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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.40 no.6 Brasília June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2005000600014 

NOTAS CIENTÍFICAS

 

Compatibilidade entre Beauveria bassiana e o predador Chrysoperla externa em laboratório

 

Compatibility between Beauveria bassiana and the predator Chrysoperla externa in laboratory

 

 

Luis Gustavo Amorim PessoaI; Ricardo Sousa CavalcantiII; Alcides Moino JúniorII; Brígida SouzaII

IUniversidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Fac. de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal, Dep. de Entomologia, Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castellane, s/nº, CEP 14884-900 Jaboticabal, SP. E-mail: gugamorim@yahoo.com.br
IIUniversidade Federal de Lavras, Dep. de Entomologia, Caixa Postal 37, CEP 37200-000 Lavras, MG. E-mail: rscavalcanti@yahoo.com.br, alcmoino@ufla.br, brgsouza@ufla.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar os efeitos do fungo Beauveria bassiana sobre ovos e larvas de Chrysoperla externa. Ovos com até 24 horas de idade e insetos no 1º, 2º e 3º ínstares foram imersos em suspensões fúngicas de 1,0x104 a 1,0x108 conídios mL-1. Não houve efeito do fungo sobre a viabilidade dos ovos. Larvas de terceiro ínstar foram afetadas por B. bassiana, e as suspensões de 1,0x107 e 1,0x108 conídios mL-1 interferiram nos parâmetros avaliados.

Termos para indexação: fungo entomopatogênico, crisopídeos, controle microbiano.


ABSTRACT

The objective of this work was to evaluate the effect of the fungus Beauveria bassiana on eggs and larvae of Chrysoperla externa. Eggs with 24 hours and insects on 1st, 2nd and 3rd instar were immersed in fungal suspensions at 1,0x104 to 1,0x108 conidia mL-1 . There was no fungal effect on the eggs viability. Third instar larvae were affected by B. bassiana, and the suspensions with 1,0x107 and 1,0x108 conidia mL-1 interfered in the evaluated parameters.

Index terms: entomopathogenic fungus, green lacewings, microbial control.


 

 

Os crisopídeos são predadores encontrados em muitas culturas de interesse econômico. Se alimentam de ovos, lagartas neonatas, pulgões, cochonilhas, ácaros e vários outros artrópodes de pequeno tamanho e de tegumento facilmente perfurável (Carvalho & Souza, 2000).

Os fungos entomopatogênicos e os insetos entomófagos podem ser usados em programas de manejo integrado de pragas, ficando vulneráveis a interferências entre eles, dependendo das estratégias de aplicação (Lacey & Goettel, 1995).

Segundo Magalhães et al. (1998), os entomopatógenos podem atuar de forma deletéria sobre os predadores por meio da inviabilização de ovos, larvas e adultos, alteração do ciclo de vida e dificuldades no encontro da presa. Esses autores relataram que o contato entre predadores e entomopatógenos, em condições de campo, ocorre quando os predadores são atingidos diretamente durante as aplicações do fungo, quando entram em contato com plantas contaminadas ou quando se alimentam de insetos já infectados.

Poucas pesquisas têm sido feitas visando a avaliação de fungos entomopatogênicos sobre esse grupo de insetos, deixando uma lacuna no que diz respeito à possibilidade de utilização de predadores em associação com fungos em programas de manejo de pragas.

Este trabalho teve como objetivo verificar o efeito do fungo entomopatogênico Beauveria bassiana (Bals.) Vuillemin sobre ovos e larvas do predador Chrysoperla externa (Hagen, 1861) (Neuroptera: Chrysopidae) em laboratório.

O fungo B. bassiana (IBCB 66) foi inoculado em placas de Petri contendo meio BDA e incubado em câmara climatizada a 25±1ºC, fotófase de 12 horas e umidade relativa de 70±10%, até a plena esporulação. Os conídios foram quantificados em câmara de Neubauer e em seguida foram preparadas as suspensões de 104, 105, 106, 107 e 108 conídios mL-1 .

Em ambos os ensaios, com ovos e larvas, o delineamento utilizado foi o inteiramente cazualizado. Foram utilizadas cinco repetições por tratamento, cada uma composta por dez ovos com até 24 horas de idade. Os ovos foram imersos, durante 5 seg, nas suspensões do fungo ou em água destilada esterilizada (testemunha) e mantidos em placas de Petri contendo papel-filtro até a eclosão das larvas. Em avaliações diárias, foi verificada a viabilidade dos ovos em cada tratamento.

No experimento com as larvas, utilizaram-se dez repetições por tratamento, cada uma composta de cinco larvas. Foram utilizadas larvas de 1º, 2º e 3º ínstares, com idade máxima de 24 horas após a eclosão ou as ecdises. As larvas foram individualizadas em placas de Petri de 5 cm de diâmetro, forradas com um disco de papel-filtro, vedadas com filme de plástico e alimentadas com ovos de Anagasta kuehniella (Zeller, 1879) (Lepidoptera: Pyralidae). Sobre cada disco de papel, colocou-se uma alíquota de 0,2 mL de cada suspensão e de água destilada esterilizada para que as larvas caminhassem sobre o mesmo, segundo método descrito por Mesquita et al. (1999). Após a inoculação do fungo, as larvas permaneceram nas placas de Petri até a mudança para o ínstar seguinte ou para a fase de pré-pupa. Foram avaliadas a duração de cada ínstar e a viabilidade dos insetos em cada estádio de desenvolvimento.

Os experimentos foram conduzidos em sala climatizada a 25±1°C, umidade relativa de 70±10% e fotófase de 12 horas. Tanto os ovos inviáveis quanto as larvas mortas foram lavados em álcool a 70%, hipoclorito de sódio a 1% e água destilada esterilizada, por 10 seg, e colocados em câmara úmida para verificação da possível extrusão do patógeno.

Os dados referentes à viabilidade da fase de ovo e dos ínstares foram transformados em arc sen (x/100)0,5. Os resultados de duração dos ínstares foram transformados em x0,5. Efetuou-se a análise de variância e o teste de agrupamento de médias de Tukey a 5% de probabilidade.

Não houve efeito das diferentes suspensões do fungo sobre a viabilidade dos ovos e de larvas de primeiro e segundo ínstares de C. externa, constatando-se uma atividade entomopatogênica apenas sobre aquelas no terceiro estádio (Tabela 1).

 

 

Generoso (2002), trabalhando com B. bassiana (CG 149) e com Paecilomyces fumosoroseus Bainier (JAB 12), verificou que esses fungos foram seletivos às larvas de primeiro e terceiro ínstares de C. externa, provocando baixa mortalidade nesses estádios de desenvolvimento.

Pavlyushin & Smits (1996) verificaram o efeito entomocida dos fungos Lecanicillium (= Verticillium) lecanii, B. bassiana e P. fumosoroseus para os predadores Chrysoperla carnea (Stephens) e Chrysoperla nipponensis (Okamoto 1914) (Neuroptera: Chrysopidae). Observaram que, utilizando-se suspensões contendo 0,5x107 e 2,5x107 conídios mL-1, ocorreu uma mortalidade de 4% em larvas dessas espécies de crisopídeos e, quando se utilizou uma suspensão contendo 1,0x108 coní- dios mL-1, essa mortalidade alcançou 28%.

Ventura et al. (1996) observaram o efeito do fungo M. anisopliae sobre o terceiro ínstar de Chrysoperla kolthoffi (Navás 1927), em laboratório, em concentrações que variaram de 1,5x104 a 1,5x1012 conídios mL-1. As larvas apresentaram alta suscetibilidade ao fungo testado, com 100% de mortalidade na maior concentração.

De maneira geral, o fungo não interferiu na viabilidade dos ovos e das larvas dos crisopídeos. Podem ocorrer diferenças em relação aos isolados estudados, uma vez que a patogenicidade independe do hospedeiro ou local de origem do isolado, e a baixa mortalidade pode estar relacionada com a variabilidade genética de cada isolado (Vestergaard et al., 1995), ou com as características intrínsecas das espécies de crisopídeos estudadas.

Houve diferenças significativas na duração do terceiro ínstar de C. externa, de acordo com a concentração das suspensões de B. bassiana (Tabela 2). Observou-se diminuição na duração do terceiro ínstar de larvas tratadas com as suspensões de 1,0x107 e 1,0x108 conídios mL-1.

 

 

Esses resultados são condizentes com os relatos de Magalhães et al. (1998), os quais sugerem que os entomopatógenos podem atuar de forma nociva sobre os predadores, podendo alterar vários aspectos da sua biologia, como o ciclo de vida. Uma redução na duração da fase larval do predador pode ser considerada desfavorável sob o ponto de vista do controle biológico, porém C. externa é uma espécie que apresenta grande capacidade de busca e alta voracidade (Maia et al., 2000). Um estudo que avalie o consumo alimentar dessa espécie após a inoculação desse fungo é necessário.

B. bassiana (IBCB 66) pode ser recomendado em aplicação conjunta com C. externa em programas de controle biológico de pragas, tendo em vista a baixa suscetibilidade desse predador ao entomopatógeno.

 

Referências

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Recebido em 31 de maio de 2004 e aprovado em 4 de janeiro de 2005

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