela, fato que notadamente acabara por interferir na continuidade do trabalho que pretendia estender até as cidades de Pebas e Moibamba, ambas situadas no Peru.

Contudo, não só a febre amarela abatera Bates, mas também o esgotamento físico resultante da labuta intensa numa região de clima tropical, tal como deixa transparecer no relato abaixo:

(...) Minha febre parecia ser a culminância da deterioração da saúde, que se vinha processando há alguns anos. Expusera-me demais ao sol, trabalhara além de minhas forças seis dias por semana, além de tudo, sofrera muito com a alimentação má e insuficiente (...) (Bates, 1944, p. 390).

Ao que tudo indica, as incursões intensas de europeus na Amazônia afetavam sobremaneira a saúde dos viajantes, a exemplo do que ocorrera também com Langsdorff e Agassiz (Cunha, 1991)8. Nessa direção, após viver anos ao norte do Brasil e debilitado, Bates decidira regressar à Inglaterra, em 2 de junho 1859.

 

BATES E A TRANSFERÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Bates não colocou em circulação imediata as informações que produziu em campo. Seu estado de saúde e a falta de recursos foram fatores que certamente interferiram nesse sentido. Transcorridos três anos do regresso do naturalista à Inglaterra, ele publicou seu primeiro trabalho a partir dos dados coletados em campo: um artigo sobre as espécies de insetos que o interessaram na Amazônia. Contributions to an insect fauna of the Amazon Valley: Lepidoptera, Heliconidae foi apresentado pela primeira vez nos Transactions da Sociedade Lineana de Londres (Catalogue, 1922). Esse trabalho conferiu prestígio acadêmico a Bates por conta de sua teoria sobre o mimetismo. A figura 2 é representativa de uma espécie mimética de mariposa (Sesia titan) da Amazônia, observada pelo naturalista inglês, e cujas formas anatômicas lembram as de um beija-flor. Assim, o mimetismo batesiano persiste enquanto teoria discutida no âmbito dos estudos entomológicos, e seu artigo continua a ser reeditado em periódicos científicos, não sendo raro encontrá-lo em revistas hoje publicadas em formato digital e disponibilizadas na Internet.

 

 

Contudo, o volume de informações produzidas por Bates nos anos de permanência na Amazônia estava longe de se esgotar com a publicação de um artigo. Da coleção de cerca de 14.800 espécies reunidas pelo inglês em suas incursões ao campo (Comentário, 1944; Silva, 1971; Lorch, 2000), 8 mil eram desconhecidas para a ciência. Durante os anos de estudo, ele conseguiu reunir informações sobre mamíferos, répteis, aves, peixes, insetos e moluscos, dentre tantos outros seres da fauna amazônica. Darwin (1809-1882), que visitara o Brasil anteriormente a Bates, no ano de 1832 (Cunha, 1991), estimulou-o a escrever um livro para divulgar suas descobertas e observações sobre a flora, a fauna e o modo de vida do homem amazônico. Foi assim que, em 1863, Bates publicou a primeira edição de The naturalist on the river Amazon9. Redigido em um estilo narrativo em que o discurso científico imbrica-se no literário, a obra ganhou aceitação não apenas nos círculos acadêmicos da Europa, mas também entre um público letrado não iniciado na história natural, que o lia como um interessante livro de aventuras.

Um ponto que merece comentário no contexto das expedições científicas na Amazônia diz respeito aos diários de campo e às correspondências pessoais, documentos que possuem importante papel no processo de transferência da informação, tanto nos séculos mais remotos da história da ciência, quanto nos períodos mais recentes da produção de conhecimento científico. Os diários redigidos pelos viajantes e naturalistas eram mais ricamente detalhados se comparados às publicações impressas que eram lançadas no circuito editorial. Descrições pormenorizadas dos seres, das coisas, dos costumes dos povos, dos sentimentos e das inquietações intelectuais em campo são apenas alguns dentre os conteúdos possíveis desses diários, enquanto registros primeiros, porém pouco sistematizados, do contato dos viajantes/naturalistas com o mundo observado.

Entretanto, quando do retorno ao país de origem, seus autores os submetiam a uma seleção editorial sobre o que mereceria constar ou não na publicação. Essa triagem atendia, assim, ao critério de objetividade da comunicação científica, no sentido de tornar o texto menos subjetivo, ainda que isso nem sempre fosse possível, a julgar pelos preconceitos de toda sorte manifestados por alguns europeus sobre os modos de ser e os costumes dos brasileiros, a exemplo dos posicionamentos de Hercule Florence (1804-1879) ([1941], p. 96-97) quanto à população de Cuiabá, retratada nitidamente como inferior para os padrões socioculturais do Velho Mundo. Nessa direção, muitas passagens das expedições científicas não vieram a público. No caso particular de Henry Bates, seu diário e manuscritos poderiam ser reveladores sobre dois dos quatro anos de sua passagem por Santarém, aos quais ele nada menciona em The naturalist on the river Amazon (Cunha, 1991). Certamente esse é um trecho da vivência do viajante/naturalista inglês que permanece em mistério, sobretudo quanto aos detalhes de seu estudo sobre a fauna dessa cidade paraense.

Como foi dito anteriormente, na história da ciência, a correspondência dos cientistas integrou o processo de transferência da informação como importante canal de comunicação de dados e de evidências. Segundo Outram (1996), as cartas dos viajantes/naturalistas constituem uma documentação tão valiosa quanto os diários, especialmente pelo fato de que permitem reconstituir parte do background dessas expedições, trazendo à tona as particularidades dos contatos desses sujeitos com seus pares, agentes financiadores ou mesmo com familiares. Mas, durante o levantamento bibliográfico para este paper, não foi verificada qualquer referência acerca da publicização de tal documentação, a exemplo do que se tem recentemente sobre as cartas de Martius, pertencente ao acervo da Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará (UFPA), e objeto de análise do artigo de Izabel Arruda (2003), escrito para o XI Congresso da Associação Latino-americana de Estudos Germanísticos.

Provavelmente Bates realizou contatos regulares (ou mesmo esporádicos) por correspondência com seus compatriotas, notadamente quando da remessa de duplicatas para o British Museum. Entretanto, em que pese a falta de informações nessa direção, um dado sobre o qual se tem conhecimento diz respeito à precariedade de notícias quanto aos acontecimentos científicos, políticos, sociais e culturais que se sucediam na Inglaterra e no restante da Europa, nos anos em que ele permanecera no Brasil (Bates, 1863, 1944). Dadas as condições de isolamento durante o trabalho de campo na Amazônia, Pinheiro (2003) argumenta que os viajantes/naturalistas eram quase que completamente esquecidos quando se ausentavam de seu país de origem, embora houvesse inicialmente toda uma repercussão social ante os preparativos da viagem propriamente dita. Desse modo, ainda que a Amazônia fosse atrativa enquanto espaço empírico para os estudos em história natural, Henry Bates não deixou de desanimar-se com a falta de contato com o Velho Continente, mais precisamente da companhia de homens do mesmo nível cultural e intelectual, com os quais pudesse discutir acerca de suas observações e descobertas científicas.

Muito embora as evidências produzidas pelos viajantes e naturalistas tenham sido amplamente registradas na forma de texto, como é o caso dos diários de campo, das correspondências, dos livros e dos artigos publicados em periódicos científicos, significativa foi também a utilização de recursos imagéticos para a representação das informações coletadas durante suas incursões à mata. Tem-se, assim, na produção científica dos viajantes/naturalistas dos anos de 1800, uma diversidade de imagens que, na medida do possível, e às vezes com tal perfeição ou ainda de forma romanceada, reproduzem o ambiente explorado, os seres e o cotidiano das comunidades indígenas e não-indígenas. Nessa perspectiva, Bates não foi um dos que mais explorou tal forma de representar a informação, mas o conjunto das 41 plates que compõem a iconografia dos dois volumes da obra The naturalist on the river Amazon chama a atenção pela riqueza dos detalhes e, principalmente, por terem sido esboçadas pelo próprio naturalista. De fato, na história natural, era e continua a ser importante não apenas a descrição textual aguçada sobre o objeto observado, como também o registro iconográfico minucioso do mesmo para fins taxonômicos.

Diferentemente de Friederick Alexander, barão de Humboldt, que dedicou várias folhas dos 29 volumes de Voyage aux régions équinoxiales du Nouvou Continent (1805-1837) à representação imagética das plantas que estudara em sua viagem à América do Sul, muitas das quais em plates coloridas, Bates deteve-se a uma ilustração mais sucinta de sua expedição à Amazônia. As imagens impressas em preto e branco tratam de temas que variam entre a botânica e a zoologia, permeando também a etnologia; este último tema, aliás, pode ser visto na figura 3, onde estão representados os índios Ticuna com suas tradicionais máscaras cerimoniais. As ilustrações correspondentes à história natural foram elaboradas por ele próprio, sendo que, mais tarde, alguns esboços foram aperfeiçoados por artistas como Wolf, Zwecker e Robson (Bates, 1863, 1944). No quadro de análise da transferência da informação, essa iconografia desempenha uma função seminal no que concerne à exposição da paisagem visitada e analisada pelos viajantes e naturalistas entre os séculos XVII e XIX. Por meio delas, Bates pôde efetivamente mostrar à Europa a biossociodiversidade de uma floresta tropical que muito estimulava o imaginário da sociedade da época.

 

 

Sobre as correspondências, os diários de campo e as publicações, com ou sem registros iconográficos, pode-se dizer que tais documentos satisfaziam às necessidades de comunicação dos viajantes/naturalistas, como canais amplamente utilizados no processo de transferência da informação entre os séculos XVII e XIX. Uma evidência nesse sentido é o trabalho de Bates, que, como a demais documentação produzida pelos europeus que se deslocaram para estudar a floresta tropical brasileira, tornou-se uma obra clássica sobra a Amazônia. Dedicado à história natural, ciência caracterizada por interesses difusos sobre os seres vivos e seu ambiente, esse viajante inglês acabou por contribuir para o desenvolvimento de pesquisas posteriores no campo da botânica, da zoologia, da história, da sociologia e da antropologia sobre essa região. Ao longo de 156 anos de várias edições e reimpressões, as publicações de Bates continuam a participar do processo de transferência da informação como fonte de estudos históricos, ambientais e socioculturais sobre a Amazônia deste século, mesmo que com suas populações e ecossistemas há muito impactados pela ação antrópica desordenada.

 

NOTAS CONCLUSIVAS

Em que pesem as condições tecnológicas no século XIX para a transferência da informação, Henry Bates pode ser considerado um viajante/naturalista bem-sucedido nos termos de uma circulação mais ampla das evidências produzidas por ocasião de sua expedição na Amazônia. O conhecimento produzido acerca do mimetismo rendeu a ele o reconhecimento das associações científicas londrinas, mas sem que com isso conseguisse ascender na carreira de naturalista. Sem formação acadêmica em ciência, Bates foi nomeado apenas para ocupações de menor status científico, como a de secretário-assistente da Royal Geographic, e convidado na condição de colaborador da Linnean Society e da Entomological Society of London para estudos de história natural. Assim, ao contrário do que uma tal vivência no sofisticado circuito científico londrino possa suscitar quanto a um estilo de vida economicamente elevado, esse viajante viveu de forma modesta e com dificuldades até falecer em Londres, no dia 16 de fevereiro de 189210.

Quanto às barreiras no processo de transferência da informação, notadamente foram o cansaço e a saúde debilitada que o levaram a retardar a publicação das evidências que registrara sobre a flora, a fauna e as populações amazônicas. Mas, vencidas essas dificuldades, os trabalhos publicados por Bates superaram inclusive os entraves idiomáticos ao serem traduzidos para o francês, para o alemão e para o português. Dessa maneira, as informações produzidas por ele aumentaram significativamente no que concerne às suas possibilidades de circulação entre a comunidade científica e mesmo entre um público não-acadêmico.

Contemporaneamente, ao considerar-se somente The naturalist on the river Amazon, a diversidade das informações de Bates sobre essa região do Brasil satisfazem às necessidades informacionais de pesquisadores de diferentes formações acadêmicas, tais como botânicos, historiadores, zoólogos, sociólogos, entomólogos e antropólogos, indo, portanto, para além do domínio de determinado campo científico. E, mesmo no atual estágio da ciência, as informações colocadas em circulação por Henry Bates no século XIX continuam a alimentar a produção de novos conhecimentos. Assim, quer fazendo parte de acervos científicos raros ou disponibilizada em formatos digitais,11 as obras desse viajante/naturalista são, sem dúvida, das mais populares entre os estudiosos sobre a Amazônia em seus aspectos sociais, históricos, culturais e ambientais.

 

REFERÊNCIAS

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Artigo recebido em 19-06-2004 e aceito para publicação de 18 a 21/10/2004.

 

 

1 Este paper é produto do projeto de pesquisa "Imagens da Amazônia: um estudo sobre a iconografia produzida nas expedições dos viajantes e naturalistas dos séculos XVIII e XIX", financiado pelo MCT, entre setembro de 2003 e abril de 2004, e executada no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Belém, Pará, Brasil.
2 O trabalho de campo realizado por Bates e outros viajantes/naturalistas entre os séculos XVIII e XIX não deve ser tomado como o método aperfeiçoado por Malinowski (1989), entre os anos de 1914-1918, nas ilhas Trobriand e Nova Guiné, e que se tornou um traço peculiar da pesquisa antropológica no século XX. Trata-se, pois, de um procedimento puramente descritivo, menos sistemático e baseado na observação direta da natureza e dos seres vivos que estão em interação com o ambiente. E, no que concerne às observações desses viajantes e naturalistas quanto aos relatos escritos sobre os povos indígenas com quem mantiveram algum contato, vale ressaltar que estes não chegam a constituir uma etnografia enquanto tal, pois as evidências coletadas eram insuficientes para estabelecer conexões entre os diferentes aspectos da vida social desses grupos humanos.
3 Nesse sentido, merece ser ressaltado que a informação permeia as várias instâncias da vida do homem, tanto em nível das micro quanto das macroestruturas sociais. Enquanto ser social, ele está a realizar trocas de informações de diferente natureza com o meio, sejam aquelas que permitam resolver pequenas questões do dia-a-dia, ou aquelas de natureza mais complexa, como as que se processam nos domínios da ciência.
4 Particularmente para a biblioteconomia e para a ciência da informação.
5 O Journal des Savants e o Philosophical Transactions foram os primeiros periódicos científicos, ambos publicados em 1665 (Figueiredo, 1979; Stumpf, 1996).
6 Como a dificuldade de expressão oral e/ou escrita e mesmo as de ordem idiomática, a exemplo das traduções omissas com termos imprecisos na língua do tradutor ou os erros de tradução em si.
7 Bates e Wallace planejaram sua viagem por três meses, antes de chegar ao Pará. Contudo, em Belém, os interesses particulares acabaram por separá-los após sucessivos encontros e desencontros, seguindo Wallace para o rio Negro e Bates para Tefé. Desta feita, Wallace será mencionado somente quando conveniente, uma vez que o foco deste trabalho recai sobre Bates.
8 Quando da passagem de Georg Henrik von Langsdorff (1774-1852) pelo rio Amazonas, uma forte febre se abateu sobre este viajante e sobre os homens que o acompanhavam em sua expedição. Tamanhas eram as dores no corpo que Langsdorff e sua comitiva perderam-se por alguns dias na mata, em meio à loucura repentina provocada pelas febres altas. Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873) foi outro viajante que retornou bastante fatigado de sua viagem pelas regiões brasileiras. Mesmo assim, Agassiz manteve um ritmo intenso de trabalho nos Estados Unidos para estudar as amostras que coletara no Brasil, o que, segundo Cunha (1991, p. 70, 77), levou-o a um ataque súbito de paralisia, da qual felizmente conseguira se restabelecer.
9 Posteriormente a esta primeira edição, Bates publicou outra versão de seu livro, em 1864, na qual subtraiu várias informações, muitas das quais de cunho faunístico, geográfico e sociocultural (Melo-Leitão, 1944).
10 Diferentemente de Bates, Wallace pôde sobreviver graças a uma pensão de 200 libras anuais, paga pelo governo britânico a partir de 1881 (Magalhães, 1939; Oliveira Filho, 1987).
11 A Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna, do Museu Paraense Emílio Goeldi, possui em seu acervo científico um exemplar da publicação original de The naturalist on the river Amazon, de 1863. Na Internet, essa mesma edição pode ser obtida integral e gratuitamente, em arquivo do tipo PDF, através do seguinte endereço http://manybooks.net/titles/bateshenetext00notra10.html .

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