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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945On-line version ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. vol.31 no.1 Jaboticabal Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452009000100032 

ARTIGOS
SEMENTES

 

Avaliação da qualidade fisiológica de sementes de açaí1

 

Assai seeds physiological quality evaluation

 

 

Cibele Chalita MartinsI; João NakagawaI; Marilene Leão Alves BoviII

IDr. Depto. Produção Vegetal, FCA/UNESP, Botucatu-SP
II
Dr. Centro de Horticultura, Unidade Plantas Tropicais IAC/SAA, Campinas-SP "in memorian"

 

 


RESUMO

Quarenta lotes de sementes de açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.) colhidos na coleção de germoplasma de palmeiras do Instituto Agronômico de Campinas (Ubatuba, Estado de São Paulo) foram submetidos aos seguintes testes para a avaliação de qualidade fisiológica das sementes: grau de umidade, germinação, primeira contagem de germinação (emissão do botão germinativo aos quatro dias da semeadura), índice de velocidade de germinação (IVG) e condutividade elétrica. O grau de umidade das sementes apresentou valores de 32,2 a 45,5%. A avaliação da qualidade das sementes de açaizeiro pode fundamentar-se nos testes de germinação, de primeira contagem de germinação, de IVG e de condutividade elétrica quando interpretados em conjunto.

Termos para indexação: espécies nativas, testes de vigor, palmeira.


ABSTRACT

Forty seed lots of assai (Euterpe oleracea Mart.), harvested into the palms germplasm collection of Agronomic Institute of Campinas (Ubatuba, State of São Paulo) were submitted to seed physiological quality evaluation by the following tests: moisture content, germination, germination first counting (emission of germinative button at four days after sowing), germination speed and electrical conductivity. Seeds moisture content of the lots was from 32,2 to 45,5%. The evaluation of assai seeds quality can be based by tests of germination, germination first counting, germination speed and electrical conductivity when interpreted as a whole.

Index terms: assai, vigor tests, palm tree.


 

 

INTRODUÇÃO

A polpa arroxeada e de alto valor calórico do açaí, proveniente do epicarpo e mesocarpo do fruto, faz parte da dieta da população paraense. A demanda crescente do mercado de polpa de açaí processada, principalmente pelos Estados das regiões Sul e Sudeste do Brasil, tem estimulado a implantação de áreas de exploração racional e, em consequência, a procura por sementes e mudas de qualidade superior para o plantio. Conhecimentos sobre a fisiologia da semente e da germinação são necessários para o desenvolvimento de tecnologias adequadas à produção e à obtenção de sementes do açaizeiro. Sementes de açaizeiro são recalcitrantes e, portanto, reduções de germinação e de vigor são observadas quando desidratadas a graus de umidade inferiores a um valor crítico (Martins et al., 1999a; Nascimento, 2006), tornando de importância um controle de qualidade eficiente após a colheita.

A principal finalidade da análise de sementes é avaliar a qualidade de lotes para fins de semeadura e comercialização. O teste de germinação é a análise mais utilizada para essa avaliação, embora ainda não existam padrões federais que estabeleçam os limites desse atributo para a aprovação de lotes de sementes de açaizeiro, como ocorre com os de outras espécies.

A qualidade fisiológica das sementes é rotineiramente avaliada pelo teste de germinação que, por ser realizado em condições supostamente ideais ao processo, estima o potencial máximo de germinação de um lote. Quando essas condições não são verificadas nos locais de produção de mudas, podem ocorrer divergências com relação aos resultados obtidos em laboratório. Assim, prever o desempenho de lotes de sementes no campo, ou durante o armazenamento, constitui um dos objetivos dos testes de vigor (Vieira et al., 1994).

Em espécies agrícolas, nas quais as cultivares apresentam sementes com altos valores de germinação, os testes de vigor têm sido utilizados para diferenciar lotes semelhantes quanto à germinação e, com isto, possibilitar o controle de qualidade interno das empresas (Vieira et al., 1994).

Em espécies pouco melhoradas geneticamente pelo homem, como é o caso do açaí, nem sempre se conseguem lotes de sementes com altos valores de germinação, face às características próprias das espécies, mais adaptadas às condições ecológicas para sua sobrevivência, muitas vezes contrárias às necessidades de produção do homem, como ocorre com as espécies agrícolas, melhoradas para este fim (Carvalho e Nakagawa, 2000). Para a avaliação da qualidade das sementes destas espécies nativas, o teste de germinação muitas vezes não é suficiente para avaliar a qualidade do lote, considerando ser este teste realizado em condições consideradas adequadas para a espécie. Há necessidade de testar-se outras metodologias de avaliação, nas quais se enquadrariam os testes de vigor (Vieira et al., 1994).

O índice de velocidade de germinação e a primeira contagem de germinação são considerados testes de vigor, pois a redução da velocidade da germinação é uma das primeiras consequências do processo de deterioração. O aspecto positivo destes testes é a simplicidade, a praticidade e a economia, pois podem ser realizados juntamente com o teste de germinação (Vieira et al., 1994).

O teste da condutividade elétrica é baseado na determinação da concentração de eletrólitos liberados pelas sementes durante a embebição, e é rápido ao fornecer resultados no prazo máximo de 24 horas (Vieira, 1994). O referido teste tem sido utilizado para a avaliação da qualidade de sementes de diferentes espécies de Euterpe (Andrade, 1994; Martins et al., 1999a; 2000a).

A escolha correta de lotes de sementes, entre aqueles com qualidades distintas, pode exigir o emprego de vários testes de vigor. Desse modo, há possibilidade de estimar o desempenho de diferentes lotes sob condições ambientais diversas (Vieira et al., 1994).

O presente trabalho foi conduzido com o objetivo de verificar a eficiência de alguns testes para a avaliação da qualidade fisiológica de sementes de açaizeiro.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Frutos maduros de açaizeiro foram coletados, manualmente, na Estação Experimental do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), localizada no município de Ubatuba (23º06'S, 45º03'W, 6 m acima do nível do mar), Estado de São Paulo. Os frutos de 40 lotes (Tabela 1), distintos quanto às datas e pomares de coleta, foram transportados em embalagem de polietileno até o Laboratório de Análise de Sementes do Departamento de Produção Vegetal da Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP - Câmpus de Botucatu-SP. Os frutos permaneceram armazenados no escuro a 15ºC, em sacos plásticos (20µm de espessura) fechados (Martins et al., 2000b), e foram despolpados de dois a sete dias após a coleta, mediante fricção contra uma peneira de malha de aço sob água corrente. Os lotes foram numerados em sequência para facilidade de entendimento dos resultados e discussão do trabalho.

Cada um dos lotes foi submetido às seguintes determinações: grau de umidade das sementes- avaliado pelo método da estufa a 105 ± 3ºC/24 horas (Brasil, 1992), utilizando-se de quatro subamostras de sete sementes inteiras; germinação - conduzida com quatro subamostras de 20 sementes, na temperatura alternada de 20-30ºC e luz (78µmol. s-1.m-2/8h), em vermiculita esterilizada (estufa a 120ºC/12 horas) e umedecida com água destilada correspondente, em mL a 1,5 vez a massa do substrato disposto em caixas plásticas transparentes (11x11x3,5cm) (Brasil, 1992; Andrade, 1994); a contagem das plântulas foi realizada, semanalmente, do sétimo ao 49º dia após a semeadura, quando foram calculadas as porcentagens de plântulas normais (Martins et al., 1999ab); primeira contagem de germinação - realizada aos quatro dias após a semeadura, contabilizando-se o número de plântulas que emitiram botão germinativo, característico do início da germinação de palmeiras, ou seja, a protrusão do haustório através do poro de germinação mediante a abertura do opérculo (Martins et al., 1999b); índice de velocidade de germinação (IVG) -determinado por meio de adaptação do critério estabelecido por Maguire (1962), contabilizando-se, semanalmente, as plântulas normais do teste de germinação; condutividade elétrica - avaliada por meio da medição da condutividade elétrica da solução de embebição das sementes, empregando-se quatro repetições de 25 sementes por tratamento, com massas conhecidas, colocadas em copos plásticos descartáveis, contendo 75ml de água destilada mantida a 25ºC/24 horas; decorrido esse período, a condutividade elétrica da solução foi determinada através de condutivímetro, e os valores médios foram expressos em µS. cm-3.g-1 de semente (Vieira, 1994).

Procedimento estatístico - a análise de variância foi realizada separadamente para cada teste, segundo delineamento inteiramente casualizado, com quatro repetições, com comparação entre as médias dos lotes por meio do teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade. Foram calculados os coeficientes de correlação simples entre as variáveis avaliadas, pelo método de Pearson, a 0,1, 1 e 5% de probabilidade. Com base nas relações entre as variáveis, foi estabelecido um índice que avalia a qualidade geral dos lotes. Para tanto, efetuou-se a padronização das variáveis avaliadas, dividindo-se o desvio de cada observação em relação à média, pelo desvio-padrão da amostra, de forma a poder comparar efeitos de caracteres mensuráveis em diferentes escalas. Como a condutividade mostra correlação negativa com as demais variáveis, tomou-se o cuidado de usar a padronização do seu inverso. Foram incluídas nesse índice apenas as variáveis com coeficientes de correlação significativos. Foi efetuada a análise da variância para o índice e aplicado o teste de Tukey, a 5% de probabilidade, para separação entre médias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Conforme a Tabela 2, a primeira contagem de germinação, o IVG e a condutividade elétrica foram testes altamente correlacionados ao teste de germinação, e entre si, podendo ser considerados testes promissores na avaliação da qualidade de sementes de açaizeiro. Contrariamente, o grau de umidade não apresentou correlação com a germinação e a condutividade elétrica e, por isso, não foi considerado na análise de qualidade dos lotes. Não obstante, o grau de umidade influenciou na velocidade da germinação, como mostrou o teste da primeira contagem e o IVG.

Considerando-se o caráter recalcitrante das sementes dessa espécie, que apresenta um grau de umidade crítico na faixa de 34,2 a 37,4%, abaixo do qual a viabilidade é reduzida (Martins et al., 1999a; Nascimento, 2006), seria controversa a presença, nesta pesquisa, de lotes com alto teor de água e baixa germinação (28; 34; 38 e 39) e outros com teor de água relativamente baixo e alta germinação (4; 5 e 16). O fato pode ser atribuído a outras causas de baixa qualidade que não a determinada pelo grau de umidade. Dentre os fatores que afetam a qualidade fisiológica das sementes, estão as condições ambientais durante a produção, desde a floração até a colheita, tais como a temperatura, a disponibilidade hídrica, a nutrição e a ocorrência de doenças e pragas (Marcos Filho, 2005). Deve-se destacar que os lotes de sementes de açaizeiro foram colhidos em diferentes datas e pomares, alguns dos quais eram parcelas de ensaios inativados de adubação e de uso de defensivos.

Os resultados de correlação simples entre condutividade elétrica e os dados de germinação, de primeira contagem de germinação e de IVG (Tabela 2) indicaram correlação negativa altamente significativa entre os testes. Isto significa que aumentos nos valores de condutividade elétrica, decorrentes da maior lixiviação de solutos devido à desestruturação das membranas celulares das sementes quando do processo de deterioração, corresponderam à queda nos níveis de vigor das sementes (Vieira, 1994).

Um problema comum aos testes que avaliam a qualidade das sementes de espécies nativas, bem como de espécies cultivadas, é o da inexistência de valores referenciais. Assim, é possível, apenas, avaliar a qualidade relativa entre lotes ou amostras testadas. Pesquisas realizadas com sementes de Euterpe oleracea indicam que lotes com germinação superior a 80% podem ser considerados de alta qualidade (Araújo et al., 1994; Martins et al., 1999a; 2000a; Nascimento, 2006). Assim, também foi considerada a comparação das médias dos lotes para cada teste (Tabela 3). O desempenho dos lotes pelos testes de germinação, de primeira contagem de germinação, de IVG, de condutividade elétrica e o índice de qualidade, observados no conjunto, permitiu classificá-los em 14 como de alta qualidade (números 1 a 14), pela porcentagem de germinação igual ou superior a 80%, condutividade elétrica similar estatisticamente aos melhores valores e desempenho superior aos demais lotes em um ou dois dos demais testes de qualidade.

Foram identificados oito lotes de média qualidade (números 15 a 22) com porcentagem de germinação entre 67 e 80%, similar ao melhor valor e, em pelo menos um dos demais testes de qualidade, desempenho superior aos demais lotes, e 18 lotes de baixa qualidade (números 23 a 40) com porcentagem de germinação inferior ao melhor valor, não se levando em consideração os demais testes de qualidade.

Deste modo, os testes de germinação, de primeira contagem de germinação, de IVG e de condutividade elétrica, considerados em conjunto, podem discriminar lotes de sementes de açaizeiro com qualidades fisiológicas distintas.

 

CONCLUSÃO

A avaliação da qualidade fisiológicas das sementes de açaizeiro pode fundamentar-se nos testes de germinação, de primeira contagem de germinação, de IVG e de condutividade elétrica quando interpretados em conjunto.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, A.C.S. Efeito da secagem e do armazenamento sobre a germinação, o vigor de plântulas e a integridade do sistema de membranas em sementes de palmiteiro (Euterpe edulis Mart.). 1994. 87 f. Dissertação (Mestrado em Fitotecnia) - Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Itaguaí, 1994.         [ Links ]

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Recebido em: 07-04-2008.
Aceito para publicação em: 19-11-2008.

 

 

1 (Trabalho 085-08).

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