SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 número1Adubação nitrogenada e potássica em bananeira 'Pacovan' (musa AAB, subgrupo prata) na chapada do Apodi, Estado do CearáErrata índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Brasileira de Fruticultura

versão impressa ISSN 0100-2945versão On-line ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. v.28 n.1 Jaboticabal abr. 2006

https://doi.org/10.1590/S0100-29452006000100044 

REVISÃO

 

Resgate de macieiras antigas no Rio Grande do Sul - uma opção para a manutenção da diversidade genética

 

 

Rosa Maria Valdebenito Sanhueza; Paulo Ricardo Dias de Oliveira

Embrapa Uva e Vinho, CP 130, CEP 95700-000, Bento Gonçalves-RS

 

 

A produção comercial de maçãs no Brasil tem ao redor de 30 anos e ocupa aproximadamente 32 mil ha na região Sul do Brasil. Nas primeiras áreas de produção, foram empregadas mais de 10 cultivares diferentes, com predominância de materiais oriundos da Europa e do Japão. A partir da década de 80 do século passado, começou a ser delineada uma concentração varietal nas novas áreas de plantio, decorrente da maior adaptação e da aceitação pelo mercado, o que levou ao plantio quase exclusivo das cultivares Gala e Fuji e suas mutações, sendo eliminadas as do grupo Delicious, entre outras.

As técnicas de manejo das cultivares foram aperfeiçoadas pela pesquisa e pelo desenvolvimento de ações em parceria com o setor produtivo, que até hoje conta com técnicos de excelente formação em fruticultura.

Nesse cenário, os programas de melhoramento conduzidos no Brasil e a introdução de novas cvs. sempre mantinham como meta final a obtenção de materiais genéticos semelhantes às características da cv. Gala e/ou Fuji, procuravam materiais com maturação no período entre as duas cvs. principais e tinham como alvo a resistência à sarna da macieira (Venturia inaequalis) utilizando fontes de resistência semelhantes aos utilizados em outros programas deste tipo no exterior.

Nesta situação, a preocupação inicial estava centrada no impacto que teria a introdução de uma doença quarentenária, numa população geneticamente homogênea de macieiras, principalmente porque, nessa época, havia importação maciça de porta-enxertos e de plantas enxertadas de diversos países.

Felizmente isto não ocorreu. Todavia, o surgimento da epidemia da mancha foliar da Gala (Colletotrichum gloeosporioides), iniciada a partir de 1990, e que causou perdas elevadas em toda a região produtora de maçãs no País, somada à constatação da quebra de resistência à sarna da macieira das cvs. que utilizavam o gene Vf na Europa, deu um alerta aos pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho quanto à necessidade de buscar estratégias alternativas que garantissem maior variabilidade para a cultura.

Contribuíram para reforçar este tipo de preocupação a análise e o acompanhamento do sistema produtivo da maçã, iniciado a partir de 1997 por uma equipe multidisciplinar que veio discutir e pesquisar os sistemas de Produção Integrada de Maçãs (PIM) e, posteriormente, a produção orgânica de maçãs.

Nessa época, esta discussão já ocorria nos eventos de Produção Integrada de Frutas na Europa e relatavam-se os primeiros resultados dos esforços feitos para resgatar as fontes de variabilidade abandonadas ou perdidas durante o processo de melhoramento. Citava-se, também, a organização de uma rede de pesquisa formada por diversos países europeus a qual tinha a função de avaliar macieiras antigas das suas regiões que tivessem potencial para serem utilizadas como cvs. regionais e/ou como fontes de germoplasma para os programas de melhoramento e para estudos de resistência durável para as duas doenças mais importantes na Europa: a sarna e o oídio da macieira.

As primeiras ações destinadas ao resgate das cvs. antigas disponíveis no Sul do Brasil foram feitas pela Embrapa Uva e Vinho em 2002, percorrendo-se propriedades rurais e pomares caseiros nas cidades do norte e nordeste do Rio Grande do Sul. Esses locais foram identificados com auxílio das informações de produtores e de agentes da Extensão Rural (Emater/RS) e neles verificava-se a sobrevivência de plantas de idade superior a 60 anos que ainda produziam mesmo sem tratamentos com agrotóxicos e que, originalmente, tinham sido trazidas pelos imigrantes europeus (Figura 1). Nessas plantas (Fig 1), avaliava-se a presença de sintomas de patógenos, sendo o alvo principal a infecção por Venturia inaequalis (sarna da macieira) e por Colletotrichum gloeosporioides (Mancha foliar da Gala) .

 

 

Posteriormente, esses materiais foram enxertados, multiplicados e avaliados após inoculação artificial e natural quanto à suscetibilidade aos patógenos-alvo. Os resultados preliminares confirmaram que parte destas macieiras antigas tinham o potencial quanto à resistência aos patógenos (Fig 2).

 

 

Na continuidade destas ações de valorização da diversidade genética da macieira no Brasil, foi ajustada, em 2003, uma cooperação científica entre a Embrapa Uva e Vinho e o INRA (Institut National de la Recherche Agronomique) de Angers, França, focalizada nesta temática. Nas ações de cooperação previstas, busca-se aprofundar tal abordagem pela condução de linha de pesquisa em biologia molecular (genotipagem e detecção de genes de resistência) e em outras áreas.

Ações de resgate de diversidade genética estão sendo iniciadas com pereiras e poderão ser ampliadas para outras fruteiras temperadas que se encontrem na região Sul. Estes materiais serão importantes, tanto como fontes para adaptação regional dessas espécies, como para resistência a pragas.

 

LITERATURA CONSULTADA

BÉNAOUF, G.; PARISI, L. Genetics of host-pathogen relationships between Venturia ínaequalis races 6 and 7 and Malus species. Phytopathology, v.90, p.236-242, 2000.

BONETI, J.I.S.; RIBEIRO, P.A.; DENARDI, F.; CAMILO, AP.; BRIGHENTI, E.; PEREIRA, AJ. Epagri 402 - Catarina: nova cultivar de macieira resistente à samBo Agropecuária Catarinense, v.9, p.51-54, 1996.

DUPONCHEEL, A.; PAUWELS, E.; KEULEMANS, J. Durability of scab (Venturia ínaequalis) resistance in apple and combination of different resistance sources. IOBCIWPRS Bulletin, v.23, p.277-285, 2000.

KELLERHALS, M.; FURRER, B. Approaches for breeding apples with durable disease resistance. Euphytica, v.77, p.31-35, 1994.

LESPINASSE, Y.; DUREL, C.E.; PARISI, L.; LAURENS, F.N.D.; CHEVALlER, M.; PINET, C. An European project: D.ARE - Durable Apple Resistance in Europe. Durable resistance of apple to scab and powdery-mildew: one step more towards na environmental friendlyorchard. IOBCIWPRS Bulletin, v.23, p.257-260, 2000.

PARISI, L.; LESPINASSE, Y.; GUILLAUMES, J.; KRUGER, J. A new face of Venturia ínaequalis virulent to apples withresistance due to the Vf gene. Phytopathology, v.83, p.533-537, 1993.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons