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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.30 no.2 Jaboticabal June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452008000200001 

Mirtilo

 

 

O mirtilo é uma fruta pertence à família Ericaceae e é nativo de várias regiões da Europa e dos Estados Unidos. A planta tem porte arbustivo ou rasteiro e apresenta hábito caducifólio. Para a produção comercial, é fundamental a presença de abelhas para a realização da polinização, pois algumas cultivares não são autoférteis e necessitam de polinização cruzada. O fruto é uma baga de cor azul-escura, de formato achatado, coroada pelos lóbulos persistentes do cálice e com aproximadamente 1 a 2,5 cm de diâmetro e 1,5 a 4 g de peso. Sua aparência é semelhante ao araçá, porém com coloração azul e tamanho de um grão de uva. Apresenta em seu interior muitas sementes e tem sabor doce- ácido a ácido. Esta fruta ganhou destaque devido às suas muitas propriedades medicinais.

O mirtilo é conhecido como blueberry, em inglês, e arándano, em espanhol, incluído-se no grupo das pequenas frutas, junto com a amora, morango, framboesa e fisalis. É uma das frutas frescas mais ricas em antioxidantes já estudadas. Tem um conteúdo particularmente elevado de polifenóis tanto na casca quanto na polpa, os quais conferem funções de proteção sobre as paredes das células.

É uma espécie ainda pouco conhecida no Brasil. A sua introdução foi realizada no ano de 1983, através de uma coleção de plantas trazidas pela Embrapa Clima Temperado (Pelotas-RS), realizada pelo pesquisador Alverides Machado dos Santos, e a primeira iniciativa comercial no País deu-se a partir de 1990, em Vacaria (RS).

Apesar de ser uma espécie de introdução recente no Brasil, o mirtilo é largamente cultivado em países do Hemisfério Norte, principalmente na Europa e Estados Unidos. Nestas regiões, a espécie tem importância comercial significativa, além de estar havendo uma ampla divulgação da utilização dos frutos como "fonte da longevidade", devido à sua composição nutricional. Estes fatores têm impulsionado o cultivo em regiões não-tradicionais, como a América do Sul, na qual se destaca o Chile, com 2.500 ha, a Argentina, com 1.500 há, e o Uruguai com 200 ha. Muitos destes países beneficiam-se da possibilidade de produção durante a entressafra européia e norte-americana.

A área cultivada no Brasil é superior a 150 hectares, e a destinação à produção vai para exportação, e parte é absorvida no mercado interno. O Rio Grande do Sul é o Estado que mais se destaca na produção de mirtilo, com 45 produtores rurais, ocupando uma área de 65 ha com produção de 150 toneladas.

O mirtilo produzido no Brasil é comercializado em embalagens de 125 gramas, por cerca de R$ 8,00. No entanto, de acordo com o Instituto de Economia Agrícola, em junho de 2007, as cumbucas de 125 gramas estavam sendo comercializadas, em média, por R$15,90 (mirtilo importado). Há um preço mínimo para venda in natura, pois o custo de comercialização é muito alto. A fruta congelada destinada à indústria é comercializada pela metade do preço do produto fresco.

O maior mercado consumidor do País é São Paulo, e o local onde se encontra o maior número de atacadistas dessa fruta é o Entreposto Terminal de São Paulo (ETSP), da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP).

Praticamente toda a produção é comercializada na forma in natura e, em menor escala, para a indústria de sucos, sorvetes e doces.

Existem muitas espécies de mirtilo, sendo que as principais espécies com expressão comercial são divididas em três grupos, de acordo com o genótipo, hábito de crescimento, tipo de fruto produzido e outras características. As práticas de manejo são diferenciadas para cada um dos grupos, desde a produção de mudas até a colheita e utilização dos frutos. Estes grupos são: a) "highbush" (mirtilo gigante), tetraplóide, originário da costa oeste da América do Norte. Sua produção, dentre os demais grupos, é a de melhor qualidade, tanto em tamanho quanto em sabor dos frutos. A principal espécie deste grupo é Vaccinium corymbosum L.; b) "rabbiteye", hexaplóide, originário do sul da América do Norte. Compreende a espécie Vaccinium ashei Reade. Em relação ao grupo anterior, produz frutos de menor tamanho e de menor qualidade. Apresenta maior produção por planta, e seus frutos têm maior conservação em pós-colheita. Apresenta maior importância comercial em regiões com menor disponibilidade de frio, por causa da sua tolerância a temperaturas mais elevadas e à deficiência hídrica; e c) "lowbush", diplóide, tem hábito de crescimento rasteiro e produz frutos de pequeno tamanho, cujo destino é a indústria processadora. Para a maior parte das regiões de clima frio do Sul do Brasil, onde o mirtilo tem maior possibilidade de adaptação, a espécie Vaccinium ashei é a mais promissora.

A obtenção de mudas de mirtilo pode ser realizada por sementes, rebentos e estacas. A propagação por sementes é útil no desenvolvimento de novas variedades, mas caracteriza-se por produzir plantas diferenciadas da planta- matriz em muitas características; o uso de rebentos permite a obtenção de plantas grandes em pequeno número e em tempo relativamente curto. A enxertia e a mergulhia podem ser usadas com propósitos especiais.

Para a exploração comercial, o mirtilo é propagado principalmente por estacas semilenhosas ou herbáceas, procurando-se manter as estacas com duas folhas e tratando-as na base com uma auxina para estimular a formação de raízes. Os resultados com estacas lenhosas são pouco satisfatórios.

Diferente de outras espécies, o mirtilo prefere solos ácidos (pH 4,0 a 5,2), com elevado teor de matéria orgânica (superior a 5%), boa retenção de umidade e boa drenagem. Em solos onde pH é superior a 5,2, é necessário corrigir com o uso de enxofre, caso contrário a planta não se desenvolve.

A necessidade de frio hibernal varia de 100 a 100 horas de frio (com temperaturas menores ou iguais a 7,2ºC), conforme a espécie e a cultivar.

A colheita dá-se de novembro a abril, sendo que as cultivares mais bem adaptadas são: Aliceblue, Bluebelle, Bluegen, Briteblue, Clímax, Delite, Powderblue, Woodhard, entre outras.

O espaçamento é 1,2-1,5 x 3,0 metros, e as mudas são comercilizadas ao preço de R$ 5,00 aproximadamente.

A produtividade varia de 6 a 10 toneladas por hectare, sendo que o preço de comercialização do quilograma pode chegar a R$ 20,00.

Os frutos podem ser consumidos in natura ou após processamento por congelamento, desidratação, enlatamento ou fabrico de geléias ou licores, sucos, sorvetes e doces em geral. As características ornamentais do mirtilo contribuem para que esta seja uma alternativa adicional de utilização.

O mirtilo não é apenas uma fruta saborosa. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comprovaram que o mirtilo produzido no Brasil tem as mesmas características do blueberry – a versão original da fruta, cultivada nos Estados Unidos e na Europa – e possui a mesma quantidade de pigmentos antocianos. É este pigmento que age de maneira benéfica em nosso organismo: combate os radicais livres, é antiinflamatório, melhora a circulação e reduz o colesterol ruim. Outro benefício comprovado do mirtilo está ligado à saúde dos olhos.

Estudos científicos têm mostrado que o mirtilo previne doenças relacionadas à visão, como catarata e glaucoma, melhorando a capacidade de leitura e o foco da visão. Os antocianos presentes no mirtilo têm a capacidade de reverter ou evitar o problema, prolongando a capacidade visual, segundo o farmacêutico José Ângelo Zuanazzi, da UFRGS.

O poder de melhorar a visão atribuído ao mirtilo é uma história que vem desde a segunda Guerra Mundial, quando os pilotos britânicos comiam mirtilo antes dos vôos noturnos. Eles acreditavam que assim enxergavam melhor os alvos inimigos.

Alguns fatores dificultam a expansão do mirtilo no Brasil, tais como as condições de clima e solo, o crescimento lento da planta, as dificuldades no manejo da colheita e a falta de mudas, devido a dificuldades de propagação em algumas cultivares e ao pouco conhecimento técnico sobre a cultura. Por outro lado, as perspectivas de cultivo no Brasil são promissoras, tanto para consumo interno como para exportação. Como se trata de uma espécie que necessita de muita mão-de-obra e que o seu cultivo depende de uma logística de transporte, embalagem adequada e frio para chegar ao mercado, é fundamental que os produtores estejam organizados de forma associativa no momento da comercialização.

Para a maior parte das regiões do Sul do Brasil, onde o mirtilo tem maior possibilidade de adaptação, a espécie Vaccinium ashei é a mais promissora.

 

José Carlos Fachinello
Professor Titular de Fruticultura da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel
Universidade Federal de Pelotas
Caixa Postal 354
jfachi@ufpel.tche.br