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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.43 no.8 Brasília Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2008000800009 

FRUTICULTURA

 

Fenologia, produção e qualidade de frutos de mirtilo

 

Phenology, production and quality of blueberry cultivars

 

 

Luis Eduardo Corrêa AntunesI; Emerson Dias GonçalvesII; Nara Cristina RistowI; Silvia CarpenedoI; Renato TrevisanIII

IEmbrapa Clima Temperado, Caixa Postal 403, CEP 96001-970 Pelotas, RS. E-mail: antunes@cpact.embrapa.br, ncristow@cpact.embrapa.br, s.carpenedo@hotmail.com
IIEmpresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, Fazenda Experimental de Maria da Fé, Bairro Vargedo, CEP 35517-000 Maria da Fé, MG. E-mail: emerson@epamig.br
IIIUniversidade Federal de Santa Maria, Colégio Agrícola de Frederico Westphalen, Caixa Postal 54, CEP 98400-00 Frederico Westphalen, RS. E-mail: renato.trevisan@smail.ufsm.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar o comportamento fenológico, a produtividade e a qualidade de oito cultivares de mirtilo do grupo rabbiteye (Bluegem, Bluebelle, Powderblue, Florida, Delite, Briteblue, Climax e Woodard), na região de Pelotas, RS. O trabalho foi realizado durante os ciclos produtivos de 2003/2004, 2004/2005 e 2005/2006. As plantas foram dispostas no pomar em blocos varietais aleatórios, com 16 plantas por cultivar, no total de quatro linhas, com duas cultivares por linha. Para a análise das características dos frutos, a média de cada ano de avaliação foi considerada como uma repetição. Foram observadas as datas de início e fim da floração, início e final de colheita, massa, diâmetro longitudinal dos frutos, número de frutos por planta, teor de sólidos solúveis totais, produção média por planta e produtividade estimada por hectare. Não houve diferença entre as cultivares avaliadas quanto às características massa, diâmetro médio de frutos e teores de sólidos solúveis totais. Na região de Pelotas, há viabilidade técnica para o cultivo de mirtilo, cujas cultivares Bluebelle, Briteblue e Bluegem são as mais produtivas.

Termos para indexação: Vaccinium, adaptação, pequenas frutas, produtividade, qualidade dos frutos.


ABSTRACT

The aim of this work was to evaluate the yield and quality of blueberry cultivars from the rabbiteye group (Bluegem, Bluebelle, Powderblue, Florida, Delite, Briteblue, Climax and Woodard), in Pelotas County, Southern of Rio Grande do Sul State, Brazil, during three growing seasons: 2003/2004, 2004/2005 and 2005/2006. The plants were set in randomized varietal blocks in the orchard, with 16 plants per cultivar, totaling four lines, with two cultivars per line. For statistic analysis of the fruits characteristics, each year of evaluation was considered as one repetition. The characteristics evaluated were the start and the end of flowering, beginning and end of harvest, mass, longitudinal diameter of fruits, number of fruit per plant, content of total soluble solids, average production by plant, and the estimated productivity per hectare. There was no difference among the cultivars evaluated for the characteristics mass, mean diameter of fruits and levels of total soluble solids. In the region of Pelotas, there is technical viability for growing blueberry, whose cultivars Bluebelle, Briteblue and Bluegem are the most productive.

Index terms: Vaccinium, adaptation, small fruits, produtivity, fruit quality.


 

 

Introdução

O mirtilo é uma frutífera que pertence a família Ericaceae, e é classificado dentro da subfamília Vaccinioideae, na qual se encontra o gênero Vaccinium (Trehane, 2004). O mirtileiro produz frutos com diâmetro entre 8 e 22 mm, de sabor agridoce (Childers & Lyrene, 2006), com diversas propriedades nutracêuticas e alto potencial antioxidante, em razão da presença de compostos fenólicos (Kalt et al., 2007). Para seu adequado desenvolvimento, são necessários solos com pH entre 4,8 e 5,2 (Trehane, 2004; Childers & Lyrene, 2006).

No mundo, existem três grupos principais de mirtilo cultivados comercialmente: os de arbustos baixos - "lowbush"; os de arbustos altos - "highbush"; e os do tipo olho-de-coelho - "rabbiteye" (Childers & Lyrene, 2006; Strik, 2007).

O cultivo comercial do mirtilo está em franca expansão em países da América do Sul como Chile, Argentina e Uruguai, com área de produção de aproximadamente 6.500 ha. A expansão da cultura nesses países é influenciada, em grande parte, pela demanda da entressafra de países do hemisfério norte como os Estados Unidos (Strik, 2005; Brazelton & Strik, 2007). Essas demandas de mercado podem gerar oportunidades de negócio para o setor produtivo brasileiro, desde que haja adoção de tecnologia para a produção e a utilização de cultivares adequadas (Antunes & Madail, 2005).

No Brasil, as principais cultivares pertencem ao grupo rabitteye (Antunes & Raseira, 2006). Apresentam como características: elevado vigor, plantas longevas, alta produtividade, tolerância ao calor e à seca, baixa exigência na estação fria, floração precoce, longo período entre floração e maturação (Ehlenfeldt et al., 2007) e frutos firmes, com longa vida pós-colheita se conservados adequadamente. Entre as limitações das cultivares desse grupo, destaca-se a completa coloração do fruto antes do ponto ideal de colheita, que interfere no sabor, e é quando se apresentam mais ácidos e com tendência a rachar a epiderme em períodos chuvosos (Gough, 1994).

Se o acúmulo de horas de frio hibernal for insuficiente, a depender da necessidade da cultivar, pode-se ter como conseqüência a brotação e o florescimento deficientes e, conseqüentemente, a reduzida produção. Esta variação quanto à necessidade de frio entre as cultivares faz com que possa haver escalonamento da produção, desde que sejam utilizadas, numa mesma área, cultivares de maturação precoce, de meia-estação e tardia (Bowling, 2000).

As épocas de floração e maturação podem variar, conforme o ano e o local (NeSmith, 2006; Smolarz, 2006; Hummer et al., 2007). Assim, antes de se escolher a cultivar, é importante a realização de estudos fenológicos da cultura que podem tornar disponíveis informações necessárias para determinar quais cultivares são mais adaptadas às condições edafoclimáticas locais (Silva et al., 2006), e quais são os períodos de concentração da produção, diminuindo-se os riscos de insucesso com a cultura.

A escolha das cultivares, em razão das fenofases é fundamental, pois proporciona: o escalonamento da produção; o aumento do período de oferta de frutos ao mercado; e a adaptação das tecnologias disponíveis àquela cultivar e região (Silva et al., 2006).

NeSmith (2006), ao estudar a fenologia de variedades de mirtilo em diferentes locais, concluiu que a depender da cultivar, do acúmulo de horas de frio do local e do ano de avaliação, o período de florescimento pode variar em até 24 dias.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o comportamento fenológico, a produção e a qualidade de frutos de oito cultivares de mirtilo, na região de Pelotas, RS.

 

Material e Métodos

O trabalho foi realizado na Estação Experimental da Cascata, na região colonial de Pelotas, RS, da Embrapa Clima Temperado, a 31º37'15,57"S, 52º31'30,77"W e 164 m de altitude, por três safras consecutivas: ciclo produtivo 2003/2004, 2004/2005 e 2005/2006. As avaliações foram realizadas em plantas de mirtilo do grupo rabbiteye, nas cultivares: Bluebelle, Bluegem, Climax, Briteblue, Woordard, Delite, Powderblue e Florida. As cultivares foram dispostas aleatoriamente no pomar, no total de quatro linhas, com duas cultivares por linha e 16 plantas por cultivar. Para a análise das características dos frutos, a média de cada ano (três) foi considerada como repetição. Esta coleção foi mantida sob manejo agroecológico, sem a aplicação de insumos sintéticos.

As avaliações fenológicas foram realizadas de acordo com a descrição dos estádios de desenvolvimento de gema (Childers & Lyrene, 2006), nas datas de início da floração (mais de 5% das flores abertas), fim da floração (90% das flores abertas), início e final da colheita.

Os frutos foram colhidos quando estavam no estágio de maturação completa (Childers & Lyrene, 2006), com coloração violeta e presença de pruína, em cestas de plástico e, em seguida, foram levados ao Laboratório de Melhoramento Genético, da Embrapa Clima Temperado, para as avaliações de: massa fresca por fruto (g); diâmetro longitudinal dos frutos (cm), com auxílio de paquímetro digital; número de frutos; e teor de sólidos solúveis totais (ºBrix), com auxílio de refratômetro digital de bancada. A produção média por planta (kg por planta) e a produtividade estimada por hectare (kg ha-1) foram determinadas com base na densidade de 2.222 plantas ha-1 (com espaçamento de 3 m entre linhas e 1,5 m entre plantas), no número de frutos por planta e na massa fresca por fruto.

Os dados das variáveis analisadas foram submetidos à análise de variância, posteriormente comparadas pelo teste de Scott-Knott, a 5% de probabilidade, por meio do SISVAR (Ferrreira, 2000).

 

Resultados e Discussão

Em geral, o período de florescimento teve início no mês de agosto, na primeira quinzena, no ciclo 2005/2006, e na segunda quinzena desse mesmo, nos ciclos de 2003/2004 e 2004/2005. O final da floração ocorreu no primeiro ciclo de avaliação (2003/2004), entre o final de setembro e a primeira quinzena de outubro, em que a cultivar Delite foi a mais precoce. No segundo ciclo avaliado (2004/2005), o final da floração ocorreu na segunda quinzena de setembro em todas as cultivares. Entretanto, no último ciclo de avaliação, as cultivares Florida, Woordard e Bluebelle, terminaram o florescimento na primeira quinzena de setembro, e as demais cultivares na segunda quinzena de outubro (Tabela 1). Esta alteração no padrão de florescimento ocorreu em razão: das variações anuais no acúmulo em horas de frio (Tabela 2); das oscilações de temperatura ocorridas entre maio e setembro (Tabela 2); e das necessidades de temperaturas baixas de cada cultivar (Childers & Lyrene, 2006). Pelas avaliações realizadas nos três ciclos produtivos, quase todas as cultivares iniciaram a brotação a partir da segunda quinzena de agosto, com exceção das cultivares Powderblue e Woodard, que a iniciaram no começo de setembro (Tabela 1), provavelmente em razão de estas cultivares necessitarem de 400 horas de temperaturas baixas (Childers & Lyrene, 2006), superior às demais e satisfeita apenas ao final do inverno da região.

 

 

 

 

Baptista et al. (2006) verificaram diferença no período de florescimento, entre as cultivares de mirtilo do grupo Southern highbush, em que a cultivar O'Neal foi a mais precoce, e Georgiagem e Revielle as mais tardias. Esta variação no padrão fenológico é conseqüência das características genéticas de cada cultivar e de fenômenos climáticos como temperatura e fotoperíodo, que interferem na floração e brotação. Além disso, o próprio sistema de produção adotado pode alterar características intrínsecas da cultivar, como observado por Swain & Darnell (2002), e modifica o padrão produtivo e fisiológico da planta. Também a forma de condução das plantas jovens (Williamson & NeSmith, 2007), se não realizada corretamente, resulta na formação de plantas debilitadas e com baixa produção.

Na média dos três anos de avaliações, o período de colheita estendeu-se por 37 dias, entre dezembro e janeiro; o menor período de colheita ocorreu no primeiro ciclo de avaliação, com 21 dias nas cultivares Delite, Florida e Climax; e o maior período obtido no terceiro ciclo (48 dias), em 'Bluegem', 'Delite', 'Florida', 'Powderblue' e 'Bluebelle' (Tabela 1). Esta variação pode ter ocorrido em razão da flutuação de temperatura, entre os anos de avaliação; em 2005, segundo ano de avaliação, o acúmulo de horas de frio foi de 276, abaixo da média dos anos anteriores, que foi superior às 400 horas necessárias para essas cultivares, segundo Childers & Lyrene (2006).

Beccaro et al. (2003) ao avaliar 34 cultivares de mirtilo, dos grupos highbush, Southern highbush e rabbiteye, na região do Piemonte (Itália), obtiveram 64 dias de colheita nas cultivares precoces Bluetta e tardias Elliot, o que demonstra a importância do cultivo de cultivares que possam ampliar o período de colheita e oferta de frutas ao mercado consumidor. O período de colheita das cultivares estudadas concentrou-se nos meses de dezembro e janeiro.

Do ponto de vista de exportação dos frutos de mirtilo, as grandes oportunidades de preço foram obtidos entre meados de outubro e de novembro (20 a 25 US$ kg-1 - CIF). Antes ou depois desse período, os preços foram menores (10 a 12 US$ kg-1 - CIF), no mercado de Miami (Fizsman, 2005). As cultivares avaliadas no presente trabalho possuem período de colheita inadequado para a exportação. Entretanto, as possibilidades de atender ao mercado interno são promissoras, uma vez que a oferta de frutos dessas cultivares se dá nos meses próximos das festas natalinas, época em que ocorre grande procura pelos mesmos.

Em relação às características físicas (Tabela 3), as maiores produções (kg por planta) foram obtidas pelas cultivares Briteblue (1,63), Bluebelle (1,63) e Bluegem (1,25). As menores foram obtidas pelas cultivares Powderblue (1,02), Woodard (0,67), Delite (0,61) e Climax (0,35). Essa produção pode ser extrapolada para o potencial de produtividade, que coloca as cultivares Bluebelle (3.703 kg ha-1), Briteblue (3.629 kg ha-1) e Bluegem (2.770 kg ha-1) como as de maior potencial de exploração, na região de Pelotas, sob regime de produção agroecológica. A diferença apresentada pelas cultivares pode ser conseqüência de fatores intrínsecos à própria adaptação, como a necessidade de baixas temperaturas e variações climáticas locais (Tabela 2), e a problemas relacionados à polinização, como descrito por NeSmith (2002), que relacionou a reduzida frutificação efetiva à deficiência de polinização na cultivar Tifblue, do grupo rabbiteye.

As médias de massa de matéria fresca e diâmetro longitudinal dos frutos, entre as cultivares, foram semelhantes estatisticamente, mesmo com a variação ocorrida nos índices de produção, o que poderia colaborar para alteração da relação fonte e dreno, ou seja, em cultivares com menor produção, os frutos poderiam apresentar maior tamanho e massa de matéria fresca. Entretanto, essa tendência não foi observada, mesmo em 'Bluebelle' (1.588), 'Briteblue'(1.301) e 'Blueguem' (1.033) que produziram maior número de frutos por planta, e naqueles de menor produção de frutos como 'Climax' (250), 'Woodard' (530), 'Powderblue' (720) e 'Flórida' (750) (Tabela 3). Carter et al. (2002) avaliaram cinco cultivares de mirtilo, dos grupos highbush, e uma cultivar do grupo rabitteye, em Arkansas (EUA), e observaram diferenças significativas entre os grupos nos quatro ciclos de avaliação, quanto às características tamanho de fruto, produção por hectare, vigor entre plantas, sanidade e qualidade dos frutos (cor, firmeza e aroma). No presente trabalho não houve diferença significativa entre as cultivares avaliadas, quanto ao teor de sólidos solúveis totais (Tabela 3), cuja média foi 13,20ºBrix.

Outros trabalhos com mirtilo (Carter et al., 2002; Swain & Darnell, 2002; Beccaro et al., 2003; Smolarz, 2006) sobre introdução, avaliação fenológica e produtiva vêm sendo realizados no mundo. As informações técnicas, geradas nesses trabalhos, viabilizam a elaboração do zoneamento agroclimático e indicam cultivares mais adaptadas às condições locais, o que reduz as possibilidades de erros de implantação. Em razão das constantes modificações climáticas atuais, que descaracterizam zonas típicas de clima temperado, em especial, com a redução da disponibilidade de frio hibernal (Wrege et al., 2006), é necessária a seleção de genótipos com pouca necessidade de baixas temperaturas (Antunes & Raseira, 2006) e a realização de estudos de adaptação a regiões com potencial para produção de mirtilo.

 

Conclusões

1. Na região de Pelotas, RS, pode-se recomendar o cultivo das cultivares de mirtilo Bluebelle, Briteblue e Bluegem.

2. As cultivares Bluebelle, Briteblue e Bluegem apresentam maior produção, número de frutos por planta e maior produtividade.

3. Não há diferenças entre as cultivares, quanto aos teores de sólidos solúveis totais, massa de matéria fresca e diâmetro longitudinal de frutos.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pela concessão do auxílio financeiro e bolsas de pesquisa; à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, pelo apoio financeiro.

 

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Recebido em 5 de fevereiro de 2008 e aprovado em 31 de julho de 2008

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