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Revista Brasileira de Fruticultura

versão impressa ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.33 no.4 Jaboticabal dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452011000400005 

COLHEITA E PÓS-COLHEITA

 

Altas concentrações de oxigênio favorecem a conservação de morango 'Oso Grande'1

 

High oxygen concentrations better preserve 'Oso Grande' strawberry

 

 

Luis Carlos Cunha JuniorI; Angelo Pedro JacominoII; Marcos Jose TrevisanIII; João Alexio Scarpare FilhoII

IAluno do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia da ESALQ-USP, Bolsista de doutorado FAPESP. E-mail: luiscarloscunha@hotmail.com
IIProfessores do Deptº. de Produção Vegetal da Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", ESALQ-USP. Av.: Pádua Dias, nº.11, Caixa Postal 9. CEP 13418-900 Piracicaba - SP, Brasil. E-mails: jacomino@esalq.usp.br; jascarpa@esalq.usp.br
IIIAluno do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia da ESALQ-USP. E-mail: mjtrevis@esalq.usp.br

 

 


RESUMO

Aplicação de atmosferas com altos níveis de O2 podem manter a qualidade dos vegetais e retardar o crescimento de microrganismos. O objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade do morango 'Oso Grande' sob atmosfera controlada com diferentes concentrações de O2. Os morangos foram selecionados, resfriados e armazenados a 10ºC em minicâmaras herméticas, onde foram aplicadas as distintas concentrações de O2 (1; 3; 20; 60 e 90%), em fluxo contínuo de 150 mL min-1, durante o armazenamento (10 dias). Os frutos foram avaliados a cada 2 dias. As menores incidências de podridões foram observadas nos tratamentos com 90% O2 (3% dos frutos) e com 60% O2 (6% dos frutos). Estes tratamentos proporcionaram também melhor conservação dos frutos, demonstrada pelas melhores notas de aparência. Os demais tratamentos apresentaram 16 a 20% de frutos com podridões. A atividade respiratória dos frutos armazenados sob 1 e 3% de O2 foi de 11,3 e 15,3 mL CO2 kg-1 h-1, respectivamente, sendo inferior aos demais tratamentos, que não foram significativamente diferentes entre si e cujo valor médio foi de 21 mL CO2 kg-1 h-1. Os teores de acetaldeído e etanol não aumentaram significativamente, durante o armazenamento. A firmeza da polpa não diferiu entre os tratamentos. Os morangos submetidos a 60% de O2 não alteraram seus teores de acidez total titulável e de ácido ascórbico durante o armazenamento, enquanto nos demais tratamentos houve decréscimo no teor de ácido ascórbico no mesmo período. As concentrações de O2 levaram a diferenças na coloração externa, em termos de luminosidade, cromaticidade e ângulo de cor; entretanto, tais diferenças foram visualmente imperceptíveis. Morangos 'Oso Grande' armazenados a 10 ºC sob atmosfera controlada com 60 e 90% de O2 mantiveram suas características de aparência e tiveram menor índice de doença, quando comparados com os demais tratamentos.

Termos para indexação: Atmosfera Controlada, Controle do Oxigênio, Pós-Colheita, Fragaria x ananassa.


ABSTRACT

Atmospheres with high levels of O2 can maintain the quality of vegetables and reduce microbial growth. The aim of this study was to evaluate the quality of 'Oso Grande' strawberry under controlled atmosphere with various O2 concentrations. Strawberries were selected, air-cooled and stored at 10ºC in hermetic mini chambers where O2 concentrations (1, 3, 20, 60 and 90%) were applied continuously at 150 mL min-1 for 10 days. Fruits were analyzed every 2 days. The lowest decay incidences were observed in the treatments with 90% of O2 (3% of fruits) and 60% of O2 (6% of fruits). Fruit from these treatments also had higher appearance ratings, which indicates preservation of fruit quality. Other treatments exhibited 16 to 20% of decay. The fruit respiratory rate stored at 1 and 3% of O2 concentration was 11.3 and 15.3 mL CO2 kg-1 h-1, respectively. Fruit treated with 20, 60 or 90% of O2 had similar respiration rates (21 mL CO2 kg-1 h-1), which were significantly higher than fruit treated with lower O2 concentrations. Acetaldehyde and ethanol levels did not increase during storage. Pulp firmness did not vary among treatments. Strawberries subjected to 60% of O2 maintained adequate levels of titratable acidity and ascorbic acid during the storage; however ascorbic acid decreased in all other treatments. Strawberry external color varied slightly depending on O2 concentration; however, these differences were not visually perceptible. 'Oso Grande' strawberries stored at 10 ºC under controlled atmosphere with 60 and 90% of O2 preserved the appearance and reduced decay, when compared to the other treatments.

Index terms: Controlled Atmosphere, Oxygen Control, Postharvest, Fragaria x ananassa.


 

 

INTRODUÇÃO

O morango tem uma curta vida útil, devido à sua elevada atividade metabólica e à suscetibilidade a doenças, principalmente as causadas por fungos (MALGARIM et al., 2006).

O uso de baixa concentração de O2 (1-5%) e altas concentrações de CO2 (10-20%), em combinação com a refrigeração, são propostas de condições de armazenamento ideal para algumas hortaliças e frutas (VAN DER STEEN et al., 2002). Entretanto, níveis baixos de O2 levam os frutos a respirarem anaerobicamente, resultando na formação de acetaldeído e etanol, e consequentemente modificando o sabor e escurecendo os tecidos dos frutos (SHAMAILA et al., 1992; PÉREZ et al., 1996).

Chitarra e Chitarra (2005) relataram que morangos submetidos à atmosfera com 10 % de O2 e 20% de CO2 associado a temperaturas de 0-5ºC, conservam-se por até 10 dias. Calegaro et al. (2002) verificaram que atmosfera modificada ativa com concentrações iniciais de 3% O2 + 10% CO2 ou 5% O2 + 15% CO2, na conservação de morangos 'Oso Grande' armazenados a 0 ºC, implicou manutenção da firmeza, da coloração e dos teores de açúcares totais e ácido ascórbico.

Baixas concentrações de O2, com ou sem combinações com altas concentrações de CO2, também podem levar a efeitos benéficos na vida pós-colheita de morango, com redução de deterioração e podridões, aumentando o período de conservação (SHAMAILA et al., 1992; VAN DER STEEN et al., 2002).

Holcroft e Kader (1999) observaram que morangos 'Selva', quando armazenados em atmosfera com 2 e 0,5% de O2 a 5ºC, tiveram o amolecimento e a senescência retardados, quando comparados com frutos armazenados sob 20% de O2. Estes autores também relataram que atmosferas com 2 e 20% de O2 conservaram os frutos de maneira semelhante quanto à cor, concentração de antocianinas e metabolismo dos ácidos orgânicos.

Concentrações de oxigênio superiores a 21% podem influenciar na fisiologia pós-colheita e na manutenção da qualidade de produtos hortícolas frescos, direta ou indiretamente, através de alterações na produção de CO2 e de C2H4. O limite do teor de O2 na atmosfera de conservação pode variar, entre espécies e dentro da mesma espécie, dependendo do seu estádio de desenvolvimento (KADER; BEN-YEHOSHUA, 2000).

Morangos acondicionados em atmosfera com 40; 90 e 100% de O2 apresentaram baixa ocorrência de doenças, após 14 dias a 5ºC (WSZELAKI; MITCHAM, 2000). Morango da cv. Chandler armazenado em atmosfera com 100% de O2 manteve comercializável por 14 dias, e concentrações de 40; 50; 80 e 100% de O2 levaram à menor produção de compostos voláteis, como acetaldeído e etanol, quando comparados aos frutos em ambiente com 20% de O2 (AYALA-ZAVALA et al., 2007).

Zheng et al. (2007) demonstraram que morango 'Allstar', armazenados a 5ºC em ambiente com 21 (controle); 40; 60; 80 e 100% de O2 tiveram redução na incidência de doenças com o aumento na concentração de O2, sem a ocorrência de perdas de açúcares e ácidos, além da manutenção da coloração.

Ao armazenar morangos em atmosferas com 21 (controle); 40; 60; 80 e 100% de O2, Zheng et al. (2008) reafirmaram a observação anterior, ou seja, as mesmas reduziram a incidência de doenças sem alterar a coloração. Os frutos submetidos à concentração de 40% de O2 apresentaram maiores teores de sólidos solúveis que os acondicionados com 60% de O2.

Neste trabalho, objetivou-se avaliar o efeito de diferentes concentrações de oxigênio na qualidade pós-colheita de morangos cv. Oso Grande, a 10ºC.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Morangos da cultivar Oso Grande foram colhidos em pomar comercial no município de Valinhos-SP (Latitude 22º 58' sul e Longitude 16º 59' oeste), nas primeiras horas do dia, com 50-75 % da superfície de cor vermelho-brilhante, conforme recomendação de Flores-Cantillano (2005). Após a colheita, os frutos foram cuidadosamente transportados para o Laboratório de Pós-Colheita de Produtos Hortícolas, do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - USP, Piracicaba-SP. Os morangos foram criteriosamente selecionados, com a retirada dos frutos com podridão, ferimentos ou coloração inadequada. Após a homogeneização do lote, os morangos foram acondicionados em câmara frigorifica a 10ºC para a retirada do calor de campo. A aplicação dos tratamentos teve início quando a temperatura da polpa atingiu aproximadamente 12ºC.

Os morangos selecionados e pré-refrigerados foram armazenados em minicâmaras herméticas, com capacidade de acondicionamento de aproximadamente 1,2 kg de morango, em camada única. As misturas gasosas foram umidificadas e injetadas na parte inferior da minicâmara (entrada), com saída na parte superior e oposta à entrada, em fluxo contínuo de 150 mL min-1.

O equipamento utilizado para estabelecer e controlar a atmosfera foi o fluxcentro ("Flowboard") descrito por Calbo (1989), com modificação no regulador de pressão, utilizando-se de uma válvula diferencial, utilizada em botijão de gás GLP doméstico, para regular a pressão do equipamento sem perda de gás, como acontece quando se usa um barostato (CERQUEIRA et al., 2009).

Neste experimento, foram testadas cinco misturas gasosas (tratamentos) com as seguintes concentrações de oxigênio: 1; 3; 20; 60 e 90%. O tratamento com 20 % foi considerado como o tratamento-controle. As misturas foram aferidas diariamente, usando-se um analisador de gases da marca Dansensor, modelo Checkmate 9001.

Os morangos foram armazenados durante 10 dias em câmara a 10 ± 1ºC. A umidade relativa no interior das minicâmaras foi mantida a 95± 2% UR, e as avaliações foram realizadas a cada 2 dias para as variáveis descritas a seguir.

A aparência foi avaliada segundo uma escala de notas, onde: 3 = ótimo (sem sintomas de doença; túrgido; com cor característica); 2 = bom (sem sintomas de doença; com cor característica; sem turgidez); 1 = ruim (sem sintomas de doença; sem cor característica; sem turgidez); e 0 = péssimo (com sintomas de doença). As notas foram atribuídas para o conjunto de frutos contidos em 3 minicâmaras. Morangos com nota 1 foram considerados impróprios para a comercialização.

A incidência de doença foi quantificada visualmente, avaliando-se 110 frutos por tratamento. Foram considerados doentes os frutos que apresentavam lesões características, com dimensão mínima de 25 mm2. Os resultados foram expressos em porcentagem de frutos afetados.

A firmeza da polpa foi determinada com penetrômetro digital marca Tr-Turoni, Sammar 53200 diretamente na lateral dos frutos com ponteira de 6 mm, e os resultados, expressos em Newton (N).

A coloração externa foi determinada nos dois lados de cada fruto, com colorímetro Minolta, modelo CR-300, e os resultados foram obtidos e expressos em luminosidade, ângulo de cor e cromaticidade, de acordo com McGuire (1992).

Os teores de acidez total titulável e sólidos solúveis totais foram determinados de acordo com AOAC (1997), e o de ácido ascórbico, de acordo com Strocker e Henning (1967). Para estas análises, utilizou-se polpa homogeneizada de 30 frutos.

A atividade respiratória foi determinada utilizando-se de 4 repetições, sendo considerada como repetição uma minicâmara com aproximadamente 1,2 kg de morango. Determinou-se a produção de CO2, pelo sistema aberto. sendo a primeira leitura realizada após 24 horas do início dos tratamentos e posteriormente a cada 2 dias (1; 3; 5; 7 e 9 dias). Foram coletadas amostras de 1,0 mL de gás na entrada e na saída da minicâmara. utilizando-se de seringa modelo Gastight, marca Hamilton de 2,5 mL. Elas foram analisadas em cromatógrafo a gás (Thermofinnigan, modelo GC Trace 2000), com coluna separadora "Porapak N" e detector de ionização de chama (FID). O gás de arraste foi o nitrogênio a um fluxo de 39,1 mL min.-1. As temperaturas mantidas no aparelho foram de 100ºC para a coluna, 100ºC no injetor, 250ºC no detector e 350ºC no metanador. A produção de CO2 foi calculada através da equação descrita por Kays (1991) e expressa em mL CO2 kg-1 h-1.

No preparo das amostras para quantificar os teores de acetaldeído e etanol, amostras de 1g de polpa triturada foram seladas em frascos de 40 mL, os quais foram lacrados e mantidos a -12ºC até o momento da análise. Na mesma amostra, foram quantificados os teores de acetaldeído e etanol. A curva-padrão de acetaldeído foi preparada pesando-se 0,085 g de acetaldeído e completando-se o volume para 400 mL com água deionizada gelada. Desta solução, pipetaram-se 1,0 mL; 10,0 mL e 20,0 mL para balões volumétricos de 100 mL, cujo volume foi completado com água deionizada gelada. Esta solução foi homogeneizada e transferida para frascos herméticos. A curva-padrão de etanol foi preparada pesando-se 0,01 g; 0,14 g e 0,81 g de etanol para balões volumétricos de 200 mL, cujo volume foi completado com água deionizada gelada. Esta solução foi homogeneizada e transferida para frascos herméticos. A determinação dos dois compostos deu-se transferindo 1,0 mL de cada solução-padrão para frascos de 40 mL, onde foram lacrados e mantidos em banho-maria a 50ºC por 30 minutos. Coletou-se 1,0 mL de ar do espaço livre (head space) do frasco, que foi analisado em cromatógrafo a gás. Este procedimento também foi o mesmo adotado para as amostras, após o descongelamento por 1 hora em temperatura ambiente. Os resultados foram expressos em mg de acetaldeído ou etanol por 100 g de material vegetal.

O experimento foi montado através do delineamento inteiramente casualizado, em esquema fatorial 6 x 5. Os fatores foram constituídos pelos períodos de armazenamento (0; 2; 4; 6; 8 e 10 dias) e pelas atmosferas de armazenamento (1; 3; 20; 60 e 90% de O2).

Para as variáveis de qualidade química (teores de acidez total titulável, ácido ascórbico e sólidos solúveis totais), foram utilizadas quatro repetições, com 300 g de morango em cada dia de análise. Para a firmeza e a coloração, foram utilizadas 20 repetições, sendo constituídas de um fruto cada.

Os dados foram submetidos à análise de variância, e as médias foram submetidas à análise de regressão polinomial. Os teores de acetaldeído e etanol e produção de CO2 foram avaliados pelo erro-padrão, em que as diferenças entre as médias de dois tratamentos foram maiores que a soma de dois erros-padrão, foram consideradas significativas (SHAMAILA et al., 1992).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As atmosferas mais ricas em O2 resultaram em melhor qualidade dos frutos, o que é constatado pelas notas superiores de aparência e menor ocorrência de doenças (Tabela 1). O tratamento com 90% de O2 proporcionou aos morangos aparência entre ótima e boa, com manutenção da turgidez, coloração semelhante aos frutos recém-colhidos e apenas 3% de incidência de doenças, seguido pelos frutos, acondicionado com 60% de O2, os quais apresentaram qualidade visual boa, pequena redução no brilho e 6% de podridões, no décimo dia de armazenamento.

As maiores porcentagens de doenças e piores notas de aparência foram observadas nos tratamentos com 20; 3 e 1% de O2, respectivamente, que apresentaram sintomas de podridão já no sexto dia de armazenamento. Estes tratamentos não diferiram entre si, indicando que baixas concentrações de O2 atmosférico (1 e 3%) não apresentam resultado satisfatório na redução de doenças quando comparadas a concentração atmosférica ambiente (20% de O2).

Zheng et al. (2008) relataram resultados semelhantes quando armazenaram morangos em atmosferas com 60; 80 e 100% de O2, a 5ºC, os quais apresentaram baixa incidência de frutos doentes, ou seja, 13,5; 11,2 e 8,3%, respectivamente, enquanto os tratados com composição semelhante da atmosfera natural (20% de O2 + 0,03% de CO2) apresentavam 27,7% de frutos doentes, no décimo quarto dia. Morangos 'Selva' armazenados em atmosfera com 2 e 0,5% de O2, a 5 ºC, apresentaram sintomas de Botrytis apenas no quinto dia de armazenamento, com menor intensidade que o tratamento com 20 % de O2 (HOLCROFT; KADER, 1999).

O mecanismo pelo qual atmosferas com alta concentração de O2 diminuem o desenvolvimento de doenças e ajudam na conservação dos vegetais ainda não foi elucidado. Uma hipótese é que a atmosfera com alta concentração de oxigênio induz o mecanismo de defesa do vegetal, aumentando sua resistência a doenças (ZHENG et al., 2008), como acontece com a resistência induzida para Alternaria alternata em manga submetida a tratamento com dióxido de carbono (PRUSKY et al., 1993). Neste trabalho, observou-se também que atmosferas com altas concentrações de oxigênio diminuíram a incidência de doenças e aumentaram a conservação pós-colheita dos morangos, o que não foi observado naqueles armazenados sob baixas concentrações de oxigênio.

Os morangos tratados com 20; 60 ou 90% de O2 apresentaram atividade respiratória semelhante (entre 21,2 e 22,7 mL CO2 kg-1 h-1). Os frutos mantidos em atmosfera com 1 e 3% de O2 apresentaram produção de CO2 menor que os demais tratamentos, com valores de 11,3 e 15,3 mL CO2 kg-1 h-1, respectivamente (Figura 1). O efeito da baixa concentração de O2 na atividade respiratória foi observado já na primeira avaliação, 24 horas após o estabelecimento da atmosfera controlada, e acentuou-se até o terceiro dia. As atividades respiratórias dos morangos armazenados a 1 e 3% de O2 foram 45,2% e 32,4% menores que o controle, respectivamente.

A redução do oxigênio na atmosfera de armazenamento gera respostas do metabolismo primário e secundário dos vegetais. Entre estas respostas metabólicas, está a redução na atividade respiratória, devido à dificuldade na captação de oxigênio, o que pode afetar o metabolismo do vegetal, com redução no consumo de açúcares solúveis, na síntese e na percepção ao etileno (CHITARRA; CHITARRA, 2005).

As respostas metabólicas dos vegetais acondicionados em altas concentrações de oxigênio são questionáveis, pois ainda há poucos estudos, e estes apresentam diversidade de resultados. Escalona et al. (2006) não encontraram diferenças na produção de CO2 em alface minimamente processada armazenada sob atmosferas com 75 e 20% de O2, a 1 ºC. Wszelaki e Mitcham (2000) estudaram o armazenamento de morango 'Camarosa' a 5ºC, sob atmosferas com 40; 60; 80; 90 e 100% de O2 e observaram que essas condições reduziram a atividade respiratória nos três primeiros dias, porém ao final do armazemento apresentaram atividade respiratória maior que os frutos do controle (20% de O2). Estes autores relataram que as atmosferas com alta concentração de O2 causaram estresse ao morango 'Camarosa'.

As taxas respiratórias encontradas neste trabalho indicam que morangos 'Oso Grande' toleram atmosferas com altos níveis de oxigênio, favorecendo a manutenção da aparência e reduzindo a incidência de doenças. A tolerância dos vegetais aos teores de O2 pode variar com a espécie, variedade e o estádio de maturação (KADER; BEN-YEHOSUA, 2000), o que pode explicar as diferenças entre os resultados relatados na literatura.

As concentrações de acetaldeído e etanol apresentaram aumento depois do quarto dia de armazenamento, para os morangos armazenados com 1 e 3% de O2, sendo que as maiores concentrações foram observadas no final do armazenamento. Os teores de etanol nos frutos armazenados com 1 e 3% de O2, no final do período de armazenamento, foram de 13,1 e de 12,9 mg 100 g-1, enquanto as concentrações de acetaldeído foram de 1,4 e de 1,3 mg 100 g-1, respectivamente (Figura 2). Estas concentrações não causaram odor desagradável aos frutos.

Os morangos acondicionados com 60 e 90% de O2 apresentaram produção de acetaldeído e de etanol semelhante aos frutos armazenados com 20% de O2 (Figura 2). Não se observaram as vantagens teóricas de atmosfera com alto oxigênio em termos de evitar a formação desses compostos (DAY, 1996; AYALA-ZAVALA et al., 2007). Especula-se que esta vantagem possibilitaria associação entre altas concentrações de O2 e de CO2, somando-se os beneficios dos dois gases e proporcionando maior tempo de conservação, sem os efeitos prejudiciais do processo fermentativo (PÉREZ; SANZ, 2001).

O acúmulo de acetaldeído, etanol e acetato de etila é originário da respiração anaeróbica e são os principais causadores dos odores desagradáveis em vegetais. Normalmente, a respiração anaeróbica é induzida quando os morangos são armazenados em baixas concentrações de O2 e/ou altas concentrações de CO2 (SHAMAILA et al., 1992; PÉREZ et al., 1996). Os resultados indicam que morangos 'Oso Grande' não apresentam acúmulo prejudicial de substâncias oriundas da respiração anaeróbica, quando armazenados sob atmosferas com 1 e 3% de O2, na ausência de CO2.Não foi observada diferença significativa entre os tratamentos para a firmeza da polpa. Ocorreu apenas redução linear durante o armazenamento, o que, segundo Chitarra e Chitarra (2005), é devido às mudanças nas estruturas da parede celular, com decomposição de pectinas e celulose, promovendo diminuição nas forças de coesão entre as células. A firmeza dos frutos, neste experimento, foi de aproximadamente 9 N no momento da colheita e 7,5 N no décimo dia de armazenamento (Figura 3 A).

Estes resultados obtidos vão ao encontro daqueles obtidos por Wszelaki e Mitcham (2000), que estudaram morangos 'Camarosa' armazenados a 5 ºC sob atmosferas com 40; 60; 80; 90 e 100% de O2. Estes autores também não observaram efeito dos tratamentos na firmeza dos frutos armazenados por 14 dias.

Quanto à coloração, os morangos apresentaram tendência de redução nos valores da luminosidade e do ângulo de cor, com leve aumento na cromaticidade, durante o armazenamento (Figura 3). Os morangos armazenados com 20% de O2 apresentaram a maior redução na luminosidade (de 39 para 33) (Figura 3 B), e no ângulo de cor (de 30,1º para 24,7º) (Figura 3 C), durante o armazenamento. Entretanto, Zheng et al. (2008) relataram que, no décimo quarto dia de armazenamento refrigerado (5ºC), morangos 'Fengxiang' não tinham diferenças significativas entre as atmosferas controladas (ar; 40; 60; 80 e 100% de O2), para as variáveis luminosidade e ângulo da cor. Os resultados observados nos morangos 'Oso Grande' do tratamento-controle podem ter ocorrido pela temperatura deste trabalho ser o dobro (10ºC) da utilizada por Zheng et al. (2008), o que proporcionou maior velocidade na atividade metabólica e, consequentemente, avanço na senescência, acarretando mudanças na coloração.

As atmosferas de armazenamento com 1; 3 e 20% de oxigênio proporcionaram aos frutos aumento linear na cromaticidade, passando de 28,2 para 31-34 de cromaticidade (Figura 3 D). Em morangos 'Selva', armazenados a 5ºC, sob atmosfera controlada com 0,5 % de O2,observaram-se leve aumento na cromaticidade e pequena redução nos acondicionados com 2 % de O2 e com atmosfera ambiente (HOLCROFT; KADER, 1999).

Apesar de os parâmetros da coloração apresentarem diferenças estatísticas entre os tratamentos, estas diferenças não foram notadas visualmente, cabendo ressaltar que os frutos acondicionados com 20 % de O2 apresentavam menor brilho que os frutos dos demais tratamentos. Outros trabalhos também indicaram que a alta concentração de oxigênio na atmosfera de armazenamento não provocou grandes alterações na coloração externa de morangos (PÉREZ; SANS, 2001; WSZELAKI; MITCHAM, 2000; ZHENG et al., 2007).

O teor de sólidos solúveis totais dos morangos apresentou leve redução durante o armazenamento, com maior intensidade naqueles frutos em ambiente com 20% de O2, que diminuiu em aproximadamente 1ºBrix entre o início do período (7,84ºBrix) e o final do mesmo (6,90ºBrix). No décimo dia, foi observado que os morangos acondicionados com 90% de O2 apresentaram menor teor de sólidos solúveis totais (dados não mostrados).

A variação no teor de sólidos solúveis totais de morangos armazenados em atmosferas com 20; 60 e 90% de O2 é semelhante à relatado por Zheng et al. (2007), quando armazenaram morangos 'Allstar' em ambiente com alto teor de O2, por 14 dias a 5ºC. Entretanto, Zheng et al. (2008) observaram que, no décimo quarto dia de armazenamento refrigerado (5ºC), os morangos 'Fengxiang' mantidos em atmosferas com 80 e 100% de O2 apresentaram maiores teores de sólidos solúveis que os submetidos a ambiente com ar, 40 ou 60% de O2.

Estes comportamentos diferentes podem ser explicados pelas diferenças entre as cultivares de morangos utilizadas, uma vez que os teores de sólidos solúveis podem variar entre espécies, cultivares, estádios de maturação e clima (CHITARRA; CHITARRA, 2005).

O teor de acidez total titulável nos morangos armazenados sob baixas concentrações de oxigênio (1% e 3%) reduziu do valor inicial médio de 0,80% para 0,75% no décimo dia. As atmosferas com pressões parciais de 20; 60 e 90% de O2 proporcionaram aos frutos manutenção dos teores de acidez total titulável, com valores de 0,808 a 0,820 g de ácido cítrico 100 g-1 (Figura 4 A).

Zheng et al. (2007) também observaram que 20; 40; 60; 80 e 100% de O2, na atmosfera de armazenamento, não promoveram diferenças no teor de acidez em morangos 'Allstar', mas com leve redução nesse teor após 14 dias, a 5ºC. No entanto, Holcroft e Kader (1999) observaram que morangos armazenados a 5ºC, sob atmosfera controlada com 0,5% de O2, apresentaram menor acidez titulável que os acondicionados em ambiente com 2% de O2 e ar (20%), após 10 dias de armazenamento.

Os morangos armazenados em ambiente com 60% de O2 mantiveram seus teores de ácido ascórbico em 57,64 mg ácido ascórbico 100g-1 durante o período, enquanto os frutos mantidos sob as demais atmosferas apresentaram redução durante o armazenamento. Os frutos armazenados sob 1 e 3% de O2 apresentaram a maior redução e valores finais de 50,98 e 52,15 mg ácido ascórbico 100 g-1, respectivamente (Figura 4 B).

A redução acentuada no teor de ácido ascórbico nos frutos armazenados com baixo oxigênio pode ser explicada pelo fato de que estes frutos podem ter iniciado o processo de respiração anaeróbica, o que pode ser comprovado pelos maiores valores de acetaldeído e etanol (Figura 2). O ácido ascórbico passaria pelo processo fisiológico conhecido por delactonização, que é a transformação deste em ácido 2,3-dicetogulônico, e assim diminuindo sua atividade biológica (CHITARRA; CHITARRA, 2005).

 

CONCLUSÃO

1-O armazenamento de morangos 'Oso Grande' a 10ºC e 95% UR sob atmosfera controlada com 60 e 90% de O2 promove a ausência de podridões durante seis dias e a manutenção da aparência dos mesmos até o décimo dia.

2-A ausência de aumento na respiração dos morangos armazenados em ambiente com 60 e 90% de O2 e a manutenção das qualidades químicas e físicas dos mesmos demonstram que estas atmosferas são mais apropriadas para conservação de morangos 'Oso Grande' que atmosferas com baixas contrações de oxigênio (1 e 3% de O2).

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 12-01-2011.
Aceito para publicação em: 03-10-2011.

 

 

1 (Trabalho 058-11). Financiamento e apoio FAPESP