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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.38 no.12 Brasília Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2003001200015 

NOTAS CIENTÍFICAS

 

Propagação vegetativa de camu-camu por meio de enxertia intergenérica na família Myrtaceae

 

Vegetative propagation of camu-camu by intergeneric grafting in Myrtaceae family

 

 

Eduardo SuguinoI; Beatriz Appezzato-da-GlóriaII; Paulo Sérgio Rodrigues de AraújoIII; Salim SimãoI

IUniversidade de São Paulo (USP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Dep. de Produção Vegetal, Caixa Postal 9, CEP 13418-900 Piracicaba, SP. E-mail: esuguino@esalq.usp.br, ssimao@esalq.usp.br
IIUSP, Esalq, Dep. de Ciências Biológicas. E-mail: bagloria@esalq.usp.br
IIIArdoce, Rua Eduardo Pereira, 114 Esplanada, CEP 35020-160 Governador Valadares, MG. E-mail: psrarauj@yahoo.com

 

 


RESUMO

O camu-camu [Myrciaria dubia (Humb., Bonpl. & Kunth) McVaugh], da família Myrtaceae, é encontrado em áreas inundáveis da Região Amazônica e utilizado como conservante em antioxidantes por seu alto teor de ácido ascórbico. O objetivo deste trabalho foi avaliar porta-enxertos desta família, adaptados a terra firme, visando à propagação vegetativa de camu-camu. Selecionaram-se duzentas e quarenta mudas de camu-camu, goiabeira (Psidium guajava L.) e pitangueira (Eugenia uniflora L.), que receberam quatro tipos de enxertia, originando doze tratamentos de sessenta plantas, com cinco repetições. Apenas o porta-enxerto de camu-camu se mostrou compatível. A incompatibilidade entre camu-camu e os porta-enxertos de goiabeira e pitangueira foi demonstrada por análises anatômicas.

Termos para indexação: Myrciaria dubia, porta-enxerto, propagação vegetal, anatomia vegetal, análise vegetal.


ABSTRACT

Camu-camu [Myrciaria dubia (Humb., Bonpl. & Kunth) McVaugh], of the Myrtaceaefamily, can be found at flooded areas in the Amazon region and it is used like a conservant in antioxidants due to its high ascorbic acid content. In order to obtain rootstocks of this family adapted to dry land for vegetative propagation of camu-camu, two hundred and forty plants of camu-camu, guava (Psidium guajava L.) and Surinam cherry (Eugenia uniflora L.) were selected. They received four different kinds of grafting, originating twelve treatments of sixty plants and five repetitions. Only the camu-camu rootstocks showed compatibility. Incompatibility between camu-camu and the rootstocks of guava and Surinam cherry was demonstrated by anatomical analysis.

Index terms: Myrciaria dubia, rootstocks, plant propagation, plant anatomy, plant analysis.


 

 

O camu-camu, caçari ou araçá d'água [Myrciaria dubia (Humb., Bonpl. & Kunth) McVaugh] é uma pequena planta frutífera, da família Myrtaceae, dispersa em quase toda a Amazônia, sendo comumente encontrada, em seu estado natural, às margens dos rios, lagos, em regiões de várzea e igapó (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 2001).

A principal propriedade do camu-camu é o elevado teor de vitamina C, em torno de 2.800 mg de ácido ascórbico/100 g de polpa, superior à maioria das plantas cultivadas (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 2001). Por esta razão, a indústria passou a utilizá-lo como conservante em antioxidantes, e vem incluindo o seu suco em produtos como cremes e pastilhas de vitamina C (Saudável..., 2001).

O objetivo deste trabalho foi avaliar a viabilidade de porta-enxertos, da mesma família botânica do camu-camu, visando a plena frutificação dessa planta em terra firme.

O experimento foi realizado nos canteiros do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), USP, Piracicaba, SP. As espécies utilizadas como porta-enxertos foram o camu-camu, a goiabeira e a pitangueira, e os métodos de enxertia foram a garfagem de topo com fenda cheia, garfagem de colo, garfagem em fenda lateral, e a garfagem em inglês simples (Hartmann et al., 1990; Enciso Narazas, 1992; Simão, 1998). O delineamento estatístico adotado foi o inteiramente casualizado em esquema 3x4, e os tratamentos consistiam das três espécies e dos quatro métodos de enxertia, com cinco repetições. A unidade experimental constou de 12 plantas, perfazendo um total de 720 plantas avaliadas.

Nas enxertias, foram utilizados garfos, com comprimento e diâmetro médio variando de10,0-15,0 e de 0,4-1,0 cm, respectivamente, de plantas adultas de camu-camu. Estas plantas foram coletadas em Boa Vista, RR, acondicionadas em caixas de isopor, remetidas por avião a Piracicaba, SP, e mantidas em câmara refrigerada até sua utilização no dia seguinte.

A primeira avaliação ocorreu 45 dias (15/12/2001) após a enxertia, época coincidente com a retirada das copas das mudas que receberam a enxertia do tipo fenda lateral. Seguiram-se avaliações periódicas em intervalos aproximados de 30 dias (dezembro/2000 a julho/2001), para verificar o aparecimento de novas brotações que pudessem demonstrar o sucesso do pegamento da enxertia.

Materiais caulinares contendo a região de enxertia em fenda lateral realizada em porta-enxertos de camu-camu, goiabeira e pitangueira, foram levados ao Departamento de Ciências Biológicas da Esalq-USP, onde foram feitas lâminas histológicas analisadas ao microscópio de luz. O estudo anatômico destes materiais foi realizado com material vegetal não fixado. Os caules foram cortados transversalmente com auxílio de micrótomo de deslize. As seções foram clarificadas com hipoclorito de sódio a 20% e coradas com verde-iodo e vermelho-congo (Dop & Gautié, 1928). Em algumas seções foi empregado o cloreto férrico para verificar a presença de compostos fenólicos (Johansen, 1940).

Utilizou-se a distribuição binomial, ocorrência ou não de pegamento, segundo Greenacre (1993), na realização da análise estatística. Foram obtidos dados apenas do porta-enxerto de camu-camu, que foi o único que apresentou estabilidade quanto ao número de brotações ao término das avaliações, até o final do experimento, quando comparado aos demais tratamentos (Tabela 1). As médias foram comparadas por meio do teste qui-quadrado (c2) de Pearson.

 

 

Ocorreu declínio no número de brotações nos tratamentos em que foram utilizados porta-enxertos de pitangueira e goiabeira (Tabela 1). Nos casos em que o porta-enxerto foi o camu-camu, a ocorrência de pegamento foi significativa a 5%, podendo-se afirmar que existe relação significativa entre os tratamentos e o pegamento. As enxertias do tipo fenda lateral e inglês simples apresentaram maior e menor pegamento, respectivamente, e a enxertia em fenda lateral diferiu estatisticamente dos demais tratamentos (Tabela 1). As enxertias do tipo colo e fenda cheia não apresentaram diferenças estatísticas entre si.

Foram realizadas análises anatômicas nos tratamentos que utilizavam o método de enxertia em fenda lateral, pois haviam demonstrado o melhor pegamento em porta-enxertos de camu-camu.

O estabelecimento de uma conexão vascular com proliferação de células, ocorrida entre o garfo de camu-camu e porta-enxerto do mesmo material vegetal proporcionou uma enxertia bem-sucedida (Figura 1A). Esta avaliação ratifica os resultados obtidos por Enciso Narazas (1992), que utilizou os métodos de enxertia com borbulhas (78,6% de pegamento), em meia fenda (53,0%) e inglês simples (16,6%); por Ferreira & Gentil (1997) que utilizaram a enxertia em fenda lateral (65,0%), a enxertia lateral simples (52,0%), a enxertia de topo em fenda cheia (34,0%) e a de topo em fenda a cavalo (9,0%); e por Santana (1998), que obteve resultados com enxertia em fenda lateral (40,0%) e em garfagem de topo em fenda cheia (22,2%), todos utilizando garfos de camu-camu sobre porta-enxertos de camu-camu.

 

 

A compatibilidade na enxertia é entendida como aquela em que ocorre a união bem-sucedida e o desenvolvimento satisfatório na composição de uma planta. Quando isso não acontece, tem-se o que é chamado de incompatibilidade na união de enxertos (Hartmann et al., 1990). A ausência de divisão celular no ponto de contato entre os caules na enxertia (Figuras 1C e 1D) e a obstrução dos elementos de vaso pelos tilos (Figura 1D) indicam que há incompatibilidade do tipo localizada e imediata (Dias & Calixto, 2001) entre o camu-camu e a pitangueira e a goiabeira. Esta constatação sugere que não se deve esperar pegamento na enxertia entre estas espécies frutíferas, corroborando observações feitas por Santana (1998), que constatou o não-pegamento da enxertia realizada entre enxertos de camu-camu sobre porta-enxertos de pitangueira, realizada com o mesmo tipo de enxertia.

Segundo Hartmann et al. (1990), embora o mecanismo de incompatibilidade esteja relacionado a fatores genéticos diferentes existentes entre enxerto e porta-enxerto, em alguns casos particulares, isso não fica claramente evidenciado, em virtude do grande número de materiais vegetativos geneticamente diferentes que podem ser unidos pela enxertia. Uma série de fatores fisiológicos, bioquímicos e anatômicos, está sendo relacionada, com inúmeras possibilidades de interação, tanto favoráveis quanto desfavoráveis. A análise das lâminas histológicas do presente trabalho mostra pela primeira vez os aspectos relacionados à incompatibilidade do camu-camu em porta-enxertos de outras espécies da mesma família botânica.

A presença de compostos fenólicos pode ser verificada na Figura 1C. A hipótese de que a incompatibilidade esteja relacionada à diferença fisiológica e bioquímica existente entre as partes enxertadas encontra apoio nos dados de Gur & Samish (1965) com pêra e marmelo. Esses autores relatam que, quando certa cultivar de pêra foi enxertada em marmelo, a prunasina – um glucosídeo cianogênico –, normalmente encontrada no marmelo, mas não nos tecidos da pêra, foi translocada para o floema da pêra e, juntamente com o ácido hidrociânico, causaram a falta de atividade na região de enxertia e um pronunciado distúrbio anatômico no floema e xilema, reduzindo seriamente a condução tanto pelo floema como pelo xilema.

Segundo Dias & Calixto (2001), não se pode afirmar que os compostos fenólicos sejam responsáveis pela incompatibilidade localizada ou translocável, visto que não se sabe se os mesmos atravessam ou não o ponto de união da enxertia para influenciar negativamente o outro material, ou se há reciprocidade.

A enxertia do camu-camu em porta-enxertos de goiabeira e pitangueira é incompatível. Entre os métodos de enxertia utilizados, a garfagem em fenda lateral é a que se apresenta como o mais eficiente meio de propagação vegetativa do camu-camu.

 

Referências

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FERREIRA, S. A. N.; GENTIL, D. F. O. Propagação assexuada do camu camu (Myrciaria dubia) através de enxertia do tipo garfagem. Acta Amazonica, Manaus, v. 27, n. 3, p. 163-168, 1997.         [ Links ]

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SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba: Fealq, 1998. 762 p.        [ Links ]

 

 

Aceito para publicação em 10 de outubro de 2003

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