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Revista Brasileira de Fruticultura

versão impressa ISSN 0100-2945versão On-line ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. v.30 n.1 Jaboticabal mar. 2008

https://doi.org/10.1590/S0100-29452008000100014 

ARTIGOS
COLHEITA E PÓS-COLHEITA

 

Conservação de uvas "Crimson Seedless" e "Itália", submetidas a diferentes tipos de embalagens e dióxido de enxofre (SO2)1

 

Conservation of grapes "Crimson Seedless" and "Italia", submitted to different types of packings and sulfur dioxide (SO2)

 

 

Leandro Camargo NevesI; Vanuza Xavier da SilvaII; Ronaldo Moreno BenedetteII; Marcos André de Souza PrillIII; Rogério Lopes VieitesIV; Sérgio Ruffo RobertoV

IUFRR – Prof. Dr. Depto de Fitotecnia – Centro de Ciências Agrárias, Km 12 BR174 s/n°, CEP 69301-970, Boa Vista/RR. rapelbtu@hotmail.com
IIUFRR – Graduando em Agronomia – Centro de Ciências Agrárias, Km 12 BR174 s/n°, CEP 69301-970, Boa Vista/RR
IIIUFRR – Pós-graduado em Ciência e Tecnologia de Alimentos – Centro de Ciências Agrárias, Km 12 BR174 s/n°, CEP 69301-970, Boa Vista/RR e8campos@bol.com.br,marcosprill@bol.com.br
IVUNESP/FCA – Prof. Dr. Depto de Gestão e Tecnologia Agroindustrial, C.P. 237, CEP 18603-970, Botucatu/SP. vieites@fca.unesp.br
VUEL – Prof. Dr. Depto Agronomia – Centro de Ciências Agrárias, C.P. 6001, CEP 86051-990, Londrina/PR. sroberto@uel.br

 

 


RESUMO

Estudaram-se o efeito de diferentes tipos de embalagens e a ação do dióxido de enxofre (SO2) na conservação pós-colheita de uvas finas de mesa var. "Crimson Seedless" e "Itália". Os frutos, colhidos em propriedade agrícola situada no município de Boa Vista-RR (Lat. 2º 50' 06" N e Long. 60º 40' 28" W), apresentavam, no momento da colheita, sólidos solúveis (SS) médios de 16,50 e 14,80°Brix, para as variedades "Crimson Seedless" e "Itália", respectivamente. Antes da confecção dos tratamentos, os cachos foram higienizados em solução de hipoclorito de sódio (NaOCl) a 100 mg.L-1, previamente acidificada, por dez minutos. Utilizaram-se, para a atmosfera modificada passiva, sacolas de polietileno de baixa densidade (PEBD), sem perfuração, com 0,010; 0,015 e 0,020mm de espessura,e acondicionadas em embalagens secundárias de papelão (4kg) e de madeira (7,5kg). Para a geração do SO2, foram utilizados papéis Kraft de liberação rápida, com 3 e 8g de metabissulfito de sódio (Na2S2O5). Após a confecção dos tratamentos, os frutos foram armazenados em câmara frigorífica a 4 ± 1°C e 95 ± 3% de umidade relativa (U.R.). As avaliações foram realizadas no momento da colheita e, 7; 21; 35; 42 e 56 dias de armazenamento refrigerado, quanto à porcentagem de perda de massa fresca, taxa de desgrana e de bagas deterioradas, qualidade do engaço e teor de SS dos frutos. Após oito semanas, foi realizado teste de preferência para as duas variedades. Verificou-se, em ambas as variedades, que as uvas submetidas à ação do gerador de SO2 , contendo 3g de metabissulfito de sódio e acondicionamento em embalagens de PEBD de 0,020mm de espessura, independentemente do tipo de embalagem secundária, apresentaram a menor perda de massa fresca, menor taxa de desgrana e de bagas deterioradas, e melhor qualidade do engaço. Os resultados da análise sensorial concordaram com os resultados das análises físico-químicas. Não foram detectadas diferenças nos teores de SS entre os tratamentos, em ambas as variedades. (Apoio: Roraima Agrofrutas).

Termos para indexação: qualidade, Vitis vinifera L., Roraima, metabissulfito de sódio.


ABSTRACT

It was studied the effect of different types of packages and, the action of sulfur dioxide (SO2), in post harvest of fine grapes var. Crimson Seedless and Italia. The fruits, harvested in a farm located in Boa Vista, State of Roraima (Lat. 2° 50' 06'' N and Long. 60° 40'28''W), showed, soluble solids (SS) medium of 16.50 and 14.80°Brix, for the varieties  Crimson Seedless and Italia, respectively. Prior to treatment, bunches were cleaned in sodium hypochlorite (NaOCl) solution at 100 mg.L-1, previously acidulated, for 10 minutes. For the modified passive atmosphere were used bags of low density polyethylene (LDPE), not perforated, with 0.010, 0.015 and 0.020mm of thickness and, arranged in corrugated cardboard (4kg) and wood (7.5kg) boxes. To produce SO2 it was used Kraft papers of quickly liberation, with 3 and 8g of sodium metabysulfite (Na2S2O5). After the treatment, the fruits were storage in cold chamber at 4 ± lºC and 95 ± 3% of relative humidity (R.H.) The evaluation were carried out in the moment of harvest and, at 7, 21, 35, 42 and 56 days of cold chamber, for cluster weight loss, percentage of detached and deteriorated berries, quality of stem and, content of SS of fruits. After eight weeks it was carried out a sensorial analysis for the two varieties. It was identified in both varieties, that grapes submitted to generate SO2, containing 3g of sodium metabysulfite and, wrapped in packages of LDPE of 0.020mm of thickness, regardless type of secondary package showed smaller weight loss, smaller percentage of detached and deteriorated berries and, best quality of stem. The results in the sensorial analysis had agreed to the physical-chemical results. There is no significant difference in the contents of SS between the treatments, in both varieties.

Index-terms: quality, Vitis vinifera L., Roraima, sodium metabysulfite


 

 

INTRODUÇÃO

A viticultura, como atividade agroeconômica, é difundida por todo o mundo (EPAGRI, 2005). A Itália e a França são os maiores produtores, com produção anual aproximada de 10 milhões de toneladas. A produção brasileira está em torno de 10% da dos principais países produtores (Office International de la Vigne et du Vin, 1999). No Brasil, o Estado do Rio Grande do Sul, com quase 40 mil hectares plantados e 520 mil toneladas produzidas, destaca-se como o maior produtor de uvas (IBGE, 2003). O Estado de Roraima, localizado dentro da Amazônia Legal, constitui, hoje, o mais novo e promissor pólo viticultor, com apenas três safras e produtividade média de até 25 t.ha-1 em, aproximadamente, 400 ha irrigados.

Atualmente, as variedades de uvas apirênicas têm despertado interesse dos produtores, dada a grande aceitação pelos mercados internacionais, além da conseqüente agregação de valor. Entretanto, as principais variedades sem sementes, como "Superior Seedless", "Thompson Seedless" e "Crimson Seedless", apresentam produções muito baixas ou inconstantes nos principais pólos produtores brasileiros (Nachtigal, 2003).

Tratando-se de um fruto perecível, a uva está suscetível à ocorrência de danos de diversas origens (Salunkhe & Desai, 1984). Os principais problemas pós-colheita das uvas de mesa são as podridões, a desidratação do engaço e a desgrana, causando perdas e prejudicando a qualidade do produto (Souza, 2001; Castro et al., 1999). O escurecimento das bagas e o ressecamento do engaço são desordens de natureza fisiológica, ocasionadas, quase sempre, durante o armazenamento refrigerado (AR). O emprego de embalagens adequadas pode reduzir a incidência desses processos fisiológicos prejudiciais à qualidade dos frutos, minimizando essas perdas, que podem comprometer o valor comercial das uvas.

Dentre os materiais utilizados para embalagens, o polietileno de baixa densidade (PEBD) é o polímero mais utilizado (Yam & Lee, 1995). Para a comercialização de uvas, são utilizadas, tradicionalmente, caixas de madeira como embalagens secundárias, sendo que, em alguns segmentos, como o mercado externo, tem crescido a tendência do uso de caixas de papelão associadas a embalagens de PEBD (Castro et al., 1999).

A incidência de podridões fúngicas constitui também um dos problemas mais preponderantes à qualidade das uvas produzidas em regiões quentes e úmidas. Vários fungicidas já foram testados, porém o anidrido sulfuroso (SO2) foi o que mostrou maior eficiência (Castro et al., 2003). O SO2 tem sido empregado, comercialmente, para proteger uvas de mesa contra várias podridões. Além de controlar fungos, possui ação antioxidante, influenciando, desse modo, em processos fisiológicos do próprio fruto (Muñoz et al., 2000). Resultados promissores com o gerador de fase rápida para a conservação de uvas "Itália" em frigoarmazenamento também foram obtidos por Castro et al. (2000), nos quais os cachos puderam ser armazenados com qualidade satisfatória por até quatro semanas.

Dessa forma, o objetivo do trabalho foi verificar o efeito de diferentes tipos de embalagens e dosagens de dióxido de enxofre, na pós-colheita de uvas "Crimson Seedless" e "Itália", visando à manutenção da qualidade comercial dessas durante o frigoarmazenamento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os frutos foram colhidos em propriedade agrícola situada em Boa Vista-RR, localizada na latitude 2º 50' 06" N e longitude 60º 40' 28" W. No momento da colheita, apresentavam sólidos solúveis (SS) médios de 16,50 e 14,80°Brix e massa média de 412 ± 38,5g e 484 ± 42g por cacho, respectivamente, para as variedades "Crimson Seedless" e "Itália". O trabalho foi conduzido no Centro de Ciências Agrárias (CCA), da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Após a colheita, os frutos foram levados até o Laboratório de Fitotecnia (15 ± 2ºC e 75 ± 3% de U.R.) e selecionados pela ausência de defeitos visuais e higienizados em solução de hipoclorito de sódio (NaOCl) a 100 mg.L-1, previamente acidificada (pH = 3,0), por 10 minutos. O enxágüe e a secagem dos frutos foram feitos em bandejas perfuradas expostas ao ar atmosférico. Após, os frutos foram resfriados em B.O.D., por 10 horas, a 10 ± 0,5°C.

Para a constituição dos tratamentos, os cachos de uvas das duas variedades foram embalados em sacolas de PEBD, com diferentes espessuras e, posteriormente, acondicionadas em embalagens secundárias de madeira (7,5kg – 0,65 x 0,32m) e de papelão (4kg – 0,55 x 0,30m). Para a geração do SO2, foram utilizados papéis Kraft de liberação rápida, com 3 e 8g de metabissulfito de sódio, colocados em cada embalagem. As sacolas de PEBD (embalagem primária) apresentavam medidas de 0,50 x 0,30m e as especificações: filme plástico de PEBD de 0,010mm de espessura (TPO2 de 11.234 cm3.m-2.dia-1, a 25°C e 1 atm; TPCO2 de 36.705 cm3.m-2.dia-1, a 25°C e 1 atm; área de permeabilidade de 805 cm2), filme plástico de PEBD de 0,015mm de espessura (TPO2 de 10.135 cm3.m-2.dia-1; TPCO2 de 33.923 cm3.m-2.dia-1; área de permeabilidade de 825 cm2) e filme plástico de PEBD de 0,020mm de espessura (TPO2 de 9.055 cm3.m-2.dia-1; TPCO2 de 28.951 cm3.m-2.dia-1; área de permeabilidade de 850 cm2). Após, os tratamentos foram armazenados em câmara frigorífica a 4 ± 1°C e 95 ± 3% de U.R, por 56 dias e, semanalmente, foram realizadas as seguintes análises:

1 – Perda de massa fresca dos frutos: as amostras foram pesadas em balança digital, com quatro casas decimais. O resultado foi expresso através das porcentagens médias obtidas nas embalagens, considerando-se a relação entre a massa fresca inicial de cada embalagem (peso líquido), e a massa fresca obtida após as análises (15 amostras por repetição utilizadas, unicamente, para esse propósito).

2 – Taxa de desgrana e de bagas deterioradas: foram quantificadas através das médias obtidas pela contagem simples do número de bagas desprendidas naturalmente e deterioradas por podridões em cada cacho. Em cada período de análise, foram utilizadas 15 amostras por repetição (também utilizadas somente para esse propósito). Para o cálculo das porcentagens, estabeleceu-se, através de estudos preliminares visando à padronização dos tratamentos, número médio de 49 ± 5 e 81 ± 3 bagas por cacho, respectivamente, para as variedades "Crimson Seedless" e "Itália". Levaram-se em consideração as normas de classificação de uvas finas de mesa da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (1974), onde os limites aceitos para desgrana natural são de, no máximo, 5%. As bagas consideradas deterioradas foram submetidas a análises microbiológicas para a determinação do gênero do agente causal, segundo metodologia proposta por Vanderzant & Splittstoesser (1992), sendo, posteriormente, caracterizadas visualmente através de fotografias de colônias.

3 – Qualidade do engaço: foi utilizado o critério estabelecido por Nelson (1983), onde: 1 = verdes, túrgidos (aspecto de recém-colhidos); 2 = verdes e levemente secos (verde opaco); 3 = verdes com pontuações marrons (levemente secos); 4 = marrons (secos), e 5 = predominantemente marrons (muito secos, quebradiços).

4 – Teor de sólidos solúveis (SS): foi determinado através da leitura refratométrica direta, com o refratômetro tipo Abbe, marca ATAGO – N1, e os resultados expressos em ºBrix.

Realizou-se, ao final dos 56 dias de armazenamento refrigerado, teste de preferência, contando com 15 julgadores treinados, através de escala hedônica de cinco pontos (Moraes, 1988): 5 = gostei muitíssimo; 4 = gostei muito; 3 = gostei; 2 = desgostei muito e 1 = desgostei muitíssimo.

Feita a análise exploratória dos dados, constatou-se que os mesmos seguem distribuição normal, os erros são independentes e apresentam homocedasticidade. Assim, os dados foram submetidos à análise de variância pelo teste F, e a comparação de médias foi efetuada pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade estatística. O delineamento experimental empregado foi o inteiramente casualizado, seguindo esquema fatorial 6x4x3 (seis dias de avaliação, quatro tipos de embalagem plástica e três dosagens de metabissulfito de sódio), com três repetições de 15 amostras cada.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados encontrados nas análises de sólidos solúveis, em ambas as variedades, não permitiram qualquer diferenciação estatística entre os tratamentos. Isso pode ser considerado pertinente em termos qualitativos, visto que não foi detectada influência negativa dos tratamentos frente à manutenção da doçura nas uvas. Nesse sentido, os teores de sólidos solúveis variaram de 16,5 e 14,7 ºBrix aos sete dias de armazenamento refrigerado, a 17,4 e 15,5 ºBrix ao final do experimento, para as variedades "Crimson Seedless" e "Itália", respectivamente.

Aos 49 dias de experimentação, antes do término do trabalho, os frutos das duas variedades, acondicionados nas embalagens de papelão de 4,5kg e madeira de 7kg, apresentaram a incidência dos gêneros Botrytis, Penicillium, Plasmopara, Alternaria e Glomerella. Esses frutos, a partir daí, não possuíam potencial algum de comercialização. Dos gêneros citados, o Botrytis e o Penicillium foram os mais representativos, com 62,5 e 55,1% de incidência nos materiais analisados, respectivamente. Fungos do gênero Alternaria e Plasmopara também apresentaram incidência elevada, com 25,4 e 38,2% de incidência nos materiais analisados, respectivamente. Esses resultados contrapõem-se aos apresentados por Choudhury (1996) e Castro et al. (1999), onde se descreveram os gêneros Cladosporium, Alternaria, Aspergillus, Penicillium e Rhizopus, com grande ocorrência em uvas produzidas na região do Vale do São Francisco, Pernambuco e na região de Jales, São Paulo. Os autores citados não constataram a ocorrência do gênero Botrytis, contrariando, por sua vez, os resultados aqui expressos. Quanto a isso, justificam-se os resultados deste trabalho sob a temática climática, específica de cada região, onde, diferentemente das regiões citadas acima, o Estado de Roraima apresenta clima tipicamente Amazônico, ou seja, quente e úmido, em quase ¾ de todo o ciclo produtivo da uva, especialmente na época da colheita, favorecendo o desenvolvimento de tal enfermidade. Nesse sentido, a exemplo dos dois primeiros anos produtivos, a safra 2005/6 foi conduzida sob temperaturas médias de 34 ± 3°C e colhida sob pluviosidade atípica para os meses de dezembro a abril (350 a 420mm).

Os resultados expressos nas Tabelas 5 e 6, interpretados neste primeiro momento sob o ponto de vista microbiológico, permitem estabelecer a linha de raciocínio comparativa entre os experimentos de Choudhury (1996), Castro et al. (1998), Castro et al. (2003) e o presente trabalho, principalmente com referência à região em que os mesmos foram executados. Segundo Milholland (1991), a incidência de podridões fúngicas é maior nas regiões quentes e úmidas, a exemplo do que ocorre no Estado de Roraima. Esse autor ainda comenta que, dos fungos de maior incidência em uvas, o Botrytis cinerea e a Alternaria alternata são dois dos mais representativos, semelhantemente aos resultados aqui apresentados, onde os fungos acima citados apresentaram 62,5 e 25,4% de incidência durante o período experimental.

A ação fungistática esperada do metabissulfito de sódio confirmou-se nos tratamentos submetidos à sua exposição. A utilização do metabissulfito de sódio, principalmente na dose intermediária de 3g, e associada às embalagens de PEBD de 0,020mm de espessura, semelhantemente ao descrito por Castro et al. (2003) e Muñoz et al. (2000), foi eficaz no controle das manifestações fúngicas ao longo do experimento (Tabelas 5 e 6), além, também, da diminuição nas perdas de massa fresca (Tabelas 1 e 2). Nesse sentido, as embalagens de PEBD, cuja principal função era criar barreira efetiva à desidratação das uvas, permitiram, também, estabelecer meio adequado à ação do SO2, expondo-o, efetivamente, ao contato direto com os cachos de uva, contribuindo, seguramente, para a manutenção da qualidade final dos frutos.

Segundo Gorgatti Netto et al. (1993), não se recomenda deixar o metabissulfito de sódio exposto em sistemas sem hermeticidade, e, sim, envolto em sacos de polietileno com espessura de 0,10mm ou maior. No entanto, os resultados aqui apresentados demonstraram melhor manutenção microbiológica e dos atributos qualitativos, como a diminuição das perdas de massa fresca (Tabelas 1 e 2), da taxa de desgrana (Tabelas 3 e 4) e da manutenção da qualidade do engaço (Tabelas 7 e 8), em ambas as variedades, adicionando-se 3g de metabissulfito de sódio, dentro das embalagens de PEBD de 0,020mm de espessura, independentemente do tipo de acondicionamento primário. Isso se torna economicamente interessante, visto que resultados semelhantes, estendidos por tempo ainda maior, podem ser alcançados através da utilização de sacos de PEBD de menor espessura.

Um dos fatores que mais foram afetados pela modificação atmosférica primária, através do uso de filmes de PEBD, foi a perda de massa fresca (Tabelas 1 e 2). Enquanto uvas acondicionadas sem a utilização dos sacos de PEBD apresentavam perdas médias de massa fresca da ordem de 7,25 ± 1,78%, nas uvas acondicionadas nas embalagens de PEBD, independentemente da espessura e tipo de embalagem secundária (madeira ou papelão), tiveram perdas médias de massa fresca que não ultrapassaram 3%. Esses dados comprovam a eficiência na utilização do PEBD, citada por Neves et al. (2004), em que o uso correto desse tipo de embalagem, associado ao armazenamento refrigerado, pode preservar a integridade dos frutos, possibilitando melhores condições de transporte e comercialização.

Quando analisamos as uvas acondicionadas nas embalagens de PEBD de 0,020mm de espessura e contendo 3g de metabissulfito de sódio, em ambas as variedades e tipos de embalagens secundárias, os resultados foram ainda mais preponderantes, não ultrapassando 0,93% nas perdas de massa fresca.

Contudo, observou-se que as uvas submetidas a dosagens mais elevadas de metabissulfito de sódio (8g), mesmo sem a proteção efetiva do PEBD, independentemente do sistema de acondicionamento secundário, apresentaram perdas de umidade intermediárias, em relação às uvas acondicionadas sem o metabissulfito de sódio. Entretanto, tecnologicamente, esses frutos não apresentavam condições de comercialização, devido ao surgimento de manchas descoloridas nas bagas das uvas, sintomatologia característica de danos por excesso de SO2 (Castro et al., 1998; Castro et al., 2003). Dessa forma, aos 56 dias de armazenamento refrigerado, nos frutos tratados com 8g de metabissulfito de sódio, em ambas as variedades e tipos de acondicionamento, os danos visuais observados foram contextualizados como sendo de origem fisiológica.

Sobre a qualidade das uvas, Gorgatti Netto et al. (1993) relataram que, quando as perdas de massa fresca alcançam 2%, o engaço das uvas já se encontra ressecado. Brackmann et al. (2000) também relacionam o ressecamento do engaço com a desidratação das uvas. Neste trabalho, o engaço das uvas acondicionadas em PEBD de 0,020mm de espessura, contendo 3g de metabissulfito de sódio, apresentava-se, aos 56 dias, verde e com pouquíssimas pontuações de coloração escura (Tabelas 7 e 8), nada que desqualifique o aspecto de uvas frescas. De acordo com Yamashita et al. (2000), uma das principais causas de redução da vida útil das uvas deve-se à perda de massa fresca, verificada também no presente trabalho (Tabelas 1 e 2), principalmente nos tratamentos que não foram submetidos às embalagens de PEBD. Os reflexos dessa influência mostraram-se na perda de brilho e no enrugamento das bagas (dados não-publicados) e na aceleração do processo fisiológico de ressecamento do engaço (Tabelas 7 e 8), como constatado a partir dos 35 dias. Castro et al. (1998) verificaram a intensificação de tais sintomas em frutos embalados em PEBD, somente a partir da sétima semana de armazenamento refrigerado, o que, por sua vez, já comprova a eficiência da modificação atmosférica. Desse modo, esses frutos perderam demasiadamente a turgidez, tornando-se inviáveis à comercialização (Yamashita et al., 2000). Da mesma forma, os frutos expostos a doses elevadas de metabissulfito de sódio (8g), aos 49 dias de armazenamento refrigerado, devido à sensibilidade das uvas ao excesso de SO2, apresentaram engaços secos e marrons, alguns até mesmo apresentavam-se marrons, muito secos e quebradiços, ou seja, totalmente inaptos à comercialização.

Esses resultados comprovaram o acentuado efeito da barreira ao vapor d'água, estabelecida pelas embalagens de PEBD, em retardar o ressecamento e manter a coloração verde do engaço das uvas. Prova disso foi que os cachos de uvas embalados em PEBD, especialmente, nas embalagens de 0,020mm de espessura, contendo 3g de metabissulfito de sódio, estavam firmes e verdes. Com a proteção do PEBD, de maneira geral, os cachos conservaram-se com a aparência mais fresca do que os não-embalados. Segundo os próprios autores, esse resultado deveu-se, também, à maior retenção do SO2 dentro de cada embalagem.

Alguns pesquisadores (Brackmann et al., 2000; Valentini & Miqueletto, 2003; Detoni et al., 2005) afirmaram que engaços escurecidos e secos depreciam a qualidade das uvas, proporcionando, também, maior índice de desgrana. Neste trabalho, o elevado escurecimento e ressecamento do engaço das uvas, decorrentes da desidratação, favoreceu a elevada porcentagem de desgrana (Tabelas 3 e 4) e, conseqüentemente, elevados índices de perda de massa fresca. A desgrana nos cachos de uvas, levando-se em consideração as relações acima descritas, e de acordo com Brackmann et al. (2000), Valentini & Miqueletto (2003) e Detoni et al. (2005), foi maior nos frutos acondicionados nas embalagens de PEBD contendo 8g de metabissulfito de sódio. Aos 56 dias, em ambas as variedades e tipos de acondicionamento primário, as taxas médias de desgrana desses tratamentos eram de 10,90 ± 1,01%. Seguindo as normas de classificação de uvas finas de mesa da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (1974), onde os limites para desgrana natural foram determinados em, no máximo, 5%, essas uvas já não apresentavam padrões adequados para serem comercializadas. A sensibilidade dos tecidos da uva ao excesso de SO2, em especial na zona de abscisão junto ao pedicelo, além da própria perda de umidade, citada anteriormente, contribuiu para a manifestação dessa sintomatologia. Já para todas as uvas embaladas em PEBD junto com 3g de metabissulfito de sódio, esses valores mantiveram-se abaixo (2,02%) dos limites estabelecidos pela Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (1974). Outro fator interessante é o fato de que as uvas não acondicionadas nas embalagens de PEBD também apresentaram elevada taxa de desgrana, o que comprova o efeito da modificação atmosférica na manutenção da umidade nos cachos e, conseqüentemente, na manutenção dos processos fisiológicos que desencadeiam a perda de qualidade dos frutos.

Os resultados de todos os parâmetros avaliados e descritos (Tabelas 1 a 8) foram avaliados por um painel sensorial (Figuras 1 e 2). A não-preferência dos julgadores pelos tratamentos não expostos ao metabissulfito de sódio deveu-se, sobretudo, à elevada contaminação microbiana presente nesses tratamentos. Da mesma forma, os tratamentos expostos a doses elevadas de metabissulfito de sódio (8g), dada a incidência de fisiopatias desencadeadas pela sensibilidade das uvas ao excesso de SO2, também contribuíram para que os mesmos fossem preteridos. Assim, os tratamentos embalados em PEBD de 0,020mm de espessura, contendo 3g de metabissulfito de sódio, em ambas as variedades e independentemente do tipo de embalagem secundária (madeira ou papelão), foram os preferidos pelos julgadores.

 

CONCLUSÃO

Os resultados obtidos neste trabalho mostraram que, com o acondicionamento de uvas das variedades "Crimson Seedless" e "Itália", por até 56 dias, a 4 ± 0,5 °C e 95 ± 3% de U.R., utilizando-se de embalagens de PEBD de 0,020mm de espessura contendo 3g de metabissulfito de sódio, a perda de massa fresca foi inferior a 1%, obtendo o controle efetivo de contaminantes microbiológicos, taxa de desgrana menor que 2% e os engaços estavam firmes e de coloração verde. Entretanto, como não foram observadas diferenças significativas entre as embalagens secundárias de madeira e papelão, a escolha então fica por conta do produtor, levando em consideração a relação custo/benefício para cada situação.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 10-04-2007. Aceito para publicação em: 07-01-2008.

 

 

1 (Trabalho 091-07).

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