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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984On-line version ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.34 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842001000100004 

Artigo Original

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA DAS PATOLOGIAS ACOMETENDO O COMPARTIMENTO ILIOPSOAS*

 

Cristiano Montandon1, Lucimara Maeda1, Susana Trigo Bianchessi1, Fabiano Turi1, Martin Torriani2

 

 

Resumo
Este trabalho tem como objetivo revisar as patologias que acometem o compartimento iliopsoas. Foi realizada análise retrospectiva de casos com acometimento do compartimento iliopsoas avaliados por tomografia computadorizada (TC), no Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, nos últimos dez anos, confirmados por biópsia cirúrgica ou percutânea. Os principais diagnósticos encontrados foram neoplasias, abscessos e hematomas. Os achados tomográficos baseiam-se na extensão do acometimento iliopsoas, no grau de atenuação, margens da lesão, presença de gás e/ou calcificações, destruição óssea, infiltração da gordura e acometimento de estruturas abdominais adjacentes. A TC é o método de escolha na avaliação do compartimento iliopsoas, podendo ser utilizada para orientar biópsias percutâneas, cirúrgicas ou drenagem. Porém, os achados isolados do estudo por TC, sem o conhecimento da história clínica, não são específicos para permitir a diferenciação das diversas patologias que acometem o compartimento iliopsoas.
Unitermos: Músculo iliopsoas. Músculo iliopsoas ¾ tomografia computadorizada. Músculo iliopsoas ¾ patologia.

 

Computed tomography of diseases involving the iliopsoas compartment.

Abstract
Our aim is to review the most common pathologic processes involving the iliopsoas compartment. We retrospectively reviewed the computed tomography (CT) scans performed at the "Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas", in the last 10 years, of patients who presented with abnormalities of the iliopsoas compartment that were confirmed by surgical or percutaneous biopsy. The most common findings involving the iliopsoas compartment included neoplasms, abscesses and hematomas. CT findings were based on the extension of the involvement of the psoas muscle, focal areas of low or high attenuation, lesion margins, presence of gas or calcification within the lesion, bone destruction, infiltration of surrounding fat and involvement of adjacent abdominal structures. CT is the method of choice for the detection of iliopsoas disorders, and its findings can be used to guide diagnostic aspiration, biopsy or drainage, when appropriate. However, the efficacy of CT in differentiating iliopsoas disorders is low when scans are interpreted without knowledge of clinical history.
Key words: Iliopsoas muscle. Iliopsoas muscle ¾ computed tomography. Iliopsoas muscle ¾ pathology.

 

 

INTRODUÇÃO

O compartimento iliopsoas ou retrofascial é um espaço extraperitoneal que contém os músculos psoas maior, psoas menor e ilíaco, recobertos pela fáscia do iliopsoas. Estes músculos se estendem dos processos transversos de T12, vértebras lombares e asa do ilíaco até sua inserção no trocânter femoral menor pelo tendão iliopsoas. Atuam como flexores primários da coxa e do tronco(1).

Muitos processos patológicos acometem o compartimento iliopsoas, incluindo condições inflamatórias, hemorrágicas e neoplásicas. Os métodos de imagem, mais comumente a tomografia computadorizada (TC), são de grande importância no reconhecimento e avaliação da extensão dessas patologias(2,3).

O objetivo deste trabalho é a revisão das patologias que acometem o compartimento iliopsoas, descrevendo os principais achados tomográficos que auxiliam no diagnóstico diferencial e topográfico das lesões.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisados, retrospectivamente, 46 casos com acometimento do compartimento iliopsoas estudados por TC e arquivados no Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, nos últimos dez anos.

As imagens foram obtidas a partir de cortes axiais do abdome, com 10 mm de espessura e 10 mm de intervalo de corte no abdome superior e com 15 mm de espessura e 15 mm de intervalo de corte na pelve, antes e após injeção intravenosa de meio de contraste iodado. Todos os casos foram confirmados cirurgicamente, anatomopatologicamente e/ou citologicamente por aspirado da lesão.

 

RESULTADOS

Dos 46 casos estudados, 12 (26%) tinham origem neoplásica (primária ou secundária); 21 (45%), infecciosa (inespecífica ou específica); e 13 (28%), por hematoma (traumático ou espontâneo).

Radiologicamente, essas patologias apresentam comportamento muito similar. Os principais aspectos tomográficos a serem analisados e que auxiliam no diagnóstico diferencial entre os tipos de lesão incluem(1-4):

¾ Extensão do acometimento muscular (focal ou difuso);

¾ margem da lesão;

¾ densidade e padrão de captação do meio de contraste;

¾ presença de gordura ou calcificação;

¾ associação com linfadenopatia retroperitoneal;

¾ invasão da gordura adjacente;

¾ destruição óssea;

¾ acometimento de outros órgãos abdominais.

 

DISCUSSÃO

Doenças infecciosas

Existem várias causas de infecção do compartimento iliopsoas. Atualmente, a maioria dos abscessos tem origem piogênica inespecífica, por Staphylococcus aureus e microrganismos Gram-negativos, decorrentes da disseminação por contigüidade da doença inflamatória de estruturas adjacentes. A origem pode ser na coluna, em processos como discite e abscesso epidural (Figura 1), nos rins, secundários a pionefrose ou abscesso perinefrético (Figura 2), nas alças intestinais, secundários a apendicite, diverticulite ou doença de Crohn, e no pâncreas, nas pancreatites. Os abscessos primários ocorrem menos freqüentemente e em geral são idiopáticos (Figura 3)(2,4-6).

 

 

 

 

A tuberculose é causa específica de abscesso do compartimento iliopsoas, sendo hoje mais freqüentemente encontrada em pacientes imunodeprimidos (Figura 4), tendo como origem a coluna vertebral (mal de Pott)(2). Outros processos infecciosos específicos mais raros são a brucelose e a paracoccidioidomicose (Figura 5)(6).

 

 

 

Os dados clínicos que favorecem a etiologia inflamatória incluem história de febre e leucocitose.

Os achados tomográficos encontrados nos processos inflamatório-infecciosos são de aumento do volume do psoas por lesões de baixa atenuação, com captação anelar após a administração de meio de contraste. A presença de áreas com densidade de ar, apesar de incomum, favorece o diagnóstico de processo infeccioso. Outros achados incluem obliteração da gordura adjacente e destruição óssea. Calcificações contornando o abscesso ou múltiplas cavidades abscedidas auxiliam no diagnóstico de tuberculose(2-5). A aspiração guiada por TC ou por ultra-sonografia (US) confirma o diagnóstico etiológico.

Doença neoplásica

Neoplasias envolvendo o músculo iliopsoas são comumente secundárias à extensão direta de tumores abdominais e pélvicos, tais como carcinomas ou sarcomas (de cólon, ovário, útero ou trato urinário), de linfonodos acometidos por linfoma (Figura 6), de tumores ósseos pélvicos (Figuras 7 e 8) ou ainda da disseminação hematogênica de neoplasias da mama, do pulmão e melanoma. Neoplasias primárias são mais raras e em geral de origem mesenquimatosa, como os lipossarcomas, os fibrossarcomas, os leiomiossarcomas e os hemangiopericitomas (Figura 9)(2,3,7,8).

 

 

 

 

 

Esses processos transcorrem clinicamente silenciosos ou apresentam-se como massas palpáveis associadas a sintomas inespecíficos, como emagrecimento. A história prévia de neoplasia facilita o diagnóstico.

Os principais achados tomográficos que favorecem o diagnóstico de neoplasia são lesão de margens irregulares, destruição óssea e associação com linfadenopatia retroperitoneal. A biópsia dirigida por TC ou por US pode ser necessária para o diagnóstico. Dentre as neoplasias, os neurofibromas plexiformes benignos se destacam, e os achados tomográficos são suficientes para o diagnóstico específico(9). A demonstração de massas alongadas, bem delimitadas, com baixa atenuação, bilaterais e simétricas, localizadas ao longo das porções mediais e posteriores do músculo iliopsoas caracterizam os neurofibromas plexiformes (Figura 10).

 

 

Doença hemorrágica

Hematomas do músculo iliopsoas podem desenvolver-se espontaneamente, como em pacientes com hemofilia e em terapia com anticoagulantes orais (Figura 11), com aneurisma roto da aorta abdominal (Figura 12) ou secundários a tumores. Além disso, podem ser traumáticos, secundários a trauma abdominal fechado ou iatrogênicos (cirúrgico ou após biópsia) (Figura 13)(1,3,10).

 

 

 

 

Hematomas tendem a envolver o músculo iliopsoas difusamente, apresentando, no exame de TC, aumento difuso de volume e da densidade do músculo. A presença de nível líquido-líquido favorece o diagnóstico de hemorragia. Quando crônicos, podem se apresentar com densidade heterogênea, sendo confundidos com massa necrótica ou abscesso. Nestes casos, o estudo com ressonância magnética pode ser de grande auxílio para o diagnóstico(11).

Miscelânea

Existe ainda uma série de outras condições que também podem comprometer o músculo iliopsoas, tais como a fibrose retroperitoneal, a atrofia muscular e a calcificação secundária a trauma ou rabdomiólise(12).

 

CONCLUSÃO

A TC é o método de escolha na avaliação do compartimento iliopsoas. Alguns achados isolados podem até auxiliar no diagnóstico etiológico, porém não são específicos para permitir a diferenciação entre as diversas patologias. A análise conjunta entre os dados clínicos e os achados de imagem favorecem o diagnóstico correto. O método é ainda importante na programação terapêutica do paciente (biópsia, aspiração ou drenagem das lesões).

 

REFERÊNCIAS

1. Torres GM, Cernigliaro JG, Abbitt PL, et al. Iliopsoas compartment: normal anatomy and pathologic processes. RadioGraphics 1995;15:1285-97.         [ Links ]

2. Donovan PJ, Zerhouni EA, Siegelman SS. CT of the psoas compartment of the retroperitoneum. Semin Roentgenol 1981;16:241-50.         [ Links ]

3. Lenchik L, Dovgan DJ, Kier R. CT of the iliopsoas compartment: value in differentiating tumor, abscess, and hematoma. AJR 1994;162:83-6.         [ Links ]

4. Feldberg MAM, Koehler PR, van Waes PFGM. Psoas compartment disease studied by computed tomography. Analysis of 50 cases and subject review. Radiology 1983;148:505-12.         [ Links ]

5. Ralls PW, Boswell W, Henderson R, Rogers W, Boger D, Halls J. CT of inflammatory disease of the psoas muscle. AJR 1980;134:767-70.         [ Links ]

6. Paley M, Sidhu PS, Evans RA, Karani JB. Retroperitoneal collections - aetiology and radiological implications. Clin Radiol 1997;52:290-4.         [ Links ]

7. Cotran RS, Kumar V, Robbins SL. Robbins pathologic basis of disease. 4th ed. Philadelphia: Saunders, 1989:374-80.         [ Links ]

8. Kenny JB, Widdowson DJ, Carty AT, Williams CE. Malignant involvement of the iliopsoas muscle: CT appearances. Eur J Radiol 1990;10: 183-7.         [ Links ]

9. Bass JC, Korobkin M, Francis IR, Ellis JH, Cohan RH. Retroperitoneal plexiform neurofibromas: CT findings. AJR 1994;163:617-20.         [ Links ]

10. Lee JK, Sagel SS, Stanley RJ. Computed body tomography with MRI correlation. New York: Raven, 1989:746-50.         [ Links ]

11. Lee JK, Glazer HS. Psoas muscle disorders: MR imaging. Radiology 1986;160:683-7.         [ Links ]

12. Towers MJ, Downey DB, Poon PY. Psoas muscle calcification and acute renal failure associated with nontraumatic rhabdomyolysis: CT features. J Comput Assist Tomogr 1990;14:1027-9.         [ Links ]

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), Campinas, SP.
1. Médicos Residentes do Departamento de Radiologia da FCM-Unicamp.
2. Radiologista Assistente do Departamento de Radiologia da FCM-Unicamp.
Endereço para correspondência: Dr. Martin Torriani. Rua Deusdete Martins Gomes, 213, Jardim Novo Barão Geraldo. Campinas, SP, 13083-763. E-mail: torr@unicamp.br
Aceito para publicação em 24/7/2000.

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