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Pesquisa Agropecuária Brasileira

On-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.34 no.11 Brasília Nov. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X1999001100022 

PRODUÇÃO ANIMAL EM PASTAGEM DE MILHETO SOB DIFERENTES NÍVEIS DE NITROGÊNIO1

 

EDUARDO LONDERO MOOJEN2, JOÃO RESTLE3, GELCI CARLOS LUPATINI4 e ADAUTO GOMES DE MORAES5

 

 

RESUMO - O experimento foi conduzido em área da Universidade Federal de Santa Maria, RS, com o objetivo de verificar os efeitos de três níveis de adubação nitrogenada (0, 150 e 300 kg/ha de N) em pastagem de milheto (Pennisetum americanum (L.) Leeke) cv. Comum, sobre a produção animal. Foram utilizados novilhos de corte e avaliados o desempenho por animal, o número de animais.dia/ha e o ganho de peso vivo por área. O sistema de pastejo adotado foi o contínuo, com ajustes de carga para manter uma pressão de pastejo de 10%, caracterizando um resíduo médio de 3.168 kg de matéria seca/ha. As variáveis dependentes mostraram relação linear positiva com os níveis de adubação nitrogenada, o que denota o alto potencial do milheto.

Termos para indexação: adubação nitrogenada, carga animal, desempenho por animal, novilhos, produtividade animal, uréia.

 

ANIMAL PRODUCTION IN PEARL MILLET PASTURE UNDER DIFFERENT NITROGEN LEVELS

ABSTRACT - An experiment was conducted at the Universidade Federal de Santa Maria, in Santa Maria, RS, Brazil, with the objective of evaluating the effects of three N levels (0, 150 and 300 kg/ha), in pearl millet (Pennisetum americanum (L.) Leeke) cv. Comum, on animal production. Beef steers were assayed through daily liveweigh gain, gain per hectare and animals.day/hectare. A continuous grazing system was used, with stocking rate adjustments to maintain a 10% grazing pressure that characterized a medium residue of 3,168 kg of DM/ha. The dependent variables showed a positive linear relationship with the N levels, denoting the high animal production potential of pearl millet.

Index terms: nitrogen fertilization, carrying capacity, animal performance, beef steers, animal productivity, urea.

 

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa em forragicultura no âmbito da avaliação da produção animal em pastagens busca alternativas de espécies forrageiras para os diversos sistemas de produção pecuários. Neste contexto, o milheto (Pennisetum americanum) é, atualmente, uma forrageira cultivada de grande importância. Seu cultivo é realizado principalmente em sistemas de produção animal mais avançados. Sua característica principal é um alto potencial de produção de forragem com alta qualidade num período reduzido, no qual pode suportar pesadas cargas.

O N é o fator que mais limita a produção de forragem em ecossistemas de pastagens do mundo. Dentro de certos limites, ao ser adicionado ao solo provoca aumentos no rendimento de matéria seca e teor de proteína bruta (PB) na cultura de milheto (Hart & Burton, 1965).

Com a cultivar Gahi-1 de milheto, Hart & Burton (1965) obtiveram uma resposta linear em produção de matéria seca para níveis de 0 a 600 kg/ha de N.

Medeiros (1972), avaliando milheto comum no Rio Grande do Sul, com cortes simulando pastejo controlado, e sob o efeito de níveis de N (0, 100, 200 e 300 kg/ha), concluiu que o N aumentou o rendimento total de matéria seca (MS), bem como o teor e a produção de PB. Quantificou produções de MS de 7,9, 13,2, 17,7 e 18,2 t/ha, para os níveis testados, respectivamente. A relação linear (P < 0,047) expressou a relação entre MS e N.

Segundo Fribourg (1985), respostas lineares de gramíneas anuais de verão à fertilização nitrogenada acima de 200 kg/ha, têm sido obtidas. Para altos níveis de adubação, o parcelamento é essencial para o crescimento uniforme e o equilíbrio nutricional das plantas. No verão, em climas úmidos, de 15 a 20 t/ha de MS, podem ser conseguidas com aplicações de 400 kg/ha de N, ou mais.

Teores adequados de K e P, especialmente o de K, aumentam a eficiência das plantas em utilizar altas doses de N e transformá-lo em proteína (Lopes & Guilherme, 1989).

No Rio Grande do Sul, Cóser & Maraschin (1983) observaram, em pastagem de milheto, um ganho médio diário (GMD) de 0,78 kg e um ganho de peso vivo (PV) de 479 kg/ha, num período de 125 dias, com uma lotação média de 8,12 novilhas de 200 kg, com um resíduo superior a 1.200 kg/ha de MS. Maraschin (1979) aconselha que seja mantido um resíduo em torno de 2.000 kg/ha de MS (20 a 30 cm de altura).

O milheto é capaz de permitir um ganho de peso vivo de 1,0 kg/animal/dia e 400 kg/ha de peso vivo, durante 90 dias (McCartor & Rouquette Junior, 1977). Os autores informam que o ganho de peso vivo depende da forragem disponível, pressão de pastejo e qualidade, e que tanto a pressão de pastejo muito alta como a muito baixa reduzem o ganho.

Dunuvin (1970) obteve um ganho de 401 kg/ha de PV com a cultivar Gahi-1. McCartor & Rouquette Junior (1977) registraram um ganho máximo de 473 kg/ha de PV. Moraes & Maraschin (1988), trabalhando com pressões de pastejo de 4, 6, 8 e 10%, obtiveram um GMD de 0,50 a 1,21 kg e 0,50 a 1,24 kg, para os grupos genéticos Charolês e Zebu, respectivamente, com um ganho por hectare que variou de 259 a 572 kg de PV. Os mesmos autores citam que com o manejo adequado do milheto, pode-se obter até 7 kg/ha/dia de ganho de PV. Concluíram que diferentes pressões de pastejo modificam bruscamente a condição da pastagem do milheto, cujos resíduos de MS vão definir distintos desempenhos tanto por animal como por área.

O presente trabalho objetiva determinar os efeitos de doses crescentes de N em pastagem de milheto sobre a produção animal.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido em área do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal da Santa Maria, RS. Santa Maria situa-se na região fisiográfica da Depressão Central, com altitude média de 95 m, 29°42' de latitude Sul e 53°42' de longitude Oeste.

O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é Cfa (Subtropical úmido), com precipitação média anual de 1.769 mm; temperatura média anual de 19,2°C, insolação de 2.212 horas anuais e umidade relativa do ar de 82% (Moreno, 1961).

O solo onde foi conduzido o experimento classifica-se como Podzólico Vermelho-Amarelo distrófico, pertencendo à unidade de mapeamento São Pedro.

Os tratamentos constaram de três níveis de adubação nitrogenada em cobertura em pastagem de milheto cv. Comum: N0= 0 kg/ha de N (testemunha); N1= 150 kg/ha de N e N2= 300 kg/ha de N. O adubo nitrogenado utilizado foi a uréia. A adubação de cobertura foi fracionada em três aplicações a lanço em 29/12/91, 29/01 e 26/2/92 e aplicada a lanço.

O delineamento experimental adotado foi em blocos completos casualizados, com três tratamentos e três repetições.

As unidades experimentais possuíam áreas de 0,904 a 2,115 ha, totalizando uma área de 11 ha; quanto maior a dosagem de N, menor a área das unidades experimentais com o propósito de manter, no mínimo, três animais por unidade experimental. Utilizou-se também uma área adjacente com, aproximadamente, 8 ha, para manter os animais regulares (put-and-take).

O preparo do solo constou de uma escarificação, seguida de aração com arado gradeador e duas gradagens leves com uma grade de dentes. Foi feita uma terceira gradagem leve, imediatamente antes da semeadura.

A adubação básica (P e K) seguiu a recomendação de Siqueira et al. (1987) sendo feita individualmente por unidade experimental.

Foi utilizada uma densidade de semeadura de 22 kg/ha de sementes com valor cultural de 75%, o que correspondeu a uma densidade de 16,5 kg/ha com valor cultural de 100%. A semeadura foi realizada em 7/12/91, com uma semeadeira Fundiferro, em linhas com espaços de 0,40 cm, com posterior passagem de um rolo compactador. Da semeadura ao início da utilização, transcorreram 32 dias. O período de utilização sob pastejo foi de 8/1/92 a 3/4/92 (86 dias).

Foram usados animais testers e put-and-take (Mott & Lucas, 1952), pertencentes aos grupos genéticos Charolês, Nelore e seus cruzamentos. Os animais testers foram novilhos com idade entre 13 e 14 meses, com peso médio de 260 kg (peso médio inicial e final de cerca de, respectivamente, 230 kg e 290 kg). Os animais de todos os tratamentos tiveram acesso à mistura mineral. A vacinação anti-aftosa seguiu o calendário da Inspetoria Veterinária da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Rio Grande do Sul. O controle do carrapato foi realizado quando necessário, e a vermifugação, feita sistematicamente.

O ajuste da carga animal (CA) foi realizado a cada 28 dias, para uma pressão de pastejo (PP) de 10% (10 kg de MS/100 kg de PV/dia), deixando-se um resíduo de cerca de 3.000 kg/ha de MS e acrescentando-se a este o crescimento previsto para o período, o que representou a forragem disponível.

Os animais foram pesados com jejum prévio de 14 horas no início e final do experimento, e nas pesagens intermediárias foi adotado um jejum de seis horas. Por diferença de peso foi quantificado o ganho médio diário (GMD) dos novilhos no período total.

A variável animais.dia/ha (AD/ha) foi calculada pelo total de novilhos por tratamento, somando-se todos os períodos, e a carga animal (CA) média expressa em kg/ha de peso vivo foi calculada pela média de peso vivo por tratamento, em cada período.

Os ganhos de peso vivo (GPV) por área foram calculados multiplicando-se animais.dia/ha pelo ganho médio diário.

Foram realizadas análises de regressão das variáveis dependentes, tendo em vista os níveis de N aplicados. As análises foram feitas utilizando-se o sistema computacional SAS (1985).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O GMD apresentou uma relação linear positiva (P < 0,0925) com os níveis de adubação nitrogenada (Fig. 1). Os ganhos variaram de 0,553 kg a 0,764 kg.

 

 

De acordo com a literatura, pode-se, ou não, esperar mudanças no desempenho por animal em face da fertilização nitrogenada (Dougherty & Rhykerd, 1985; Favoretto et al., 1985).

O número de animais.dia/ha aumentou linearmente (P < 0,0003) com o aumento dos níveis de N (Fig. 2). Pela regressão, pode-se observar que o número de animais.dia/ha praticamente dobrou quando o nível de N passou de zero para 300 kg/ha, pois para um mesmo nível de oferta de forragem nos tratamentos, níveis mais altos de N resultaram em maior produção de forragem, estes, como conseqüência, suportaram maior carga animal, o que já era esperado.

 

 

A relação entre a carga animal média expressa em peso vivo/ha e os níveis de N é vista na Fig. 3. Observa-se que com o aumento dos níveis de N houve um aumento linear na carga suportada. A carga praticamente dobrou no nível mais alto de N em relação ao mais baixo. A variação de carga foi de 1.581 a 2.871 kg/ha de peso vivo.

 

 

Na Fig. 4, observa-se que, à medida que aumentou o nível de N, houve um aumento linear (P < 0,0005) no GPV/ha, que variou de 245 a 665 kg/ha, entre os níveis zero e 300 kg/ha. Os ganhos obtidos neste trabalho superam os de outros autores com a mesma espécie no Rio Grande do Sul. Isto é explicado pelos maiores níveis de N utilizados neste trabalho, em relação aos de Cóser & Maraschin (1983) e Moraes (1984). Deve-se mencionar que o nível de oferta de forragem neste trabalho foi igual ao do melhor tratamento relatado por Moraes (1984).

 

 

CONCLUSÕES

1. Há resposta linear do ganho médio diário, do número de animais.dia/ha e do ganho de peso vivo por área a doses de nitrogênio.

2. Maiores doses de nitrogênio permitem aumentar a carga animal em pastagens de milheto.

 

REFERÊNCIAS

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1 Aceito para publicação em 26 de fevereiro de 1999.
2 Eng. Agr., Dr., Prof. Titular, Dep. de Zootecnia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), CEP 97119-900 Santa Maria, RS. E-mail: moojenel@creta.ccr.ufsm.br
3 Eng. Agr., Ph.D., Prof. Titular, Dep. de Zootecnia, UFSM. Bolsista do CNPq.
4 Eng. Agr., M.Sc., Dep. de Zootecnia, UFSM.
5 Eng. Agr., Dep. de Zootecnia, UFSM.