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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204X

Pesq. agropec. bras. vol.42 no.3 Brasília Mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2007000300019 

NOTAS CIENTÍFICAS

 

Caracteres epidemiológicos e uso da análise de agrupamento para resistência parcial à ferrugem da soja

 

Epidemiological characters and the use of cluster analysis for characterizing partial resistance to soybean rust

 

 

Juliana Araújo Santos; Fernando Cézar Juliatti; Verônica Araújo Santos; Analy Castilho Polizel; Fernanda Cristina Juliatti; Osvaldo Toshiuki Hamawaki

Universidade Federal de Uberlândia, Instituto de Ciências Agrárias, Núcleo de Fitopatologia, Av. Amazonas s/nº, Campus Umuarama, Bloco 2E, CEP 38400-920 Uberlândia, MG. E-mail: juaraujosantos@yahoo.com.br, juliatti@ufu.br, veve1985@yahoo.com.br, analy.polizel@bol.com.br, hamawaki@umuarama.ufu.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar a resistência parcial de genótipos de soja ao fungo Phakopsora pachyrhizi. Calcularam-se o número médio de pústulas, a severidade e a área abaixo da curva de progresso da doença. Foram encontradas diferenças significativas entre os genótipos quanto ao número médio de pústulas e severidade, aos 12 dias após a inoculação. A análise de agrupamento permitiu a discriminação de genótipos parcialmente resistentes. Os genótipos G4, G41 e G42, referentes aos parentais Cristalina e IAC 100, foram detectados como os de maior resistência parcial à ferrugem da soja.

Termos para indexação: Glycine max, Phakopsora pachyrhizi, análise multivariada, dendrograma, severidade.


ABSTRACT

The objective of this work was to evaluate the partial resistance of soybean genotypes against Phakopsora pachyrhizi. Resistance characteristics were: average number of pustules, rust severity and the area under the disease progress curve. Significant differences were found among the genotypes for the average number of pustules and rust severity. Multivariate analysis allowed the discrimination of partially resistant genotypes. Three genotypes (G4, G41, and G42), referring to parents Cristalina and IAC 100, presented greater partial resistance to soybean rust.

Index terms: Glycine max, Phakopsora pachyrhizi, multivariate analysis, dendrogram, rust severity.


 

 

A ferrugem asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi Syd., constitui-se em um dos principais problemas fitossanitários da cultura (Juliatti et al., 2003). O controle da doença tem exigido combinação de práticas culturais, a fim de que sejam minimizados os danos e as perdas. Entre os métodos de controle, o único disponível, no momento, é o químico, por meio de fungicidas. Estratégias de controle, como a utilização de cultivares com resistência parcial ao fungo, são desejáveis para o manejo eficiente da cultura.

A resistência pode ser definida como a habilidade do hospedeiro em impedir o crescimento e o desenvolvimento do patógeno (Parlevliet, 1997). A resistência parcial tem como característica a redução da taxa da epidemia, pela diminuição do número e tamanho das lesões, pela diminuição da produção de uredinosporos, e pelo aumento do período latente. Isso faz com que a população do patógeno seja reduzida, e que seja diminuída a quantidade de inóculo e, conseqüentemente, a intensidade da doença (Wang & Hartman, 1992). Este tipo de resistência torna-se visível após a resistência não durável ou monogênica ter sido superada por uma nova raça do patógeno (Parlevliet, 1997). Segundo Parlevliet (1983), a seleção para resistência parcial na presença de genes maiores pode ser indesejável, uma vez que o efeito dos genes maiores pode suprimir o efeito dos genes menores sob determinadas condições experimentais. Uma das formas de se evitar que ocorram seleções errôneas é a utilização de uma raça com o espectro de virulência o mais amplo possível.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a resistência parcial de genótipos de soja ao fungo P. pachyrhizi, em razão da necessidade de obtenção de cultivares com maior resistência, para a redução do número de aplicações de fungicidas.

O ensaio foi conduzido em casa de vegetação em Uberlândia, MG, no período de dezembro de 2004 a fevereiro de 2005. O cultivo foi realizado em bandejas com substrato Plantmax. Quando as plantas apresentavam o segundo trifólio expandido (estádio V2), pulverizaram-se as folhas com 0,8.105 uredinosporos mL-1 do fungo P. pachyrhizi. Em seguida, as plantas permaneceram em casa de vegetação a 30±3°C, com turnos de molhamento de 15 min, a cada 1 hora durante 12 horas por dia.

Foram avaliados 61 genótipos, provenientes do programa de melhoramento genético de soja, da Universidade Federal de Uberlândia; como testemunhas utilizaram-se as cultivares: Garantia, DM 339, Luziânia, DM 118, MG/BR 46 (Conquista), UFV 19 e M-Soy 6101. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, com 68 genótipos e nove repetições, cada uma composta por oito plantas, onde somente as duas plantas centrais foram avaliadas.

As avaliações foram realizadas no folíolo central do primeiro trifólio, aos 6, 12 e 18 dias após a inoculação (6 DAI, 12 DAI e 18 DAI). Quantificou-se o número de pústulas por centímetro quadrado e a severidade (porcentagem da área foliar coberta com sintomas), segundo Juliatti & Polizel (2004). A área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) foi calculada para as variáveis pústulas por centímetro quadrado e severidade. Todo o procedimento para a obtenção da AACPD foi realizado pelo programa AVACPD, da Universidade Federal de Viçosa. Foi feita a análise de variância, e as médias foram comparadas pelo teste de Scott-Knott, a 5% de probabilidade. As variáveis pústulas por cm2 e AACPD para pústulas por cm2 foram transformadas em (x + 0,5)0,5.

A análise multivariada de agrupamento foi realizada com o objetivo de agrupar os genótipos semelhantes em relação às variáveis pústulas por cm2 e severidade. Para a formação dos grupos, adotou-se a medida de dissimilaridade distância euclidiana, e para identificar a similaridade entre grupos, como estratégia de agrupamento, utilizou-se o método UPGMA (Unweighted Pair Group Method with Arithmetic Average), que utiliza a distância média do grupo e expressa o resultado da ordenação das populações em dendrograma (Johnson & Wichern, 1998).

A média do número de pústulas por cm2 variou: de 3,3 a 9,1 aos 6 DAI; de 8,2 a 17,2 aos 12 DAI; e de 48,8 a 133,1 aos 18 DAI. Houve diferenças significativas entre as médias dos genótipos apenas aos 12 DAI (Tabela 1). A média da severidade da ferrugem asiática, na área foliar variou: de 4,8 a 12,3% de área foliar aos 6 DAI; de 13,6 a 23,9% aos 12 DAI; e, de 36,7 a 66,9% de área foliar infectada aos 18 DAI. Houve diferenças significativas entre as médias apenas na avaliação aos 12 DAI. Pelos dados obtidos, foi possível separar os 68 materiais em dois grupos distintos: um primeiro grupo de genótipos, com maior resistência parcial à ferrugem da soja, cuja severidade variou de 15,6 a 18,9%, e um segundo grupo, em que a severidade variou de 19,2 a 23,9%, cujos genótipos apresentaram maior suscetibilidade à ferrugem asiática. A média dos valores da AACPD, para número de pústulas por cm2, variou de 242 a 565, sem diferença significativa entre as médias dos genótipos. Quanto à severidade da ferrugem asiática nos genótipos, a média dos valores da AACPD variou de 251 a 385.

O dendrograma relativo à análise de agrupamento das variáveis pústulas por cm2 e severidade aos 12 DAI está apresentado na Figura 1. Os 68 genótipos foram distribuídos em sete grupos, tendo-se considerado como ponto de corte a distância euclidiana de 50%. No grupo I, a média de pústulas por cm2 variou de 9,4 a 12,4, e a média da severidade variou de 13,6 a 15,9%. No grupo II, houve uma variação de 8,2 a 12,4, para pústulas por cm2, e de 16,4 a 19,6% para a severidade. Os valores das médias dessas variáveis, nestes dois grupos, estão dentro da amplitude de variação dos melhores genótipos, tomando-se como referência a análise de variância dos genótipos, ou seja, estão distribuídos nos grupos I e II os materiais que apresentaram melhor desempenho quanto à resistência parcial à ferrugem da soja.

Nos grupos III a VII, a amplitude de variação das médias foi de 8,8 a 17,2, para pústulas por cm2, e de 17,9 a 23,9% para a severidade. Nesses grupos estão os genótipos de desempenho abaixo da média para resistência à ferrugem da soja, porém, ocorre, dentro da amplitude de variação das médias destes grupos, a presença de materiais considerados parcialmente resistentes, tais como os genótipos: G17, G35, G42, G49 e G54 do cruzamento Cristalina x IAC 100; G18 e G31 do cruzamento FT 2000 x Emgopa 302; G58 do cruzamento FT-50.268-M x UFV-18; G22 do cruzamento IAC 100 x Emgopa 302; G32 do cruzamento IAC Foscarim x FT 2000; G64 do cruzamento (M-Soy 8411 x UFV-18) x (UFV-18 x Conquista); G53 do cruzamento Tucano x M-Soy 8800.

Este fator pode ser um indicativo da alta similaridade apresentada pelos genótipos, e da inexistência de agrupamentos fortes (homogêneos) entre si e heterogêneos com os demais. Portanto, a análise de agrupamento e a de componentes principais dos genótipos, consideradas juntamente com a análise de variância, podem vir a ser ferramentas a mais para complementar o estudo da quantificação da resistência parcial a P. pachyrhizi. Procedendo-se à analogia entre as variáveis que apresentaram diferenças significativas entre as médias: pústula por cm2 aos 12 DAI, severidade aos 12 DAI e AACPD para severidade, verificou-se que os genótipos G4, G41 e G42, originários do cruzamento Cristalina e IAC 100, apresentaram maior resistência, porque foram os que mostraram somatória dos efeitos desses parâmetros analisados. O mesmo resultado foi encontrado por Juliatti et al. (2005), em trabalho sobre a cultivar UFUS Impacta, proveniente de hibridações entre as cultivares Cristalina RCH e IAC 100, que apresentou resistência parcial a P. pachyrhizi, quando comparada aos demais genótipos.

O uso de genótipos com resistência parcial à ferrugem asiática da soja poderá ser útil na redução do número de aplicações de fungicidas. Pelos resultados apresentados, ficou evidenciada a presença de genes menores no germoplasma brasileiro IAC 100 de soja. Esta informação poderá ser útil aos melhoristas de plantas e fitopatologistas, para agrupar esses genes menores em diferentes genótipos, com ou sem o uso de marcadores moleculares e, assim, aumentar a resistência parcial à ferrugem da soja.

 

Referências

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JULIATTI, F.C.; BORGES, E.N.; PASSOS, R.R.; CALDEIRA JÚNIOR, J.C.; JULIATTI, F.C.; BRANDÃO, A.M. Doenças da soja. Cultivar, v.47, p.3-14, 2003.        [ Links ]

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WANG, T.C.; HARTMAN, G.L. Epidemiology of soybean rust and breeding for host resistance. Plant Protection Bulletin, v.34, p.109-149, 1992.        [ Links ]

 

 

Recebido em 13 de junho de 2006 e aprovado em 11 de janeiro de 2007