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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.43 no.3 Brasília Mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2008000300004 

FITOTECNIA

 

Características de dossel e rendimento de milho em diferentes espaçamentos e sistemas de manejo

 

Canopy traits and corn yield under different row spacings and management systems

 

 

Mércio Luiz StriederI; Paulo Regis Ferreira da SilvaI; Lisandro RamboII; Homero BergamaschiI; Genei Antonio DalmagoIII; Paulo César EndrigoI; Douglas Batista JandreyI

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Agronomia, Caixa Postal 15.100, CEP 90970-100 Porto Alegre, RS. E-mail: domercio@gmail.com, paulo.silva@ufrgs.br, homerobe@ufrgs.br, endrigopc@yahoo.com.br, douglas.jandrey@terra.com.br
IISyngenta Seeds Ltda., Caixa Postal 585, CEP 38400-974 Uberlândia, MG. E-mail: lisandro.rambo@syngenta.com
IIIEmbrapa Trigo, BR 285, Km 294, CEP 99001-970 Passo Fundo, RS. E-mail: dalmago@cnpt.embrapa.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da redução do espaçamento no índice de área foliar, na senescência foliar, na radiação fotossinteticamente ativa interceptada e no rendimento de grãos de dois híbridos de milho em três sistemas de manejo. Três experimentos em delineamento em blocos ao acaso, em fatorial 2x2x2 foram conduzidos em campo em Eldorado do Sul, RS. Em cada experimento, os tratamentos constaram de espaçamentos de 0,4 e 0,8 m; híbrido de folha ereta e de folha decumbente; e duas densidades (5 e 6,6 plantas m-2, 6,2 e 8,3 plantas m-2 e 6,5 e 8 plantas m-2, respectivamente, nos sistemas de manejo médio, alto e muito alto). Níveis de adubação e disponibilidade hídrica variaram com o sistema de manejo. O índice de área foliar e a radiação fotossinteticamente ativa interceptada variam com o espaçamento, mas dependem de estádio fenológico, densidade e arquitetura foliar e sistema de manejo. A senescência foliar não variou de acordo com o espaçamento, independentemente de sistema de manejo, densidade e híbrido. Menores espaçamentos aumentaram o rendimento apenas no sistema de manejo muito alto. As características de dossel não seguiram o comportamento do rendimento de grãos.

Termos para indexação: Zea mays, densidade de plantas, híbrido, índice de área foliar, irrigação, níveis de adubo.


ABSTRACT

The objective of this work was to evaluate the effect of narrow row spacing on leaf area index, leaf senescence, interception of photossintetically active radiation and on grain yield of two corn hybrids grown in three management systems. Three experiments in randomized block design, in 2x2x2 factorial array, were carried out in Eldorado do Sul, RS, Brazil. In each experiment, treatments consisted of 0.4 and 0.8 m row spacing; erect and decumbent leaves hybrids; and two plant densities (5 and 6.6 plants m-2; 6.2 and 8.3 plants m-2; and 6.5 and 8 plants m-2, for medium, high and very high management levels, respectively). Levels of fertilizer and water availability varied according to the management system. Leaf area index and interception of photossintetically active radiation change with row spacing, but depended on the phenological stages, plant density, leaf arquitecture and management system. Leaf senescence was not affected by row spacing, regardless of management systems, plant density and hybrid. Narrow row spacing increased grain yield only in the very high management system. Canopy traits did not follow the grain yield performance.

Index terms: Zea mays, plant density, hybrids, leaf area index, irrigation, fertilizer levels.


 

 

Introdução

A manipulação do arranjo de plantas, pela alteração no espaçamento entre linhas, densidade de plantas ou distribuição na linha, é uma das práticas de manejo mais importantes para otimizar o rendimento de grãos em milho (Silva et al., 2006), pois afeta a radiação fotossinteticamente ativa interceptada (RFAint), um dos principais determinantes da produtividade (Ottman & Welch, 1989) quando outros fatores são favoráveis. O aumento de RFAint com melhor distribuição de plantas na área está relacionado ao maior índice de área foliar (IAF) (Flénet et al., 1996; Maddonni & Otegui, 1996), pois aumenta a atividade fotossintética e a produção de matéria seca por planta (Sangoi et al., 2001). Entretanto, eventuais benefícios no rendimento dependem da melhor distribuição da radiação solar no dossel e da sua eficiência de uso e de conversão em biomassa (Argenta et al., 2001).

A redução do espaçamento e o aumento da densidade aumentam RFAint e alteram a estrutura do dossel quanto ao tamanho, forma e orientação de folhas, influenciando o IAF, o número e a área individual da folha, o ângulo de inserção, a distribuição foliar no dossel, a taxa de senescência e a relação RFAint e IAF (Tethio-Kagho & Gardner, 1988; Flénet et al., 1996). Além disso, o arranjo de plantas influencia a qualidade de luz no dossel, sobretudo no extrato inferior. Com disposição mais uniforme de plantas na área, há maior absorção de luz na faixa do vermelho (V) e maior reflexão na do vermelho extremo (VE) (Kasperbauer & Karlen, 1994; Almeida et al., 2000). Em densidades superiores a 6 plantas m-2, as plantas de milho recebem mais luz VE refletida, o que aumenta a relação VE/V e altera a habilidade competitiva destas com as plantas do entorno. Assim, há modificações na arquitetura foliar e no desenvolvimento da planta, com maior elongação de entrenós (colmos mais compridos, porém de menor diâmetro), dominância apical e altura de inserção de espiga (Almeida et al., 2000), folhas mais compridas e finas e maior abscisão radical (Kasperbauer & Karlen, 1994).

O IAF tem forte relação com a RFAint e varia com o genótipo, densidade e condições edafoclimáticas (Tollenaar et al., 1994; Maddonni & Otegui, 1996). O incremento na densidade, embora aumente IAF e RFAint (Silva et al., 2006), diminui a assimilação líquida de CO2 e acelera a senescência e o sombreamento foliar (Tethio-Kagho & Gardner, 1988), sobretudo no extrato inferior do dossel.

Os genótipos de milho possuem arquitetura foliar distinta, devido a diferenças em estatura, número de folhas, IAF, ângulo de inserção e distribuição azimutal de folhas no colmo (Maddonni & Otegui, 1996). Alguns genótipos modificam a distribuição azimutal de folhas sob altas densidades ou sob espaçamentos reduzidos. Na densidade de 10 plantas m-2, folhas do extrato superior são mais perpendiculares à linha de semeadura do que na de 4 plantas m-2 (Girardin & Tollenaar, 1994). Mantendo a densidade, estes autores verificaram também folhas mais perpendiculares à linha de semeadura no maior espaçamento (0,76 m) em relação ao menor (0,5 m), mas ao contrário da densidade, o espaçamento entre linhas geralmente tem pouco efeito no IAF. Assim, Maddonni et al. (2001) classificam os genótipos de milho em "plásticos", com habilidade de modificar a orientação foliar, e "rígidos", quando não apresentam essa habilidade.

O objetivo deste trabalho foi avaliar efeitos da redução do espaçamento entre linhas no IAF, na senescência foliar, na RFAint e no rendimento de grãos de dois híbridos de milho com arquitetura de planta com folha ereta e decumbente, em duas densidades e em três sistemas de manejo.

 

Material e Métodos

Três experimentos, um no ano agrícola 2003/2004 e dois em 2004/2005, foram conduzidos na Estação Experimental Agronômica, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EEA/UFRGS), em Eldorado do Sul, RS (30º5'S; 51º39'W; 42 m de altitude), na região ecoclimática da Depressão Central do Rio Grande do Sul. O clima da região é subtropical úmido de verão quente, com temperatura média de 19,2ºC e precipitações anuais de 1.446 mm, sendo 426 mm concentrados entre novembro e fevereiro, período no qual transcorre toda a fase reprodutiva do milho semeado em meados de outubro. O solo da área experimental é classificado como Argissolo Vermelho distrófico típico, conduzido em semeadura direta desde 1990, na rotação soja e milho no verão. Os atributos físico-químicos do solo na camada de 0–20 cm de profundidade, na média dos dois anos, foram: densidade, 1.465 g dm-3; argila, 526 g kg-1; pH, 5,2; P (Mehlich I), 8,2 mg dm-3; K (Mehlich I), 158 mg dm-3; MO, 35 g kg-1 e CTC, 10,8 cmolc dm-3.

Os sistemas de manejo diferiram quanto à densidade de plantas, adubação de semeadura e de cobertura, e suplementação hídrica. Em cada sistema de manejo, foram testados dois espaçamentos entre linhas (0,4 e 0,8 m), dois híbridos (Flash – folhas eretas, e Penta – folhas decumbentes) e duas densidades de plantas, sendo 5 e 6,6; 6,2 e 8,3 e 6,8 e 8 plantas m-2, respectivamente, nos sistemas de manejo médio, alto e muito alto. Cada unidade experimental apresentou área útil de 9,6 m2. Em cada experimento, o delineamento experimental foi o de blocos casualizados, em fatorial 2x2x2, com quatro repetições.

Os genótipos Flash e Penta são híbridos simples, de ciclos superprecoce e precoce, respectivamente. Na semeadura, foram aplicados 10–60–40 (kg ha-1), 20–120–95 (kg ha-1) e 40–185–130 (kg ha-1) de N, P2O5 e K2O, respectivamente, nos sistemas médio, alto e muito alto. Os níveis de adubação e densidades usadas nos sistemas médio e alto (2004/2005) basearam-se nas indicações de pesquisa para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Reunião..., 2005), enquanto no sistema de manejo muito alto (2003/2004), consideraram-se resultados experimentais obtidos no mesmo local (Forsthofer et al., 2006). Adotou-se a aveia-preta (Avena strigosa) como cobertura de solo invernal, cujos rendimentos de massa seca foram de 4,7 e 5,2 t ha-1, respectivamente, nos anos 2003/2004 e 2004/2005. No estádio de grão leitoso, ela foi dessecada com glyphosate (540 g ha-1 de i.a.) e acamada com rolo-faca.

O milho foi implantado em semeadura direta em 21/10/2003 e em 13/10/2004. A adubação de semeadura foi feita na linha. A dose e a época de aplicação de N em cobertura (nitrato de amônio – 32% de N) variaram de acordo com o sistema de manejo. No muito alto, aplicaram-se 45, 65 e 75 kg ha-1 de N, respectivamente, nos estádios de três (V3) e nove (V9) folhas expandidas e de emborrachamento das plantas, conforme escala de desenvolvimento proposta por Ritchie et al. (1993). No manejo alto, aplicaram-se 50 e 70 kg ha-1 de N nos estádios V4 e V10 e, no manejo médio, 60 kg ha-1 de N em V5. Nos manejos alto e muito alto, realizou-se irrigação, estimando-se a necessidade de reposição de água com uso de três tensiômetros instalados a 0,2, 0,3, e 0,4 m de profundidade. Realizou-se irrigação suplementar por aspersão (vazão de 8 mm por hora) quando o potencial da água no solo era inferior a -0,04 MPa. Nos três experimentos, controlaram-se plantas daninhas e insetos-praga de modo a não interferirem no desenvolvimento da cultura.

Nos três experimentos, determinou-se o IAF nos estádios V9, V15, R1 e R3 e o rendimento de grãos. Nos sistemas de manejo médio e alto, também se avaliou a senescência foliar, em três estádios e, nos sistemas de manejo alto e muito alto, a RFAint, em cinco estádios. Na primeira avaliação, mediram-se todas as folhas, enquanto nas posteriores, apenas as expandidas em relação à avaliação anterior. Em cada estádio, foram computadas apenas as folhas fotossinteticamente ativas (verdes). A área foliar foi determinada conforme Francis et al. (1969), e, por se tratar de um método não destrutivo, permite mensurar folhas da mesma planta durante o ciclo. A fim de facilitar as medições, em cada estádio avaliado identificou-se a última folha expandida, permitindo que, na seqüencial, fossem obtidas apenas as medidas de folhas expandidas a partir desta. A senescência foliar foi estimada pela razão do número de folhas senescentes nos estádios V15, R1 e R3 pelo total de folhas da planta.

A RFAint foi avaliada nos estádios V6, V9, V12, V15 e R2. No sistema de manejo muito alto (2003/2004), a RFA incidente (RFAinc) foi medida por um sensor quantum instalado 1 m acima das plantas. No manejo alto (2004/2005), usaram-se dados de radiação global, multiplicados por 0,42, por serem equivalentes à radiação medida pelo sensor. A RFA transmitida (RFAt) foi medida 5 cm acima do solo, com três conjuntos de sensores (barras) por unidade experimental, cada um com cinco células fotovoltaicas. As barras foram ligadas a um multiplexador de canais conectado a um datalogger, com unidade externa armazenadora de dados. As leituras foram realizadas automaticamente a cada 30 s e seus valores armazenados automaticamente na memória do datalogger a cada 15 min. A RFAint pelo dossel foi calculada pela equação: RFAint = RFAinc - RFAt.

Em razão da grande variação de adubação, de irrigação e na densidade de plantas entre os três sistemas de manejo, a análise conjunta dos dados ficou prejudicada. Assim, os dados obtidos em cada sistema de manejo foram submetidos à análise de variância pelo teste F, a 5% de probabilidade e, quando houve significância estatística, a comparação de médias feita pelo teste DMS, a 5% de probabilidade. Em razão dos objetivos do estudo, são apresentados apenas os efeitos simples do espaçamento entre linhas ou suas interações com densidade ou com híbrido.

 

Resultados e Discussão

Sob o sistema de manejo médio, nos estádios V9, R1 e R3, o IAF variou com a interação espaçamento e densidade, ao passo que em V15 não houve efeito de espaçamento (Tabelas 1 e 2). A redução do espaçamento aumentou IAF no estádio V9 somente na menor densidade (5 plantas m-2) e o reduziu em R1 e R3 na maior densidade (6,6 plantas m-2). O incremento da densidade de 5 para 6,6 plantas m-2 aumentou IAF em V9 nos dois espaçamentos e, em R1 e R3, apenas no espaçamento de 0,8 m (Tabela 2). Diferente do esperado nesse sistema de manejo, a senescência foliar em V15, R1 e R3 não variou com o espaçamento, independentemente de densidade e híbrido (Tabela 1), sendo os valores de 35, 48, 81%, respectivamente. Da mesma forma, o Pesq. agropec. bras., rendimento de grãos foi muito baixo e não variou com o espaçamento, independentemente de densidade e híbrido (Tabelas 1 e 3).

 

 

 

 

 

 

Sob o sistema de manejo alto, nos quatro estádios em que foi avaliado, o IAF foi maior no espaçamento de 0,8 m em relação ao de 0,4 m (Tabelas 1 e 3), diferindo do esperado, sobretudo na maior densidade. Os aumentos de IAF no espaçamento de 0,8 m variaram de 14 (V9) a 43% (R3), obtendo-se IAF de 8 em R1, que é muito alto e superior ao IAF de 3 a 4 que, segundo Girardin & Tollenaar (1994), maximiza o desempenho do milho. A redução do espaçamento aumentou a senescência foliar em V15 (7%) e R1 (8%) e a manteve em R3, cuja senescência foi de 57%, na média dos três fatores dos tratamentos.

No estádio V6, a resposta da RFAint à redução do espaçamento entre linhas dependeu das interações com híbrido e ainda com densidade, ao passo que em R2 dependem da interação com densidade (Tabelas 1 e 4). Independentemente do híbrido em V6 e da densidade em V6 e R2, a redução do espaçamento aumentou RFAint. No menor espaçamento, as folhas decumbentes (Penta) apresentaram maior RFAint que as folhas eretas (Flash) no estádio V6, assim como na maior densidade (8,3 plantas m-2) em V6 e R2. No estádio V6, no espaçamento de 0,8 m, o híbrido Penta em menor densidade teve menor RFAint que o Flash em maior densidade, enquanto em R2 e no maior espaçamento a densidade não afetou essa característica.

 

 

Nos estádios V9, V12 e V15, RFAint dependeu da interação espaçamento, híbrido e densidade (Tabelas 1 e 5). Na menor densidade do híbrido de folhas eretas, a redução do espaçamento não afetou RFAint em V9 e V12, mas a diminuiu em V15. Na maior densidade, a redução do espaçamento aumentou RFAint em V9 e V12 e a manteve em V15. Por sua vez, no híbrido de folhas decumbentes, independentemente de densidade, a redução do espaçamento aumentou RFAint em V9, V12 e V15, embora não-significativo na maior densidade em V12. Nos dois espaçamentos, independentemente do tipo de planta, RFAint em V9, V12 e V15 foi maior na densidade de 8,3 que na de 6,2 plantas m-2, embora não-significativo no híbrido de folhas eretas no maior espaçamento em V12 e, no de folhas decumbentes, no menor espaçamento em V15.

 

 

Embora o rendimento de grãos tenha sido superior ao verificado no médio manejo, essa característica não variou com o espaçamento (Tabelas 1 e 3). Apesar disso, em ambos os sistemas de manejo, a radiação solar global foi maior que a da normal climática (1969/1999), sobretudo do início à metade do período reprodutivo (Figura 1), fato que pode explicar parte dos efeitos do espaçamento nas características de dossel avaliadas.

 

 

Sob as condições do sistema de manejo muito alto, em V9, R1 e R3, o IAF não variou com o espaçamento (Tabela 1), sendo obtidos valores de 0,6, 3,0 e 5,9, respectivamente, na média de dois espaçamentos e duas densidades. No estádio V15, a redução do espaçamento incrementou IAF em 16% na densidade de 8,0 plantas m-2 (Tabela 2). O incremento na densidade de plantas aumentou IAF em 33% no espaçamento de 0,4 m e em 15% no de 0,8 m.

RFAint nos estádios V6, V12, V15 e R2 variou com interação espaçamento, híbrido e densidade (Tabelas 1 e 5). Na densidade de 6,5 plantas m-2 do híbrido de folhas eretas, a redução do espaçamento aumentou RFAint no estádio V6 e a diminuiu em V12, V15 e R2. Na densidade 8,0 plantas m-2 sob espaçamento de 0,4 m, esse híbrido teve menor RFAint em V6 e maior em V12, V15 e R2, embora não-significativo em R2. Por sua vez, no menor espaçamento, o híbrido de folhas decumbentes na menor densidade teve maior RFAint em V6 e R2, sem haver efeito em V12 e V15. Na maior densidade, a redução do espaçamento aumentou RFAint em V6 e a diminuiu em V12, V15 e R2, embora significativo apenas em V15.

Os efeitos do aumento da densidade na RFAint dependeram do espaçamento, híbrido e estádio fenológico (Tabelas 1 e 5). No híbrido de folhas eretas e no menor espaçamento, a alteração da densidade de 6,5 para 8 plantas m-2 incrementou RFAint nos quatro estádios, embora significativo apenas em V15, enquanto no maior espaçamento, essa alteração incrementou RFAint em V6 e a reduziu em V12, V15 e R2. No híbrido de folhas decumbentes, no espaçamento de 0,4 m, o aumento da densidade diminuiu RFAint em V6, V12, V15 e R2, embora significativo apenas em V6, enquanto no de 0,8 m houve incremento na RFAint em V12, V15 e R2 e redução em V6.

No estádio V9, a resposta da RFAint à redução do espaçamento dependeu da interação com densidade e da com híbrido (Tabelas 1 e 4). A redução do espaçamento incrementou (9%) RFAint no híbrido de folhas decumbentes. Entre híbridos, RFAint pelo de folhas decumbentes foi superior (9%) à RFAint pelo de folhas eretas no menor espaçamento (Tabela 4). Quanto à redução do espaçamento, incrementou (11%) RFAint na menor densidade, enquanto o aumento da densidade a incrementou (12%) no maior espaçamento. Diferentemente dos outros dois sistemas de manejo, o rendimento de grãos foi alto e variou com o espaçamento (Tabelas 1 e 3), sendo 5% maior no espaçamento de 0,4 m. Nesse ano agrícola (2003/2004), durante todo o período reprodutivo, verificou-se maior radiação solar global em relação à normal climática (Figura 1), justificando os maiores valores de interceptação de radiação solar nesse sistema de manejo.

A luz, a água e nutrientes podem ser ou se tornar limitantes durante o ciclo, dependendo do espaçamento, densidade e sistema de condução da lavoura. Em estádios fenológicos avançados, quando IAF é maior, a qualidade e a competição entre plantas por luz alteram características do dossel, sobretudo com espaçamentos amplos e altas densidades, que tornam a distribuição de plantas na área menos favorável. No sistema de manejo médio, com restrições ao desenvolvimento, esperava-se que a melhor distribuição de plantas na área aumentasse o IAF e reduzisse a senescência foliar, devido à maior competição intra-específica pelos menores suprimentos de água e nutrientes. Entretanto, os resultados evidenciam que a distribuição mais uniforme de plantas na área não é garantia de melhor desempenho, pois limitações nutricionais e hídricas também afetam o seu desenvolvimento. Assim, no sistema de manejo médio, a redução do espaçamento não teve grande influência nas características de dossel, sendo mais determinantes as restrições hídricas e nutricionais.

No manejo alto, com condições propícias ao desenvolvimento das plantas, esperava-se maior IAF no menor espaçamento. Ao contrário do esperado e independentemente de densidade e estádio, obteve-se maior IAF no espaçamento 0,8 m, onde há distribuição menos favorável de plantas na área e maior competição intra-específica pelos recursos do ambiente. Maddonni et al. (2001b) alcançaram resultados similares com dois genótipos de folhas eretas nos espaçamentos de 0,35 e 0,7 m, fato que atribuíram à maior largura de folhas expandidas acima da oitava. Kasperbauer & Karlen (1994) ainda observaram alterações na dimensão, estrutura e desenvolvimento foliares, devido a mudanças na razão vermelho/vermelho extremo no interior do dossel, o que pode afetar o IAF e o padrão de senescência foliar em espaçamentos menores. Segundo esses autores, as plantas percebem alterações na qualidade de luz, mesmo sob IAF menor que 1. Assim, a distinção do tipo de luz ocorre desde o início do desenvolvimento e a luz é promotora de respostas morfogênicas antes mesmo da interferência de uma planta sobre outra ou do início da competição por recursos do ambiente.

A senescência foliar é um processo normal no ciclo de plantas, sendo a fase final de desenvolvimento de todos seus órgãos (Dangl et al., 2000). Entretanto, ela não é um processo de degeneração passivo e desregulado, pois há alterações ordenadas na estrutura celular, no metabolismo e na expressão gênica (Lim et al., 2007). Segundo esses autores, a principal mudança é a desestruturação de cloroplastos, seguida da troca da assimilação de carbono pelo catabolismo das clorofilas, proteínas, lipídios de membrana e do RNA. Neste trabalho, a senescência foliar iniciou-se no estádio V7, independentemente de espaçamento, densidade e híbrido. Segundo Borrás et al. (2003) e Valentinuz & Tollenaar (2004), ela ocorre durante todo desenvolvimento da planta e tem início precoce, sendo a taxa de progressão estimulada por limitações hídricas, nutricionais e de manejo da lavoura, como a distribuição desuniforme de plantas na área, que ocorreram especialmente no sistema de manejo médio.

A senescência foliar foi mais intensa no período de enchimento de grãos do que no vegetativo e maior no sistema de manejo com mais limitações à planta. Devido às precipitações pluviais escassas, ocorreu elevada deficiência hídrica no sistema de manejo médio, principalmente durante a formação e o enchimento de grãos, acelerando a senescência e reduzindo o ciclo e o rendimento de grãos, ao contrário do manejo alto, que recebeu 11 irrigações suplementares. Nesses dois sistemas, a elevada senescência em R3 ajuda a explicar a acentuada queda de IAF entre R1 e R3 (Tabelas 2 e 3) e está relacionada ao início do enchimento de grãos (Valentinuz & Tollenaar, 2004; Lim et al., 2007). Na avaliação de híbridos de diferentes épocas de lançamento comercial, Valentinuz & Tollenaar (2004) verificaram que, na fase do florescimento à metade do enchimento de grãos, a taxa de senescência é menor em relação à fase da segunda metade do enchimento à maturação. Segundo os autores, na segunda fase há alta translocação de fotoassimilados das folhas e dos colmos aos grãos, enquanto na primeira ocorre basicamente a definição do número de grãos fixados e a formação de suas estruturas teciduais.

Esperava-se que o maior IAF no maior espaçamento e a maior senescência no menor espaçamento aumentassem RFAint, pois para Flénet et al. (1996) e Maddonni & Otegui (1996), incrementos de RFAint relacionam-se a IAF maiores. Embora os resultados obtidos neste trabalho possam parecer contraditórios, esses resultados corroboram com a literatura, pois menores espaçamentos otimizam a interceptação da radiação, devido à melhor distribuição espacial de plantas na área e ocupação dos espaços entre plantas pelas folhas. Especula-se que maior RFAint no espaçamento 0,4 m, análoga aos valores de IAF, relaciona-se à interceptação por órgãos pouco ativos na fotossíntese (senescência maior em 0,4 m).

Alguns genótipos de milho exploram melhor os recursos ambientais mudando a distribuição azimutal de folhas, pois as redirecionam a espaços pouco ou ainda não ocupados pelas folhas de plantas vizinhas, aumentando o número de folhas perpendiculares à linha de cultivo e, possivelmente, RFAint (Maddonni et al., 2001b). Segundo os autores, a reorientação foliar ocorre sob distribuição desfavorável de plantas na área, como em espaçamentos amplos e altas densidades. Entretanto, Girardin & Tollenaar (1994) alertam que tal estratégia pode servir apenas para ocupar melhor o espaço entre linhas ou diminuir a interferência entre folhas, tendo pequeno efeito fenotípico na planta.

No sistema de manejo alto, o aumento da densidade incrementou RFAint em todos os estádios, corroborando dados de Tollenaar et al. (1994), Maddonni & Otegui (1996) e Silva et al. (2006) de que a densidade tem grande efeito no IAF. Entretanto, a hipótese de que as características de dossel têm relação direta com o rendimento de grãos se confirmou apenas no sistema de manejo muito alto. A não variação do rendimento com o espaçamento entre linhas no manejo alto é atribuída à compensação dos ganhos de matéria seca e o gasto de energia para manter estas novas estruturas. Assim, altos IAFs não garantem maiores RFAint e rendimento, pois parte da luz é interceptada por folhas senescidas, pendão, colmo e brácteas da espiga, estruturas pouco ativas à fotossíntese (Tethio-Kagho & Gardner, 1988). Além disso, altos IAFs sombreiam mais o extrato inferior do dossel em híbridos de folhas decumbentes, tornando-o dreno ao invés de fonte de energia, afetando o rendimento de grãos.

 

Conclusões

1. Maiores índices de área foliar (IAF) em milho, obtidos com alteração do espaçamento entre linhas, podem não alterar a quantidade de radiação solar interceptada (RFAint) devido ao maior sombreamento potencial do extrato inferior do dossel.

2. IAF e a RFAint variam com espaçamento entre linhas, mas seus efeitos dependem de densidade, tipo de planta, sistema de manejo e estádio fenológico.

3. Em sistemas de manejo com baixos rendimentos de grãos, a senescência foliar não varia com o espaçamento entre linhas, independentemente de densidade e híbrido.

4. Em sistemas de alto rendimento, menores espaçamentos reduzem o IAF e aumentam a senescência foliar, independentemente de densidade e de arquitetura de planta; a RFAint aumenta com a densidade, mas independe de espaçamento, híbrido e estádio fenológico.

5. O IAF, a senescência foliar e a RFAint pelo dossel não seguem o comportamento do rendimento de grãos, mesmo em níveis contrastantes de rendimento de grãos.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelas bolsas concedidas; à Syngenta Seeds Ltda., pelo apoio financeiro.

 

Referências

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Recebido em 4 de outubro de 2007 e aprovado em 20 de fevereiro de 2008

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