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Revista Brasileira de Fruticultura

versão impressa ISSN 0100-2945versão On-line ISSN 1806-9967

Rev. Bras. Frutic. vol.31 no.3 Jaboticabal set. 2009

https://doi.org/10.1590/S0100-29452009000300040 

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
DEFESA FITOSSANITÁRIA

 

Levantamento e patogenicidade de fungos associados às sementes de mangaba (Hancornia speciosa Gomes) no cerrado do Brasil central1

 

Survey and pathogenicity of fungi associated with mangaba (Hancornia speciosa Gomes) seeds in the cerrado region of central Brazil

 

 

José Ribamar Nazareno dos AnjosI; Maria José D´Ávila CharcharI; Raíssa Guimarães LeiteII; Marília Santos SilvaI

IPesquisadores da Embrapa Cerrados, BR 020 km 18, 73301-970, Planaltina-DF, e-mail: ribamar@cpac.embrapa.br, mjoavila@gmail.com; marilia@cpac.embrapa.br
IIBióloga, Centro Universitário de Brasília, SEPN 707/907, 70790-075, Brasília-DF, e-mail: raissagleite@gmail.com

 

 


RESUMO

Em 2003 e 2004, os fungos Aspergillus spp., Chaetomium spp., Cladosporium sp., Fusarium spp., Paecilomyces sp., Penicillium spp., Pestalotiopsis sp., Phomopsis sp., Aureobasidium pullulans (de Bary) Arnaud e uma levedura não identificada foram isolados de sementes de mangaba (Hancornia speciosa Gomes) coletadas em três localidades do Cerrado do Brasil. Testes de patogenicidade e o subsequente reisolamento de Fusarium sp. (CPAC-1857), Pestalotiopsis sp (CPAC-1838 e CPAC-1844)., Phomopsis sp. (CPAC-1863) e de A. pullulans (CPAC-1845) de mudas de mangabeira inoculadas artificialmente comprovaram os postulados de Koch.

Termos para indexação: produção de sementes, sanidade.


ABSTRACT

In 2003 and 2004, the following fungi were found in mangaba (Hancornia speciosa Gomes) seeds in the Brazilian Cerrado: Aspergillus spp., Chaetomium spp., Cladosporium sp., Fusarium spp., Paecilomyces sp., Penicillium spp., Pestalotiopsis sp., Phomopsis sp., Aureobasidium pullulans (de Bary) Arnaud and an unidentified yeast. Pathogenicity tests and subsequent reisolations of Fusarium sp. (CPAC-1857), Pestalotiopsis sp. (CPAC-1838 and CPAC-1844)., Phomopsis sp. (CPAC-1863) and A. pullulans (CPAC-CPAC-1845) from artificially inoculated mangabeira seedlings fulfilled the Koch's postulates.

Index terms: seed production, sanity.


 

 

A mangabeira (Hancornia speciosa Gomes), pertencente à família Apocynaceae, é uma árvore de porte médio, variando de 2 a 10 metros de altura (Barros, 2006). O fruto, além do consumo in natura, é utilizado na produção de doces, xaropes, compotas, vinho, vinagre, licor, geleia e principalmente suco e sorvete (Vieira Neto, 1994; Aguiar Filho et al., 1998). Além do fruto, a mangabeira pode ser usada como lenha (Lorenzi, 1998) e em reflorestamento de áreas degradadas ou de baixa capacidade de uso (Martinotto, 2006).

Segundo Vieira Neto (2001), o processamento de mangaba não é feito em maior escala porque o volume de frutos não atende à demanda. Por isso, a conquista de novos mercados, principalmente no Sul e Sudeste, está condicionada à implantação de pomares comerciais, uma vez que a produção atual é proveniente de extrativismo (Lederman et al., 2000). A exploração comercial, por sua vez, está intimamente relacionada à produção de mudas.

A propagação da espécie é feita predominantemente por meio das sementes. O sucesso da formação de mudas, por outro lado, depende da qualidade das sementes, que é determinada por uma conjugação de fatores físicos, genéticos, fisiológicos e sanitários.

A transmissão e a disseminação de agentes fitopatogênicos por meio das sementes, especialmente fungos, em espécies de plantas cultivadas são bem documentadas (Zambolim et al., 2000), contudo são escassas as ações de pesquisa voltadas para espécies vegetais nativas dos biomas brasileiros, entre as quais a mangaba. Tendo em vista a importância dessa espécie como frutífera e a escassez de dados relativos à sanidade de suas sementes, este trabalho tem como objetivos: i. isolar e identificar os fungos associados às sementes de mangaba oriundas do Distrito Federal e do Estado de Goiás; ii. avaliar a patogenicidade de alguns isolados em plântulas dessa espécie.

Sementes de frutos de mangabeira colhidos maduros ou "de vez", da área experimental da Embrapa Cerrados, Planaltina (DF), da Reserva de Treinamento do Exército, Formosa (GO), bem como sementes encaminhadas por uma indústria de sucos de Goiânia (GO), foram lavadas e, após secas, parte foi usada imediatamente para o plantio e outra parte foi usada para isolamento dos fungos.

Os experimentos foram conduzidos no Laboratório de Fitopatologia e nas casas de vegetação da Embrapa Cerrados, Planaltina-DF, em 2003 e 2004. Amostras de 200 sementes, de cada localidade, divididas em quatro repetições de 50, após desinfestadas superficialmente com hipoclorito de sódio a 1%, durante três minutos, e lavadas em água destilada esterilizada, em número de cinco por placa, foram distribuídas em placas de Petri, contendo meio de batata-dextrose-ágar e estreptomicina (BDA + S). A incubação foi realizada a 25 + 2° C com fotoperíodo de 12 h, durante no mínimo sete dias. Após esse período, as colônias foram usadas para a identificação dos fungos, que foi efetuada usando-se a literatura especializada para comparação das características morfológicas dos isolados (Funder, 1968; Sutton, 1980; Barnett & Hunter, 1999; Ulloa & Hanlin, 2000) ou pelo Serviço de Identificação do CABI Bioscience, em Egham, Surrey, Reino Unido. Culturas monospóricas dos fungos foram preparadas e incubadas nas condições de temperatura e luz descritas acima, para uso nos testes de patogenicidade.

As mudas para avaliação da patogenicidade dos fungos foram preparadas em casa de vegetação, colocando-se as sementes em areia esterilizada para pré-germinação a um cm de profundidade, com o hilo voltado para cima. Após a germinação, as plântulas foram transplantadas para sacos de polietileno, com capacidade de dois quilos, contendo substrato esterilizado com a seguinte composição: solo do tipo Latossolo Vermelho-Escuro e areia na proporção 1:1, corrigido com calcário e adubado com superfosfato triplo (1,5 g/L da mistura), cloreto de potássio (0,4 g/L), sulfato de zinco (40 mg/L), molibdato de amônia (2 mg/L) e boro (10 mg/L).

Para avaliar a patogenicidade dos fungos, isolados das sementes, nas folhas da mangabeira, dez mudas sadias dessa espécie, com 1-2 meses de idade, foram inoculadas aderindo-se discos de BDA + S com 5 mm de diâmetro proveniente de cultura monospórica de cada fungo, exceto Fusarium sp., na epiderme das folhas. Cinco mudas foram inoculadas após ferimento nas folhas e cinco sem ferimento algum. Após a inoculação, as mudas foram mantidas em câmara úmida no escuro durante 72 horas e, em seguida, transferidas para uma casa de vegetação. Grupos de dez plantas sadias submetidas às mesmas condições, exceto a inoculação do fungo, serviram como testemunhas. Os resultados das inoculações, baseados no número de mudas com sintomas de lesões foliares, foram avaliados no mínimo duas vezes. A inoculação de Fusarium sp. foi efetuada aderindo-se disco de BDA contendo conídios e micélio na região do colo/raiz de 10 mudas de mangabeira com 1-2 meses de idade, conforme metodologia previamente descrita (Anjos et al., 2003; Charchar et al., 2003). Dez mudas com a mesma idade, inoculadas com disco de BDA sem o fungo, foram usadas como testemunha.

Na análise de sanidade das sementes, foram detectados os seguintes fungos: Aspergillus spp., Chaetomium spp., Cladosporium sp., Fusarium spp., Paecilomyces sp., Penicillium spp., Pestalotiopsis sp. e Phomopsis sp. e uma levedura não identificada, além de Aureobasidium pullulans (de Bary) Arnaud (IMI 393241), que foi identificado pelo Dr. D. W. Minter, do CABI Bioscience, em Egham, Surrey, Reino Unido (Tabela 1).

 

 

Exceto para A. pullulans., cuja incidência foi de 16,7% nas sementes oriundas de Goiânia (GO), a incidência dos fungos isolados foi baixa, variando de 0 (zero) a 8,7% (Tabela 1). Todavia, as sementes infectadas com fungos fitopatogênicos podem servir como fonte primária de inóculo para ciclos secundários na parte aérea das plantas. A maior incidência de sementes colonizadas por fungos, com 85,4%, ocorreu naquelas provenientes de Goiânia (Tabela 1).

As mudas usadas como testemunhas, bem como as inoculadas com a levedura não identificada e com os isolados de CPAC-1840, CPAC-1843 e CPAC-1853, de Fusarium sp., permaneceram assintomáticas, independentemente do método de inoculação. Os isolados CPAC-1838, de Pestalotiopsis sp. e o CPAC-1863, de Phomopsis sp., apesar da baixa incidência nas sementes analisadas, foram patogênicos nas mudas inoculadas, causando sintomas respectivamente de lesões necróticas concêntricas (Figura 1-A) e escuras nas folhas, e murcha nas mudas (Figura 1-B). A. pullulans causou lesões escuras severas em 100% das plantas inoculadas, com ou sem ferimento (Figura 1-C). Dos isolados de Fusarium sp. avaliados, apenas CPAC-1857 apresentou patogenicidade, causando murcha em 30% das mudas inoculadas (Tabela 2).

 



 

 

 

As avaliações da patogenicidade dos fungos, associados às sementes de mangaba, evidenciaram que elas podem constituir-se em importante fonte primária de fitopatógenos, especialmente de Pestalotiopsis sp., de Phomopsis sp. e de A. pullulans. Contudo, a importância epidemiológica das sementes infectadas dessa espécie, como fonte de inóculo primário, não está devidamente esclarecida, carecendo ainda da quantificação da taxa de transmissão dos patógenos para as plântulas.

A. pullulans, embora seja relatada como saprófita ou fracamente patogência, de ocorrência comum em solos e em plantas em decomposição (Bells, 1971), o isolado em estudo foi patogênico às mudas de mangabeira inoculadas

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 11-08-2008.
Aceito para publicação em: 16-02-2009.

 

 

1 (Trabalho 211-08 ).

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