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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.32 no.1 Jaboticabal Mar. 2010  Epub Mar 26, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452010005000034 

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA

 

Influência do dano da abelha-irapuá em flores de mirtileiro sobre a frutificação efetiva e as frutas produzidas1

 

Damage influence of the irapuá bee on blueberry flower over the effective fruit production and the fruits

 

 

Tiago Madruga Telesca da SilveiraI; Maria do Carmo Bassols RaseiraII; Dori Edson NavaIII; Marcelo CoutoIV

IEng. Agrônomo Msc. em Fruticultura de Clima Temperado, FAEM, UFPel, Pelotas-RS, telesca.tiagro@gmail.com
IIEng. Agrônomo, Dr. Pesquisadora Embrapa Clima Temperado, Pelotas-RS, bassols@cpact.embrapa.br
IIIEng. Agrônomo, Dr. Pesquisador Embrapa Clima Temperado, Pelotas-RS, nava@cpact.embrapa.br
IVEng. Agrônomo, Dr. EPAGRI de Santa Catarina, Caçador-SC, marcelocouto@epagri.sc.gov.br

 

 


RESUMO

A abelha-irapuá, Trigona spinipes, é considerada um inseto-praga de várias culturas, por se alimentar de folhas e principalmente de flores e frutos. Os objetivos deste trabalho foram caracterizar o dano provocado pela irapuá em flores de mirtileiro (Vaccinium ashei Read.) e avaliar a frutificação efetiva e a qualidade da fruta produzida. O experimento foi conduzido no pomar experimental de mirtileiro, da Embrapa Clima Temperado em Pelotas, RS. Foram marcadas 200 flores de mirtileiro, seleção 103, sendo 100 destas com dano feito pela irapuá e 100 sem o dano. Após a floração, foi observada a frutificação efetiva, e por ocasião da colheita, foram determinados o teor de sólidos solúveis totais (SST), o diâmetro dos frutos e o número de sementes por fruto. O delineamento experimental foi o inteiramente casualizado. Nas flores sem danos da irapuá, houve maior percentagem de frutificação efetiva, e as frutas oriundas das mesmas apresentaram maior diâmetro e maior quantidade de sementes. O teor de SST nas frutas de mirtilo, oriundas tanto das flores com dano como daquelas sem dano, foi semelhante. Esses resultados sugerem que a T. spinipes é prejudicial à cultura do mirtilo, principalmente na época de floração, pois os danos causados pelo inseto provocaram baixa frutificação, frutas de tamanho reduzido e com menor quantidade de sementes.

Termos para indexação: Vaccinium ashei, Trigona spinipes, polinização, fertilização.


ABSTRACT

The irapuá Trigona spinipes is considered a pest insect of several crops because it feeds on their leaves, flowers and fruits. The aim of this study was to characterize the damage caused by irapuá on blueberry flowers (Vaccinium ashei) over the fruit set and fruit quality. The experiment was conducted in a blueberry collection of Embrapa Clima Temperado, in Pelotas, RS. Two hundred flowers were observed, being one hundred of them with irapuá damage and the other 100 flowers without damage. The fruit set was recorded as well as the level of soluble solids (TSS), the fruit diameter and number of seeds at the time of harvesting. A completely randomized design was used. Flowers without irapuá damage showed a higher percentage of fruit set and the produced fruit had a greater diameter and larger quantities of seeds. The TSS content on the fruits from flowers with or without irapuá damage was similar. These results suggest that T. spinipes is harmful to the blueberry culture, mainly at time of flowering, because the inset damage causes low fruit set and the production of small fruits with less seeds.

Index terms: Vaccinium ashei, Trigona spinipes, pollination, fertilization.


 

 

A produção de frutas e sementes, em muitas culturas de interesse econômico, depende da polinização realizada pelos insetos. Em determinadas culturas, as flores que não foram adequadamente polinizadas, podem abortar ou resultar em frutas de tamanho reduzido e de baixa qualidade. Em muitos casos, há incremento da fixação de frutos e, consequentemente, na produção do pomar, quando existe ação de agentes polinizadores na polinização cruzada BEE, (2004). Além do aumento do número de frutos e de sementes, a polinização bem conduzida também melhora a qualidade dos frutos, diminui os índices de má- formação, aumenta o teor de óleos e outras substâncias extraídas dos frutos, reduz o ciclo vegetativo de certas culturas agrícolas e ainda uniformiza o amadurecimento dos frutos, diminuindo as perdas da colheita (Williams et al., 1991).

O mirtileiro (Vaccinum sp.) é uma espécie frutífera de clima temperado, pertencente à família Ericaceae, nativa dos Estados Unidos e Europa (Hoffmann & Antunes, 2006). As flores individuais são perfeitas, com uma corola simpétala com quatro ou cinco lóbulos. A corola pode ter forma campanulada, forma de sino ou de urna. Os estames são em número de oito ou dez, geralmente o dobro do número de lóbulos da corola. As anteras têm a forma de tubos ocos, alongados, com um poro na extremidade, por onde sai o pólen. Em geral, o estigma é indiferenciado, sobre um estilete filiforme (Galletta & Ballington, 1996). O pólen é composto de quatro grãos unidos, geralmente um tetraedro, dos quais cada um é capaz de germinar in vitro.

Para que a produção comercial de mirtilos seja satisfatória, é necessário que, pelo menos, 80% das flores frutifiquem e que estejam presentes insetos polinizadores, uma vez que, pelo formato da flor, o pólen cai para fora da mesma e não no estigma. Apesar das cultivares do grupo "Highbush" serem geralmente autoférteis, a polinização cruzada favorece a obtenção de frutos de melhor tamanho (Lyrene, 1989). Estudos realizados por Eck et al. (1990) demonstram que as abelhas possuem papel fundamental na polinização e que a colocação de cinco colmeias por hectare, quando 25% das flores estiverem abertas, é suficiente para uma boa frutificação.

No caso do mirtilo do grupo "Rabbiteye", além do problema da morfologia da flor, há, em geral, algum grau de incompatibilidade. Assim, é aconselhável o plantio de, pelo menos, duas cultivares para a polinização cruzada.

A polinização do mirtileiro é realizada pela abelha melífera (Apis mellifera Linnaeus, 1758) e pelas mamangavas (Bombus sp.). Além destes, Trigona spinipes (Fabr., 1793) (Hymenoptera: Apidae) também conhecida como irapuá, arapuá ou arapuã, uma espécie de abelha-sem-ferrão, pertencente ao grupo dos meliponíneos, é frequentemente encontrada nas flores. T. spinipes causando cortes com as mandíbulas em flores, folhas e cortiça para construir seus ninhos ou para penetrar nos nectários de algumas flores, prejudicando a floração (Nogueira-Neto, 1962). Além do mirtileiro, T. spinipes, já foi relatado causando danos em feijão-guandu [Cajanus cajan (L.) Millsp.] (Couto & Mendes, 1996), acerola (Malpighia emarginata D.C.), (Alves et al., 1996) e laranjeira (Citrus spp. (Marlerbo-Souza, 1996).

Apesar de serem consideradas praga do mirtileiro, poucas estratégias são recomendadas para o controle das abelhas-irapuás, sendo basicamente relatada a destruição dos ninhos, uma vez que não existem inseticidas registrados (Chiaradia et al., 2003). Embora sejam consideradas praga, principalmente por se alimentarem de folhas e flores, pouco se conhece sobre os danos causados na polinização e na frutificação.

O presente trabalho teve como objetivos descrever o dano causado por T. spinepes em flores de mirtileiro e verificar a influência deste dano na frutificação e na qualidade das frutas produzidas.

O experimento foi realizado com plantas de mirtileiro da seleção avançada 103, oriunda do programa de melhoramento genético vegetal da Embrapa Clima Temperado, localizado em Pelotas, Rio Grande do Sul (31º40'47"S e 52º26'24"W; 60m de altitude).

Durante o período de floração (terceira semana de setembro), foram realizadas a escolha e a marcação das flores que se encontravam sem dano (Figura 1A) e das que estavam com o dano (Figura 1B). Também foi observado o comportamento de visitação de T. spinipes e de outras abelhas e vespas nas flores danificadas. Para determinar a frutificação efetiva e a qualidade das frutas, foram identificadas 200 flores em ramos de um ano, sendo 100 flores com o dano feito pela abelha-irapuá e 100 flores sem dano. Os parâmetros avaliados foram a frutificação efetiva, calculada com base no número de frutas em relação ao número de flores e, após o amadurecimento das frutas, foram determinados o teor de sólidos solúveis totais (SST) com refratômetro digital, o diâmetro das frutas (com paquímetro) e contado o número de sementes por fruta.

Para a análise da frutificação efetiva, o delineamento experimental o foi inteiramente casualizado, com 4 repetições por tratamento, sendo cada unidade experimental composta por 25 flores. Os tratamentos foram compostos por frutas oriundas de flores com dano (tratamento 1 - T1) e por frutas oriundas de flores sem dano (tratamento 2 - T2).

Para as variáveis teor de SST, diâmetro da fruta (cm) e número de sementes por fruta, foram utilizadas 20 e 32 frutas para T1 e T2, respectivamente, e considerada cada fruta como uma parcela.

Os dados foram submetidos à análise da variância, e as médias, comparadas pelo teste de Tukey (α = 0,05). Os dados das variáveis frutificação efetiva e número de sementes foram transformados para arco seno (x/100)½ e (x+1)½, respectivamente. As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se do programa Winstat, versão 2.0 (Machado & Conceição, 2003).

Foi encontrada diferença significativa no diâmetro das frutas, sendo que o maior diâmetro médio (1,37 cm) foi encontrado nas frutas oriundas de flores sem dano (Tabela 1), em relação às frutas com dano (1,26 cm). Para sólidos solúveis totais (SST), não foi observada diferença significativa entre as frutas avaliadas, sendo que, para as frutas oriundas de flores sem dano, o teor de SST foi 13,2 ºBrix e, para aquelas com dano, foi, em média, 12,8ºBrix (Tabela 1).

O maior número médio de sementes e a maior percentagem de frutificação efetiva foram observados nas frutas de flores sem dano (34,4 e 60%, respectivamente) (Tabela 1). Isso indica que T. spinipes é prejudicial à frutificação efetiva e, conseqüentemente, à produção. Os dados corroboram Silva et al. (1997), que observaram esse inseto visitando frequentemente flores do maracujazeiro, extraindo néctar (Rizzi et al., 1998), coletando pólen e danificando os tecidos das flores (Sazima & Sazima, 1989). Sua infestação ocorre nas flores e folhas novas, interferindo na polinização e frutificação do maracujazeiro-amarelo Passiflora edulis Sims f. flavicarpa Deg. (Passifloraceae), originando frutos com menor porcentagem de peso de polpa e sementes (Silva et al., 1997), e provocando, também, cortes e escarificações nas cascas das frutas, atingindo inclusive a polpa, tornando-os impróprios para comercialização (Rodrigues Netto & Berlote, 1996).

As flores do mirtileiro com ataque da abelha-irapuá apresentam danos, principalmente na corola (Figura 1B). T. spinipes faz um pequeno orifício na parte inferior da corola, para posterior coleta do néctar, o que pode dificultar a polinização por outros insetos, e expõe as partes florais a intempéries, principalmente chuvas, fazendo com que a corola fique aderida aos estames e pistilos, podendo prejudicar a frutificação. Além disto, em muitos casos, é comum, nas flores que apresentam danos, a ocorrência de fungos, que podem causar o abortamento das mesmas.

Nas flores que possuíam o dano causado por T. spinipes, foi observada na abertura a ocorrência de outros insetos polinizadores, como a abelha A. mellifera e a vespa Lixiguana spp., que utilizavam essas entradas nas laterais das flores, para obter um acesso alternativo ao nectário das flores, sem realizarem a polinização. A ocorrência destes insetos nas flores do mirtileiro e o comportamento de acesso para a retirada do mel nas flores, sem realizar a polinização, também foram observados por Severino (2007).

É importante destacar que o número de sementes por fruta e o tamanho também estão correlacionados, pois o aumento de um implicou o acréscimo do outro. O menor número de sementes foi consequência da ausência da visita dos insetos na abertura natural da flor, diminuindo a quantidade de pólen no estigma. Havendo menos pólen no estigma e posterior fecundação dos óvulos, há redução do número de sementes, influindo no balanço hormonal e, consequentemente, no tamanho da fruta.

Pelo que foi observado, pode-se dizer que flores de mirtileiro com danos na corola têm menor frutificação efetiva, e produzem frutos com menor número de sementes e menor diâmetro, Assim, a irapuá é prejudicial à cultura, principalmente na época de floração, pois o dano provoca baixa frutificação e menor qualidade da fruta.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 16-03-2009.
Aceito para publicação em: 20-11-2009.

 

 

1 (Trabalho 063-09).

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