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Pesquisa Agropecuária Brasileira

versão impressa ISSN 0100-204Xversão On-line ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. v.34 n.12 Brasília dez. 1999

https://doi.org/10.1590/S0100-204X1999001200023 

NOTAS CIENTÍFICAS

Características físicas do maracujá-amarelo produzido em diferentes épocas1

 

Tânia Brito do Nascimento2, José Darlan Ramos3 e Josivan Barbosa Menezes4

 

 

Resumo - O trabalho objetivou avaliar as alterações físicas do maracujá-amarelo (Passiflora edulis f. flavicarpa Degener), produzido em diferentes épocas, no sul de Minas Gerais. O delineamento experimental usado foi o inteiramente casualizado, com três tratamentos (épocas): EP1 (maio a julho/1995), temperatura e precipitação baixas; EP2 (outubro a dezembro/1995), temperatura e precipitação moderadas, e EP3 (janeiro a março/1996), temperatura e precipitação elevadas, dez repetições e cinco frutos por parcela. Os frutos da EP2 foram significativamente melhores em massa, comprimento, diâmetro e número de sementes, e os da EP1 em espessura de casca e rendimento em suco.

 

Physical characteristics of the yellow passion fruit produced in different seasons

Abstract - The research aimed at evaluating the physical alterations of the yellow passion fruit (Passiflora edulis f. flavicarpa Degener), produced in different seasons in the South of Minas Gerais State, Brazil. The experimental design used was a completely randomized one, with three treatments (seasons): GS1 (May to July/1995), low temperature and rainfall; GS2 (October to December/1995), moderate temperature and rainfall, and GS3 (January to March/1996), high temperature and rainfall, ten replications and five fruits per plot. The fruits produced in GS2 were significantly better for mass, length, diameter and number of seeds, but GS1 provided the smallest rind thickness and highest juice content.

 

 

As características externas do fruto constituem os parâmetros primordiais avaliados pelos consumidores, e devem atender a certos padrões para que atinjam a qualidade desejada na comercialização.

Müller (1977) verificou que por ocasião da colheita, com temperatura e precipitação elevadas (dezembro), a aplicação de 1.000 g de sulfato de amônio por planta proporcionou frutos mais pesados (133,7 g), em virtude do acúmulo de água nos tecidos, que ocorre nas épocas chuvosas, em comparações com o tratamento sem adubo (125,8 g). Com relação ao comprimento e diâmetro do fruto, houve efeito significativo da época de colheita, pois os frutos amadurecidos nas condições de clima citadas apresentaram 7,20 cm de comprimento e 5,10 cm de diâmetro em relação às épocas de temperatura elevada e precipitação baixa (fevereiro), e temperatura amena e baixa precipitação pluvial (fim de abril e início de maio).

O maracujá é comercializado no Entreposto Terminal de São Paulo (ETSP) em duas embalagens: a caixa K, com 16 kg, que corresponde a 97% do volume total comercializado, e a caixeta, com 5 kg, representando apenas 3% da comercialização. A embalagem tipo K possui a seguinte classificação: Extra 3A (75 frutos), Extra 2A (76 a 90 frutos), Extra A (91 a 120 frutos), Extra (121 a 150 frutos) e Especial (mais de 150 frutos) (São Paulo, 1992).

Oliveira et al. (1988) citaram espessura de casca do maracujá-amarelo variando de 0,40 a 0,67 cm, e observaram que esta variável é inversamente proporcional ao rendimento em suco, e que não há relação entre tamanho do fruto e espessura da casca. Müller (1977) observou que a aplicação de 500 g/planta de cloreto de potássio proporcionou frutos com casca mais fina (0,64 cm), e que os frutos colhidos na segunda época (temperatura elevada e baixa precipitação pluvial) e terceira época (temperatura amena e baixa precipitação pluvial) apresentaram casca de menor espessura (0,63 e 0,65 cm, respectivamente), em comparação com a primeira época (temperatura e precipitação pluvial elevadas), com 0,71 cm.

Senter et al. (1993) observaram 118 sementes por fruto no maracujá-amarelo. Akamine & Girolami (1957) verificaram a existência de correlação linear positiva entre o número de sementes, o comprimento, a largura, a massa e a porcentagem de suco do fruto.

Haendler (1965) afirmou que o rendimento em suco considerado para industrialização deve ser, no mínimo, de 33% em relação à massa total do fruto. Müller (1977) relatou que porcentagens maiores de suco são encontradas em frutos colhidos em épocas com deficiente disponibilidade de água e teores menores em períodos chuvosos. Sjostrom & Rosa (1978) verificaram que no verão (escassez de chuvas), em Entre Rios, BA, o rendimento médio em suco foi de 30,1%, ao passo que no inverno (período chuvoso) foi de 29,4%. De acordo com Akamine & Girolami (1957), o suco deve participar com 30 a 33% da massa do fruto.

Deste modo, o trabalho teve como objetivo avaliar alterações nas características físicas do maracujá-amarelo produzido em diferentes épocas no sul de Minas Gerais, visando verificar o padrão de qualidade atingido com relação à demanda da indústria ou do mercado de frutos ao natural.

O trabalho foi conduzido no Laboratório de Produtos Vegetais da Universidade Federal de Lavras (UFLA), com frutos provenientes do pomar de maracujá-amarelo do setor de fruticultura. O clima da região é do tipo Cwb, temperado chuvoso (Köppen, 1970).

As plantas utilizadas tinham dois anos e meio de idade, conduzidas em espaldeira vertical com um fio de arame, cultivadas no espaçamento de 3 x 4 m, em solo do tipo Podzólico Vermelho-Amarelo e adubadas conforme recomendações de Lopes & Ramos (1996).

Foram marcadas 15 plantas de maracujazeiro-amarelo (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.) e delas coletados frutos ao acaso e até, no máximo, dois dias após abscisão natural. O delineamento experimental usado foi o inteiramente casualizado (DIC), com três tratamentos, que representam o período do ano em que o fruto se desenvolveu: EP1 (maio a julho/1995), temperatura e precipitação pluvial baixas; EP2 (outubro a dezembro/1995), temperatura e precipitação moderadas, e EP3, (janeiro a março/1996), temperatura e precipitação elevadas. Em cada época, foram utilizadas 10 repetições, compostas por parcelas de cinco frutos, totalizando 50 frutos por época.

Dos frutos selecionados avaliaram-se as características físicas, como: comprimento, diâmetro e espessura da casca, com auxílio de um paquímetro, e a massa, determinada em balança com precisão de 0,001 g. Para a determinação de suco, as amostras foram compostas por cinco frutos, totalizando dez amostras por época, de onde se determinou o rendimento em suco (v/p) com o uso de uma proveta. As sementes passaram por secagem, seguida da sua contagem.

Os dados foram submetidos a análise de variância, e os efeitos das épocas de produção foram avaliados pelo teste de média de Tukey a 5% de probabilidade.

Houve efeito significativo da época de produção sobre o comprimento e diâmetro dos frutos (P<0,01) (Fig. 1). A segunda época de produção (EP2) destacou-se por apresentar frutos de maiores comprimento e diâmetro, sendo significativamente superiores à primeira (EP1) e terceira épocas de produção (EP3). O comprimento dos frutos variou de 7,13 a 7,91 cm, com valor médio de 7,44 cm e os diâmetros variaram de 6,56 a 7,32 cm, com média 6,83 cm. Tais médias foram superiores aos valores alcançados por Müller (1977) em todas as épocas testadas em Viçosa, MG.

 

 

Com relação à massa dos frutos, o comportamento foi semelhante. Os frutos da EP2 superaram os demais (Fig. 1), e as médias variaram de 111,51 g a 154,51 g, com média geral de 128,30 g, que ficou próxima às encontradas por Müller (1977).

De modo geral, a EP2 (outubro a dezembro), com temperatura média (21,5oC) e precipitação média mensal (185,9 mm) moderadas (Tabela 1), proporcionou frutos com comprimento, diâmetro e massa superiores, semelhante as observações de Müller (1977) em época de produção similar. Os frutos da EP2 apresentaram massa média de 128,30 g e encaixaram-se na classificação Extra da caixa tipo K, comercializada no ETSP (São Paulo, 1992). A classificação desses frutos atende às exigências de um dos mercados mais exigentes do Brasil, onde as caixas do tipo K são as mais comercializadas.

 

 

Foi observado efeito significativo da época de produção sobre a espessura da casca do fruto (P<0,01) (Fig. 1). Os frutos da EP1 (maio a julho) apresentaram espessura de casca inferior, com diferença significativa em relação a EP2 e EP3. As espessuras da casca variaram de 0,50 a 0,64 cm, ficando a média em torno de 0,59 cm. A média encontrada situou-se dentro da faixa citada por Oliveira et al. (1988), e inferior à encontrada por Müller (1977).

A casca possui grande capacidade de absorver água, dependendo das condições ambientais. Isso foi confirmado pela menor espessura de casca obtida na EP1, com precipitação (22,6 mm) e temperatura (17,7oC) baixas, dada a baixa disponibilidade de água para as plantas. Segundo Oliveira et al. (1988), maior espessura da casca relaciona-se com menor rendimento em suco. Com base nisso, tanto a indústria como o mercado de frutos ao natural consideram a característica espessura da casca primordial.

O rendimento em suco foi significativamente influenciado pela época de produção (P<0,01) (Fig. 2). Observou-se rendimento superior em suco na EP1 com valor de 31,44 mL/100 g de fruto, que correspondeu a um aumento de 22% em relação a EP2. O rendimento médio de suco obtido foi 27,29 mL/100 g de fruto.

 

 

A EP1, tida como deficiente em água (precipitação média de 22,6 mm), foi a que apresentou maior média de rendimento em suco e menor espessura de casca, ao contrário da EP2, que, caracterizada por apresentar pluviosidade maior, apresentou menor rendimento em suco (Figs. 1 e 2), o que concorda com as conclusões de Müller (1977) e Sjostrom & Rosa (1978). Como a média de suco obtida foi de 27,29 mL/100 g de fruto, constatou-se que os frutos não atingiram o mínimo necessário em rendimento exigido pela indústria, segundo Haendler (1965). Entretanto, o rendimento encontrado na EP1 (31,44 mL/100 g de fruto), caracterizada por baixa pluviosidade, corresponde aos valores citados por Akamine & Girolami (1957).

A época da produção também exerceu efeito significativo sobre o número de sementes por fruto (P<0,01), sendo que os frutos produzidos na EP2 apresentaram número maior de sementes (Fig. 2), cujos valores médios variaram de 198 a 300, com média geral de 248 sementes/fruto. A média de sementes encontrada por fruto foi superior ao valor mencionado por Senter et al. (1993).

O maior número de sementes por fruto foi atingido na EP2 (outubro a dezembro), com pluviosidade média moderada (185,9 mm). Em contrapartida, no período de janeiro a março (EP3), que foi mais chuvoso, obteve-se a menor quantidade de sementes, o que indica que períodos chuvosos representam problemas para a polinização (Fig. 2). Neste trabalho, assim como no de Akamine & Girolami (1959), ficou evidenciado que um maior número de sementes correspondeu a maior comprimento, diâmetro e massa de fruto (Figs. 1 e 2).

Os frutos analisados adequaram-se bem ao mercado de frutos ao natural, por não ser tão exigente quanto ao rendimento em suco, visto que dá mais importância às características externas do fruto. Todavia, para a industrialização, apesar de a média de suco não ter sido satisfatória, não se descarta a possibilidade de oferta desses frutos para processamento, visto que na EP1 o rendimento foi bom.

Concluiu-se que os frutos de maracujá-amarelo colhidos no sul de Minas Gerais no período de outubro a dezembro apresentam valores mais altos quanto a massa, comprimento e diâmetro, o que caracteriza uma época com frutos de boa qualidade para o comércio. O número de sementes por fruto também é superior nesta época. No período de maio a julho, de menor disponibilidade de água no solo e mais frio, os frutos apresentam menor espessura da casca e maior rendimento em suco.

 

Referências

AKAMINE, E.K.; GIROLAMI, G. Problems in fruit set in yellow passion fruit. Hawaii Farm Science, Honolulu, v.5, n.4, p.3-5, Apr. 1957.         [ Links ]

HAENDLER, L. La passiflora: sa composition chimique et ses possibilités de transformation. Fruits, Paris, v.20, n.5, p.235-245, 1965.         [ Links ]

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1 Aceito para publicação em 22 de março de 1999.
2 Eng. Agr., M.Sc., Embrapa-Centro de Pesquisa Agroflorestal do Amapá (CPAF-AP), Caixa Postal 10, CEP 68902-280 Macapá, AP. Bolsista do CNPq/DCR. E-mail: apsin@nutecnet.com.br
3 Eng. Agr., Dr., Dep. de Agricultura, UFLA, Caixa Postal 37, CEP 37200-000 Lavras, MG.
4 Eng. Agr., Dr., Dep. de Química e Tecnologia, ESAM, Caixa Postal 137, CEP 59625-900 Mossoró, RN.

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