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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945On-line version ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. vol.27 no.1 Jaboticabal Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452005000100024 

PROPAGAÇÃO

 

Efeito de substratos na formação de porta-enxertos de Psidium guajava L. cv. Ogawa em tubetes1

 

Effect of substrates in the formation of Psidium guajava L. cv. Ogawa rootstocks in root plugs

 

 

Diva CorreiaI; Esaú Matos RibeiroII; Leonardo Salviano LopesIII; Adroaldo Guimarães RossettiIV; Cláudia Araújo MarcoV

IBióloga, M. Sc., Pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical, CP. 3761, CEP 60511-110, Fortaleza – CE. E-mail: diva@cnpat.embrapa.br
IIEng. Agr., Dep. Engenharia Agrícola, Universidade Federal do Ceará, CEP 60356-001, Fortaleza – CE. E-mail: cmid@hahoo.com.br
IIIEng. Agr., Adubos Trevo S/A., Av. Padre Cacique, 320, CEP 90810-100, Porto Alegre – RS. E-mail: leonardo.lopes@yara.com
IVEstatístico, M. Sc., Pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, CP. 3761, CEP 60511-110, Fortaleza – CE. E-mail: adroaldo@cnpat.embrapa.br
VEng. Agr., D. Sc., Dep. Fitotecnia, Universidade Federal do Ceará, CEP 60356-001, Fortaleza – CE. E-mail: clmarco@zaz.com.br

 

 


RESUMO

Avaliou-se a formação de porta-enxertos de goiabeira em tubetes e em diferentes substratos: vermiculita + vermicomposto, casca de arroz carbonizada + vermicomposto, vermicomposto + tegumento de amêndoa de caju decomposto, casca de arroz carbonizada + esterco bovino curtido, casca de arroz carbonizada + vermiculita e pó da casca de coco maduro + folha de carnaubeira triturada e decomposta. Utilizou-se o delineamento experimental inteiramente casualizado, com 6 tratamentos, 4 repetições e 14 plantas por parcela. Foram avaliados a altura da parte aérea, o diâmetro do caule e o número de folhas aos 60; 90 e 120 dias após a semeadura. Avaliaram-se a massa da matéria seca da parte aérea e das raízes, a facilidade de retirada da muda do tubete e a agregação do substrato às raízes, aos 120 dias. Porta-enxertos produzidos aos 120 dias propiciaram os maiores valores de altura da parte aérea (30,2 cm), diâmetro do caule (5,3 mm), massa da matéria seca da parte aérea (5,7 g) e das raízes (3,0 g), e número de folhas (14,5) quando foi usado o substrato vermiculita + vermicomposto. Maior facilidade de retirada da muda do tubete foi encontrada nos substratos vermiculita + vermicomposto, vermicomposto + tegumento de amêndoa de caju decomposto, casca de arroz carbonizada + vermiculita e casca de arroz carbonizada + esterco bovino curtido. Todos os substratos apresentaram ótima agregação do substrato às raízes.

Termos para indexação: goiabeira, resíduos agroindustriais, componentes orgânicos e inorgânicos


ABSTRACT

The formation of guava rootstocks in root plugs was evaluated in differents substrates: vermiculite + vermicompost, carbonized rice hulls + vermicompost, vermicompost + decompose cashewnut tegument, carbonized rice hulls + cattle manure, carbonized rice hulls + vermiculite and dust peel of ripened coconut fruit + decompose leave dust from carnauba palm tree. The experimental design was completely randomized with 6 treatments, 4 replicates and 14 plants per plot. The plant height, stem diameter and number of leaves were measured in three different periods at 60, 90 and 120 days after sowing. Shoot dry matter and root dry matter mass, the facility to remove the seedling from the root plug and substrates aggregation to root were evaluated at 120 days after sowing. The results showed that guava rootstocks with 120 days provided the taller plant height (30.2 cm), stem diameter (5.3 mm), dry matter mass (5.7g), root dry matter mass (3.0 g) and number of leaves (14.5) in the vermiculite + vermicompost substrate. The easiest substrate to take out the rootstocks from the root plug were achieved using vermiculite + vermicompost, vermicompost + decompose cashwewnut tegument, carbonized rice hulls + vermiculite and carbonized rice hulls + cattle manure. It was observed that all the substrates showed excellent results in substrate aggregation.

Index terms: guava, agroindustry waste, inorganic and organic components


 

 

INTRODUÇÃO

Mudas de goiabeira (Psidium guajava L.) podem ser obtidas por via sexuada ou assexuada. A reprodução por sementes, devido à heterozigose, pode gerar segregação nas plantas, sendo recomendada apenas na produção de porta-enxerto ou em estudos de melhoramento genético (Ruehle, 1964). Métodos assexuados permitem a clonagem. A escolha dos mesmos deve estar relacionada ao domínio da tecnologia pelo viveirista, ao rendimento de mudas com padrão de qualidade e sua eficácia de desenvolvimento no ambiente de implantação do pomar (Gonçalves et al., 2000).

Tecnologias de produção de mudas de fruteiras buscam melhorias no manejo, no transporte das mudas, na redução da área no viveiro e de volume de substrato, diminuindo a agressão ao meio ambiente, na viabilização da mão-de-obra e no aumento da produtividade (Chaves, 2000). Segundo Kämpf (2000a), recipientes e substratos com características químicas, físicas, biológicas e econômicas desejáveis são itens importantes nesse processo; assim, busca-se o aproveitamento de resíduos agroindustriais da região, encontrados em abundância, com menor custo de aquisição e de fácil obtenção. Como exemplos, são citados: o pó da casca (mesocarpo) de coco verde e maduro (Cocus nucifera L.) (Rosa et al., 2002; Correia et al., 2003; Weber et al., 2003), a folha de carnaubeira [Copernicia prunifera (Miller) H. E. Moore] triturada e decomposta e a casca de arroz (Oriza sativa L.) carbonizada (Souza et al., 1995; Maia, 2000; Chaves, 2000; Rosa et al., 2002; Correia et al., 2003; Weber et al., 2003).

Este trabalho tem como objetivo avaliar o efeito de diferentes substratos na formação de porta-enxertos de goiabeira utilizando tubetes como recipientes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado no Campo Experimental de Pacajus da Embrapa Agroindústria Tropical, em Pacajus (CE), Brasil.

Sementes de goiabeira 'Ogawa' foram semeadas em tubetes de polipropileno (288,0 cm3) contendo seis substratos (1:1; v/v): vermiculita (textura média) + vermicomposto; casca de arroz carbonizada + vermicomposto; vermicomposto + tegumento de amêndoa de caju (Anacardium occidentale L.) decomposto; casca de arroz carbonizada + esterco bovino curtido; casca de arroz carbonizada + vermiculita, e pó da casca de coco maduro + folha de carnaubeira triturada e decomposta. O pó da casca de coco maduro foi previamente embebido em água durante 30 minutos. Após, descartou-se a solução residual, e este procedimento foi repetido quatro vezes. A secagem do mesmo foi realizada à sombra.

Foram semeadas três sementes em cada tubete, a uma profundidade de 1,0 cm a 2,0 cm. O material permaneceu a pleno sol, coberto com sacos de aniagem para manter a umidade do substrato até o início da germinação, que ocorreu nos primeiros 20 dias. Diariamente, realizou-se a irrigação das mudas utilizando regadores. Aos 40 dias, efetuou-se o desbaste, deixando apenas a plântula mais vigorosa. Neste período, iniciaram-se as fertilizações foliares, utilizando 1,0 g L-1 de uréia e 5,0 mL L-1 do produto comercial Ubifol® [N (15%); P2O5 sol. CNA H2O (15%); K2O (20%); Ca (1,5%); Mg (0,05%); Zn (0,20%); B (0,05%); Fe (0,10%); Mn (0,02%); Cu (0,05%); Mo (0,01%); S (3,0%)], repetidas a cada 10 dias, de acordo com Chaves (2000).

As avaliações de altura da parte aérea, diâmetro do caule no ponto de enxertia a 8,0 cm do colo da planta e número de folhas foram realizadas aos 60; 90 e 120 dias após a semeadura. Neste último período, avaliaram-se a massa da matéria seca da parte aérea e das raízes, a facilidade de retirada da muda dos tubetes e a agregação do substrato às raízes.

Utilizou-se o delineamento experimental inteiramente casualizado, com 6 tratamentos, 4 repetições e 14 plantas por parcela. Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias dos tratamentos comparadas entre si, pelo teste de RegwQ, a 5% de probabilidade. Os dados de número de folhas foram transformados para . A facilidade de retirada da muda do tubete e a agregação do substrato às raízes foram caracterizadas como: ótima, boa e ruim. Os dados das características físicas e químicas dos substratos, obtidos conforme métodos recomendados pela Embrapa (1997), encontram-se na Tabela 1.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O maior crescimento em altura e diâmetro dos porta-enxertos foi alcançado no substrato composto por vermiculita + vermicomposto, diferenciando estatisticamente dos demais já a partir de 90 dias após a semeadura (Tabela 2). Ainda nesta tabela, verifica-se que houve diferenças entre tratamentos nas três épocas avaliadas para formação de folhas (número de folhas), sendo que, aos 120 dias após a semeadura, os melhores tratamentos foram vermiculita + vermicomposto e casca de arroz carbonizada + vermicomposto, sem diferenças entre ambos. Essas variações são conseqüências das diferenças existentes entre as características físicas e químicas dos substratos (Tabela 1). A vermiculita pertence ao grupo dos silicatos expandíveis 2:1, com propriedade de retenção de água, alto pH e alta capacidade de troca de cátions (Gonçalves, 2000); o vermicomposto apresenta poros pequenos, retenção de água, densidade e teor de húmus altos, tendo seu uso aprovado como condicionador de solo (Kämpf, 2000b), além de apresentar alta porcentagem de saturação por bases (Tabela 1). A combinação destes dois componentes originou um substrato favorável para o crescimeto e formação de porta-enxertos de goiabeira.

Aos 90 dias após a semeadura, 7,8% dos porta-enxertos desenvolvidos em substrato vermiculita + vermicomposto já apresentavam diâmetros do caule no ponto da enxertia entre 4,0 mm a 5,0 mm. Neste mesmo substrato, aos 120 dias após a semeadura, 86,0% dos porta-enxertos apresentaram diâmetros do caule no ponto da enxertia superiores a 4,0 mm. Também apresentaram os maiores valores médios da parte aérea, de diâmetro do caule no ponto da enxertia e número de folhas (Tabela 2) bem como as maiores médias para massa de matéria seca da parte aérea e das raízes diferenciando significativamente da formação dos porta-enxertos em outros substratos, aos 120 dias após a semeadura (Tabela 3). Segundo Sturion (1981), o diâmetro do caule tem sido um dos melhores indicativos para definir o padrão de qualidade da muda. Ruehle (1964) recomenda proceder a enxertia da goiabeira em porta-enxertos com diâmetro igual ou superior a 10,0 mm, o que somente era obtido aos 11 meses de idade.

 

 

Aos 60 dias após a semeadura, porta-enxertos formados em substratos compostos por vermiculita + vermicomposto, casca de arroz carbonizada + vermicomposto e casca de arroz carbonizada + vermiculita já apresentavam número mínimo de folhas necessário para produção de mudas de goiabeira. Aos 90 dias, esta característica era observada em todos os substratos, exceto em porta-enxertos formados em pó da casca de coco maduro + folha de carnaubeira triturada e decomposta. A limitação do crescimento dos porta-enxertos neste substrato pode estar relacionada principalmente com os altos níveis de Na e H+Al, baixo pH e teor de fósforo, conforme observado na Tabela 1. Utilizando tubetes (288,0 cm3), Chaves (2000) caracteriza um porta-enxerto de goiabeira de qualidade e apto para a realização da enxertia, aquele que apresenta os valores mínimos: altura da parte aérea (15,0 cm), diâmetro do caule no ponto de enxertia (4,0 mm a 5,0 mm) e número de folhas (8,0).

Desta forma, observa-se potencialidade dos materiais utilizados nas formulações dos substratos para a formação de porta-enxertos de goiabeira 'Ogawa' em tubetes. As diferenças físicas e químicas dos mesmos, juntamente com a fertilização de cobertura utilizada proporcionaram desenvolvimentos diferenciados dos porta-enxertos. Assim, a caracterização de outras propriedades físicas, como porosidade e disponibilidade de ar e água, a definição de manejos da fertilização de base e/ou de cobertura, específicos para cada substrato e à fase de crescimento da cultura, bem como a análise química de plantas pode contribuir na indicação de substratos para a formação de porta-enxertos de qualidade.

Na Tabela 4, observa-se que todos os substratos favoreceram a agregação do substrato às raízes. Quanto à facilidade de retirada da muda do tubete, os piores resultados foram obtidos com o uso de casca de arroz carbonizada + vermicomposto e pó da casca de coco maduro + folha de carnaubeira triturada e decomposta (Figura 1). Avanzato & Cherubini (1993) afirmaram que substratos com boa retenção de água não se caracterizam somente por causar menor taxa de mortalidade de plantas, mas também pelo aumento no número e no comprimento de raízes. Aguiar et al. (1989) citam que a pesquisa realizada com tubete tem estudado predominantemente a composição do substrato. Este, além de proporcionar boas condições para o desenvolvimento das mudas, deve promover adequada integração com o sistema radicular a fim de possibilitar com eficiência a sua remoção e manuseio por ocasião do plantio.

 

 

CONCLUSÃO

O substrato constituído por vermiculita + vermicomposto apresenta o melhor potencial para a formação de porta-enxertos de goiabeira 'Ogawa', seguido dos substratos formulados com casca de arroz carbonizada e vermicomposto ou vermiculita na proporção (1:1; v/v).

 

REFERÊNCIAS

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Recebido: 19/08/2004. Aceito para publicação: 19/04/2005.

 

 

1 (Trabalho 105/2004).

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