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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.37 no.12 Brasília Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2002001200020 

NOTAS CIENTÍFICAS

 

Contribuição de fungos micorrízicos arbusculares autóctones no crescimento de Guazuma ulmifolia em solo de cerrado degradado1

 

Contribution of arbuscular mycorrhizal fungi to the growth of Guazuma ulmifolia in degraded 'cerrado' soil

 

 

Sueli da Silva Aquino2; Ana Maria Rodrigues Cassiolato2

Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira, Caixa Postal 31, CEP 15385-000, Ilha Solteira, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Ensaios foram conduzidos, em casa de vegetação, com solos de pastagem degradada reflorestada e cerrado preservado (controle) visando avaliar a contribuição de fungos micorrízicos arbusculares (FMA) autóctones no crescimento de mutambo (Guazuma ulmifolia Lamb.). As mudas foram transplantadas para sacos de plástico (2 kg) com substratos esterilizados na proporção 4:1 (solo:areia), e o tratamento inoculado recebeu 300 esporos de FMA por saco. A inoculação não proporcionou aumento significativo na produção da matéria seca da parte aérea, matéria fresca das raízes e altura da planta, sugerindo que a Gulmifolia não é responsiva à micorrização.

Termos para indexação: endomicorriza, inoculação, degradação ambiental, reflorestamento.


ABSTRACT

Experiments were carried out in a greenhouse, using reforested degraded pasture and preserved 'cerrado' (control) soil with the objective to evaluate the contribution of autoctone arbuscular mycorrhizal fungi (AMF) on the Guazuma ulmifolia Lamb. growth. Seedlings were transplanted to plastic bags with 2 kg of sterilized soil: sand substrate (4:1). Plants were inoculated with ca. 300 spores of AMF per replication; noninoculated plants served as control. AMF did not improve significantly canopy dry matter, root fresh matter and plant height. G. ulmifolia showed no response to mycorrhizae.

Index terms: endomycorrhizae, inoculation methods, environmental degradation, reforestation.


 

 

A conservação e a recuperação de áreas degradadas têm sido feitas por meio da reimplantação da vegetação nativa e da adaptação de espécies exóticas de modo a possibilitar a produção de matéria orgânica, com conseqüente enriquecimento da fauna e recuperação da comunidade microbiológica do solo, promovendo assim o equilíbrio do ecossistema (Maschio et al., 1992). Neste contexto, os fungos micorrízicos arbusculares, considerados de ocorrência generalizada nos solos e na maioria das plantas vasculares, beneficiam o crescimento das plantas por absorver nutrientes do solo, aumentando a resistência das mesmas, nos períodos de seca, e das mudas, na ocasião do transplante (Jeffries, 1987).

Iniciou-se, no ano de 1994, um projeto de reflorestamento de 50 hectares de pastagem degradada, em área de cerrado pertencente ao Horto Rio Verde, Três Lagoas, MS, com espécies de mata e cerrado. Dentre estas, uma das que mais se destacou foi a Guazuma ulmifolia (mutambo) (Pereira-Noronha et al., 2000). Trata-se de uma planta sul-americana, semidecídua, heliófita, pioneira, característica das formações secundárias das florestas latifoliadas da bacia do rio Paraná. É cultivada para fins paisagísticos, fornecimento de madeira, produção de pasta de papel e alimentação (Lorenzi, 2000).

O objetivo deste trabalho foi estudar as contribuições de fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) autóctones no crescimento da G. ulmifolia em solo de cerrado degradado.

Os ensaios foram realizados em casa de vegetação da Unesp/Ilha Solteira. As sementes e as amostras de solo foram coletadas em uma área de pastagem degradada reflorestada e na área de cerrado preservado, localizadas no Horto Rio Verde, Três Lagoas, MS, pertencente a International Paper (latitudes e longitudes de 20o57'46" S; 52o24' 3" W). O solo foi classificado como Latossolo Vermelho distrófico (Embrapa, 1999). As análises químicas foram feitas segundo Raij & Quaggio (1983), e os resultados para a área reflorestada foram: pH (CaCl2), 4,3; P (mg dm-3), 4; MO, P, K, Ca, Mg, H+Al, Al, SB, CTC (mmol dm-3), 19; 0,7; 5; 2; 25; 5; 7,7 e 32,7, respectivamente; e, V (%), 23; e para a área preservada foram: pH (CaCl2), 3,9; P (mg dm-3), 6; MO, P, K, Ca, Mg, H+Al, Al, SB, CTC (mmol dm-3), 21; 0,8; 9; 1; 23; 9; 2,1 e 25,7, respectivamente, e V (%), 21.

A fim de obter-se uma maior diversidade de espécies de FMAs a serem utilizadas como inoculantes, dez amostras compostas de quatro subamostras de solo rizosférico por tratamento foram coletadas ao acaso (0-15 cm) dentro de um transecto de 200 m2. Os esporos foram obtidos pelo método de peneiramento por via úmida e decantação (Gedermann & Nicolson, 1963) seguidos de centrifugação com sacarose (Jenkins, 1964) e a avaliação da colonização radicular foi realizada pelos métodos de coloração (Phillips & Hayman, 1970) e contagem (Giovannetti & Mosse, 1980). A dependência micorrízica foi calculada como a diferença entre o peso de matéria seca da parte aérea de plantas com inoculação e sem inoculação, dividida pelo peso de matéria seca da parte aérea das plantas com inoculação, e expressa como porcentagem do peso de matéria seca de plantas com inoculação (Plenchette et al., 1983).

No primeiro ensaio, o substrato das mudas consistiu de solo de pastagem degradada reflorestada e areia de rio lavada (4:1), fumigado com 263 cm3 de brometo de metila por m3 de substrato seco. Na obtenção das mudas, as sementes sofreram desinfestação da superfície com hipoclorito de sódio a 1% e a prégerminação foi feita em caixas contendo areia de rio esterilizada e mantidas em casa de vegetação. As plântulas foram transplantadas para 12 sacos de plástico (2 kg), e o tratamento esterilizado recebeu 100 mL de filtrado de solo peneirado, isento de propágulos de FMA, com o objetivo de reincorporar e equalizar a microbiota do substrato fumigado. Em seis sacos, próximo às raízes, foram adicionados 300 esporos de FMA autóctones (não previamente identificados), sendo os seis restantes considerados como grupo controle. Os sacos foram distribuídos aleatoriamente na casa de vegetação, onde permaneceram por 120 dias. O delineamento experimental foi o inteiramente casualizado, com dois tratamentos e seis repetições com uma planta cada. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

No segundo ensaio, na avaliação do potencial de inóculo dos FMAs autóctones, foram coletadas amostras de solo rizosférico na área reflorestada e na área preservada. Com cada amostra, foi preparada uma mistura de solo e areia lavada (4:1), da qual metade foi fumigada com brometo de metila. Estas foram utilizadas para preparar uma diluição do solo natural, de 90, 80, 70, 60, 50, 40, 30, 20 e 10%. Os solos não diluídos (0%), totalmente diluídos (100%) e nas diluições acima apresentadas foram colocados em sacos de plástico com capacidade para 2 kg de substrato, com quatro repetições cada, para onde foram transplantadas as plântulas obtidas, como descrito para o primeiro ensaio. Após 120 dias de crescimento, as raízes foram colhidas, lavadas e utilizadas para quantificar a colonização micorrízica, segundo a técnica descrita anteriormente.

O solo da área de pastagem degradada reflorestada, em relação à área de cerrado preservado, apresentou variações muito pequenas quanto às características químicas. De forma geral, houve pequena elevação nos valores do pH, diminuição de Al trocável, elevação da saturação de bases e da capacidade de troca catiônica. A eficiência da associação micorrízica no crescimento e na produtividade das culturas está vinculada à disponibilidade de nutrientes no solo e a sua absorção pelas plantas, assim como em relação à acidez e à saturação de alumínio, que geralmente são altas nos solos de cerrado (Miranda & Miranda, 1997).

Foram detectadas diferenças estatísticas significativas nas taxas de colonização micorrízica nas raízes das plantas com inoculação (68,50%) e das plantas controle (10,16%). A colonização micorrízica atingiu níveis satisfatórios sem, entretanto, acarretar mudanças significativas em relação ao peso de matéria seca da parte aérea, peso de matéria fresca de raízes e altura das plantas. O tratamento com inoculação de FMA autóctones, comparado ao sem inoculação, proporcionou maior número de esporos (Tabela 1). Entretanto, houve baixa multiplicação de esporos por este hospedeiro. A dependência micorrízica (DM) do hospedeiro em relação aos FMA autóctones (2,17%), calculada como descrito anteriormente, mostrou que G. ulmifolia foi não responsiva aos FMA.

 

 

Quanto ao potencial de inóculo natural, o solo da área preservada apresentou uma taxa de colonização micorrízica de 37,5% na diluição 0%, e manteve um valor médio de 30% até a 8a diluição, enquanto o solo da área reflorestada apresentou 30% de colonização na diluição 0%, mantendo uma média de 30% até a 5a diluição (Figura 1). Assim, apesar das perturbações que esta área degradada vem sofrendo ao longo dos anos, os FMAs autóctones têm se mostrado tolerantes e com capacidade de multiplicação, mantendo o potencial de inóculo.

 

 

A inoculação de esporos de FMA autóctones não apresentou diferenças significativas em relação ao peso de matéria seca da parte aérea, peso fresco de raízes e altura do hospedeiro. A espécie estudada, G. ulmifolia, apesar de ter sido colonizada, não foi responsiva à micorrização aos 120 dias.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Sueli da Silva Aquino
E-mail: sueli@bio.feis.unesp.br

Ana Maria Rodrigues Cassiolato
E-mail: anamaria@bio.feis.unesp.br

Aceito para publicação em 27 de julho de 2002.

 

 

1 Aceito para publicação em 27 de julho de 2002.
2 Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira, Caixa Postal 31, CEP 15385-000, Ilha Solteira, SP. E-mail: sueli@bio.feis.unesp.br, anamaria@bio.feis.unesp.br

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