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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.32 no.4 Jaboticabal Dec. 2010  Epub Jan 14, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452011005000010 

Composição de bagas de 'Niágara Rosada' e 'Folha-de-Figo' relacionadas ao sistema de condução1

 

Fruit composition of 'Niágara Rosada' and 'Folha-de-Figo' grapevines under different training systems

 

 

Renata Vieira da MotaI, Camila Pinheiro Carvalho SilvaII, Ezequiel Lopes do CarmoIII, Anderson Ridolfi FonsecaIV, Ana Carolina FaveroV, Eduardo PurgattoVI, Tânia Misuzu ShigaVII, Murillo de Albuquerque ReginaVIII

IEngenheira Agrônoma, Doutora em Ciência dos Alimentos, Pesquisadora do Núcleo Tecnológico EPAMIG Uva e Vinho, Caixa Postal 33, Cep: 37780-000, Caldas-MG, E-mail: renata@epamigcaldas.gov.br (Autor para correspondência)
IIAluno de 2º grau, Núcleo Tecnológico EPAMIG Uva e Vinho, Bolsista BIC Junior Fapemig, E-mail: k_mila_pinheiro@hotmail.com
IIIAluno de graduação. Núcleo Tecnológico EPAMIG Uva e Vinho. Bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial pelo CNPq, E-mail: pacaraima@bol.com.br
IVAluno de 2º grau, Núcleo Tecnológico EPAMIG Uva e Vinho, Bolsista de Iniciação Tecnológica Industrial pelo CNPq, E-mail: link@epamigcaldas.gov.br
VDoutoranda - Universidade Federal de Lavras, Bolsista CAPES - Departamento de Agricultura, caixa postal 3037, CEP 37200-000, Lavras-MG, E-mail: acfavero@yahoo.com.br
VIFarmacêutico, Doutor em Ciência dos Alimentos, Professor do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo, São Paulo-SP, e-mail: epurgatt@usp.br
VIIFarmacêutica, Doutora em Ciência dos Alimentos, Técnica de nível superior no Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental, Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de São Paulo, São Paulo-SP, e-mail: tatymish@usp.br
VIIIEngenheiro Agrônomo, Doutor em Viticultura e Enologia, Pesquisador do Núcleo Tecnológico EPAMIG Uva e Vinho, E-mail: murillo@epamigcaldas.gov.br

 

 


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo avaliar a influência do sistema de condução na qualidade de bagas de uvas 'Niágara Rosada' e 'Folha-de-Figo' cultivadas em Caldas-MG. Foram avaliados a produção por planta, o diâmetro, a massa, o teor de potássio e a temperatura das bagas, pH, teor de sólidos solúveis, açúcares redutores, acidez total e ácidos orgânicos do mosto, compostos fenólicos nas cascas e sementes, e antocianinas. As plantas foram conduzidas em espaldeira, lira, latada ou cordão simples, e os frutos, avaliados nas safras de 2006 e 2007. As videiras de 'Niágara Rosada' cultivadas em latada e 'Folha-de-Figo' em lira apresentaram produção significativamente superior aos demais sistemas de condução. Em todos os casos, as bagas apresentaram temperatura inferior à ambiente, indicando sombreamento completo ou parcial dos cachos. No sistema latada, houve menor acúmulo de sólidos solúveis e açúcares redutores nas duas cultivares. Estes resultados preliminares indicam que a composição das bagas foi pouco influenciada pelo sistema de condução.

Termos para indexação: Vitis labrusca, compostos fenólicos, açúcares, antocianinas, manejo, qualidade.


ABSTRACT

This work aimed on evaluating the influence of training systems in berries composition of 'Niágara Rosada' and 'Folha-de-Figo' grapevines grown in Caldas, MG. Yield per plant; diameter, weight, temperature and potassium content of the berries; pH, soluble solids, reducing sugars, total acidity and organic acids of the must; anthocyanins and phenolic compounds of the skins and phenolic compounds of the seeds were evaluated in grapevines training in vertical shoot position, lyre trellis, pergola Veronese or simple string in 2006 and 2007 seasons. 'Niágara Rosada' and 'Folha-de-Figo' grapevines training in pergola Veronese and lyre trellis, respectively, showed higher yield than the other training systems under study. Berries grown under the four different training systems were cooler than ambient temperature, resulting from partial or deep shade clusters. Berries harvested from pergola Veronese trellis system showed lower soluble solids and reducing sugars levels in both cultivars. These preliminary data show that training systems exerted little influence on berries composition.

Index terms: Vitis labrusca, phenolic compounds, sugars, anthocyanins, management, quality.


 

 

INTRODUÇÃO

O manejo do dossel vegetal inclui uma série de técnicas que alteram a posição e o número de brotos e frutos no espaço. Constitui-se na manipulação do microclima, procurando atingir um balanço entre o crescimento vegetativo e produtivo da planta. Dentre as técnicas de manejo do dossel (poda, desbrota, posicionamento dos brotos, desfolha, raleio de cachos), o sistema de condução influencia na distribuição e orientação da folhagem, influenciando, assim, na interceptação da luz solar (SMART; ROBINSON, 1991).

Em dosséis densos, a maioria das folhas e frutos fica sombreada e abafada, sem contato direto com o vento e as flutuações de temperatura diária. Conseqüentemente, há aumento da umidade no interior do dossel com aumento na incidência de doenças fúngicas. As folhas da videira absorvem a luz solar, liberando apenas 6% da radiação solar para a próxima camada de folhas no dossel (SMART; ROBINSON, 1991), o que reduz o acúmulo de açúcares e aumenta a acidez das bagas, além de reduzir o teor de antocianinas e compostos fenólicos (JACKSON;LOMBARD, 1993; BERGQVIST et al., 2001).

A escolha do sistema de condução deve levar em conta fatores como os recursos disponíveis (localização do vinhedo e disponibilidade de mão de obra), características edafoclimáticas, variedade, destino da produção e custo (SMART, 1995).

Pedro Júnior et al. (2007) compararam a produtividade e o teor de sólidos solúveis da cultivar Niágara Rosada conduzida em espaldeira e manjedoura, em Jundiaí (SP). O sistema manjedoura proporcionou aumento significativo do dossel, número de cachos por planta e massa fresca dos cachos, resultando em produção 75% superior ao sistema de espaldeira. Os autores não observaram alteração da temperatura do ar na altura do cacho ou diferença no teor de sólidos solúveis, porém a redução da incidência de radiação solar sobre os cachos, no sistema manjedoura, foi significativa no final do período de maturação.

Na região vitícola do sul de Minas Gerais, composta principalmente pelos municípios de Caldas e Andradas, os parreirais são conduzidos em espaldeira e grande parte implantada em pé-franco. As principais cultivares são Folha-de-Figo (Bordô), Jacquez, Niágara Rosada e Niágara Branca utilizadas na elaboração de vinhos e sucos, e consumo in natura, no caso da Niágara Rosada (PROTAS et al., 2006).

Buscando melhorar a produtividade e a qualidade das bagas cultivadas na região, Orlando et al. (2002) e Norberto et al. (2008) testaram quatro sistemas de condução para as videiras 'Niágara Rosada' e 'Folha-de-Figo' e observaram melhor produtividade nas plantas conduzidas em espaldeira e lira. Como parâmetros de qualidade, foram avaliados apenas os teores de sólidos solúveis, pH e acidez. Orlando et al. (2002) não observaram diferença significativa no teor de sólidos solúveis para a cultivar Niágara Rosada, enquanto o sistema em lira induziu maior acúmulo de açúcares e menores teores de acidez total para a cultivar Folha-de-Figo. Norberto et al. (2008), entretanto, observaram melhor qualidade das bagas conduzidas em cordão simples.

Em regiões com elevada intensidade pluviométrica, como a região serrana de Caldas- MG, o manejo do dossel para a exposição dos frutos é essencial para a obtenção de uma boa espessura da casca e maturação das bagas. A escolha do sistema de condução adequado pode aumentar não apenas a produtividade da videira, mas também a qualidade dos seus frutos (SMART; ROBINSON, 1991).

Este trabalho teve como objetivo avaliar a influência de quatro sistemas de condução nas características físico-químicas das bagas de uvas 'Folha-de-Figo' e 'Niágara Rosada' cultivadas em Caldas-MG.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliadas bagas das cultivares Niágara Rosada e Folha-de-Figo (Bordô) em vinhedo experimental localizado em Caldas-MG, situada a 21° 55' S e 46° 23' O, a 1.150 m de altitude, com temperatura média de 18 °C, umidade relativa do ar de 77% e precipitação pluvial de 1.600 mm anuais. As plantas, enxertadas no campo, em 1998, sobre o porta-enxerto 420A, foram conduzidas em quatro sistemas de condução: espaldeira com três fios de arame, em espaçamento de 2,5 m x 1,5 m e densidade de 2.666 plantas ha-1; latada em espaçamento 2,5 m x 2,0 m e densidade 2.000 plantas ha-1; cordão simples (2,5 m x 3,5 m - densidade 1.142 plantas ha-1), e lira (3,5 m x 1,0 m - densidade 2.857 plantas ha-1). Foi utilizado o sistema de poda curta com duas gemas, realizado em agosto, e colheita em janeiro.

O trabalho foi constituído de dois experimentos, sendo um para cada cultivar e quatro tratamentos (espaldeira, lira, latada e cordão simples), em delineamento inteiramente casualizado, com três repetições e quatro plantas úteis por parcela. As avaliações das características físico-químicas das bagas foram realizadas em janeiro de 2006 e 2007.

A produtividade foi estimada pela massa média dos cachos, obtida na colheita, e pela contagem do número de cachos por planta, na safra de 2006. A produtividade não foi estimada na safra de 2007 devido ao grande número de cachos podres e bagas encharcadas, em decorrência da excessiva precipitação pluvial na época da colheita (Figura 1).

Os diâmetros transversal e longitudinal de 50 bagas por tratamento foram obtidos com paquímetro manual.

A temperatura das bagas foi determinada na cultivar Niágara Rosada, na semana da colheita, na safra de 2006. Da mesma forma, não foi possível repetir as leituras na safra de 2007 devido ao excesso de chuvas. A leitura não foi realizada na cultivar Folha-de-Figo devido ao grande número de bagas murchas. A temperatura foi medida pela inserção de um termômetro digital tipo espeto no centro da baga. As leituras foram realizadas em quatro bagas por planta, em quatro plantas, retirando-se amostras de cachos localizados nos lados leste e oeste das plantas, simultaneamente, nos quatro sistemas de condução, às 9 h, 11 h, 13 h, 15 h e 17 h.

Na colheita, 200 bagas amostradas de forma aleatória para cada tratamento foram esmagadas manualmente, e o mosto, analisado quanto ao pH, em medidor de pH Micronal modelo B-474, calibrado com padrões 4,0 e 7,0, teor de sólidos solúveis totais (°Brix) em refratômetro digital portátil Atago modelo Pal-1, acidez total por titulação com NaOH 0,1N, utilizando fenolftaleína como indicador.

Para análise dos compostos fenólicos, foram separadas as cascas e sementes de 100 bagas por tratamento. Aproximadamente 0,5g de casca triturada em nitrogênio líquido foi homogeneizada em Ultra Turrax (IKA T-18 basic), em solução extratora constituída de metanol acidificado (HCl 1%). As amostras permaneceram 12 h a 4 °C, sendo em seguida centrifugadas (6.918 x g por 10 min), e o precipitado, lavado com solução extratora até a completa remoção da cor. Os sobrenadantes foram reunidos, e o volume, ajustado com solução extratora em balão volumétrico. As antocianinas foram determinadas pelo método do pH diferencial (GIUSTI;WROLSTAD, 2000). Os compostos fenólicos totais foram analisados pelo método de Folin-Ciocalteau, com base em uma curva-padrão de ácido gálico (AMERINE; OUGH, 1980; BERGQVIST et al., 2001).

As sementes foram imersas em solução alcoólica (metanol HCl 1%), na proporção correspondente ao volume de mosto das bagas (GONZÁLEZ-NEVES et al., 2004) por 48 h, à temperatura ambiente e ao abrigo da luz. Os compostos fenólicos solúveis foram determinados pelo método de Folin-Ciocalteau (AMERINE;OUGH, 1980).

O teor de potássio foi determinado por fotometria de chama após digestão nítrico-perclórica das bagas (MALAVOLTA et al., 1997).

Os ácidos tartárico e málico foram determinados na fração ácido, obtida após passagem do mosto em uma resina de troca aniônica Bio-Rex 5 (Bio Rad Labs) (McCORD et al., 1984). Uma alíquota de 20 µL foi injetada em cromatógrafo líquido Hewlett-Packard, modelo 1100, equipado com coluna SupelcoGel C-610H (Supelco, 30 cm x 7,8 mm), ajustada a uma temperatura de 15 °C, e detector arranjo de diodos (DAD) a 245 nm. Foi realizada uma corrida isocrática a um fluxo de 0,5 mL min-1, utilizando solução de ácido fosfórico a 0,5% como fase móvel. A identificação e a quantificação dos cromatogramas foram baseadas em solução-padrão dos ácidos tartárico e málico.

Os açúcares solúveis foram analisados por cromatografia líquida a partir da fração açúcar, obtida após a passagem do mosto em uma resina de troca aniônica Bio-Rex 5 (Bio Rad Labs) (McCORD et al., 1984). Uma alíquota de 25 µL foi injetada em cromatógrafo DX-500 (Dionex, Sunnyvale, CA, USA), utilizando uma coluna CarboPac PA1 (Dionex, 4,0 x 250 mm), acoplado a um detector de pulso amperométrico em corrida isotérmica a 25 °C. Como fase móvel, foi utilizado NaOH 18 mM em fluxo isocrático de 1 mL min-1. A identificação e a quantificação dos cromatogramas foram realizadas a partir de soluções -padrão de glicose, frutose e sacarose.

Os dados de cada experimento foram submetidos à análise de variância, no esquema de parcelas subdivididas, realizada pelo programa SAEG, com o sistema de condução casualizado como parcela, e a safra como subparcela. As variáveis com interações não significativas foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade. No caso de interação significativa, as variáveis foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade, fixando-se a safra e, em seguida, o sistema de condução.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De forma geral, a produção por planta foi semelhante entre os sistemas de condução, nas duas cultivares, com exceção para o sistema latada em 'Niágara Rosada' e lira em 'Folha-de-Figo' (Tabela 1).

Em 'Niágara Rosada', o sistema espaldeira foi o que apresentou a menor massa dos cachos, média de 162 g, contra uma média de 225 g em lira, 270 g em cordão simples e 276 g em latada. A maior produção das videiras em latada foi resultado da maior massa dos cachos e de maior número de cachos por planta, média de 39 cachos por planta, quando comparado aos demais sistemas (Tabela 1). Pedro Júnior et al. (2007) também observaram maior produtividade no sistema de manjedoura quando comparado a espaldeira, resultado de maior número e massa fresca de cachos por planta de 'Niágara Rosada' cultivada em Jundiaí (SP).

Na cultivar Folha-de-Figo, a maior produção observada no sistema lira foi decorrente do elevado número de cachos por planta, cujo valor de 66 cachos foi duas vezes superior à média de 33 cachos por planta observado nos demais sistemas. A massa média dos cachos no sistema lira, entretanto, foi de 95 g, inferior ao observado em latada, espaldeira e cordão simples, que apresentaram valores médios superiores a 105 g (Tabela 1). Norberto et al. (2008) também observaram produção superior nas plantas da cultivar Folha-de-Figo, conduzidas em lira, no mesmo vinhedo, nas safras de 2003, 2004 e 2005. Estes autores, entretanto, não observaram diferença na produtividade de 'Niágara Rosada'.

A diferença de massa dos cachos não está relacionada aos valores de massa e diâmetro das bagas (Tabela 2). A quantidade de bagas por cacho pode ter exercido influência na massa dos cachos. Entretanto, neste experimento, este parâmetro não foi avaliado.

Não foi observada variação significativa de temperatura entre os sistemas de condução, e em todos os casos a temperatura das bagas foi inferior à do ambiente e com pequena amplitude térmica diária, indicando que os frutos não estavam completamente expostos ao sol (Figura 2). O sistema em latada apresentou a maior amplitude térmica, 5,81 °C, entre 9 h e 13 h, seguido por espaldeira, com amplitude térmica de 4,83 °C, lira e cordão simples,com amplitudes térmicas de 3,98 °C e 3,34 °C, respectivamente.

O ambiente fechado, com pouca circulação de ar entre os cachos, proporcionado pelo sistema latada, deve ter favorecido o aumento da temperatura das bagas por abafamento, enquanto na espaldeira o aumento pode ter sido provocado pelos cachos expostos ao sol durante o início da tarde. Bergqvist et al. (2001) observaram aumento na temperatura das bagas em relação ao ambiente somente nos cachos completamente expostos ao sol. Neste caso, a temperatura das bagas aumentou rapidamente com o aumento da temperatura ambiente quando comparado às bagas dos cachos moderadamente expostos ou sombreados. Estes autores também observaram que o aumento da exposição dos cachos à luz solar reduz o pH do mosto e aumenta o teor de antocianinas e compostos fenólicos. Entretanto, quando a temperatura das bagas atinge valores superiores a 30 °C, há redução no teor de antocianinas e dos compostos fenólicos totais.

A safra exerceu efeito significativo na maioria dos parâmetros avaliados. A maior precipitação na safra de 2007 (Figura 1) resultou em bagas de maior diâmetro nas duas cultivares (Tabela 2A). As bagas de 'Niágara Rosada', conduzidas em cordão simples, apresentaram menor diâmetro e, consequentemente, menor massa, porém sem influência na massa total dos cachos, cujo valor médio de 270 g foi próximo ao observado para os cachos produzidos em latada (Tabela 1).

Menores teores de sólidos solúveis, glicose e frutose foram observados nas uvas cultivadas em latada, nas duas cultivares (Tabela 3). Frutos produzidos na safra de 2007 apresentaram teores de açúcares significativamente inferiores aos observados nos frutos colhidos em 2006. Segundo Dreier et al. (2000), o aumento dos teores de açúcares no final da maturação é resultado da sua concentração nas bagas devido à evapotranspiração. Desta forma, a menor incidência de chuvas durante a maturação favorece a concentração do mosto e o aumento da concentração de açúcares na baga.

Na cultivar Niágara Rosada, as bagas cultivadas em sistema lira apresentaram maior teor de glicose, frutose e sólidos solúveis e menor acidez (Tabelas 3 e 4), resultando em maior relação sólidos solúveis/acidez, característica desejável para uvas de mesa.

A queda do teor de acidez durante o amadurecimento das bagas é decorrente principalmente da redução do ácido málico utilizado na respiração. Frutos expostos ao sol ou cultivados em regiões quentes apresentam menor teor de ácido málico devido ao aumento da atividade respiratória das bagas nestas condições (SMART; ROBINSON, 1991).

Os dados indicam menor conteúdo de ácido málico no mosto das uvas da cultivar Folha de Figo conduzidas em espaldeira e lira na safra de 2006 (Tabela 4A). A safra exerceu influência nos teores de pH, acidez total e teor de ácido málico. No ano de 2007, os teores de acidez total e ácido málico foram significativamente superiores no mosto das uvas de 'Niágara Rosada', nos quatro sistemas de condução testados. As uvas da cultivar Folha de Figo, conduzidas em espaldeira, apresentaram maior teor de acidez total e ácido tartárico na safra de 2007.

O efeito dos tratamentos no conteúdo de compostos fenólicos foi mais bem observado na cultivar Folha-de-Figo, na safra de 2006. No sistema latada, as bagas apresentaram menor conteúdo de antocianinas e compostos fenólicos totais nas cascas e conteúdo significativamente superior nas sementes (Tabela 5). No sistema lira, a relação entre os compostos fenólicos nas cascas e sementes foi maior (Tabela 5A). Os compostos fenólicos presentes na casca são polimerizados e pouco adstringentes, enquanto os encontrados nas sementes são pouco polimerizados e adstringentes.

Smart e Robinson (1991) observaram aumento na intensidade de cor, teor de compostos fenólicos e antocianinas em vinhos elaborados a partir de uvas cultivadas em sistema com dossel aberto quando comparados aos elaborados a partir de uvas cultivadas em sistema com dossel denso. De acordo com os autores, a principal causa da redução da qualidade da uva e do vinho é o sombreamento dos cachos. Neste trabalho, como observado na Figura 2, os cachos ficaram sob sombreamento total ou parcial em todos os sistemas de condução adotados, o que pode explicar a semelhança observada nos teores de compostos fenólicos, nos diferentes sistemas.

Assim como observado por Vanden Heuvel et al. (2004), também não houve efeito significativo do sistema de condução no teor de potássio, nas bagas das duas cultivares avaliadas (Figura 3).

Os resultados obtidos em 2 anos de experimentação indicam pouco efeito do sistema de condução na composição das bagas e, devido à interação com os parâmetros climáticos, merecem ser avaliados por maior período de tempo para poder recomendar o sistema de condução mais adequado às condições climáticas do sul de Minas Gerais.

 

CONCLUSÕES

1- A cultivar Niágara Rosada apresentou maior massa de cachos e maior número de cachos por planta quando conduzida em latada.

2- Para a cultivar Folha-de-Figo, maior produtividade foi obtida no sistema de lira, que produziu o dobro do número de cachos dos demais sistemas.

3- As uvas produzidas em sistema lira apresentaram maior teor de sólidos solúveis, açúcares e menor acidez, enquanto as uvas produzidas em latada apresentaram menor teor em açúcar, maior acidez, menor acúmulo de antocianinas e compostos fenólicos nas cascas e maior teor de compostos fenólicos nas sementes.

4- Os teores de potássio não foram afetados pelo sistema de condução.

5- O clima apresenta efeito significativo na composição das bagas.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pelo auxílio financeiro e concessão de bolsas; ao Dr. Marcos Roberto Lopes do Nascimento, por ceder as instalações da Comissão Nacional de Energia Nuclear de Poços de Caldas-MG, para a realização da digestão nítrico-perclórica das bagas.

 

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1( Trabalho 221-09). Recebido em: 25-09-2009. Aceito para publlicaçaõ em: 28-09-2010. Trabalho com apoio financeiro da FAPEMIG e CNPq.

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