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Pesquisa Agropecuária Brasileira

versão On-line ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. v.37 n.10 Brasília out. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2002001000020 

NOTAS CIENTÍFICAS

Efeito de fungicidas na germinação in vitro de conídios de Claviceps africana(1)

 

Sônia Regina Nogueira(2), Hilário Antonio de Castro(3) e Claudomiro Moura Gomes André(2)

 

 

Resumo ¾ A cultura do sorgo não enfrentava problemas sérios de doenças nas condições de cultivo no Brasil, até o ano de 1995, quando se registrou a ocorrência da doença-açucarada, causada por Claviceps africana, que afeta as panículas e reduz a quantidade e a qualidade dos grãos; os conídios constituem a principal fonte de inóculo fúngico. Este trabalho teve como objetivo estudar o efeito dos fungicidas tebuconazole, propiconazole, triadimenol, triadimefon, flutriafol e mancozeb na inibição in vitro da germinação dos conídios. Os fungicidas mancozeb, triadimenol e propiconazole foram os mais eficientes na inibição da germinação dos conídios.

Termos para indexação: sorgo, Sphacelia sorghi, inoculação, conídio, combate às doenças.

 

Fungicides effect on conidia germination of Claviceps africana in vitro

Abstract ¾ The sorghum crop did not face serious problems with diseases in Brazil, until occurrence of sugary disease (sorghum ergot), caused by Claviceps africana, was recorded in 1995 in Brazilian sorghum fields. The pathogen infects panicles reducing the quantity and quality of the produced grains. Conidia are the main fungus inoculum. This work aimed to study the potential of fungicides tebuconazole, propiconazole, triadimenol, triadimefon, flutriafol and mancozeb in inhibiting conidia germination in vitro. The fungicides mancozeb, triadimenol and propiconazole were the most effective to inhibit the in vitro germination.

Index terms: sorghum, Sphacelia sorghi, inoculation methods, conidia, disease control.

 

 

A cultura do sorgo vem ganhando importância no Brasil. Em condições normais de cultivo, não sofria problemas sérios de doença, até 1995, quando se registrou a ocorrência da doença-açucarada, causada por Claviceps africana (Sphacelia sorghi McRae), promovendo redução na produtividade e qualidade dos grãos pela infecção nas panículas e pela exsudação açucarada que cobre os grãos sadios e favorece o desenvolvimento de saprófitas (Bandyophadyay, 1992). O fungo afeta o ovário dos floretes individuais na panícula, colonizando-os e formando um estroma, produzindo conídios, viáveis e infectivos, que são liberados por gotas açucaradas, comumente chamadas "mela" (Mughogho, 1986). Desde o relato da ocorrência da doença no Brasil, em vista do aumento da área de cultivo, sua incidência vem aumentando, causando redução significativa na produção de grãos e na viabilidade das sementes, uma vez que os estresses, que levam à inviabilidade do pólen, predispõem as plantas à infecção (Chen et al., 1995).

A resistência genética do hospedeiro é a técnica mais eficiente no controle do patógeno. Chinnadurai (1972) e Willingale et al. (1986) relatam que o conhecimento do florescimento das plantas de sorgo é essencial para entender o desenvolvimento da doença, pois o período de suscetibilidade das panículas ocorre durante a antese, e esta varia de acordo com as condições do ambiente e com o genótipo da planta. Frederickson et al. (1991) afirmam que a falta de cultivares comprovadamente resistentes à doença faz com que o uso de fungicidas seja, no momento, a única estratégia de controle da doença. De todos os fungicidas avaliados no controle da doença-açucarada-do-sorgo, está evidenciado que apenas uma aplicação do produto não é suficiente para frear o desenvolvimento da doença, pelo fato de o período de suscetibilidade da planta ocorrer durante toda a antese, necessitando, por isso, de várias aplicações, pois novo inóculo poderá atingir as espiguetas. O alto custo das aplicações recomenda que as pulverizações sejam feitas principalmente nas lavouras produtoras de sementes híbridas, mais propensas à infecção, por causa do uso de linhas macho-estéreis (Pinto et al., 1997). A falta de experimentos com novos fungicidas, bem como a recomendação e registro dos produtos para o controle, têm dificultado o controle da doença-açucarada. O presente trabalho teve como objetivo determinar in vitro a ação de fungicidas no controle da germinação de conídios de C. africana.

Para isto, preparou-se uma suspensão de esporos na concentração de 2x104 conídios/mL, ajustada em câmara de Neubauer (hemocitômetro) a partir de isolados monospóricos de C. africana obtidos de panículas de sorgo, provenientes da Embrapa-Centro Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo (CNPMS), de Sete Lagoas, MG. Com o auxílio de uma micropipeta, 15 mL desta suspensão foram depositados em cavidades de lâminas escavadas contendo 15 mL da solução dos fungicidas a serem avaliados. Os tratamentos foram constituídos pelos fungicidas tebuconazole (Folicur PM), propiconazole (Tilt), triadimenol (Bayfidan CE), triadimefon (Bayleton BR), flutriafol (Impact) e mancozeb (Manzate 800) nas concentrações de 10, 30, 50, 80, 100, 150 e 200 ppm. O experimento foi dividido em 12 etapas, usando-se dois fungicidas em cada etapa, com duas repetições.

Em cada ensaio (etapa) foi usada uma testemunha (padrão de germinação) constituída pelo meio Kirchoff composto de 10% sacarose, 1% de asparagina, 0,25% de sulfato de magnésio e 1% de fosfato monobásico de potássio (Nagurajan & Saraswathi, 1971). As lâminas foram colocadas assepticamente em câmaras úmidas (placas de Petri de 15 cm, contendo duas folhas de papel de filtro esterilizadas e umedecidas com água destilada e esterilizada) e mantidas em câmara de crescimento no escuro e com temperatura controlada (25±1°C).

Decorrido o tempo de 12 horas de incubação, o processo de germinação foi paralisado com o uso de lactofenol + azul-de-amam. As lâminas foram observadas ao microscópio óptico, para contagem e determinação do porcentual de conídios germinados e do número total de conídios. A eficiência dos fungicidas foi determinada pelo porcentual de germinação dos conídios em cada tratamento, em relação ao controle, em cada ensaio. O delineamento foi de blocos completos, com duas repetições em esquema fatorial (dois fungicidas x sete concentrações). Os resultados foram submetidos à análise de variância, considerando-se os efeitos dos fungicidas, as concentrações e as interações entre os fatores. Nas variações significativas, aplicou-se o teste de Tukey a 5% de probabilidade nos tratamentos qualitativos (fungicidas), e nos tratamentos quantitativos (concentrações) ajustou-se a equação de regressão, segundo Pimentel-Gomes (1985) e Banzato & Kronka (1995).

Os resultados obtidos indicam diferenças entre os fungicidas avaliados na inibição da germinação de conídios de C. africana, e que esta é dependente da concentração do fungicida usado. Os maiores porcentuais de inibição da germinação foram obtidos com os fungicidas mancozeb (100%), triadimenol (100%) e propiconazole (100%). Os fungicidas tebuconazole, triadimefon e flutriafol apresentaram menor eficiência (86, 85 e 66% de controle, respectivamente), necessitando de dosagens mais elevadas para inibir totalmente a germinação (Tabela 1). Quanto ao fungicida mancozeb, não se observaram diferenças significativas entre as concentrações avaliadas. O fungicida inibiu totalmente a germinação dos conídios desde a menor concentração usada (10 ppm). A equação de regressão que descreve a inibição da germinação, em vista da quantidade do fungicida, não apresentou ajuste, e deve-se principalmente à alta eficácia de controle do fungicida, o que concorda com observações de Anahousur & Patil (1982) na Índia, onde pulverizações repetidas de mancozeb mostraram-se efetivas na redução da incidência e da disseminação da doença no campo. Os fungicidas triadimenol e propiconazole apresentaram resultados semelhantes. As equações de regressão que descrevem o comportamento de cada um dos fungicidas, em razão das concentrações usadas, foram: Y = 8,8606Ln(X) + 57,4657 e Y = 8,4289Ln(X) + 60,2597, com um ajuste de R2 de 0,8847 e de 0,7839, respectivamente. O desvio da regressão não foi significativo. A inibição da germinação, com base no ajuste da regressão, é obtido com concentrações acima de 120 ppm, com o fungicida triadimenol e acima de 110 ppm, com o fungicida propiconazole. O fungicida tebuconazole inibiu em 86%, e o fungicida triadimefon inibiu em 85% a germinação dos conídios de C. africana, nas maiores concentrações estudadas (Tabela 1). O ajuste das equações de regressão foi significativo (Y = 11,6532Ln(X) + 21,2189 com o fungicida tebuconazole, e Y = 11,2773Ln(X) + 26,2991, com o fungicida triadimenol), com R2 de 0,8715 e de 0,9793, respectivamente. O fungicida flutriafol inibiu em apenas 66% a germinação de conídios do fungo. O ajuste de regressão deste fungicida foi Y = 0,0619X + 51,6719, com um R2 de 0,8639. Estudos realizados por McLaren (1993) com fungicidas sistêmicos concluiu que estes têm pouco efeito residual, e por esse motivo, protegem as panículas por pouco tempo. Neste estudo, o fungicida tebuconazole mostrou pouca eficiência no controle, ao passo que o fungicida triadimenol reduziu o número de panículas infectadas. Resultados semelhantes são observados com o teste in vitro neste trabalho.

 

 

Experimentos realizados na Embrapa-CNPMS mostraram que o fungicida tebuconazole em doses mais altas foi mais eficiente no controle da doença, seguido pelos fungicidas triadimenol e propiconazole com boa redução no número de espiguetas infectadas. Nas mesmas condições, mancozeb não apresentou resultados satisfatórios, o que demonstra também que nenhum dos fungicidas testados apresenta propriedade curativa (Pinto et al., 1997). Nos testes in vitro de inibição da germinação, o contato do fungicida com os conídios é direto e em tempo integral, e então, o produto não encontra nenhum tipo de barreira que possa dificultar o seu modo de ação. Estes são fatores que explicam a ação diferenciada dos compostos químicos no controle da doença-açucarada, quando avaliados em laboratório e em campo (Deacon, 1997).

Com base nos resultados obtidos, pode-se concluir que os fungicidas avaliados inibem a germinação in vitro dos conídios de C. africana. A fungitoxicidade observada com relação aos produtos em teste deve ser comprovada no campo.

 

Referências

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(1) Aceito para publicação em 16 de maio de 2002.
(2) Universidade do Tocantins, Campus Universitário de Palmas, Caixa Postal 114, CEP 77000-000 Palmas, TO. E-mail: sonia@unitins.br, andrecmg@unitins.br
(3) Universidade Federal de Lavras, Dep. de Fitopatologia, Caixa Postal 37, CEP 37200-000 Lavras, MG. E-mail: dfp@ufla.br