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Revista Brasileira de Fruticultura

Print version ISSN 0100-2945

Rev. Bras. Frutic. vol.36 no.4 Jaboticabal Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/0100-2945-417/13 

ECONOMIA

 

Comportamento do consumidor de frutas na região da fronteira oeste do Rio Grande Do Sul com Argentina e Uruguai1

 

Fruit consumer habits in the Rio Grande do Sul border with Argentina and Uruguay

 

 

Roseli de Mello FariasI; Caroline Farias BarretoII; Renan Ricardo ZandonáII; Jessica Pedroso RosadoIII; Carlos Roberto MartinsIV

IEngenheira Agrônoma, MSc. Professora da UERGS. E-mail roseli-farias@uergs.edu.br
IIEngenheiros Agrônomos, mestrandos da UFPel. E-mails: carol_fariasb@hotmail.com; renan_zandona@hotmail.com
IIIAcadêmica do Curso Superior em Tecnologia em Agropecuária Integrada/UERGS. E-mail: pedroso.jessica@yahoo.com.br
IVEngenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador da Embrapa Clima Temperado. E-mail carlos.r.martins@embrapa.br

 

 


RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo identificar o perfil do consumidor, caracterizar a frequência, os principais hábitos de consumo de frutas e analisar os fatores que interferem no consumo da população residente na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul com Argentina e Uruguai. Foi realizada em 2012 uma pesquisa de caráter exploratório, transversal e de base populacional, constituindo-se na aplicação de questionários à população residente nos municípios de Uruguaiana, Itaqui, São Borja e Santana do Livramento. A mostra foi constituída de 400 consumidores entre as quatro cidades estudadas. Os resultados indicam que apenas 1/3 dos entrevistados consomem frutas diariamente, sendo o consumo mais frequente entre as mulheres. O local preferencial de compra das frutas para consumo ocorre em supermercados. Dentre os motivos que levam as pessoas a consumirem frutas, destaca-se a distinção da fruta como um alimento saudável, sendo a aparência o critério mais adotado na escolha das frutas. As principais frutas consumidas pelos entrevistados na região são as bananas, maçãs, laranjas, mamões e mangas, respectivamente. A redução do preço, a criação do hábito e a melhoria da qualidade das frutas são os fatores preponderantes para que ocorra aumento do consumo de frutas nesta região.

Termos para Indexação: Perfil consumidor, fruticultura, qualidade, alimento.


ABSTRACT

This study aimed to identify the consumer profile, to characterize the frequency and the main fruit consumption habits, as well as to analyze the factors that affect the consumption of the resident population of the West regions of the state of Rio Grande do Sul in the border with Argentina and Uruguay. An exploratory survey was conducted in 2012, using a transversal and population-based approach, constituting in questionnaire application to people living in the border cities of Uruguaiana, Itaqui, São Borja and Santana do Livramento. The survey was composed of 400 consumers living in the four cities studied. The results indicate that only one third of the interviewees consume fruit daily being consumption more frequent among women. Fruits for human consumption are mainly bought in supermarkets. Among the reasons influencing fruit consumption stands out the distinction of fruit as a healthy food, and appearance is the most adopted criterion to choose the fruit. The main fruits consumed by interviewees in the region are bananas, apples, oranges, papayas and mangos, respectively. Price reduction, habit creation and improved fruit quality are important factors for the increasing consumption of fruits in this region.

Index terms: consumer profile, Fruitculture, quality, food.


 

 

INTRODUÇÃO

As mudanças comportamentais e os estilos de vida têm sido percebidos com maior frequência na sociedade brasileira, graças à conscientização da necessidade de se obter melhor qualidade de vida pela alimentação saudável. Tais constatações são reflexos da mudança do perfil socioeconômico da população, atribuídos essencialmente à melhora da renda e educação (SOUZA et al., 2008; CRUZ; SCHNEIDER, 2010).

Estratégias de incentivo ao consumo de frutas, juntamente com legumes e verduras (FLVs) tornaram-se uma prioridade em saúde pública em vários países (CAMPOS et al., 2010; CANDEIAS et al., 2010). Embora o consumo de frutas a nível mundial e brasileiro venha evoluindo ao longo dos anos, há um consenso global sobre a necessidade de se aumentar o consumo regular de frutas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta como fator determinante na composição de uma dieta saudável da população o consumo frequente de frutas. Estima-se que o baixo consumo de frutas e de verduras cause cerca de 2,7 milhões de mortes a cada ano e está entre os 10 maiores fatores de risco que contribuem para a mortalidade das pessoas (GOMES, 2007; FIGUEIREDO et al., 2008; HALL et al., 2009).

O consumo elevado de FLVs associa-se à redução do risco de doenças cardiovasculares e da mortalidade geral. O baixo consumo de frutas coopera com o aparecimento de certas doenças como no caso de problemas cardíacos, de câncer, acidente vascular cerebral, em todo o mundo. Estimativas da OMS apontam evidências convincentes de que o consumo de FLVs também diminui o risco de diabetes e obesidade. Grande parte dessas doenças poderia ser evitada com a ingestão mínima de frutas recomendada pela OMS, de no mínimo de 400 g de frutas e hortaliças diariamente, equivalentes a 146 kg/ano (HALL et al., 2009; JAIME et al., 2009).

No Brasil, estes índices estão longe de serem alcançados, apesar de ser a terceira maior nação produtora de frutas, o consumo per capita brasileiro está em torno 57,0 kg/ano, o consumo está abaixo de outros países como a Espanha (120,1 kg/ano), a Itália (114,8 kg/ano), a Alemanha (112 kg/ano), a Holanda (90,8 kg/ano), o Canadá (81 kg/ano), os Estados Unidos (67,4 kg/ano) e o Japão (61 kg/ano) (TIBOLA; FACHINELLO, 2004; PEREIRA et al., 2009).

Na região Sul do Brasil, estima-se que o consumo per capita de frutas esteja 40% acima da média nacional, que juntamente com legumes e verduras se sobressaem às demais regiões do País (JAIME et al., 2009). Entretanto, em algumas regiões do Estado do Rio Grande do Sul, como a região de fronteira com Argentina e Uruguai, que têm tradicionalmente como base de sua alimentação a ingestão alta de gorduras saturadas advindas do consumo frequente de carnes vermelhas, compartilhada, ainda, pelo hábito de não consumir alimentos crus, como os FLVs, podem não corresponder a tais estimativas.

São poucas as iniciativas em estudar as preferências e hábitos de consumo de frutas no Brasil, principalmente em regiões fronteiras, o que eleva a importância em caracterizar o comportamento de consumo de frutas nestas regiões. Tais constatações possibilitarão reconhecer que determinadas assertivas permitam uma avaliação e planejamento dos setores envolvidos tanto de produção quanto de comercialização de frutas. Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo caracterizar a frequência, os principais hábitos de consumo de frutas bem como analisar fatores de consumo da população residente em Uruguaiana, Itaqui, São Borja e Santana do Livramento, municípios da fronteira do Rio Grande do Sul, Brasil, com Argentina e Uruguai.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa realizada empregou uma metodologia de caráter exploratório, transversal e de base populacional. Este tipo de pesquisa busca estudar populações utilizando plano amostral, com o objetivo de evidenciar a incidência relativa, a distribuição e/ou a inter-relação de variáveis e quantificá-las de maneira que permitam a investigação de dependência entre as variáveis estudadas (SOUZA et al., 2008). O propósito deste tipo de pesquisa é estudar o comportamento de consumo de frutas, via coleta de informações quanto à frequência e hábitos de consumo, através do emprego de questionários de livre adesão por parte dos consumidores urbanos da região da fronteira do Rio Grande do Sul, Brasil, com Argentina e Uruguai, no período de março a julho de 2012.

A metodologia empregada consistiu na aplicação de questionários a uma amostra da população residente nos municípios de Uruguaiana com população estimada de 125.209 habitantes, de Itaqui com 37.916 habitantes, de São Borja com 61.189 habitantes e Santana do Livramento com 81.198 habitantes, todos esses municípios pertencentes à região da fronteira do Rio Grande do Sul com Argentina e Uruguai. No total, portanto, a população- alvo da pesquisa compreende um universo de 305.512 habitantes. Foram realizadas entrevistas com 100 consumidores, em cada município, com pessoas de idade superior a 18 anos, de diferentes classes sociais e sexo. A dimensão da amostragem compreende um universo de aproximadamente 0,15% da população dos municípios, determinada de forma exploratória simples e aleatória, tendo-se adotado uma amostra não probabilística, que pela operacionalidade funcional do trabalho se limitou a 400 entrevistados. Desta forma, os resultados evidenciados neste estudo limitam-se a traduzir a amostra da população explorada, sendo o fator limitante da pesquisa.

O plano de amostragem estratificado de pesquisa seguiu o procedimento de abordar consumidores ao acaso, nos ambientes de compras de frutas, previamente selecionados, como supermercados, feiras, ambientes de concentração de pessoas, que ao acaso representassem a cidade para evitar viés da amostra, exceto aqueles com incapacidade mental ou física severa que os impedisse de responder ao questionário. Para isso, foi elaborado um instrumento de entrevista, composto de um questionário do tipo semiestruturado.

Os questionamentos utilizados nas entrevistas foram avaliados quanto a sua pertinência e aplicação, com estudantes do curso Superior de Tecnologia em Sistemas Agropecuários da Universidade do Estado do Rio Grande do Sul, no município de São Borja. O questionário constituiu de 10 questões focadas em dois segmentos: uma primeira parte, que buscou caracterizar o perfil do consumidor, como idade, renda, grau de escolaridade e sexo; a segunda parte levantou características comportamentais do consumidor, como o estabelecimento preferencialmente utilizado para adquirir as frutas, motivo da compra, frequência de consumo, frutas consumidas e a definição de qualidade de frutas para o consumo. A formulação do questionário teve o intuito de abranger uma avaliação do comportamento de escolha e compra de frutas que resulta na interação de três fatores: o alimento (aparência, valor nutricional, sabor), o consumidor (aspectos culturais, renda, escolaridade) e a situação (locais de compra, frequência de consumo e motivo da compra).

Foram incluídos no estudo os adultos que se dispuseram a participar voluntariamente, após obtenção de consentimento verbal dos participantes, assegurando aos entrevistados o total sigilo do estudo e informando a importância da pesquisa de que participava.

Os dados coletados foram objetos de um processo de conferência para corrigir eventuais falhas de registro, de digitação, tabulação, de cujas tabelas foram obtidas as estimativas. Os números levantados foram transformados em frequências relativas, inferidas sobre um caráter e/ou correlacionados entre os diferentes pontos levantados, sendo esses os elementos utilizados para as interpretações. Utilizou-se a estatística de qui-quadrado para verificar a ocorrência de heterogeneidade entre as variáveis, considerando valores de probabilidade significativa de p<0,05. A análise estatística do estudo foi realizada com o auxílio do programa BioEstat versão 5.0.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Constatou-se, com base na descrição dos entrevistados, uma distribuição igualitária na questão de gênero, ou seja, houve uma proximidade entre indivíduos do sexo masculino (47,25%) e feminino (52,75%), sendo que aproximadamente 2/3 dos indivíduos tinham entre 21 e 50 anos de idade, como pode ser constatado pelo somatório da representação dos grupos de maior expressão, ou seja, pela idade de 21 a 30 anos com 26,75 %; idade de 31 a 40 anos com 29 %, e 41 a 50 anos com 19,50 % da amostragem (Tabela 1). O nível econômico mais frequente, representado pela renda familiar, foi de mais da metade dos entrevistados com renda de até 2 salários mínimos, considerando o somatório do agrupamento de um salário (26,25 %) com até 2 salários (32,50 %) da amostragem. O grau de escolaridade dos indivíduos foi em sua maioria com Ensino Médio completo (30%) e Superior incompleto (24,25%). De acordo com alguns estudos (NEUTZLING et al., 2009; HOOPER et al., 2006; ASSUNÇÃO et al., 2012), estas características constatadas demonstram potencialmente serem influenciados quanto ao hábito de consumir frutas pelo acesso a informações nos mais diversos segmentos de orientação e, ainda, por valores socioculturais, fatores psicológicos, condição financeira familiar, hábitos alimentares, disponibilidade de alimentos, imagem corporal e influência exercida pela mídia.

A frequência de consumo de frutas relacionado ao gênero demonstrou existir relação nos indivíduos entrevistados em todos os municípios (Tabela 2). Verificou-se que os indivíduos que consomem frutas diariamente são, predominantemente, do sexo feminino em todos os municípios. Esta supremacia ocorre ainda na frequência de consumo de frutas de uma a duas vezes por semana. De maneira geral, constatou-se, no somatória da região, que 37,75% dos entrevistados relataram consumir frutas diariamente, seguido de 33,75% dos indivíduos que consomem frutas uma ou duas vezes por semana. Ressalta-se que o consumo de frutas ao menos uma vez ao dia foi preponderante nos municípios estudados, à exceção daqueles indivíduos do sexo masculino de Santana do Livramento, onde a frequência de consumo de frutas é de uma ou duas vezes por semana.

Em estudos realizados em Florianópolis (SC), São Paulo (SP) e Pelotas (RS), constatou-se que a frequência de consumo de frutas, legumes e verduras foi maior entre as mulheres e, ainda, para ambos os sexos, verificou-se que a frequência desse consumo aumentava de acordo com a idade e a escolaridade do indivíduo (FIGUEIREDO et al., 2008; NEUTZLING et al., 2009; CAMPOS et al., 2010). Em um trabalho realizado por Trevisan et al. (2010) com consumidores de pêssegos, em três municípios do RS, identificou-se que o número de consumidores do sexo feminino foi maior que o do sexo masculino: 63% em Pelotas, 52% em Santana do Livramento e 62% em Porto Alegre, indicando, ainda, que a mulher é a maior responsável pela compra de frutas na família. De acordo com Neutzling (2009), existe uma unanimidade por parte dos estudos no mundo que demonstram serem as mulheres as maiores consumidoras de frutas, legumes e verduras.

É importante ressaltar que 6,75 % dos entrevistados da região relataram que consomem frutas com frequência de duas a três vezes por mês, sendo em sua maioria pertencentes ao sexo masculino (70%) e com idade inferior a 30 anos (68%). A frequência de consumo variou com a faixa etária, em todas as cidades (Figura 1). Nos municípios de Itaqui e Uruguaiana, os entrevistados das faixas etárias entre 31 e 60 anos predominaram na afirmação de consumir frutas diariamente, o que ocorreu na faixa etária entre 31 e 50 anos para os residentes em São Borja. Em Santana do Livramento, ocorreu a supremacia da frequência de consumo de frutas de uma a duas vezes por semana em todas as faixas etárias.

Algumas regiões do Estado do Rio Grande do Sul, como na Metade Sul do RS, especificamente na região de fronteira, têm tradicionalmente como base de sua alimentação a ingestão alta de gorduras saturadas advindas do consumo frequente de gordura em carnes vermelhas, compartilhada pelo hábito de não consumir alimentos crus, como frutas e verduras (ASSUNÇÃO et al., 2012). Em estudo realizado com a população Uruguaia, constatou-se o baixo consumo de frutas nos indivíduos com idade inferior a 30 anos, mas a maioria consome frutas de 3 a 4 vezes por semana (HALL, 2009). Castañola et al. (2004), pesquisando o comportamento dos adolescentes da área metropolitana de Buenos Aires, Argentina, verificaram que aproximadamente 70% dos adolescentes não ingeriam porção alguma de hortaliças e frutas, e que cerca de 28% deles consomem de uma a duas porções ao dia.

Esta situação também se observa nos municípios de fronteira a estes países. Apenas 1/3 dos entrevistados nos municípios da fronteira com Uruguai e Argentina consomem frutas diariamente, sendo que as mulheres possuem mais este hábito do que os homens. Estes dados evidenciam a necessidade da promoção de campanhas de incentivo a maior ingestão de frutas como forma de melhorar as condições de saúde da população fronteiriça e, ainda, da potencialidade que o aumento de consumo de frutas poderá propiciar no desenvolvimento regional, seja pela comercialização, seja pelo incentivo à produção local.

Não ocorreu uma relação significativa entre motivo de compra e gênero, independentemente da cidade pesquisada (Tabela 2). Além disso, não houve uma associação significativa entre motivo de compra de frutas e renda dos entrevistados (Figura 2), bem como o nível de escolaridade dos indivíduos, independentemente do município analisado. Porém, pode-se destacar que, no somatório geral da região, os indivíduos alegaram que a razão principal de consumirem frutas decorre do fato de considerarem a fruta como um alimento saudável (51,75%). Outros parâmetros afirmados pelos indivíduos para consumirem as frutas são o fato de considerá-las como alimento nutritivo (18%) e também pelo prazer (sabor) de consumi-las (12,50%). Em estudo realizado no interior do Estado de São Paulo, os parâmetros afirmados como as razões para o consumo de frutas estão ligados ao sabor, à saúde e à qualidade da fruta e, ainda, ao local onde são adquiridas, além do preço, influenciam muito na hora da compra (PEROSA et al., 2012). Trevisan et al. (2010) constataram em Pelotas, Porto Alegre, e Santana do Livramento, que os entrevistados compram frutas, como o pêssego, por considerá-lo uma fruta saborosa. Esta constatação quanto aos fatores motivadores ao consumo de frutas ocorre em todos os municípios estudados. Nestes critérios alegados pelos entrevistados, houve uma contundência de respostas, aproximadamente 90% naqueles indivíduos que possuíam, em seu grau de escolaridade, o Ensino Médio completo e o Superior incompleto. Neutzling et al. (2009) destacam que dentre os fatores socioeconômicos, o nível educacional e a renda familiar são determinantes na maior ou menor ingestão de frutas.

A maioria dos consumidores da região pesquisada (82,25%) tem optado em adquirir frutas em supermercados, seguido de feiras livres e mercearias (pequenos mercados de bairro), independentemente do município. A preferência pela compra em supermercados acontece por ambos os sexos (Tabela 2), independentemente da renda obtida (Figura 3), grau de escolaridade e cidade avaliada. Souza et al. (2008) indicaram que, nos principais centros urbanos da região central do Estado do RS (Santa Maria e Cachoeira do Sul), a maioria dos consumidores (59,77%) tem optado por adquirir os produtos em supermercados, seguidos das fruteiras e feiras livres. Trevisan et al. (2010) verificaram que os consumidores de pêssegos, em Santana do Livramento e Pelotas, no Estado do RS, preferem a feira livre, enquanto em Porto Alegre os consumidores compram em supermercados. O crescimento das redes de supermercados alcançados no mundo inteiro tem-se aproximado da população com um grande apelo na preferência de aquisição de alimentos e outros produtos (MARTINS et al., 2007; SOUZA et al., 2008; CRUZ; SCHNEIDER, 2010; ANNUNZIATA; VECCHIO, 2011).

No que diz respeito à relação entre preferência pelo local de compra e a renda, ocorreu uma predileção dos entrevistados pelos supermercados em todas as faixas de renda, não sendo constatadas relações entre as variáveis (Figura 3). O que se observa diferentemente no município de Santana do Livramento em relação aos demais é a semelhança na propensão pelo local de compra de frutas, tanto em supermercados quanto em feiras livres. Também não foram encontradas relações entre nível de escolaridade e local preferencial de compra, independentemente do município pesquisado.

Os critérios de qualidade adotados pelos consumidores no momento da escolha para comprar as frutas se traduzem em aproximadamente 48%, na média dos municípios, no quesito da aparência geral das frutas, com 34% dos entrevistados que optam pela compra de frutas por serem novas e/ou frescas e, ainda 12% adquirem frutas sem que as mesmas apresentem danos, como amassamento e/ou machucaduras. Constata-se que os critérios entre os municípios apresentaram a mesma tendência no estabelecimento de qualidade para o consumidor, ou seja, frutas que tenham boa aparência com aspectos de produto novo e fresco e sem apresentar danos (Figura 4). Com relação ao gênero, constatou-se que as mulheres atribuem maior importância aos critérios de aparência (85%) e fruta fresca/nova (92%) do que os homens (Figura 5). De maneira geral, a observação destes critérios independe da idade, grau de escolaridade e renda familiar. Em estudo conduzido na região central do Estado do RS, pesquisadores constataram que o aspecto considerado mais importante para escolha de frutas, legumes e verduras foi a aparência dos produtos, seguido pelo sabor que os consumidores imaginavam que os mesmos possuíam (SOUZA et al., 2008).Devido ao crescente impulso dos meios de comunicação e campanhas sobre uma vida mais saudável, os consumidores estão mais bem informados e, portanto, mais exigentes com relação à qualidade e à inocuidade. As respostas dessa questão corroboram a tendência de cada vez mais valorizar a qualidade, para a definição de compra dos produtos. E todos os critérios considerados remetem a atributos intrínsecos de qualidade, como a aparência, os aspectos de frutas novas/frescas, firmes, sem danos e frutas manchadas condizem com aspectos externos de qualidade. Souza et al. (2008) consideram ainda que os critérios devam extrapolar para o sabor, aspectos nutricionais e de durabilidade com itens qualitativos decisivos para o momento da compra.

Com relação às frutas mais consumidas na região, o estudo procurou identifica-las, sem critérios de direcionamento das respostas, sendo apresentados os resultados obtidos durante a pesquisa na Figura 6. De maneira geral, observa-se que não há grandes diferenças no padrão comportamental dos consumidores entre as cidades avaliadas. As frutas mais consumidas pelos entrevistados foram, em ordem decrescente: a banana, a maçã, a laranja, o mamão e a manga. As demais frutas foram citadas pelos entrevistados apresentando diferentes níveis de consumo e preferência, dependendo do município avaliado. Este resultado é semelhante ao encontrado em estudos conduzidos em outros locais, como a região Sudeste, que apresenta como principais frutas consumidas: a banana, laranja, maçã e mamão (PEROSA et al., 2012). Diferentemente desta região, o consumo de maçã nos municípios estudados supera o de laranja. Cazane et al. (2010) também observaram comportamento semelhante em município de Tupã-SP. Perosa et al. (2012) constataram que o consumo de maçãs está abaixo do da laranja, porém já superou outras frutas mais tradicionais da região Sudeste, como abacaxi e mamão. De acordo com estes pesquisadores, a tendência de maior consumo de maçãs deve-se a presença constante destas frutas em locais de venda durante todo o ano (não havendo entressafra), preços acessíveis e praticidade de consumo. Souza et al. (2008) identificaram como fator condicionante ao consumo de frutas, verduras e legumes ao oferecimento de modo contínuo em locais de venda.

De acordo com os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, a região Sul do Brasil é a que mais consome frutas. Junto com a banana e a laranja, o consumo de melancia e de maçã vem crescendo em todo o Brasil. Estas frutas são as mais populares, relativamente baratas frente às demais, disponíveis praticamente todo o ano e encontradas na maioria dos estabelecimentos do País. São frutas que agradam e são acessíveis a todas as classes de renda, no mundo inteiro.

Outro questionamento realizado aos entrevistados foi o que poderia levá-los a aumentar o consumo de frutas em sua vida. Neste quesito, as perguntas davam-se de maneira a admitir o maior grau de importância. Constata-se que houve uma supremacia das respostas atribuindo à redução de preço das frutas, criar o hábito de consumi-las e a melhoria da qualidade das frutas como fatores condicionantes ao aumento de consumo, independentemente do município avaliado (Figura 7). Destaca-se também a importância de atribuir às frutas o caráter de melhorar a saúde do consumidor como fato de aumento do consumo. Estas informações quanto ao preço são confirmadas pelos estudos de Galeskas et al. (2012), que constataram uma correlação entre aumento do consumo de frutas e o aumento de renda, haja vista que em todas as regiões brasileiras o aumento de consumo de frutas esteve atrelado ao aumento do poder econômico.

Embora os resultados obtidos com esta pesquisa representem limitadamente uma amostra de 400 indivíduos da população dos municípios de Itaqui, São Borja, Santana do Livramento e Uruguaiana, permitem compreender a necessidade de incrementar ações que estimulem o consumo de frutas nesta região, como ações que estimulem o cultivo e a produção de frutas na região bem como propiciar melhor acondicionamento pós-colheita das frutas que permitam melhorar a qualidade dos produtos a serem oferecidos. A maior diversificação de comercialização, como o incentivo de feiras livres, é o contato direto com o produtor. Estes dados ostentam a necessidade da promoção de campanhas de incentivo à maior ingestão de frutas, principalmente dos jovens, como forma de melhorar as condições de saúde da população fronteiriça e, ainda, da potencialidade que o aumento de consumo de frutas poderá propiciar no desenvolvimento regional, seja pela comercialização, seja pelo incentivo à produção local.

 

CONCLUSÕES

Apenas 1/3 dos consumidores da fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina e o Uruguai possuem o hábito de consumir frutas diariamente, sendo maior nas mulheres do que nos homens.

Os motivos dos consumidores que levam ao consumo de frutas ocorrem por considerar a fruta como um alimento saudável, sendo que o local preferencial para aquisição de frutas é o supermercado. Os critérios de qualidade que os consumidores adotam para escolha das frutas são a boa aparência com aspectos de produto novo e fresco e sem danos de machucaduras e amassamento. A redução do preço, a criação do hábito de consumo e a melhoria da qualidade são os fatores preponderantes para o aumento do consumo de frutas.

As principais frutas consumidas na região são as bananas, maçãs, laranjas, mamão e manga, respectivamente.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 17-10-2013.
Aceito para publicaçaõ em: 30-04-2014.

 

 

1 (Trabalho 417-13).

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