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Revista Brasileira de Fruticultura

versão impressa ISSN 0100-2945versão On-line ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. v.24 n.3 Jaboticabal dez. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452002000300039 

Tolerância a baixas temperaturas de cultivares de abacate (Persea americana Mill.)1

 

Low temperature tolerance of avocado (Persea americana Mill.) cultivars

 

 

Nilberto Bernardo SoaresI, 2; Mário José Pedro JúniorI, 2, II, 3, Luiz Antonio Junqueira TeixeiraII, 3; Jairo Lopes de CastroII, 3

IPesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas. Cx. Postal 28. 13001-970, Campinas, SP
IIBolsista do CNPq

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Em experimento realizado no Núcleo de Agronomia do Sudoeste/IAC, em Capão Bonito (SP), observou-se o comportamento de 13 cultivares de abacate com seis anos de idade: Geada, Pollock e Simmonds (raça antilhana); Antoniolli, Breda, Campinas, Ermor, Jumbo, Margarida, Ouro verde, Reis e Solano (híbridos de antilhana x guatemalense) e Fuerte (híbrido de mexicana x guatemalense) em relação às baixas temperaturas. As temperaturas do ar registradas no posto meteorológico do local foram: -2,8°C; -0,4°C; -0,2°C e –1,8°C, respectivamente, nos dias 17; 18; 20 e 21 de julho de 2000. A cultivar Fuerte mostrou-se mais tolerante às baixas temperaturas, não apresentando injúrias nas plantas nem queda de frutos; as cultivares híbridas de antilhana x guatemalense apresentaram diferenças de tolerância ao frio; enquanto as antilhanas foram severamente injuriadas.

Termos para indexação: raças e híbridos, danos pelo frio, queda de frutos, geada


ABSTRACT

A field trial carried out at Instituto Agronômico Experiment Farm at Capão Bonito, State of São Paulo, Brazil, observed the behaviour of thirteen avocado cultivars of six years old: Geada, Pollock and Simmonds (West Indian cultivars); Antoniolli, Breda, Campinas, Ermor, Jumbo, Margarida, OuroVerde, Reis and Solano (Guatemalan x West Indian Hybrids) and Fuerte (Guatemalan x Mexican hybrid) in relation to low temperatures occurred at the weather station. The values of the minimum air temperatures recorded were: -2.8°C, -0.4°C and –1.8°C on July 17th, 18th, 20th and 21th, 2000 respectively. The Fuerte cultivar was the most tolerant to cold, without injuries on the canopy and fruit drop. The Guatemalan x West Indian cultivars showed different degrees of cold injury and fruit drop, while the West Indian cultivars were severely damaged by the cold.

Index terms: races and hybrids, cold damage, fruit drop, frost.


 

 

INTRODUÇÃO

O abacateiro, da família lauraceae, subgênero Persea, compreende três espécies: Persea americana var. americana; Persea nubigena var. guatemalensis e Persea americana var. drymifolia, as quais correspondem, respectivamente, às raças hortícolas conhecidas como antilhana, guatemalense e mexicana, que são descritas como tropical, subtropical e semitropical, baseado na sua resistência ao frio e adaptação climática (Campbell & Malo, 1976; Williams, 1976).

Um dos objetivos do melhoramento genético do abacateiro é selecionar cultivares tolerantes ao frio para sua exploração econômica em áreas sujeitas a geadas. Existe variabilidade de tolerância ao frio entre cultivares dentro de uma raça e grande variabilidade entre cultivares dentre as raças (Bergh & Lahav, 1996).

Segundo Wolfe et al. (1942), plantas adultas da raça antilhana não suportam temperaturas inferiores a -4,4°C e são injuriadas consideravelmente a –2,8°C, enquanto a maioria das cultivares guatemalenses não suportam temperaturas abaixo de –6,1° C, e algumas cultivares mexicanas, muito resistentes, suportam temperaturas inferiores a –7,7°C. Krezdorn (1974) concorda com estas afirmações, exemplificando que cultivares antilhanas, como a Waldin, são injuriadas somente por temperaturas entre –1,1°C e –1,7°C, enquanto algumas cultivares mexicanas, como a Mexicola, resistem a temperaturas entre –8 e -11°C, apresentando apenas leves injúrias. Os híbridos entre as duas raças apresentam resistência intermediária.

Segundo Bergh (1975), a cultivar Yama é considerada uma das mais resistentes dentre as mexicanas, suportando temperatura de –8,5°C sem sofrer danos severos.

Knight Jr. (1976) relata que, há muito tempo, a cultivar mexicana Brooksville é utilizada como porta-enxerto, na Flórida, por seus seedlings suportarem frio artifical de –8,5°C.

Krezdorn (1974) observou que a cultivar Gainesville suportou temperatura de –9,4°C em plantios comerciais, e Scorza & Wiltbank (1976) concluíram ser esta a mais resistente cultivar dentre cinco submetidas ao frio artifical. Plantas desta cultivar, formadas por estacas, suportaram, quando adultas, temperaturas de até –7,8°C, valor bem superior a –6,7°C suportado pelas cultivares Mexicola e Topa-Topa, pertencentes à raça mexicana.

Platt (1975) estabeleceu os limites de tolerância ao frio sob as condições californianas, para as cultivares híbridas de mexicana x guatemalense: Fuerte, que foi de –2,8°C, Bacon, -3,3°C e Zutano, 4,4°C.

Toohill & Alexander (1979) ponderam que a fixação de limites exatos de tolerância ao frio é de difícil demarcação, visto que os danos causados a uma dada cultivar são influenciados pelo grau e duração do frio e pelas condições fisiológicas da planta no momento da ocorrência das baixas temperaturas. Esses autores avaliaram a tolerância relativa de 19 cultivares de abacate submetidas a uma severa geada, durante a qual a temperatura permaneceu abaixo de 0°C por 3h8 horas e alcançou um mínimo de –2,3°C, com a mínima na relva de -8°C. Somente duas cultivares, Anaheim e Millicent, foram seriamente danificadas, enquanto as demais, incluindo-se a Fuerte e a Hass, sofreram danos desprezíveis.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a tolerância de cultivares de abacate às baixas temperaturas, visando à seleção de genótipos tolerantes para utilização direta, ou como fontes de tolerância ao frio para utilização em programa de melhoramento genético.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O campo experimental foi instalado em 1994, no Núcleo de Agronomia do Sudoeste/IAC, localizado em Capão Bonito-SP, de coordenadas de 24° 00 S e 48°22 W, 702 m de altitude e clima tipo Cfa (clima com chuvas do mês mais seco entre 30 e 60 mm; temperatura do mês mais quente inferior a 22°C e temperatura do mês mais frio inferior a 18°C), visando a avaliar o comportamento agrofenológico de 13 cultivares de abacate, com as mudas formadas sobre o porta-enxerto Collinson.

O delineamento experimental utilizado foi o de blocos ao acaso, com quatro repetições e 13 tratamentos (cultivares): Geada, Pollock e Simmonds (raça antilhana); Antoniolli, Breda, Campinas, Ermor, Jumbo, Margarida, Ouro Verde, Reis e Solano (híbridos antilhana x guatemalense) e Fuerte (híbrido mexicana x guatemalense). Na análise de variância, empregou-se o Módulo GLM (General Linear Models) do SAS, segundo Freund & Littell (1981). Para a comparação das médias dos tratamentos, foi utilizado o teste "t"de Student (á = 0,01), com os dados originais transformados por

Em julho de 2000, com as plantas atingindo seis anos após o plantio, houve sério resfriamento da temperatura do ar, nos dias 17; 18; 20 e 21, com os termômetros no abrigo da estação meteorológica local marcando, respectivamente, temperaturas de –2,8°C, -0,4°C, -0,2°C e –1,8°C, com a ocorrência de geada.

Os danos causados pelo frio foram avaliados, atribuindo-se notas para as injúrias observadas na copa e para queda de frutos. A escala de notas de danos variou de zero a 4, de acordo com a porcentagem da copa da planta injuriada, e de zero a 2, de acordo com a porcentagem de frutos caídos ao solo, conforme Tabela 1. As cultivares Breda, Ouro Verde, Geada, Pollock e Simmonds não foram analisadas quanto à queda de frutos; as duas primeiras por apresentarem produções nulas, e as três últimas, por suas colheitas já terem sido realizadas antes da ocorrência das baixas temperaturas do ar.

 

 

O levantamento das injúrias às plantas, assim como a queda dos frutos, foi realizado no dia 10 de agosto de 2000, sendo que a queda dos frutos foi acompanhada até outubro do mesmo ano, quando normalmente termina a colheita das cultivares tardias. As plantas bastante afetadas pelas baixas temperaturas foram podadas, retirando-se os ramos e galhos queimados e tratando-se os cortes com pasta cúprica.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A região de Capão Bonito, no Sul do Estado de São Paulo, pela latitude e altitude, apresenta 45% de probalidade de ocorrência de temperaturas inferiores a 2° C durante o mês de julho (Camargo et al., 1993). A ocorrência de temperaturas negativas de até –2,8° C permitiu a avaliação de cultivares de abacate em relação a níveis de tolerância às baixas temperaturas.

Na tabela 2, observa-se que o cultivar Fuerte, sem diferir significativamente dos cultivares Jumbo, Ermor e Solano, foi o que apresentou maior tolerância às baixas temperaturas, não se verificando injúria à copa das plantas. Esse resultado é concordante com a literatura (Wolfe et al., 1942; Krezdorn, 1974; Campbell & Malo, 1976), na qual se relaciona o grau de tolerância ao frio com a raça da cultivar.

 

 

Dentre as cultivares híbridas entre as raças antilhanana e guatemalense, a cultivar Jumbo, embora não diferisse significativamente de 'Ermor', 'Solano', 'Antoniolli' e 'Campinas', apresentou menor nível de injúria que 'Margarida', 'Reis' e 'Ouro Verde', mostrando a variabilidade de tolerância ao frio existente dentro das raças e híbridos, como também observado por Bergh (1976).

Não houve diferença entre as cultivares antilhanas Geada, Pollock e Simmonds, quanto à tolerância ao frio, tendo sido as três severamente injuriadas, com a copa das plantas e ramos mais finos totalmente queimada. Porém, elas não diferiram das cultivares híbridas Breda e Ouro Verde, cujas plantas apresentaram grau de injúria semelhante. Este fato pode estar relacionado à predominância de caracteres da raça antilhana nessas duas cultivares. Todas as plantas podadas recuperaram-se, formaram copa e floresceram no ano seguinte.

Com relação à queda de frutos, não foi encontrada diferença estatística entre as cultivares: Antoniolli, Fuerte, Solano, Reis, Jumbo, Margarida e Campinas. Apenas a cultivar Ermor foi estatísticamente diferente das outras, apresentando 100% de queda de frutos(Tabela 2).

Em média, a cultivar Ermor teve queda de 100% dos frutos, seguida da cultivar Campinas, cuja queda de frutos ficou em torno de 80%. As cultivares Margarida, Jumbo e Reis tiveram queda de frutos entre 20 e 30%. As cultivares Breda e Ouro Verde não produziram frutos neste ano; e a colheita das cultivares antilhanas Pollock, Simmonds e Geada já havia sido feita antes da ocorrência das baixas temperaturas, não permitindo a avaliação do efeito das baixas temperaturas na queda dos frutos.

 

CONCLUSÕES

As cultivares Fuerte, Jumbo, Ermor e Solano mostraram menor grau de injúria na copa. A cultivar Ermor foi a mais afetada pelas baixas temperaturas em relação à queda de frutos. Ainda as cultivares Fuerte e Solano, pelo baixo nível combinado de danos apresentados (injúria mais queda de frutos), são as mais indicadas para a região.

 

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Endereço para correspondência
Nilberto Bernardo Soares
Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas
Cx. Postal 28
13001-970, Campinas, SP
E-mail: nilberto@supernet.com.br

 

 

1 (Trabalho 205/2001). Recebido:26/12/2001. Aceito para publicação: 29/08/2002.
2 Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas. Cx. Postal 28. 13001-970, Campinas, SP. E-mail: nilberto@supernet.com.br
3 Bolsista do CNPq

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