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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.42 no.5 Brasília May 2007

https://doi.org/10.1590/S0100-204X2007000500010 

FRUTICULTURA

 

Desenvolvimento vegetativo e custo de produção de porta-enxertos de citros em recipientes para fins de subenxertia

 

Vegetative development and production cost of citrus rootstocks in containers for inarching

 

 

Eduardo Augusto Girardi; Francisco de Assis Alves Mourão Filho; Sônia Maria de Stefano Piedade

Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Av. Pádua Dias, 11, Caixa Postal 9, CEP 13418-900 Piracicaba, SP. E-mail: eagirard@esalq.usp.br, famourao@esalq.usp.br, soniamsp@esalq.usp.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar o desenvolvimento vegetativo e estimar o custo de produção de 11 porta-enxertos de citros para fins de subenxertia, em diferentes recipientes. Avaliaram-se limão 'Cravo' clone Limeira (Citrus limonia Osbeck); citrumelo 'Swingle' (Poncirus trifoliata (L.) Raf. x Citrus paradisi Macf.); tangerina 'Cleópatra' (Citrus reshni Hort. ex Tanaka); tangerina 'Sunki' (Citrus sunki Hort. ex Tanaka); limão 'Volkameriano' clone Catânia 2 (Citrus volkameriana Pasquale); laranja 'Caipira' clone DAC (Citrus sinensis L. Osbeck); limão 'Rugoso da África' clone Mazoe (Citrus jambhiri Lush.); Poncirus trifoliata 'Davis A'; tangerina 'Sun Shu Sha Kat' (Citrus sunki Hort. ex Tanaka); tangerina 'Sunki' clone 2506 ou Fruto Grande (Citrus sunki Hort. ex Tanaka) e Poncirus trifoliata 'Barnes'. Foram utilizados tubetes de 290 mL, sacolas de 1,7 L, e porta-enxertos transplantados de tubetes de 75 mL para sacolas de polietileno de 1,7 e 4,5 L. Porta-enxertos produzidos diretamente em sacolas de 1,7 L atingem ponto ideal de subenxertia em menor tempo, de 100 a 150 dias após a semeadura, e permitem a obtenção de plantas maiores e com sistema radicular adequado, porém com custo de produção superior ao sistema de produção em tubetes de 290 mL.

Termos para indexação: Citrus spp., fruticultura, morte súbita dos citros, propagação, técnicas de enxertia.


ABSTRACT

The vegetative development and the estimation of the production cost of eleven citrus rootstocks for inarching were evaluated in different containers. 'Rangpur' lime cultivar Limeira (Citrus limonia Osbeck); 'Swingle' citrumelo (Poncirus trifoliata (L.) Raf. x Citrus paradisi Macf.); 'Cleópatra' mandarin (Citrus reshni Hort. ex Tanaka); 'Sunki' mandarin (Citrus sunki Hort. ex Tanaka); 'Volkamer' lemon cultivar Catânia 2 (Citrus volkameriana Pasquale); 'Caipira' sweet orange cultivar DAC (Citrus sinensis L. Osbeck); 'Rugoso da África' rough lemon cultivar Mazoe (Citrus jambhiri Lush.); Poncirus trifoliata cultivar Davis A; 'Sun Shu Sha Kat' mandarin (Citrus sunki Hort. ex Tanaka); 'Sunki' mandarin cultivar 2506 or Fruto Grande (Citrus sunki Hort. ex Tanaka) and Poncirus trifoliata cultivar Barnes were studied. Containers used were: 290 mL leaching tubes, 1.7 L polyethylene bags, and rootstocks transplanted from 75 mL leaching tubes to 1.7 and 4.5 L polyethylene bags. Rootstocks directly sowed in 1.7 L polyethylene bags reach optimal size for inarching in the shortest period, 100 to 150 days after sowing. They also lead to larger plants with satisfactory root system, however with a higher cost of production when compared to production system in 290 mL leaching tubes.

Index terms: Citrus spp., fruit crops, citrus sudden death disease, propagation, grafting.


 

 

Introdução

A subenxertia é uma técnica de multiplicação vegetativa que permite atribuir à copa novos porta-enxertos, para substituir o original afetado por problemas fitossanitários ou problemas traumáticos, que causam deficiências no desenvolvimento das plantas (Müller et al., 2002). A subenxertia foi utilizada com sucesso na prevenção da tristeza-dos-citros (CTV) em porta-enxertos de laranja-azeda, afetados na Espanha e em Israel (Shaked et al., 1987; Moreno et al., 1994). O citrumelo 'Swingle' se mostrou um excelente porta-enxerto para fins de subenxertia na prevenção da CTV, e quanto mais novos foram os subenxertos e as plantas a serem subenxertadas, mais rápida foi a recuperação, sem prejuízo algum à produção da copa (Shaked et al., 1987). No Japão, a subenxertia foi empregada para promover revigoramento e aumento da produção em pomeleiro (Nakajima et al., 1992).

Cerca de 80% do parque citrícola no Brasil está enxertado sobre o limão 'Cravo', porta-enxerto intolerante à morte súbita dos citros (MSC) (Pompeu Junior, 2005). A subenxertia vem sendo utilizada como técnica cultural de prevenção da MSC, em pomares nos quais ainda não se observa a doença ou na recuperação de plantas em estádios iniciais de manifestação de sintomas (Tersi, 2004). Essa técnica consiste no emprego de porta-enxertos tolerantes à MSC, como citrumelo 'Swingle' e tangerina 'Cleópatra', subenxertados em tecido da copa, a 35 cm do nível do solo. Para o uso do método do T-invertido, os porta-enxertos devem apresentar tecido maduro e diâmetro de cerca de 0,3 a 1 cm na altura da subenxertia. Utiliza-se de um a quatro subenxertos por árvore, conforme a idade da árvore, condições técnicas e grau de infestação da MSC do pomar (Tersi et al., 2003). Cerca de seis milhões de subenxertos já foram realizados até 2006, e é a única forma de controle da doença atualmente, além de não acarretar diminuição na produção ou longevidade dos pomares subenxertados (Fundecitrus, 2006).

O objetivo deste trabalho foi avaliar o desenvolvimento vegetativo e estimar o custo de produção de 11 porta-enxertos de citros, produzidos em diferentes recipientes em ambiente protegido, para fins de subenxertia.

 

Material e Métodos

O trabalho foi conduzido em estufa comercial telada para produção de mudas cítricas, no Município de Araras, SP, a 22º25'15"S e 47º17'52"W. O clima da região é do tipo Cwa. Verificaram-se, no interior da estufa, temperaturas máximas e mínimas (médias) no verão e no inverno, respectivamente, de 40,5 e 18,6°C e 34,6 e 13,5°C, e umidade relativa média no verão e no inverno, respectivamente, de 60 e 70%, entre novembro de 2003 e setembro de 2004.

Foram avaliados 11 porta-enxertos, dos quais oito de importância comercial atual: limão 'Cravo' clone Limeira (Citrus limonia Osbeck); citrumelo 4475 ou 'Swingle' (Poncirus trifoliata x Citrus paradisi); tangerina 'Cleópatra' (Citrus reshni Hort. ex Tanaka); tangerina 'Sunki' (Citrus sunki Hort. ex Tanaka); limão 'Volkameriano' clone Catânia 2 (Citrus volkameriana Pasquale); laranja 'Caipira' clone DAC (Citrus sinensis L. Osbeck); limão 'Rugoso da África' clone Mazoe (Citrus jambhiri Lush.) e Poncirus trifoliata 'Davis A'; e três com potencial para expansão de exploração na citricultura brasileira: tangerina 'Sun Shu Sha Kat' (Citrus sunki Hort. ex Tanaka), tangerina 'Sunki' clone 2506 ou Fruto Grande (Citrus sunki Hort. ex Tanaka) e Poncirus trifoliata 'Barnes'. Os porta-enxertos comerciais, à exceção do limão 'Cravo' e do limão 'Volkameriano', não demonstram intolerância à MSC em pomares, e seu uso é recomendado para fins de subenxertia, pelo Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus, 2006).

As sementes dos porta-enxertos foram obtidas de frutos maduros, coletados no Banco de Germoplasma, do Centro APTA Citros Sylvio Moreira, e no campo de plantas-matrizes da SaniCitrus Mudas Cítricas, em junho de 2003. As sementes foram extraídas manualmente, submetidas a secagem à sombra por 24 horas e, posteriormente, embaladas em jornal, com aplicação de fungicida apropriado. As sementes foram mantidas em refrigerador a 5°C até a semeadura, em novembro de 2003, quando, então, se extraiu seu tegumento externo (testa), a fim de acelerar a emergência e, portanto, auxiliar na otimização da produção dos subenxertos (Girardi et al., 2007).

Foram avaliados três recipientes, com finalidade exclusiva para subenxertia: porta-enxertos semeados em tubetes de 290 mL, em bancadas de arame suspenso; porta-enxertos semeados diretamente em sacolas de plástico de 1,7 L, sobre bancadas de concreto; porta-enxertos em tubetes convencionais de 75 mL, posteriormente transplantados para sacolas de plástico de 1,7 L. Avaliou-se também a produção dos porta-enxertos em tubetes de 75 mL, com posterior transplante para sacolas de 4,5 L, pois é o sistema convencionalmente empregado para fins de enxertia e formação das mudas no viveiro, que funcionou como padrão para cada porta-enxerto.

Todos os porta-enxertos foram submetidos aos tratos culturais e programa nutricional recomendados para produção de porta-enxertos aptos à enxertia em curto prazo (Carvalho et al., 2005). Foi semeada manualmente uma semente sem testa em cada recipiente. Nos tubetes de 75 mL, utilizou-se o substrato comercial Plantmax Citrus, à base de casca de pinus e de baixa granulometria. Nos demais recipientes, utilizou-se substrato comercial Rendmax Citrus, à base de casca de pinus e de grânulos maiores. A razão da escolha foi o menor preço do último substrato, bem como sua melhor adaptação a recipientes de maior capacidade. As sementes foram recobertas por uma fina camada de Plantmax Citrus em todos os tratamentos.

Os porta-enxertos produzidos nos tubetes de 75 mL foram transplantados para as sacolas de plástico, em março de 2004, aproximadamente quatro meses após a semeadura, e o ensaio foi concluído em setembro de 2004.

O delineamento experimental adotado foi o fatorial 11x4 (porta-enxerto x sistema de produção), perfazendo 44 tratamentos, em quatro blocos casualizados. A parcela experimental foi constituída de oito plantas, dispostas linearmente em bancadas ou em bandejas de tubetes. Na análise estatística dos dados referentes à emergência, utilizou-se esquema fatorial 11x3, já que a etapa de semeadura em tubetes foi a mesma, tanto para plantas transplantadas para sacolas de 1,7 L quanto para as transplantadas para sacolas de 4,5 L. Os dados foram submetidos à análise de variância, e as médias foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade, tendo-se realizado a transformação do tipo arc sen [(x+a)/100]0,5 para fins de análise estatística das variáveis percentuais.

Foram coletados os seguintes dados biométricos: porcentagem de emergência 56 dias após a semeadura; índice de velocidade de germinação (IVG), calculado conforme Nakagawa (1994); altura (cm) de plantas 240 dias após o plantio, medidos com trena; diâmetro (cm) do caule a 35 cm do colo da planta, medido com paquímetro digital 240 dias após plantio; massa (g) da matéria seca e fresca, de parte aérea e sistema radicular, 240 dias após o plantio (emprego de três plantas por parcela, com as medidas obtidas em balança digital, e a secagem realizada em estufa, por 72 horas a 64ºC); volume (mL) de sistema radicular oito meses após a semeadura, medido por deslocamento de volume de água em proveta graduada; concentração de clorofila nas folhas (SPAD), medido com clorofilômetro Minolta SPAD-502, oito meses após a semeadura, em folhas maduras do terço superior da copa (Gil et al., 2002; Esposti et al., 2003). Ao final do experimento, foi realizada a comparação entre os custos de produção de cada sistema, com base nos trabalhos de Pozzan & Kanashiro (2004).

 

Resultados e Discussão

A emergência foi mais veloz nos porta-enxertos semeados nos tubetes de 75 mL (Tabela 1). Nesse sistema (semeadura em tubetes de 75 mL), verificou-se que as sementes ficaram mais superficiais, enquanto nos outros dois sistemas (tubetes de 290 mL e sacolas de 1,7 L), as sementes afundaram no substrato mais grosseiro. Esse fato pode explicar o atraso inicial na emergência. Contudo, de 21 até 56 dias após a semeadura, a porcentagem de emergência total, nos tubetes de 75 mL, passou a ser menor que as demais. Como nos tubetes de 75 mL as sementes estavam mais superficiais, expostas recorrentemente ao sol direto, necessitavam de recobrimento constante com substrato. Este fato pode ter provocado a menor taxa de emergência, uma vez que as sementes de citros são bastante sensíveis à dessecação (Doijode, 2001).

Poncirus trifoliata 'Davis A', Poncirus trifoliata 'Barnes', citrumelo 'Swingle' e tangerina 'Sunki' foram os porta-enxertos com maior velocidade de germinação, independentemente do recipiente estudado (Tabela 1). Um mês após a semeadura, porém, todos os porta-enxertos já superavam 90% de emergência, com exceção do limão 'Volkameriano' (69,8%). Mesmo na contagem final, 56 dias após a semeadura, esse porta-enxerto não superou 83,3% de emergência (Tabela 1). Tangerina 'Sunki' e Poncirus trifoliata 'Davis A' foram os únicos porta-enxertos com 100% de emergência. O comportamento dos porta-enxertos, com relação à extração da testa, taxa de emergência e velocidade de germinação, é semelhante ao caracterizado em outros trabalhos (Radhamani et al., 1991; Soares Filho et al., 2002).

Plantas produzidas em sacolas de 1,7 L atingiram as maiores alturas 240 dias após a semeadura (Tabela 2). Até 90 dias após a semeadura, plantas semeadas em tubetes de 290 mL atingiram a segunda maior altura, mas, a partir de 120 dias após a semeadura, foram superadas pelas plantas transplantadas de tubetes de 75 mL para sacolas de 1,7 ou 4,5 L. O transplante ocorreu entre 90 e 120 dias após a semeadura. Isto indica que houve proporcionalidade direta entre o volume de substrato e o crescimento dos porta-enxertos cítricos e, posteriormente, das mudas cítricas, conforme observado por Girardi et al. (2005). Após o transplante, os porta-enxertos voltaram a crescer de modo intenso, provavelmente em razão da maior disponibilidade de volume no container (Rezende et al., 1995).

Trifoliata 'Davis A', trifoliata 'Barnes' e citrumelo 'Swingle' apresentaram o maior vigor inicial, com maior desenvolvimento dos porta-enxertos até 150 dias após a semeadura. Entretanto, a partir desse estágio, trifoliata 'Davis A' apresentou crescimento menos intenso, de modo que 240 dias após a semeadura atingia apenas 49,20 cm de altura, em média, contra 93,35 cm do limão 'Rugoso', o maior porta-enxerto (Tabela 2). Trifoliata 'Barnes' superou 'Davis A' em 15 cm, 240 dias após a semeadura (Tabela 2), e apresentou vigor mais acentuado nos últimos meses de avaliação do experimento. As trifoliatas e seus híbridos apresentam crescimento vigoroso em viveiros, porém, após a enxertia com variedades de outros gêneros da família Rutaceae, esse vigor, em geral, tende a desaparecer ou a se reduzir (Pompeu Junior, 2005). Como parte do experimento foi conduzida durante o outono e o inverno, as condições climáticas também podem ter influenciado o comportamento dos clones de Poncirus trifoliata, classificada como uma espécie decídua, embora não se tenha observado queda de folhas durante o ensaio (Spiegel-Roy & Goldschmidt, 1996).

A laranja 'Caipira' e a tangerina 'Sun Shu Sha Kat' apresentaram menores alturas, enquanto os porta-enxertos mais vigorosos foram, em ordem decrescente, os limões 'Rugoso', 'Volkameriano' e 'Cravo' (Tabela 2). A tangerina 'Sunki' Fruto Grande apresentou excelente crescimento, superior ao da tangerina 'Sunki' comum e da tangerina 'Sun Shu Sha Kat', 240 dias após a semeadura (Tabela 2). Quando foi realizada a extração de sementes dos frutos, verificou-se também que a tangerina 'Sunki' Fruto Grande apresentava, em média, 15 sementes por fruto, enquanto a tangerina 'Sunki' comum alcançou média próxima a duas sementes por fruto.

No sistema de semeadura em tubetes de 290 mL, todos os porta-enxertos se equivaleram em altura, 240 dias após a semeadura, e o mesmo fato ocorreu para as demais variáveis avaliadas (Tabelas 23). O menor volume do recipiente, provavelmente, limita os porta-enxertos até um máximo crescimento possível de ser atingido nessa circunstância, a partir do qual há pouco desenvolvimento, independentemente da espécie ou variedade (Nesmith & Duval, 1997). Oito meses após a semeadura, observou-se que plantas produzidas em sacolas de 1,7 L atingiram maior diâmetro a 35 cm do colo, seguidas de porta-enxertos transplantados para sacolas de 4,5 L, porta-enxertos transplantados para sacolas de 1,7 L e, finalmente, porta-enxertos semeados em tubetes de 290 mL (Tabela 2). Novamente, o limão 'Rugoso' apresentou o maior diâmetro, seguido do limão 'Volkameriano', limão 'Cravo' e citrumelo 'Swingle'. A laranja 'Caipira' e as tangerinas apresentaram os menores diâmetros.

À exceção do limão 'Rugoso', com 6,2 mm, nenhum outro porta-enxerto apresentou diâmetro médio, em todos os tratamentos, maior que 5 mm, medida considerada ideal para fins de subenxertia no Brasil (Tersi et al., 2003). Na realidade, tem se observado o sucesso do uso comercial de subenxertos bem menores do que essa recomendação, muitas vezes com plantas de apenas dois a três meses, cultivadas em tubetes de 75 mL; ou se tem realizado a subenxertia em mudas ainda no viveiro (Setin, 2005).

O padrão de subenxerto varia conforme a situação específica no campo, e quando a planta a se subenxertar for velha ou doente, deve-se usar maior número de subenxertos ou subenxertos mais vigorosos. A altura de 35 cm que permite a subenxertia acima do ponto de inserção da copa no porta-enxerto que se deseja substituir é o principal parâmetro usado no momento para se considerar a operação de subenxertia.

Observa-se que todas as plantas produzidas no experimento estariam aptas à subenxertia, e a maioria atingiu essa altura de 120 a 180 dias após a semeadura. Entretanto, porta-enxertos semeados diretamente em sacolas de 1,7 L foram os primeiros a atingir 35 cm de altura, como a trifoliata 'Davis A', aos 90 dias após a semeadura, e a trifoliata 'Barnes', o limão 'Cravo', o citrumelo 'Swingle' e o limão 'Rugoso' 30 dias depois. As tangerinas 'Sunki' e 'Cleópatra' só atingiram 35 cm de altura, em sacolas de 1,7 L, após 150 dias da semeadura. O transplante para sacolas de 4,5 L acelerou o crescimento das plantas, mas não é apropriado para fins de subenxertia em razão do seu alto custo e dificuldades operacionais de plantio em campo, o que sugere que o sistema de semear diretamente em sacolas de 1,7 L é o que permite a obtenção mais rápida da maioria dos porta-enxertos em condições mais apropriadas para subenxertia no campo.

O crescimento dos subenxertos foi proporcional ao volume do recipiente, o que resultou em maiores massas de matérias fresca e seca de sistema radicular nos recipientes maiores, 240 dias após a semeadura (Tabela 2). Essas variáveis foram similares para todos os subenxertos produzidos em tubetes de 290 mL. Tangerinas, trifoliatas e laranja 'Caipira' apresentaram massas de matéria seca equivalentes, contudo apenas tangerinas e laranja 'Caipira' atingiram os menores valores de massa de matéria fresca de sistema radicular. Os limões 'Rugoso' e 'Cravo' atingiram as maiores massas de matérias fresca e seca de sistema radicular. Essas observações condizem com trabalhos que descrevem a morfologia e anatomia do sistema radicular de porta-enxertos cítricos, em viveiros de campo e estufa na Flórida (Castle & Youtsey, 1977; Castle, 1987). As mesmas considerações feitas para massas de matérias frescas e secas de sistema radicular são válidas para a parte aérea, com evidente superioridade dos três limões avaliados, e o limão 'Rugoso' foi o mais vigoroso de todos (Tabela 3).

Como existe correlação entre intensidade de coloração do tom verde do limbo foliar e concentração de clorofila nas folhas, a leitura do clorofilômetro, em termos do índice SPAD, pode ser utilizada como indicativo do estado nutricional da planta, em especial no que se refere à concentração de nitrogênio, por ser elemento integrante da molécula de clorofila (Esposti et al., 2003; Girardi & Mourão Filho, 2004). Subenxertos produzidos diretamente em sacolas de 1,7 L ou transplantados de tubetes de 75 mL para sacolas de 4,5 L apresentaram maior concentração de clorofila nas folhas, em relação aos subenxertos produzidos em tubetes de 290 mL, 240 dias após semeadura (Tabela 3). A capacidade do recipiente está diretamente vinculada ao desenvolvimento vegetativo e nutrição adequados de mudas cítricas (Rezende et al., 1995). O tubete de 290 mL limitou o espaço físico e a disponibilidade de nutrientes para as plantas e reduziu seu porte. Constatou-se início de deficiência nutricional, a partir de 180 dias após a semeadura, manifestada pelo amarelecimento das folhas.

Os subenxertos que atingiram as maiores concentrações de clorofila nas folhas foram trifoliata 'Davis A', laranja 'Caipira' e trifoliata 'Barnes', seguidos pelo citrumelo 'Swingle' em situação intermediária (Tabela 3). As tangerinas e os limões tiveram concentrações inferiores, em que os limões 'Volkameriano' e 'Rugoso' apresentaram as menores concentrações. Os limões e as tangerinas apresentaram, em geral, maior crescimento vegetativo do que P. trifoliata e laranja 'Caipira', este último foi o porta-enxerto menos vigoroso. Possivelmente, as diferenças entre concentração de clorofila foliar sejam atribuídas a características genéticas inerentes a cada porta-enxerto, sob determinada condição do ambiente (Stoffella et al., 1995; Pestana et al., 2005).

O volume do sistema radicular foi diretamente proporcional ao volume do recipiente utilizado (Tabela 3). Assim, sacolas de 4,5 L permitiram sistema radicular mais volumoso, seguidas por sacolas de 1,7 L e por fim tubetes de 290 mL. O transplante ou semeadura direta em sacolas de 1,7 L não determinaram diferenças no volume do sistema radicular. As espécies de limões atingiram o maior volume radicular, e o limão 'Rugoso' foi o que teve sistema radicular mais volumoso; no outro extremo se situaram as tangerinas, as trifoliatas e a laranja 'Caipira'. Independentemente do porta-enxerto, não houve diferença quanto ao volume de sistema radicular de plantas produzidas em tubetes de 290 mL (Tabela 3). Isto ocorreu porque o pequeno volume do tubete restringiu o sistema radicular de todas as espécies, além de o orifício de drenagem provocar poda aérea de radicelas que vieram a se desenvolver. A capacidade do recipiente, por ser diretamente proporcional à disponibilidade de recursos como água e nutrientes à planta, bem como acomodação do sistema radicular, é um fator decisivo para determinar a velocidade de crescimento do porta-enxerto e da muda, e indicar a viabilidade técnico-econômica do empreendimento (Girardi et al., 2005). O volume do recipiente pode influenciar, ainda, o desempenho de mudas frutíferas, hortícolas e florestais, após o transplante em campo (Nesmith & Duval, 1997).

Somente em sacolas de 4,5 L, foi possível verificar que os porta-enxertos se agruparam em classes de volume de sistema radicular, em ordem decrescente: limão 'Rugoso', limão 'Volkameriano', limão 'Cravo', citrumelo 'Swingle' e as tangerinas, a trifoliata 'Davis A' e a laranja 'Caipira'. Assim, evidencia-se o hábito de crescimento de sistema radicular dessas espécies cítricas (Castle, 1978). Com maior disponibilidade de espaço, os limões continuaram a apresentar crescimento de sistema radicular de forma rápida, intensa e vigorosa. As demais espécies, mesmo com mais espaço disponível, ainda não haviam saturado o substrato com radicelas, 240 dias após a semeadura, pois têm crescimento mais lento. Este é um indicativo de que o ponto de transplante de limões para o campo pode ser anterior ao das demais espécies, inclusive para se evitarem problemas como enovelamento de raízes ou má formação da muda (Castle, 1987).

Os porta-enxertos podem ser, pois, divididos em três grupos decrescentes, quanto a seu desenvolvimento: limões, em que o limão 'Rugoso' clone Mazoe é o mais vigoroso; tangerinas e citrumelo 'Swingle', em situação intermediária; e, finalmente, P. trifoliata e laranja 'Caipira' DAC, esta última com menor desenvolvimento entre todos os porta-enxertos. É possível se estabelecerem expectativas quanto à formação das mudas e subenxertos, em ambiente protegido, independentemente do volume do recipiente, com esses três grupos de porta-enxertos. Destaca-se, também, a morfologia do sistema radicular das plantas semeadas diretamente em sacolas de 1,7 L, que apresentaram raiz pivotante definida e de comprimento correspondente à altura da sacola, ao contrário das plantas transplantadas, que apresentaram bifurcação do sistema radicular, no ponto de poda aérea do tubete, a cerca de 12 cm abaixo do colo. Todas as plantas apresentaram grande quantidade de raízes secundárias e radicelas, independentemente do recipiente empregado.

A estimação do custo de produção, realizada por Pozzan & Kanashiro (2004), considera a formação da muda cítrica em ciclo de produção de nove meses, em recipientes de 5,38 L, com descarte de 5% do total de mudas produzidas. Neste experimento, o sistema de produção em tubetes de 290 mL foi o mais barato, com cerca de R$ 0,22 por porta-enxerto. Contudo, deve-se considerar o padrão inferior de desenvolvimento das plantas obtidas, e sua possível influência sobre o desenvolvimento pós-subenxertia em campo. Mudas cítricas convencionais, subenxertos diretamente semeados em sacolas de 1,7 L, e subenxertos transplantados de tubetes para sacolas de 1,7 L apresentaram custo total unitário, respectivamente, 1.520, 470 e 660% superiores ao custo unitário dos subenxertos produzidos em tubetes de 290 mL.

Embora o vigor de crescimento dos porta-enxertos, semeados diretamente em sacolas de 1,7 L, tenha sido superior, apontam-se algumas desvantagens, além do custo superior em relação ao sistema em tubetes de 290 mL: a necessidade de se aumentar o número de sementes por recipiente, no caso de espécies que apresentam altas taxas de embriões zigóticos e baixa poliembrionia; o subseqüente raleio de plântulas deve ser realizado com critério, a fim de se excluirem plantas zigóticas indesejáveis; e o fato de plantas produzidas em tubetes de 75 mL permitirem maior versatilidade de uso, seleção de plantas mais uniformes, antes do plantio, e possibilidade de transplante mais fácil. A rápida formação e o maior tamanho das plantas são destacados como características desejáveis para um subenxerto. Assim, a decisão sobre qual tipo de subenxerto adquirir dependerá não somente das condições do pomar a ser subenxertado, o que determinará o número e o tamanho dos subenxertos, como também de análise econômica das opções de recipientes e da disponibilidade de tempo para se proceder à subenxertia (Tersi, 2004).

 

Conclusão

Os porta-enxertos cítricos semeados diretamente em sacolas de 1,7 L atingem ponto ideal de subenxertia em menor tempo, de 100 a 150 dias após a semeadura, além de constituírem plantas maiores e com sistema radicular adequado, porém com custo de produção superior ao sistema de produção em tubetes de 290 mL.

 

Agradecimentos

À Fapesp pela concessão de bolsa; à empresa SaniCitrus Mudas Cítricas, pelo auxílio técnico na condução dos trabalhos de campo; ao Centro APTA Citros Sylvio Moreira, pelo fornecimento de parte do material vegetal utilizado nesta pesquisa; ao Dr. Jorgino Pompeu Junior e ao Dr. Eduardo Sanches Stuchi, pelas sugestões e comentários.

 

Referências

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Recebido em 1º de novembro de 2006 e aprovado em 4 de abril de 2007

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