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Ciência da Informação

Print version ISSN 0100-1965

Ci. Inf. vol.39 no.3 Brasília Sept./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-19652010000300010 

RECENSÃO

 

Textos escritos e editados pela autora Susan Pearce: visão analítica sobre os textos. Coleções: Corpo e Alma - Colecionadores e Coleções

 

 

Rose Cristiani Liston

Pedagoga, bacharel em letras e bibliotecária pela Fundação Lowtons de Educação e Cultura. Bibliotecária da Faculdade de Educação de Costa Rica-MS/FECRA - Costa Rica. E-mail: otntpa@yahoo.com.br

 

 

A formação de coleções como fator condicionante na organização do conhecimento -
Professor doutor Eduardo Ismael Murguia Marañon

Em seu texto intitulado Coleções: Corpo e Alma, a autora Susan Pearce liga a noção de narrativa para a recolha, observando que coleções são elementos significativos na nossa tentativa de construir o mundo, e por isso o esforço para compreendê-los é uma forma de explorar o nosso relacionamento com o mundo.

Pearce ( 1992, p. 36) nos descreve que o museu , como sabemos, guarda materiais da cultura passada, e ali são organizados separadamente, objeto por objeto, trazendo cada qual sua característica, uma vez que o acervo cultural não chegou aos museus em constante e firme fluxo, uma peça de cada vez.

Neste primeiro texto, observa-se que a preocupação dos colecionadores era voltada a objetos relacionados ao corpo e à alma, aos valores materiais. Parte-se do princípio que as coleções são parte importante da maneira de construir-se o mundo, pois a noção crucial semiótica é da metáfora e da metomínia, a chave que nos ajuda a destravar um aspecto fundamental da natureza das coleções, ou seja, tudo que está numa coleção, seja qual for o modo que tenha sido feito, resulta em uma seleção, que por sua vez é um ato crucial de um colecionador, independentemente da intelectualidade, economia ou razões indossincráticas que ele tenha quando decide como a coleção funcionará, o que selecionará e o que rejeitará. O que ele escolhe suporta um intrínseco, direto e orgânico relacionamento, que é o relacionamento metonímico para o material do corpo do qual foi selecionada porque faz parte integrante dele.

A partir dessa concepção, Susan Pearce nos relata que o processo cognitivo que o colecionador experimenta se liga na questão da alma, e Ellen (1988 apud PEARCE, 1992, p. 38-39) identifica quatro razões no processo cognitivo no trabalho, na geração deste tipo de representação cultural, que são as seguintes:

1) o reconhecimento de uma existência concreta ou da concretização das abstrações; 2) o estado de espírito no qual o significador e o significado recombinam em um só; 3) a atribuição de qualidades de organismos vivos para o objeto, frequentemente humanos; 4) um relacionamento ambíguo entre o controle do objeto por pessoas, e de pessoas por objetos.

O que se observa no contexto anteriormente descrito é que tal concepção representa um modo benéfico de ordenar o pensamento a respeito da gênesis de todas as formas do acúmulo de objetos e particularmente de como fazer uma coleção como a que nesse caso nos preocupamos. Os quatro princípios relatados podem ser organizados como momentos significativos num processo linear, em que o colecionador começa com sua experiência sensorial da descontinuidade do natural e cultural, que é a sua percepção de que as coisas são diferentes umas das outras, e que essas diferenças podem ser a base para ideias a respeito do que é selecionado e do que é rejeitado.

Toda análise do objeto, ou seja, o material físico numa coleção é escolhido baseado no seu processo, por exemplo, estrelas-do-mar ou louças romanas são vistas, sabe-se que elas têm seus próprios atributos distríbuidos e têm os próprios nomes descritos no esquema contemporâneo das coisas. Os verdadeiros objetos são reconhecidos em respostas a seus nomes e descrições e são selecionados para fazer parte da coleção. Pearce (1992) menciona que na prática os verdadeiros objetos e o processo cognitivo que lhes dá sentido nunca estão separados em nossa mente, pois isto acontece porque estamos lidando com o mundo material, no qual, como já relatado, os objetos são sempre realidade ou metonímicos dentro do seu próprio mundo e o sujeito da nossa imaginação metafórica.

Entretanto, é muito importante conhecer a metáfora (ou significado, mensagem) que tem sido acrescentada ao material original pela percepção humana. Dessa experiência humana veio a percepção que é compreensão, que é imposta ao mundo a qualquer momento, mas essa compreensão humana parece relutante em reconhecer esta distinção, e ela tende a supor que uma vez que o objeto pertence ao mundo real, a interpretação metafórica também, uma peça do próprio engano no qual o significador e o significado são combinados.

O que pode ser analisado neste texto é que todo o processo de coleção está relacionado a pontos predominantes, como o impulso, o desejo de colecionar; coleções como um jogo e coleção como autoextensão (poder) etc.

Todo este processo relaciona-se ao modo de pensar de cada colecionador, o porquê de colecionar. Quando se fala em impulso, desejo de colecionar, pode-se perceber que, em um mundo de objetos, pessoas diferentes tomaram coisas diferentes em seu coração, cada um com seu valor individual, pois a cada definição de coleção, abrem-se inevitavelmente irritantes objeções baseadas em exemplos específicos, ou seja, definições são úteis quando nos levam a pontos claros e quando se fala em coleções, tem-se várias formas de analisá-las, conceituá-las. Pearce (1992, p. 48) cita Durost (1932, p. 10), um dos primeiros estudantes de coleção, que apresentou a seguinte definição:

Uma coleção é basicamente determinada pela natureza do valor fixado para os objetos ou ideias. Se o valor predominante do objeto ou ideia para a pessoa que a possui é intrínseca, isto é, se é avaliado primeiramente para uso, propósito ou qualidade estética ou outro valor inerente ao objeto ou aumentando por seja quais forem as circuntâncias da clientela, formação ou hábito, não é uma coleção.

Portanto, o interesse do colecionador não é limitado pelo valor intrínseco do objeto de seu desejo, não importa o que custa, ele deve tê-lo.

Outra forma de se obter um objeto é por meio do jogo, possuí-lo como coleções de jogo e perto do jogo. Pearce (1992) descreve que nos tempos modernos colecionar está intrinsecamente enredado com a sociedade capitalista, e uma das principais características dessa sociedade é aguçada distinção entre ocupação e prazer; trabalha o jogo no qual ele venha para assumir dimensão filosófica de si mesmo.

Entretanto, para os colecionadores, colecionar é caracteristicamente uma atividade prazerosa que acontece numa hora diferente e num lugar diverso do dia de trabalho.

Obter um objeto para uma coleção significa obtê-lo através de regras que são características do jogo da coleção e que constituem o colecionamento com o todo, em que uma ideia na qual objetos e espécies pertencem a uma mesma classe, mas mostram diferenças detalhadas, por exemplo, a partir do momento em que começa a colecionar selos, você delimita regras de colecionar selos somente de determinada espécie, ou seja, somente selos postais da década de 50 de todos os países; você atribui uma regra, um jogo.

Nessa linha de raciocínio, pode-se observar que os objetos de uma coleção têm uma ligação verdadeira com o mundo, onde os conjuntos podem ser vistos como criações artísticas, fora ou dentro de si, parte da ligação do passado com o presente, ou seja, os colecionadores procuram o que eles amam e se envolvem em um esforço de autoafirmação que é caracteristicamente humano, não importando o quão trivial o material seja, onde ele próprio nunca é trivial.

O segundo texto - Colecionadores e Coleções - descreve, conforme relatado por O'Brien (1981 apud BELK, 1994, p. 317), que um entre três americanos estima colecionar algo. Colecionar é uma forma de consumo comum e intensamente envolvente. Quase não há trabalho anterior na área de pesquisa do consumidor. Este texto define o colecionar e apresenta alguns achados iniciais de pesquisa qualitativa sobre colecionadores. Proposições são derivadas de investigação adicional com respeito ao aparecimento e natureza do colecionar na sociedade americana contemporânea.

Belk (1994) relata que, por não existir um modelo integrado abrangente do colecionar na literatura da ciência social, aumenta-se o número de proposições em direção a um final. Os dados descritos por O'Brien sugerem que as coleções podem ser consequentemente classificadas em pelo menos três dimensões ou distinções: consciência/ inconsciência, vertical/ horizontal e estruturada/ desestruturada.

A dimensãoconsciência/ inconsciênciase refere ao campo para o qual o tema recorrente é intencional, proposital, reconhecido e/ou formalmente instituído como oposto ao não pretendido, acidental, abaixo do nível da consciência e/ou informalmente organizado. As coleções maiores ou menores em todos esses quatro atributos se estendem aos extremos dessa dimensão; casos mistos caem no âmbito médio. Um exemplo prototípico é a coleção de artefatos de propaganda que foi encontrada como uma atividade organizada e orientada a um objetivo, e que intencionalmente fornece um foco claramente reconhecido para o trabalho e os entretenimentos de vida do colecionador, até o ponto onde ele oficialmente instituiu um arquivo e designou a si mesmo como seu curador. Em oposição, a observação cuidadosa e a documentação fotográfica descobriram um tema inconsciente em coleção de objetos de arte de outro informante, em que um motivo animal recorrente se estende abaixo do nível da consciência consciente.

A dimensão vertical/ horizontal reflete o grau para o qual uma coleção é abrigada em um arranjo centralmente locado (com frequência literalmente 'vertical' em sua posição na parede ou nas estantes) enquanto oposto a estar espalhada ou dispersa por todo o espaço (de modo que visitar a coleção inteira requer movimento "horizontal"). Um exemplo ilustrativo dos dados é uma coleção de figurinos, estatuetas e pequenos objetos de porcelana que ocupava duas cristaleiras em ambos os lados de uma lareira da sala de estar de um informante; em certo sentido, se um objeto fosse removido desses arranjos verticais, não mais pertenceriam à coleção. Em vívido contraste, uma vasta coleção de corações, patos, gansos, maçãs e morangos de outra informante se espalhou horizontalmente por toda a casa dela; esses objetos impregnaram o espaço e apareceram em muitos lugares insuspeitos, que transformaram nossa exploração fotográfica da casa numa expedição de caça a corações e gansos.

Finalmente, a dimensão estruturada/ desestruturada relata o quão fortemente a coleção revela aspectos de ordem, equilíbrio e simetria enquanto oposta à entropia, propriedades intercaladas e desarranjo. Uma coleção estruturada é ilustrada por uma coleção de colheres de prata expostas em uma exibição bem ordenada, cuidadosamente equilibrada e altamente simétrica na sala de jantar de uma informante. Na verdade, sua regularidade estruturada pode refletir uma tendência da parte dela em perseguir a simetria, cujas manifestações visuais atingem sua apoteose nos padrões meticulosamente semelhantes das colchas, papéis de parede e cortinas no seu quarto principal construído recentemente, e no de visitas também redecorado. No outro extremo, a coleção de outra família de animais empalhados se espalha em volta da casa sem qualquer indicação particular de organização ou planejamento. Evidência similar da habilidade para tolerar ou mesmo preferir arranjos assimétricos aparece no padrão imperfeito de saliências nos armários de cozinha desta família, no gestaltismo violado ou sinergia negativa que caracteriza um canto do quarto principal, e no posicionamento dos objetos comparativamente pendentes para o lado de dentro e em volta da cama principal.

Combinar as dimensões consciente/ inconsciente, vertical/horizontal e estruturada/desestruturada dentro de um espaço tridimensional e tratar cada uma como simples dicotomia ou tricotomia produz uma tipologia de coleções fundamentada em vinte e sete ou oito, e estabelece adiante as possibilidades conceituais neste esquema de classificação particular. Empiricamente, algumas combinações parecem mais prováveis do que outras; em outras palavras, o fato real, as dimensões ou distinções são relatadas. As coleções consciente-vertical-estruturada e inconsciente-horizontal-desestruturada parecem mais prováveis do que outras, como coleções de colheres e figuras de Hummel assim contrastadas com o trabalho de arte animal e coleções de animais empalhados. Esses dois tipos estavam mais evidentes nas coleções domésticas documentadas por Ruesch e Kees em 1956. Também se espera que o primeiro esteja mais relacionado com o colecionador do Tipo B de Danet e Katriel em 1986, enquanto o último seria mais típico dos colecionadores do Tipo A. Entretanto, outras combinações também ocorrem e, conceitualmente, ainda outras são possíveis. Os corações e gansos eram conscientes-horizontais-desestruturados; uma coleção pesticida era inconsciente-vertical-semiestruturada.

Essas dimensões, tanto quanto um número de outras características estruturais e processuais, são essenciais para capturar a complexidade do comportamento do colecionar. Enquanto essa investigação naturalista sobre o colecionar prossegue, essas oito proposições serão mais refinadas ou remodeladas, e o fenômeno mais completamente interpretado através do prisma da pesquisa do consumidor.

Assim, nesta perspectiva dos dois textos apresentados, pode-se observar que ambos estão voltados para o que colecionar e quem coleciona. Percebe-se nesta análise que o processo de colecionar-se algo através da posse, do desejo, ocorre através do corpo ou alma e pode ser visto por meio de colecionadores e coleções, quais são os objetos a serem colecionados e porque os colecionadores o fazem. Alguns deixam claro que podemos obter objetos já em nossa posse como fator relevante de obtenção, visto que esse pode ser percebido como algo de valor estimável quando outro o quer. Percebe-se aí o real valor do objeto em posse, portanto coleciona-se o que se tem de forma diferenciada de percebê-lo, ou seja, há várias formas de percepção para adquirir o objeto desejado, e uma delas é saber realmente o que é colecionar e por que fazê-lo.

 

REFERÊNCIAS

ASOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NRB 10520: apresentação de citação em documentos. Rio de Janeiro, 2002.         [ Links ]

BELK, Russel W.Collectors and collecting. In: PEARCE, Susan M. Interpreting objects and collections. London: Rouledge, 1994.         [ Links ]

PEARCE, Susan W. Collecting: body and soul. In: ______. Museums, objects and collections: a cultural study. Washington, D.C: Smithsonian Instituion Press, 1992.         [ Links ]

 

 

Artigo submetido em 10/06/2009 e aceito em 29/03/2011.