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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.34 no.4 Jaboticabal Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-29452012000400010 

COLHEITA E PÓS-COLHEITA HARVEST AND POST

 

Qualidade de caqui 'Rama forte' após armazenamento refrigerado, influenciada pelos tratamentos 1-MCP e/ou CO21

 

Quality of 'Rama Forte' perssimon following cold torage influenced by 1-MCP and/or CO2treatments

 

 

João Peterson Pereira GardinI; LuiZ Carlos ArgentaII; Edson Luiz de SouzaIII; Cesar Valmor RombaldiIV; André Luiz Külkamp de SouzaV

IDr. Fisiologia Vegetal, Pesquisador Epagri Videira. E-mail: joaogardin@epagri.sc.gov.br
IIDr. Fisiologia Vegetal, Pesquisador Epagri Caçador. E-mail: argenta@epagri.sc.gov.br
IIIDr. Ciência e Tecnologia Agroindustrial, Pesquisador Epagri Videira. E-mail: edsonluiz@epagri.sc.gov.br
IVDr. Biologie Moléculaire Végétale, Prof. Titular UFPEL. E-mail: cesarvrf@ufpel.edu.br
VDoutorando Fruticultura, UFPEL. E-mail: andreluizks@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Avaliaram-se os efeitos dos tratamentos com CO2 e 1-MCP (1-metilciclopropeno) sobre a adstringência (índice de tanino), firmeza da polpa e distúrbios da epiderme em caqui 'Rama Forte'. Frutos foram tratados com 1-MCP por 24 h, logo após a colheita e/ou com alto CO2 (70%) por 24 ou 48 h, um dia após a colheita ou após o armazenamento refrigerado (AR). Os caquis foram armazenados sob atmosfera modificada a 0 ºC, por 45 dias, e a seguir mantidos a 23 ºC, por 9 dias. Frutos-controle (não tratados com 1-MCP nem com CO2) amoleceram em três dias e perderam aproximadamente 50% da adstringência em 6 dias após o AR. A exposição ao CO2 acelerou a redução da adstringência. Esse efeito do CO2 foi menor em frutos tratados com 1-MCP, especialmente quando o CO2 foi aplicado após o AR, por apenas 24 h. O tratamento com 1-MCP inibiu o amolecimento e a redução da adstringência, especialmente nos frutos não tratados com CO2. O amolecimento de frutos tratados com 1-MCP foi maior quando a exposição ao CO2 ocorreu antes do AR. A combinação dos tratamentos com 1-MCP e alto CO2 reduziu a incidência de podridões e manchas translúcidas, mas não alterou o desenvolvimento de pintas pretas ('estrias'). Os resultados indicam que é possível induzir perda da adstringência sem excessiva perda da firmeza da polpa de caquis 'Rama Forte' após o AR pela associação dos tratamentos com 1-MCP logo após a colheita e alto CO2 após o AR.

Termos para indexação: Diospyros kaki L., textura, adstringência, distúrbios.


ABSTRACT

This study evaluated the effects of CO2 and 1-MCP (1-methylcyclopropene) treatments on astringency (tannin index), flesh firmness and skin disorders on 'Rama Forte' persimmon. Fruit were treated with 1-MCP for 24 h right after harvest and/or with high CO2 (70% CO2 balanced with air) for 24 or 48 h, one day after harvest or after cold storage (CS). Fruit were stored in modified atmosphere for 45 days at 0ºC and then held at 23ºC for 9 days. Control fruit (untreated with neither 1-MCP nor CO2) softened in 3 days and lost about 50% of astringency in 6 days after CS. The high CO2 exposure enhanced the reduction of astringency. This CO2 effect was lesser on 1-MCP treated fruit, especially when high CO2 was applied after CS, for only 24 h. 1-MCP treatment inhibited fruit softening and the reduction of astringency, especially on fruit not treated with CO2. The softening of 1-MCP treated fruit was greater when the CO2 treatment was applied before CS. The combination of high CO2 and 1-MCP treatments reduced incidence of rots and translucent stains, but did not affect the development of dark 'groove like' skin disorders. The results indicate that it is possible to induce astringency loss without substantial loss of firmness of 'Rama Forte' persimmon by the combination of treatments with 1-MCP right after harvest and high CO2 after cold storage.

Index terms: Diospyros kaki L., texture, astringency, disorders.


 

 

INTRODUÇÃO

Caquis (Diospyros kaki L.) 'Rama Forte', 'Fuyu' e 'Kioto' são os mais cultivados no Sul e Sudeste do Brasil (SATO; ASSUMPÇÃO, 2002). Grande parte do volume de frutos de caqui comercializado no Brasil é de variedades que necessitam da remoção da adstringência, como é o caso das cultivares Rama Forte e Giombo (EDAGI; KLUGE, 2009). Segundo esses mesmos autores, as cultivares adstringentes de caqui apresentam, como principal característica, altos teores de taninos solúveis, responsáveis pela adstringência do fruto, tornando-os impróprios para consumo in natura.

Caquis 'Rama Forte' devem ser artificialmente destanizados antes de seu consumo. O processo de destanização (remoção da adstringência) consiste em induzir a polimerização (oxidação) das moléculas de tanino, tornando-as insolúveis e, consequentemente, incapazes de reagir com as proteínas da saliva, causando a adstringência (KITAGAWA; GLUCINA, 1984; EDAGI; KLUGE, 2009).

Existem diversos métodos artificiais de indução da destanização de caquis, incluindo a exposição dos frutos ao etileno, ao álcool etílico ou a ambiente anóxico (EDAGI; KLUGE, 2009). Munõz (2002) estudou as concentrações de 0;15; 30; 50; 70 e 90% de CO2, durante os períodos de exposição de 24; 48 e 72h, e concluiu que somente frutos expostos a 70 e 90% de CO2 perderam completamente a adstringência, independentemente do tempo de exposição. Este autor cita ainda que a destanização com vapores de álcool é pouco usada para a cultivar Rama Forte, pois são desconhecidos alguns fatores, como a concentração de etanol na atmosfera, tempo e temperatura necessários para destanização dos frutos.

Esses métodos, entretanto, não inibem o amolecimento de polpa e, com isso, há redução do potencial de distribuição e comercialização dos frutos. Uma alternativa para manter a polpa da fruta firme é o uso do inibidor da ação do etileno 1-MCP (1-metilciclopropeno). Caquis 'Fuyu' tratados com 625 ppb de 1-MCP mantiveram a firmeza da polpa em relação ao controle (frutas não tratadas) por até 40 dias de armazenamento refrigerado (GIRARDI et al., 2007). Trabalhando com a cultivar Quioto, Blum e Ayub (2009),eles afirmam que o 1-MCP foi eficiente para manter a firmeza e o desenvolvimento da coloração da casca do fruto, evidenciando sua eficiência em retardar o amadurecimento de frutos de caqui.

A qualidade de caquis 'Rama Forte' também pode ser depreciada pelo desenvolvimento de danos fisiológicos ocasionados pelo armazenamento refrigerado e atmosferas com altas concentrações de CO2. Argenta et al. (2009) relatam que os principais distúrbios que se desenvolveram na casca dos frutos da cultivar Fuyu foram as manchas translúcidas, superfície translúcida, 'estrias', manchas pretas deprimidas e manchas pretas não deprimidas. Ainda, Hribar et al. (2000) relatam que quando as condições de anaerobiose são mantidas por longo tempo, os danos no fruto podem resultar em escurecimento da casca e/ou da polpa.

Neste trabalho, foram avaliados os efeitos da combinação dos tratamentos com 1-metilciclopropeno (1-MCP) e alta concentração de CO2 (70%) como procedimento para a destanização e a conservação da firmeza da polpa de caqui 'Rama Forte' após o armazenamento refrigerado.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Frutos colhidos em 2007, num pomar do município de Fraiburgo-SC, foram expostos aos tratamentos AR (Armazenamento Refrigerado, temperatura de 0±1 ºC, umidade relativa de 77±7%, por um período de 45 dias), com 1-MCP a 450 uL.L-1 (por 24 h, antes da AR) e/ou CO2 a 70% (por 24 ou 48 h, pré ou pós AR), e os efeitos foram estudados sobre as alterações da adstringência, firmeza da polpa e desenvolvimento de distúrbios da epiderme de caqui 'Rama Forte'.

O delineamento foi o inteiramente casualizado, com 4 repetições, com 20 frutos por parcela. Os tratamentos foram: Controle*= Armazenamento refrigerado (AR) à temperatura 0±1 °C e umidade relativa de 77±7%, por um período de 45 dias; MCP= Tratamento com 1-MCP na concentração de 450 uL L-1 ,seguido de AR; CO224h préAR= Tratamento com CO2 a 70%, por um período de 24 horas, antes da AR; CO248h préAR= Tratamento com CO2, por um período de 48 horas, antes da AR; MCP+CO224h préAR= Tratamento com 1-MCP + CO2 por 24 horas antes da AR; MCP+CO248h préAR= Tratamento com 1-MCP + CO2 por 48 horas antes da AR; MCP+CO224h pósAR= Tratamento com 1-MCP + AR + CO2 por 24 horas após a AR; MCP+CO248h pósAR= Tratamento com 1-MCP + AR + CO2 por 48 horas após a AR. Os frutos foram analisados aos 1;3; 6 e 9 dias a 23 ºC após a retirada dos mesmos do armazenamento a 0±1 ºC, 77±7% UR por 45 dias. Os dados foram submetidos à análise de variância, e as médias dos tratamentos, comparadas pelo teste de Tukey (P≤0,05).

Os frutos foram tratados com 450 uL.L-1 de 1-MCP em câmaras herméticas de 1 m3, por 24 horas, sob temperatura ambiente (25 ºC), um dia após a colheita. O 1-MCP gasoso foi gerado, misturando-se EthylBlokTM (AgroFresh Inc.) e água num frasco de 150 mL e bombeado à câmara de tratamento em sistema fechado, por um período menor que 15 minutos. A concentração de 1-MCP no ar das câmaras de tratamento foi determinada por cromatografia gasosa, usando-se gás 1-MCP (AgroFresh Inc., PA, USA) como padrão (ARGENTA et al., 2003). A exposição dos frutos à atmosfera enriquecida com CO2 (70% de CO2 + 6,3% de O2) foi realizada em câmara hermética de 1 m3. Os frutos foram armazenados a 0±1 °C, sob atmosfera modificada (AM) induzida por bolsas plásticas (polietileno de baixa densidade de 0,08 mm de espessura), por 45 dias.

As análises da firmeza de polpa, índice de adstringência e de distúrbios da epiderme foram realizadas na colheita e após os tratamentos, aos 1; 3; 6 e 9 dias a 23±1 °C. A firmeza da polpa instrumental foi medida com penetrômetro de mesa eletrônico, usando ponteira de 8 mm, enquanto a firmeza subjetiva foi analisada pelo tato das mãos para identificar os frutos firmes (escore 1), firmes com consistência plástica ('emborrachado', escore 2), levemente moles (escore 3) e totalmente moles (escore 4).

Frutos firmes eram aqueles duros, que não poderiam ser amassados pela pressão das mãos nem facilmente rompidos (rasgados) pela inserção dos dedos polegares na região do cálice. Frutos com consistência plástica eram firmes, mas com textura 'emborrachada' (fruto murcho sem sintoma visual). Esses frutos poderiam ser levemente amassados pela pressão das mãos, mas a forma do fruto era reestabelecida ao liberar a pressão, semelhante ao que ocorre ao se pressionar uma laranja ou tomate maduro com as mãos. Frutos levemente moles poderiam ser rompidos pela pressão dos dedos polegares na região do cálice. Esses frutos apresentavam sintomas de amolecimento da polpa, embora a casca (epiderme) estivesse relativamente firme ('grossa'). A epiderme desses frutos não era rompida pela queda dos frutos a uma altura de 30 a 40 cm. Frutos completamente moles apresentavam polpa aquosa e translúcida e casca frágil ('fina'). A casca desses frutos era facilmente rompida pela queda dos frutos a uma altura de 30 a 40 cm.

O teor de tanino solúvel foi determinado de acordo com o método de Gazit e Levi (1963), descrito por Vitti (2009). O índice de adstringência de cada fruto foi determinado com base no teor de tanino numa escala de 1 a 5, sendo que frutos não adstringentes, menos de 6% da secção transversal do fruto impressa no papel de filtro pela reação do tanino com FeCl3 (escore 1); ligeiramente adstringente, 6 a 20% da secção transversal do fruto impressa no papel de filtro pela reação do tanino com FeCl3 (escore 2); frutos moderadamente adstringentes, 21 a 40% da secção transversal do fruto (escore 3); frutos adstringentes, 41 a 70% da secção transversal do fruto (escore 4), e frutos muito adstringentes, mais de 70% da secção transversal do fruto (escore 5).

O desenvolvimento de 'mancha translúcida' (polpa aquosa), 'estrias', 'manchas pretas na casca' e 'podridões' foram identificadas visualmente, e a severidade determinada, dando-se notas de acordo com a área (%) da superfície dos frutos afetada: 1 (ausência de dano); 2 (inicial/leve); 3 (moderada), e 4 (severa).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na colheita, os frutos apresentaram firmeza de 13,8±1,2 lb, máximo índice de tanino (5) e ausência de podridões e distúrbios fisiológicos na casca.

Um dia após o armazenamento refrigerado (45 dias a 0±1 ºC e umidade relativa de 77±7%), frutos da maioria dos tratamentos estavam firmes (>10 lb) (Tabela 1). Após nove dias a 23 ºC, os frutos dos tratamentos MCP, MCP+CO2 24h préAR, MCP+CO2 24h pósAR, MCP+CO2 48h pósAR mantiveram a firmeza de polpa acima do ponto de consumo. No entanto, frutos do tratamento-controle* ou tratados com CO2 sem 1-MCP (CO2 24h préAR e CO2 24h préAR) amoleceram em 3 dias a 23 ºC , após o período de armazenamento refrigerado. Segundo Neves et al. (2004), vários autores afirmam que a firmeza da polpa mínima para consumo recomendada para caquis da cv. Fuyu é de 20N (4,5 lb).

A ação do 1-MCP sobre a manutenção da firmeza da polpa de caquis é comprovada em vários experimentos (BRACKMAN et al., 2003, 2004; GIRARDI et al., 2003; KIM; LEE, 2005). A manutenção da firmeza de polpa de caquis deve-se, segundo Blankenship e Dole (2003), à inibição da ação do etileno, que tem relação direta na promoção da atividade de enzimas de degradação da parede celular como poligalacturonase e pectinesterase. Da mesma forma, a maior conservação da firmeza de polpa de frutos climatéricos submetidos à atmosfera controlada ou modificada está associada à diminuição da taxa respiratória e da produção de etileno (KADER, 2002). Máxima conservação da textura e mínimo desenvolvimento de distúrbios fisiológicos na casca de caquis 'Fuyu' ocorrem pela associação de atmosfera modificada e 1-MCP (ARGENTA et al., 2009).

Neste trabalho, a exposição dos frutos ao CO2 por 48h antes do armazenamento refrigerado causou amolecimento mais rápido dos frutos que a exposição por 24h, quando se fez uso de MCP (Tabela 1). Esse efeito do tempo de exposição ao CO2 sobre o amolecimento dos frutos não ocorreu quando o CO2 foi aplicado após o AR.

Edagi et al. (2009) verificaram aumento temporário na respiração e na produção de etileno em caquis 'Rama Forte' expostos a atmosfera de 70% de CO2 por 12 e 18h. Logo, o amolecimento de polpa em caquis expostos a 48h de CO2 (Tabela 1) poderia ser explicado pelo aumento da taxa respiratória e níveis altos de etileno, o que, possivelmente, induziria a síntese de enzimas pectinolíticas e provocaria tal efeito. De acordo com Taira et al. (1997),a perda de firmeza ocorre pelo aumento da atividade de enzimas que degradam as paredes celulares, tais como a celulase, a pectinametilesterase (PME) e a poligalacturonase (PG).

Segundo Munõz (2002), frutos de caquis 'Rama Forte' expostos a 70 e 90% de CO2 diminuíram significativamente o índice de adstringência em relação à testemunha, apresentando índices de 1,15 e 1,43 (não adstringente) ,respectivamente. Frutos expostos a 50% de CO2 diminuíram o índice de adstringência, entretanto apresentaram valores de 2,70 (moderadamente adstringente). Por sua vez, frutos expostos a 0; 15 e 30 % de CO2permaneceram adstringentes, apresentando índices de 3,85; 3,56 e 3,71, respectivamente.

A máxima firmeza da polpa foi obtida após o AR mais 9 dias a 23 ºC nos frutos tratados com 1-MCP e expostos ao CO2 após o AR. Embora a firmeza seja um dos atributos de qualidade de caqui mais importante, especialmente para reduzir os riscos de perda da produção durante o transporte e a comercialização, os frutos devem estar com o mínimo teor de taninos solúveis que causam a sensação de adstringência na boca do consumidor. Blum e Ayub (2009) concluíram que o 1-MCP foi eficiente em manter a firmeza e o desenvolvimento da coloração da casca do fruto de caquis 'Quioto', evidenciando sua eficiência em retardar o amadurecimento, sendo que a concentração de 0,5 mg L-1 de 1-MCP foi a mais eficaz.

A exposição dos caquis 'Rama Forte' ao alto CO2 (70%) acelerou o processo de destanização nos frutos tratados com 24 ou 48h de CO2, antes do armazenamento refrigerado, com ou sem o uso de 1-MCP, logo no primeiro dia a 23 ºC (Tabela 2). O tratamento MCP inibiu a destanização natural de caquis 'Rama Forte', a qual pode ser observada no tratamento- controle*. A destanização de caquis tratados com 1-MCP e expostos ao CO2 foi mais rápida que aquela de frutos- controle* (não tratados com 1-MCP nem CO2) e dependeu do momento em que os frutos foram expostos ao CO2 (antes ou após o armazenamento refrigerado). Frutos tratados com 1-MCP e expostos ao CO2 antes do AR destanizaram antes de frutos tratados com 1-MCP e expostos ao CO2 após o AR.

Considerando que frutos próprios para consumo devem apresentar índice de adstringência inferior a 2 (ROMBALDI, 1999), os tratamentos com MCP+CO2 24h pósAR e MCP+CO2 48h pósAR só atingiram o índice ideal para consumo após seis dias a 23 ºC. Frutos-Controle* atingiram o índice de adstringência ideal para o consumo após nove dias a 23 ºC, no entanto já haviam perdido a firmeza da polpa. Os tratamentos com MCP+CO2 24h pósAR e MCP+CO2 48hpósAR não foram avaliados no primeiro dia a 23 ºC, pois foram expostos ao CO2 por 24 ou 48h após o AR.

Dos frutos que se mantiveram firmes até o nono dia a 23 ºC, somente aqueles do tratamento com MCP (sem CO2) não perderam a adstringência neste período, novamente indicando a necessidade do uso do CO2 para destanização de frutos de caqui. Aos três dias a 23 ºC, todos os tratamentos com alto CO2 foram eficazes para a redução da adstringência dos frutos. Segundo Vitti (2009), vários autores consideram que a destanização do caqui é eficiente em concentrações entre 70 e 100% de CO2. Em trabalho com a cultivar Rojo Brilhante, aplicando 98% de dióxido de carbono por um período de 24h, foi possível remover a adstringência de caquis e manter a firmeza dos frutos em níveis adequados (SALVADOR et al., 2006).

Utilizando a cultivar Rama Forte, Muñoz (2002) observou grande eficiência na destanização e manutenção da qualidade dos frutos, quando esses foram tratados com 70% de dióxido de carbono durante 12h. Utilizando a mesma cultivar, Vitti (2009) observou grande eficiência na remoção da adstringência, quando os frutos eram tratados com 70 e 80% de gás carbônico durante 12h. Os frutos tratados durante um período mais longo (18h) apresentaram maior perda de firmeza, após 14 dias a 23 °C e 90% de umidade relativa. Da mesma forma, neste trabalho, ocorreu o amolecimento dos frutos tratados com 48h de CO2 (70%) antes do AR, mesmo quando tratados com 1-MCP. Munõz (2002) verificou que os tratamentos com 70 e 90% de CO2 por 48 e 72h promoveram amolecimento da polpa.

De maneira geral, Edagi et al. (2009) recomendam que o processo de remoção da adstringência em caquis 'Rama Forte', no estádio de maturação amarelo, deve ser conduzido com a exposição dos frutos à atmosfera de 70% de CO2 durante 12 ou 18h, o que resultará em pouco ou nenhum fruto adstringente, desde o primeiro dia e com uma firmeza de polpa adequada durante 16 dias, sob temperatura de 23 °C e com umidade relativa de 90%.

Caquis 'Rama Forte' de alta qualidade devem estar firmes, não adstringentes e com ausência de distúrbios fisiológicos. As manchas translúcidas são distúrbios que podem ocorrer em toda a superfície (superfície translúcida) ou como manchas (manchas translúcidas) (ARGENTA et al., 2009), em consequência de danos por frio, as quais aumentam com o tempo de armazenamento, atingindo o máximo quando os frutos são mantidos sob temperatura de 3 a 8 ºC (MACRAE, 1987; SARGENT et al., 1993). Alguns distúrbios ocorrem em caquis expostos ao frio e atmosferas ricas em CO2. Munõz (2002) observou que a exposição de frutos de caquis 'Rama Forte' a 90% de CO2, por períodos superiores a 24h ou a 70% de CO2 por períodos superiores a 48h, produziram altos teores de acetaldeído, o que ocasionou dano de enegrecimento de polpa.

O 1-MCP auxilia na prevenção de manchas translúcidas em caqui 'Rama Forte'. Neste trabalho, frutos tratados com 1-MCP na colheita, sem o uso de CO2 (MCP) ou com uso de 24h de CO2 pré AR (MCP+CO2 24h préAR), não apresentaram mancha translúcida, o mesmo acontecendo com os tratamentos que levaram MCP pós AR (MCP+CO2 24h pósAR e MCP+CO2 48h pósAR) (Tabela 3). Já os tratamentos- Controle*, com CO2 24h préAR e CO2 48h préAR, apresentaram evolução deste distúrbio e aos nove dias a 23 ºC, apresentavam danos severos (Tabela 3). Isso demonstra que o MCP ajuda na prevenção desse distúrbio, e o uso de CO2 por 48h inibe o efeito positivo do MCP na prevenção de danos de manchas translúcidas do caqui 'Rama Forte'. Argenta et al. (2009), trabalhando com caquis 'Fuyu', verificaram efeitos aditivos do 1-MCP na conservação da firmeza e especialmente na prevenção do desenvolvimento de textura gel-firme e manchas translúcidas.

No entanto, nos danos por estrias (Tabela 3), identificadas pela formação de pequenos pontos ou traços pretos (<2mm) alinhados na superfície (epiderme) dos frutos, formando feixes de linhas pontilhadas ou tracejadas ("estrias") (ARGENTA et al., 2009), não se verificou efeito positivo do MCP nem efeito negativo do CO2. Todos os tratamentos apresentaram dano inicial/leve de estrias aos nove dias a 23 ºC. Aparentemente, trata-se de um distúrbio fisiológico, associado a condições pré-colheita, especialmente relacionadas ao microclima (alta umidade relativa do ar, temperatura, frequência de serração e precipitação) e ao manejo do pomar (área foliar e manejo da vegetação nas linhas e entre linhas) (ARGENTA et al., 2009). Não há nenhuma evidência que esse distúrbio possa ser um dano por fitotoxidez (causada por alguma substância química aplicada na pré-colheita), embora não esteja descartada essa possibilidade (ARGENTA et al., 2009).

Não foram observados danos por podridão em nenhum tratamento na saída do AR até os seis dias a 23 ºC (Tabela 4). Segundo Pinto (2009), o 1-MCP associado à utilização de armazenamento a -0,5ºC com 1,0kPa de O2 + 8,0Pa de CO2, por 4 meses, controla a maturação, evita o amolecimento do caqui 'Fuyu', porém, após esse período, ocorre alta incidência de podridão.

Os tratamentos com CO2 48h préAR e MCP+CO2 48h préAR apresentaram dano inicial/leve a moderado de podridão, apenas no nono dia a 23 ºC. Os tratamentos com CO2 24h préAR e Controle* apresentaram dano inicial/leve, e os demais tratamentos não apresentaram dano com podridões (Tabela 4). Aparentemente, a aplicação de 1-MCP após o AR previne danos com podridões até os nove dias a 23 ºC, novamente atestando a importância do uso do 1-MCP na preservação da qualidade pós-colheita de frutas.

Em resumo, os resultados do presente estudo indicam que é possível induzir a destanização de caqui 'Rama Forte' sem o acentuado amolecimento dos frutos após o AR pela associação de inibição da ação do etileno pelo 1-MCP e exposição a altas concentrações de CO2. Adicionalmente, o presente estudo indica que a eficiência da associação dos tratamentos com 1-MCP e CO2 dependem do tempo de exposição e do momento de exposição ao CO2.

 

CONCLUSÕES

1-O tratamento com 1-MCP previne o acentuado amolecimento da polpa de caqui 'Rama Forte' após o armazenamento a 0±1 °C e 77±7% UR, por 45 dias, mesmo quando os frutos são expostos ao tratamento com alto CO2 (70%) para destanização.

2-A destanização de caqui 'Rama Forte' após o armazenamento por 45 dias a 0±1 ºC é inibida pelo 1-MCP em frutos não tratados com 70% de CO2, mas não é totalmente inibida quando os frutos são tratados com 70% de CO2.

3-Para frutos tratados com 1-MCP, os efeitos negativos do alto CO2 sobre o amolecimento da polpa são maiores quando aplicado antes do armazenamento refrigerado.

4-Caquis 'Rama Forte' tratados com 1-MCP logo após a colheita e com CO2 após o armazenamento refrigerado perdem menos de 30% da firmeza e mais de 70 % do teor de taninos durante 45 dias a 0±1 ºC mais 9 dias a 23 ºC.

5-O 1-MCP auxilia na prevenção de manchas translúcidas em caqui 'Rama Forte' sob atmosfera refrigerada, e esse efeito pode ser inibido pelo uso prolongado (48h) de CO2.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 02-08-2011.
Aceito para publicação em: 05-09-2012.

 

 

1 (Trabalho 198-11).

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