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Pesquisa Agropecuária Brasileira

On-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.43 no.9 Brasília Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X2008000900020 

NOVAS CULTIVARES

 

BRS Deméter: nova cultivar de cevada cervejeira irrigada para o Cerrado do Brasil Central

 

BRS Deméter: new malting barley cultivar for irrigated Brazilian savanna

 

 

Renato Fernando AmabileI; Euclydes MinellaII; Antonio Fernando GuerraI; Dijalma Barbosa da SilvaIII; Júlio César AlbrechtI; Noemir AntoniazziIV

IEmbrapa Cerrados, Caixa Postal 08233, CEP 73301-970 Planaltina, DF. E-mail: amabile@cpac.embrapa.br, guerra@cpac.embrapa.br, albrecht@cpac.embrapa.br
IIEmbrapa Trigo, Caixa Postal 451, CEP 99001-970 Passo Fundo, RS. E-mail: eminella@cnpt.embrapa.br
IIIEmbrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Caixa Postal 2372, CEP 70770-900 Brasília, DF. E-mail: dijalma@cenargen.embrapa.br
IVFundação Agrária de Pesquisa Agropecuária, Praça Nova Pátria, s/nº, Colônia Vitória - Entre Rios, CEP 85139-400 Guarapuava, PR. E-mail: noemir@agraria.com.br

 

 


RESUMO

BRS Deméter é uma cultivar de cevada dística (duas fileiras de grãos) de ampla adaptação, sob irrigação, ao Cerrado do Brasil Central. Apresenta potencial produtivo de grãos acima de 5.000 kg ha-1, estabilidade de produção e alta qualidade industrial malte-cervejeira. A cultivar atende às demandas do produtor por rendimento competitivo e às da indústria malteira por alta qualidade cervejeira.


ABSTRACT

BRS Deméter is a spring, two-rowed barley, widely adapted to irrigated areas of the savanna, in Central Brazil. It presents production stability and high malting quality, with yield potential above 5,000 kg ha-1. It fulfills both the farmer and malting industry expectations regarding competitive yield and brewing quality.


 

 

Introdução

A cevada adquiriu importância econômica no Brasil a partir de 1930, quando começou a ser cultivada comercialmente na região Sul do país, para a produção de malte cervejeiro (Arias, 1995). Seu cultivo na região do Cerrado é recente e teve como marco referencial o lançamento da BRS 180 - a primeira cultivar de cevada cervejeira recomendada para o sistema de produção irrigado (Silva et al., 2000). A BRS 180 foi lançada para suprir a crescente demanda interna de malte e para fornecer, ao agricultor do Brasil Central, uma alternativa para diversificar e integrar o sistema de produção irrigado e, assim, assegurar uma produção total mais estável (Amabile, 2007). Como cultura adaptada às condições edafoclimáticas dessa região, a cevada tem se destacado pelo seu elevado potencial produtivo, baixo consumo de água em relação às outras culturas irrigadas e pela baixa incidência de doenças, o que favorece a sua inclusão no sistema de rotação de culturas em áreas irrigadas (Silva et al., 2000).

Atualmente, o produtor que trabalha com irrigação tem à disposição apenas duas cultivares de cevada para semeadura: a BRS 180, cevada de seis fileiras de grãos, e a BRS 195, cevada de duas fileiras de grãos. A fim de fornecer uma nova opção aos produtores, a Embrapa coloca a disposição a nova cultivar BRS Deméter: produtiva, com elevada qualidade cervejeira e apta ao cultivo irrigado no Cerrado.

 

Características da cultivar

A cultivar BRS Deméter teve origem na seleção dentro da linhagem TR 212, de origem Canadense, de plantas de cevada com espigas totalmente emergidas da bainha da folha-bandeira. Essa seleção foi realizada em Passo Fundo, RS, na primavera de 1981. Em 1982, as plantas selecionadas foram semeadas no verão em Ciudad Obregón, México, onde progênies uniformes, em relação a ciclo e altura, foram selecionadas e colhidas em massa. As seleções, então, foram semeadas no inverno, em Passo Fundo, RS, onde linhas uniformes para altura, ciclo e tipo de planta, colhidas em massa, deram origem à linhagem PFC 8299. Em 1984, essa linhagem foi introduzida no Cerrado, na Embrapa Cerrados, em Planaltina, DF. De 1984 a 1990, ela foi avaliada, sob regime de irrigação, em ensaios preliminares de competição e, a partir de 1991, em ensaios oficiais de rendimento. De 2001 a 2005, ela foi avaliada agronomicamente em ensaios finais em Goiás (Luziânia, Cristalina, Catalão, Vianópolis), Minas Gerais (Unaí e São Gotardo) e no Distrito Federal (Planaltina e Recanto das Emas).

De 2003 a 2006, em virtude do bom desempenho agronômico, a linhagem PFC 8299 foi avaliada quanto à produtividade, classificação de grãos e qualidade de malte, tanto em parcelas experimentais quanto em unidades de observação. Em razão dos resultados obtidos, a linhagem PFC 8299 foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), com o número 22.362, em 10 de dezembro de 2007, e passou a ser denominada BRS Deméter.

A cultivar BRS Deméter é a segunda variedade dística indicada para o sistema de produção irrigado do Cerrado, e destaca-se pela estabilidade agronômica (Figuras 1 e 2) e pela qualidade industrial do malte cervejeiro (Tabela 1). Possui hábito de crescimento juvenil e moderada resistência ao acamamento. Apresenta porte de médio a alto, ereto, com altura média de 80 cm, inferior à cultivar BRS 180 (90 cm) e superior à cultivar BRS 195, de porte anão (69 cm). Em condições irrigadas, de acordo com as recomendações de manejo de água da Embrapa Cerrados, apresenta moderada resistência ao acamamento. O espigamento ocorre, em média, com 60 dias (844 graus-dia), um período intermediário aos das cultivares BRS 180 (808 graus-dia), mais precoce, e BRS 195 (1.044 graus-dia), mais tardia.

 

 

 

 

 

 

Com ampla adaptação e estabilidade de produção nas principais regiões potencialmente produtoras de cevada cervejeira do Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, a 'BRS Deméter' tem melhor perfomance em altitudes acima de 900 m e entre as latitudes 14 e 20°S.

O período de semeadura mais indicado para a 'BRS Deméter' é de 1º a 30 de maio; não se devem realizar semeaduras antes desse período, por serem épocas favoráveis à ocorrência de problemas fitossanitários [mancha-em-rede (Pyrenophora teres), mancha-marrom (Cochliobolus sativus) e brusone (Magnoporthe grisea)] e de menor produtividade. Semeaduras posteriores também devem ser evitadas, para que a colheita dos grãos não coincida com o início do período chuvoso, o que pode promover perdas significativas na qualidade do grão para fins cervejeiros.

A 'BRS Deméter' detém um perfil de qualidade industrial de malte que atende à maioria das especificações da indústria cervejeira, com teor médio de proteína nos grãos abaixo de 12%, na maioria dos anos testados, e com bom rendimento de extrato, baixa viscosidade e baixo teor de betaglucanas no mosto (Tabela 1).

O desempenho da 'BRS Deméter', quanto ao rendimento de grãos, em ensaios entre 2001 a 2006, variou de 5.035 kg ha-1, em 2002, a 8.924,3 kg ha-1, em 2004 (Figura 1). O rendimento médio de grãos da 'BRS Deméter', nos 32 ambientes irrigados avaliados de 2001 a 2006, foi 21% superior ao da cultivar BRS 195 e inferior em apenas 1% ao da cultivar de seis fileiras de grãos, a BRS 180 (Tabela 2).

 

 

Os grãos são de tamanho grande e apresentam classificação comercial primeira (Brasil, 1996) superior a 85% (Figura 2). O peso médio de 1.000 sementes é de 45 g (com variação entre 34 e 49 g), ligeiramente superior ao das cultivares BRS 180 (42 g) e BRS 195 (42,5 g). A média da classificação primeira foi 13 e 7% superior às testemunhas BRS 195 e BRS 180, respectivamente (Tabela 3), nos 32 ambientes do Cerrado testados.

 

 

A 'BRS Deméter' tem necessidades de água diferentes em cada fase fenológica. A fase entre o emborrachamento e enchimento completo do grão é a de maior consumo de água (Guerra, 1994, 1995). Da semeadura à emergência/estabelecimento da cultura, são necessárias de três a quatro irrigações, com lâminas de água de 10 a 15 mm, em intervalos de dois dias. Após essa fase, recomenda-se que as irrigações sejam feitas com a tensão de água no solo monitorada por meio de tensiômetros instalados a 30 cm de profundidade, irrigando-se sempre que a leitura atingir 60 kPa. O excesso de água, além de propiciar crescimento excessivo e acamamento das plantas, favorece o aparecimento de doenças. O término da irrigação deve ocorrer na maturação fisiológica dos grãos (perda total da coloração verde) nas espigas dos perfilhos tardios da lavoura (Amabile et al., 2007).

 

Referências

AMABILE, R.F. Aproxima-se a safra irrigada com mais uma alternativa: a cevada cervejeira. Disponível em: <http://agrosoft.com/?q=node/23248>. Acesso em: 4 abr. 2007.         [ Links ]

AMABILE, R.F.; MINELLA, E.; OLIVEIRA, M. de O.; FRONZA, V. Cevada (Hordeum vulgare L.). In: PAULA JÚNIOR, T.J. de; VENZON, M. (Ed.). 101 culturas: manual de tecnologias agrícolas. Belo Horizonte: Epamig, 2007. p.263-268.         [ Links ]

ARIAS, G.N. Mejoramiento genético y producción de cebada cervecera en América del Sur. Santiago: FAO, 1995. 157p.         [ Links ]

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria nº 691, de 22 de novembro de 1996. Aprova a norma de identidade e qualidade da cevada, para comercialização interna. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 25 nov. 1996. Seção 1, p.24751-24752        [ Links ]

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SILVA, D.B. da; GUERRA, A.F.; MINELLA, E.; ARIAS, G. BRS 180: cevada cervejeira para cultivo irrigado no Cerrado. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.35, p.1689-1694, 2000.         [ Links ]

 

 

Recebido em 26 de junho de 2008 e aprovado em 13 de agosto de 2008