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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.42 no.3 Brasília Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2007000300001 

ENTOMOLOGIA

 

Controle químico da cigarrinha-do-milho e incidência dos enfezamentos causados por molicutes

 

Chemical control of corn leafhopper and incidence of corn stunting diseases caused by mollicutes

 

 

Charles Martins de OliveiraI; Elizabeth de OliveiraII; Marcus CanutoII; Ivan CruzII

IEmbrapa Cerrados, Rod. BR 020, Km 18, Caixa Postal 08223, CEP 73310-970 Planaltina, DF. E-mail: charles@cpac.embrapa.br
IIEmbrapa Milho e Sorgo, Rod. MG 424, Km 65, Caixa Postal 151, CEP 35701-970 Sete Lagoas, MG. E-mail: beth@cnpms.embrapa.br, mcanuto@gmail.com, ivancruz@cnpms.embrapa.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi verificar a eficiência do tratamento inseticida de sementes de milho no controle de Dalbulus maidis e na redução da incidência de enfezamentos em viveiro telado e em campo. Foram realizados dois experimentos; no experimento 1, em viveiro telado, sementes de milho foram tratadas com imidacloprid e thiamethoxan e, nessas plantas, cigarrinhas sadias, cigarrinhas infectantes com fitoplasma ou com espiroplasma foram confinadas. Avaliaram-se eficiência de controle, incidência de plantas com enfezamentos, altura das plantas e produção de grãos. No experimento 2, em campo, imidacloprid e thiamethoxan foram utilizados em tratamento de sementes e pulverizações aos 10 e 20 dias após a semeadura. A incidência de enfezamentos e a produção de grãos foram avaliadas. Em viveiro telado, os produtos imidacloprid e thiamethoxan proporcionaram controle de adultos de D. maidis acima de 50%, até o trigésimo dia, e reduziram a incidência de doenças e danos no crescimento e produção das plantas infectadas expostas às cigarrinhas infectantes aos dois dias após a emergência. Em campo, não foi constatada redução na incidência de enfezamentos ou ganho em produção, possivelmente devido ao fluxo migratório de cigarrinhas infectantes.

Termos para indexação: Zea mays, Dalbulus maidis, Spiroplasma kunkelii, neonicotinóides, fitoplasma.


ABSTRACT

The objective of this work was to verify the efficiency of maize seed treatment on Dalbulus maidis control, and its effect on corn stunting diseases incidence, at screenhouse and at field. Two experiments were carried out. In the experiment 1 ( screenhouse), maize seeds were treated with imidacloprid or with thiamethoxan. Healthy leafhoppers, phytoplasma infective leafhoppers, and spiroplasma infective leafhoppers were confined in plants. Efficiency of control, incidence of plants with corn stunting diseases, plant height, and grain production were evaluated. In the experiment 2 (field) imidacloprid and thiamethoxan were used for seed treatment and sprayed at 10 and 20 days after sowing. Corn stunting diseases incidence and grain production were evaluated. At screenhouse, the use of imidacloprid and thiamethoxan controlled the adults of D. maidis up to 50%, until the 30th day, and reduced disease incidence and damage on growth and grain production of the infected plants exposed to the infective leafhoppers, two days after emergency. In field, redution on corn stunting diseases or increasing production due to seed treatments was not observed possibly because of the migratory flux of infective leaf hoppers.

Index terms: Zea mays, Dalbulus maidis, Spiroplasma kunkelii, neonicotinoids, phytoplasma.


 

 

Introdução

No manejo integrado de pragas (MIP), as decisões quanto às medidas de controle devem-se fundamentar em diversos fatores relacionadas à praga, à cultura e ao ambiente. Neste sentido, é importante determinar o nível do dano econômico (NDE), que possibilita a utilização dessas medidas de controle, buscando menores gastos e menor impacto ambiental. Pragas-chave, que causam danos indiretos às culturas pela transmissão de fitopatógenos, por exemplo, impossibilitam a determinação do NDE já que os danos não são proporcionais ao tamanho da população, o que torna necessário o uso de medidas preventivas (Pedigo, 1999).

Dalbulus maidis (DeLong & Wolcott, 1923) (Hemiptera: Cicadellidae) é uma espécie responsável por perdas expressivas na produção do milho, por transmitir para as plantas os molicutes, fitoplasma e espiroplasma (Spiroplasma kunkelii Whitcomb), agentes causais do enfezamento do milho, e também do Maize rayado fino marafivirus (MRFV). Prejuízos causados por essas doenças têm sido observados, principalmente, na região Centro-Oeste e em áreas onde se planta o milho de segunda época ou safrinha (Oliveira et al., 2002b).

Embora o uso de cultivares resistentes seja o método de controle mais eficiente e recomendado para o controle dessas doenças (Shurtleff, 1980; Power, 1987), nem todas as cultivares de milho disponíveis no mercado possuem resistência satisfatória e, por isso, alternativas para seu controle é altamente desejável. Alternativas para redução na população da cigarrinha visando a redução na incidência dessas doenças têm sido avaliadas (Power, 1989).

O controle químico de D. maidis foi testado por alguns autores com resultados inconsistentes (Bhirud & Pitre, 1972; Perfecto, 1990; Tsai et al., 1990). A utilização de inseticidas para a proteção das plantas de milho, principalmente na fase inicial de seu desenvolvimento, quando ocorre a infecção pelos molicutes (Hruska & Peralta, 1997; Massola Júnior et al., 1999), pode ser uma das alternativas para o manejo desta praga. No Brasil, apesar da possibilidade de controle de D. maidis em campos de sementes, como ressaltaram Oliveira et al. (1997), são raros os estudos sobre esse tema. Atualmente, os produtos imidacloprid e thiamethoxan, além de clotianidina, são os únicos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para controle da cigarrinha-do-milho.

Este trabalho teve como objetivos avaliar a eficiência do tratamento inseticida de sementes no controle da cigarrinha D. maidis e na redução da transmissão de molicutes por cigarrinhas infectantes assim como a eficácia do controle químico da cigarrinha na incidência de enfezamentos, sob condições de campo.

 

Material e Métodos

Foram realizados dois experimentos em Sete Lagoas, MG, na área experimental da Embrapa Milho e Sorgo: o primeiro, em viveiro telado com delineamento inteiramente ao acaso num esquema fatorial 3x3x5, com dez repetições, num total de 450 plantas. O primeiro fator, correspondeu a cigarrinhas D. maidis infectadas com fitoplasma, ou com espiroplasma ou isentas de fitopatógenos; o segundo fator, a sementes de milho tratadas com inseticidas imidacloprid, ou com thiamethoxan ou sementes não tratadas, e o terceiro fator, a idade em que as plantas foram submetidas à alimentação pelas cigarrinhas (2, 9, 16, 23 e 30 dias após a emergência das plantas).

Sementes de milho-pipoca, variedade Pop Zélia, tratadas com imidacloprid, com thiamethoxan, e também sementes não tratadas, foram semeadas em potes de plástico (5 kg) com solo previamente analisado e adubado, sendo três sementes por vaso. Todas as plantas utilizadas no experimento foram plantadas no mesmo dia e, dois dias após a emergência, realizou-se o desbaste, e apenas uma planta permaneceu em cada vaso. Antes do início do estudo, grupos de ninfas sadias de D. maidis de terceiro ou quarto ínstar foram colocadas em plantas-fonte de fitoplasma e espiroplasma mantidas em casa de vegetação. Foram preparados cinco grupos de ninfas, espaçados uns dos outros por intervalos de sete dias. As ninfas de cada grupo passaram pelo período de acesso à aquisição dos fitopatógenos (quatro dias) e pelo período latente (três semanas). Terminado esse período, os insetos, já adultos, estavam infectivos e aptos a transmitir os fitopatógenos.

Aos 2, 9, 16, 23 e 30 dias após a emergência das plantas, grupos de cinco adultos de cigarrinha D. maidis, infectantes com fitoplasma, ou infectantes com espiroplasma ou isentos de fitopatógenos, com idade aproximada de duas a três semanas, foram colocados, separadamente, para se alimentar em plantas tratadas com cada produto inseticida e na testemunha, utilizando-se dez repetições. Utilizou-se um lote diferente de plantas em cada data. As plantas foram cobertas com gaiolas de confinamento, constituídas de garrafas de plástico transparente (2 L), cujo fundo foi retirado. Essas garrafas possuíam aberturas laterais protegidas por tecido "voile" para ventilação, conforme Oliveira & Lopes (2004). Os insetos foram introduzidos nas gaiolas, por meio de um aspirador bucal, pela abertura superior da garrafa, que posteriormente foi fechada com tampa de rosca.

A avaliação de mortalidade foi realizada 96 horas após o confinamento das cigarrinhas, em cada uma das datas (2, 9, 16, 23 e 30 dias após emergência das plantas). Foram considerados mortos apenas os insetos que não apresentavam movimentos dos apêndices locomotores (pernas e asas). Após o período de inoculação de 96 horas, as plantas submetidas às cigarrinhas foram mantidas em viveiro telado. Foram realizadas adubações com sulfato de amônio (0,25 g kg-1), semanalmente, até o florescimento.

As plantas foram avaliadas quanto à presença de sintomas foliares de enfezamentos aos 100 dias após plantio. Foram considerados sintomas de infecção por fitoplasma ou espiroplasma, a presença de avermelhamento ou amarelecimento nas margens ou no ápice das folhas, presença de estrias esbranquiçadas, iniciando-se na base das folhas, e também a seca foliar precoce. As plantas foram conduzidas até a produção e determinada a altura de plantas e o peso total de grãos por planta.

O segundo experimento foi conduzido em campo. Utilizou-se a cultivar BR 3123, por ser um híbrido susceptível aos enfezamentos do milho, o que facilita a avaliação de incidência por meio dos sintomas foliares. Utilizou-se o tratamento de sementes com os inseticidas thiamethoxan e imidacloprid associados ou não com pulverizações desses mesmos inseticidas em diferentes datas, em um total de 15 tratamentos: testemunha (sementes não tratadas – sem pulverização); sementes não tratadas – pulverização de thiamethoxan aos 10 dias após a emergência das plantas (DAE); sementes não tratadas – pulverizações de thiamethoxan aos 10 e 20 DAE; sementes não tratadas – pulverização de imidacloprid aos 10 DAE; sementes não tratadas – pulverizações de imidacloprid aos 10 e 20 DAE; sementes tratadas com imidacloprid – sem pulverização; sementes tratadas com imidacloprid – pulverização de thiamethoxan aos 10 DAE; sementes tratadas com imidacloprid – pulverizações de thiamethoxan aos 10 e 20 DAE; sementes tratadas com imidacloprid – pulverização de imidacloprid aos 10 DAE; sementes tratadas com imidacloprid – pulverizações de imidacloprid aos 10 e 20 DAE; sementes tratadas com thiamethoxan – sem pulverização; sementes tratadas com thiamethoxan – pulverização de thiamethoxan aos 10 DAE; sementes tratadas com thiamethoxan – pulverizações de thiamethoxan aos 10 e 20 DAE; sementes tratadas com thiamethoxan – pulverização de imidacloprid aos 10 DAE; sementes tratadas com thiamethoxan – pulverizações de imidacloprid aos 10 e 20 DAE. O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com quatro repetições. Cada parcela experimental foi composta de dez fileiras de 7 m de comprimento, com espaçamento de 0,9 m entre fileira e 0,2 m entre plantas, sendo a área útil constituída pelas oito fileiras centrais, com distância de 1 m entre parcelas.

Sementes de milho foram tratadas com imidacloprid (480 g por 100 kg de sementes) ou com thiamethoxan (200 g por 100 kg de sementes) ou não foram tratadas. Aos 10 e 20 dias após a emergência das plantas, de acordo com cada tratamento, foi realizada a pulverização com os mesmos inseticidas (imidacloprid 175 g ha-1 e thiamethoxan 37,5 g ha-1), utilizando-se um pulverizador costal com bico 8004 e vazão de 250 L ha-1, tendo-se o cuidado de cercar a parcela a ser pulverizada com uma lona de plástico para evitar que a deriva dos produtos atingisse parcelas que não receberiam a pulverização. O experimento foi conduzido observando-se todos os tratos culturais recomendados para a cultura do milho na região. A infestação da cultura por populações do inseto vetor D. maidis foi natural.

Havia, ao lado da área experimental, por ocasião da instalação do estudo, um campo de milho em fase de enchimento de grãos, com plantas apresentando sintomas típicos de enfezamentos, que poderia servir como fonte de populações de cigarrinhas portadoras dos molicutes.

Para a avaliação da eficiência dos tratamentos, aos 100 dias após a emergência, foi avaliada a incidência de enfezamentos. Todas as plantas da área útil de cada parcela foram avaliadas quanto à presença de sintomas foliares típicos de enfezamentos, conforme descrito no experimento 1. Posteriormente as plantas foram conduzidas até o final do ciclo e avaliada a produção e o número de espigas por planta.

No experimento 1, os dados de mortalidade dos tratamentos (%) foram utilizados para o cálculo da eficiência dos inseticidas por meio da fórmula de Abbott (1925) e, assim como os dados de porcentagem de sintomas foliares, avaliados nos experimentos 1 e 2, foram transformados segundo arc sen (x/n)0,5, e no caso de x = 0 e x = n utilizou-se arc sen (1/4n)0,5 e arc sen (4n-1/4n)0,5, respectivamente (Pimentel-Gomes, 2000). Os dados de altura de plantas, do experimento 1, e de produção, dos experimentos 1 e 2, não foram transformados. Os dados dos dois experimentos foram submetidos a análises de variância e as médias comparadas pelo teste de Scott-Knott, a 5% de probabilidade, utilizando-se o SISVAR 4.3 (Ferreira, 2000).

 

Resultados e Discussão

No experimento em viveiro telado detectou-se interação significativa entre os fatores datas de avaliação e inseticidas, quanto à eficiência de controle das cigarrinhas (Tabela 1). Nas variáveis sintoma, altura de planta e peso seco de grãos, a interação foi significativa entre todos os fatores testados (Tabela 2). Independentemente da infectividade das cigarrinhas – sadias ou infectantes com molicutes –, imidacloprid e thiamethoxan apresentaram alta eficiência de controle até o 23º dia (>70%). Esta porcentagem foi semelhante até o 16º  dia, para o primeiro, e até o 9º  dia para o segundo produto, respectivamente. Os dois inseticidas apresentaram porcentagens de eficiência de controle da cigarrinha-do-milho semelhantes em todas as datas de inoculação, com exceção da inoculação realizada aos 16 dias após a emergência das plantas em que imidacloprid mostrou-se significativamente superior ao thiamethoxan (Tabela 1).

Em estudos com o pulgão Myzus persicae, na cultura da alface, os dois inseticidas apresentaram alta eficiência de controle até os 43 dias após o transplante (Zagonel et al., 2002). Na cultura da batata, a utilização de imidacloprid, aplicado no solo, mostrou alta eficiência de controle nas espécies de pulgão Macrosiphum euphorbiae, M. persicae e Aphis nasturtii, por no mínimo 62–65 dias após a emergência. Contudo, a aplicação foliar do produto requereu no mínimo cinco dias de alimentação dessas espécies para uma porcentagem de controle de 50–75% (Boiteau et al., 1997). Nos percevejos-da-soja, Piezodorus guildinii, Nezara viridula e Euschistus heros, uma mistura de thiamethoxan, cipermetrina e sal de cozinha permitiu o controle dessas espécies por até 15 dias (Ramiro et al., 2005). A eficiência de controle dos inseticidas thiamethoxan e imidacloprid, de acordo com seu efeito residual, é variável em diferentes espécies-praga e com a dose do produto (Boiteau et al., 1997). Apenas plantas submetidas a cigarrinhas infectantes apresentaram sintomas de enfezamentos (Tabela 2).

O tratamento inseticida de sementes, para ambos produtos, causou redução de forma variável na incidência de plantas com sintomas de enfezamentos, sendo esse efeito significativamente maior quando a inoculação foi feita aos dois dias após a emergência das plântulas, e marcante para imidacloprid. Esse efeito persistiu até a inoculação aos nove dias após a emergência das plântulas, quando as sementes foram tratadas com imidacloprid. Há relatos de que as cigarrinhas necessitam alimentar-se cerca de 0,5 e 1 hora para transmissão do fitoplasma e do espiroplasma, respectivamente (Markham & Alivizatos, 1983; Legrand & Power, 1994), e, nesse caso, podem ter morrido antes de completar a transmissão. A redução na incidência de plantas com sintomas de enfezamentos pode ser atribuída à alta e rápida mortalidade das cigarrinhas proporcionadas pelos inseticidas (Tabela 1), sugerindo que o tratamento inseticida de sementes de milho, com esses produtos poderia reduzir o inóculo inicial dos molicutes, matando as cigarrinhas infectantes que chegam à lavoura nos estádios iniciais de desenvolvimento das plantas (Oliveira et al., 2002a). Os enfezamentos são doenças consideradas de ciclo primário, cujo inóculo não se multiplica dentro da lavoura, em virtude do desenvolvimento relativamente lento dos molicutes nas plantas de milho, que podem necessitar cerca de 30 dias para serem detectados na parte aérea (Oliveira et al., 2002c). Já foi demostrado que o espiroplasma, ao infectar plântulas de milho, movimenta-se primeiro em direção às raízes, e depois em direção à parte aérea (Gussie et al., 1995). D. maidis tem hábito migratório e dissemina os molicutes de lavouras de milho doentes, para plântulas jovens em lavouras recém-estabelecidas (Oliveira et al., 2002a). É possível supor que a redução na porcentagem de cigarrinhas infectantes que chegam em uma lavoura de milho recém-germinada, por meio do tratamento de sementes, poderia reduzir a incidência de plantas com enfezamentos.

A redução na incidência de plantas com sintoma de enfezamento, verificada quando as plantas foram expostas às cigarrinhas infectantes aos 30 dias após a germinação, pode ser atribuída à interferência de outros fatores como a expressão de resistência pelas plantas, atuando em sinergismo, e de forma diferenciada, com os produtos inseticidas e ao comportamento diferenciado dos dois fitopatógenos com relação à capacidade de infecção dos tecidos da planta. Foi demonstrado que genótipos de milho diferentes apresentam resistência diferenciada ao fitoplasma e ao espiroplasma (Silva et al., 2002, 2003; Oliveira et al., 2005).

O aumento na incidência de plantas com sintomas, de acordo com o aumento da idade das plantas, entre 2 e 30 dias após a emergência, pode ser decorrente da diluição dos inseticidas na seiva com conseqüente aumento do tempo de alimentação necessário para causar a morte das cigarrinhas, o que permitiu a transmissão dos molicutes para as plantas. Broadbent (1957) relatou que a atividade de inseticidas sistêmicos varia com a idade das plantas. Esses inseticidas diminuem seu efeito à medida que as plantas crescem. Tem sido demonstrado experimentalmente que o uso de inseticidas é capaz de controlar a população de insetos vetores por períodos relativamente longos, sem que, no entanto, haja redução significativa das doenças por eles disseminadas (Broadbent, 1957; Boiteau et al., 1997). A ação lenta dos inseticidas para levar à morte os insetos vetores, conforme relatado para imidacloprid, pode ser uma das causas da ineficiência na prevenção de disseminação de doenças em plantas (Boiteau et al., 1997).

Reduções significativas na altura das plantas foram observadas nos tratamentos de inoculação aos 9 e aos 16 dias após a emergência das plantas para o imidacloprid (Tabela 2). Esse efeito foi maior quando as plantas foram tratadas com thiamethoxan (2, 9, 16 e 23 dias), o que pode ser evidenciado pela maior incidência de plantas com sintomas de enfezamentos nesse tratamento (Tabela 2). Essa redução foi significativamente maior em tratamentos de inoculação com espiroplasma, em relação aos tratamentos de inoculação com fitoplasma, confirmando a diferença, anteriormente relatada, no efeito de fitoplasma e de espiroplasma sobre o desenvolvimento de plantas de milho (Oliveira et al., 2002c).

Com relação à severidade dos danos causados por esses fitopatógenos na produtividade de grãos, em geral, os maiores efeitos negativos, para os dois produtos, foram observados quando as plantas foram submetidas às cigarrinhas infectantes aos 9, 16 e 23 dias após a emergência. As reduções na produtividade foram menores quando a inoculação foi realizada aos dois dias após a emergência, quando o uso dos inseticidas reduziu significativamente a infecção pelos molicutes; e quando as plantas foram infectadas tardiamente aos 30 dias após a emergência. Tem sido demonstrado que infecções tardias das plantas de milho causam menores danos à produção (Hruska & Peralta, 1997; Massola Júnior et al., 1999).

No experimento em campo, a utilização dos inseticidas para controle da cigarrinha não resultou em redução significativa na incidência de enfezamentos e aumento da produção. A incidência de enfezamentos variou de 19% (sementes tratadas com imidacloprid e pulverização das plantas com thiamethoxan aos 10 DAE) a 36,4% (sementes não tratadas e pulverização das plantas com thiamethoxan aos 10 DAE). Observou-se que a produtividade variou de 3.347 kg ha-1 (sementes não tratadas e pulverização das plantas com imidacloprid aos 10 DAE) a 4.631 kg ha-1 (sementes não tratadas e pulverização das plantas com imidacloprid aos 10 e 20 DAE). Considerando-se os resultados observados no experimento conduzido sob condições controladas, esse resultado obtido em campo não era esperado. Assim, é possível que a entrada contínua de cigarrinhas infectantes na área experimental durante o desenvolvimento da cultura tenha apresentado um efeito maior de disseminação dos fitopatógenos que a capacidade dos inseticidas de reduzirem o inóculo inicial de molicutes. A cigarrinha-do-milho tem sido apontada como uma espécie migratória, que permanece na cultura durante todo o ciclo, abandonando os campos de milho senescentes, e possivelmente, utilizando-se de correntes de vento para localização de novos campos para a colonização (Taylor et al., 1993; Oliveira, 2000). As cigarrinhas infectantes podem ter entrado na área do experimento, após o período residual do tratamento inseticida.

 

Conclusões

1. Em viveiro telado, o tratamento inseticida de sementes de milho com imidacloprid ou com thiamethoxan reduz a população inicial de cigarrinhas Dalbulus maidis e o inóculo inicial dos molicutes, particularmente quando as cigarrinhas se alimentam em plântulas até nove dias após a emergência.

2. Em condições de campo, o tratamento de sementes com os inseticidas testados não assegura a redução na incidência de enfezamentos.

3. O imidacloprid é mais eficaz que thiamethoxan, no controle de Dalbulus maidis por meio do tratamento de sementes.

 

Agradecimentos

Aos funcionários da Embrapa Milho e Sorgo, pelo auxílio na instalação e condução dos experimentos; ao CNPq, pela concessão de bolsa.

 

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Recebido em 3 de julho de 2006 e aprovado em 7 de dezembro de 2006

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