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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984

Radiol Bras vol.35 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842002000500009 

Ensaio Iconográfico

CARACTERIZAÇÃO RADIOGRÁFICA DAS MANIFESTAÇÕES ESOFAGOGASTROINTESTINAIS DA DOENÇA DE CHAGAS*

 

Sizenildo da Silva Figueirêdo1, Tarcísio Nunes Carvalho1, Bruno Barcelos da Nóbrega1, Flávia Aparecida de Souza Ribeiro1, Kim-Ir-Sen Santos Teixeira2, Carlos Alberto Ximenes3

 

 

INTRODUÇÃO

A doença de Chagas constitui uma enfermidade causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, cuja transmissão se processa principalmente por meio de insetos hematófagos (triatomíneos). São descritas duas fases distintas na evolução da doença: uma fase aguda, com duração aproximada de 60 dias, e uma fase crônica, com duração indefinida(1). A infecção aguda resulta na destruição de células neurais do plexo mioentérico do tubo digestivo, causando distúrbios de motilidade, acalásia do esfíncter esofagiano inferior e do complexo muscular esfincteriano anal(2). O diagnóstico baseia-se em exames clínico-laboratoriais e radiológicos.

A forma digestiva abrange as repercussões da doença no trato gastrointestinal, dentre as quais sobressaem as alterações de motilidade do esôfago e do cólon, resultando em megaesôfago e megacólon endêmicos(1). Verifica-se aumento do diâmetro das vísceras ocas em proporção ao estádio evolutivo da afecção. O cólon é o mais freqüentemente acometido, seguido pelo esôfago e pela associação megacólon-megaesôfago(3) . A caracterização radiológica baseia-se predominantemente nas chamadas "megaformações".

Disfagia, regurgitação, dor esofagiana espontânea, odinofagia, pirose, obstipação intestinal, desnutrição, sialose com hipertrofia das glândulas salivares e manifestações pulmonares são as mais usuais apresentações clínicas relacionadas ao megaesôfago(4). Entre os sintomas do megacólon, destacam-se obstipação intestinal, meteorismo e disquezia(5).

 

ACHADOS RADIOGRÁFICOS

Esofagopatia chagásica

O exame radiológico constitui o método mais importante no diagnóstico da esofagopatia chagásica, sendo necessária avaliação dinâmica por meio de intensificador de imagem para ideal configuração morfofuncional.

Os diferentes padrões de apresentação morfológica levaram diversos autores a propor classificações baseadas no estudo radiológico. A classificação de Rezende(6), em quatro grupos (Figura 1), sob técnica padronizada, expressa o consenso da maioria dos autores:

 

 

Grupo I ¾ Esôfago de calibre aparentemente normal ao exame radiológico. Trânsito lento. Pequena retenção na radiografia tomada um minuto após a ingestão de sulfato de bário.

Grupo II ¾ Esôfago com pequeno a moderado aumento do calibre. Apreciável retenção de contraste. Presença freqüente de ondas terciárias, associadas ou não a hipertonia do esôfago.

Grupo III ¾ Esôfago com grande aumento de diâmetro. Atividade motora reduzida. Hipotonia do esôfago inferior. Grande retenção de contraste.

Grupo IV ¾ Dolicomegaesôfago. Esôfago com grande capacidade de retenção, atônico, alongado, dobrando-se sobre a cúpula diafragmática.

A caracterização do grupo I está baseada nos seguintes aspectos: diâmetro esofagiano normal (menos de 3,2 cm); retenção de bário no esôfago com nível perpendicular à parede esofagiana; presença de ar acima da coluna de bário associada a lúmen completamente aberto. Tais achados compõem a denominada "prova de retenção positiva", que pode identificar muitos casos da forma anectásica (sem dilatação) desta afecção(7).

A Organização Mundial da Saúde(8) adotou tal classificação com acréscimo do grupo zero (antecedendo ao grupo I), para os casos assintomáticos e sem retenção esofagiana ao estudo radiológico, nos quais existe certo grau de desnervação demonstrável por testes farmacológicos.

À avaliação com meio de contraste baritado observa-se afilamento cônico, simétrico, com aspecto em "cauda de rato" ou "bico de pássaro" no segmento distal do esôfago, correspondente à área de acalásia (Figura 2). O trânsito por esta região é provocado quando a pressão hidrostática da coluna de bário atinge determinado nível crítico capaz de vencer a resistência esficteriana.

 

 

A aparência de um megaesôfago avançado em radiogramas simples do tórax ou com ingestão de bário é consideravelmente similar à acalásia idiopática(9). Em ambas as entidades o esôfago aparece como uma densidade de partes moles vertical localizada ao longo de toda a borda paramediastinal direita, em incidências frontais(9) (Figura 3). Ocasionalmente, mostra nível hidroaéreo e presença de resíduos alimentares (Figura 4). Focos de broncopneumonia por aspiração de alimentos de estase esofagiana e cardiomegalia são relativamente comuns. Um achado usual no abdome superior é uma bolha gástrica reduzida ou ausente, determinada pela escassa passagem de ar através da zona acalásica esofagiana (Figura 5).

 

 

 

 

Condições eventualmente associadas são formações diverticulares (Figura 5), câncer esofagiano (Figura 6) e esofagite de estase (caracterizada por irregularidades, edema e ulcerações da mucosa). Em pacientes operados por cardiomiotomia, é freqüente haver esofagite péptica por refluxo gastroesofagiano.

 

 

Gastropatia chagásica

O comprometimento do estômago acha-se bem demonstrado na literatura. Fonseca e Toledo(10) descreveram as seguintes alterações de forma, tono e motricidade gástrica: hipotonia, hipoperistaltismo, dilatação (megagastria), esvaziamento retardado e estômago "em cascata".

O ritmo de esvaziamento gástrico encontra-se acelerado nas formas iniciais da gastropatia chagásica, porém em casos crônicos costuma estar retardado(1). Diferentemente do que ocorre em outros segmentos, o estômago dificilmente desenvolve o padrão de megagastria (Figura 7).

 

 

Duodenopatia chagásica

O duodeno é outro órgão que pode estar afetado na doença de Chagas. Eventualmente, apresenta as seguintes alterações: hipotonia, diminuição do peristaltismo, trânsito retardado, estase, aumento de calibre e espessamento das pregas mucosas(1).

Em conseqüência das alterações de motricidade e estase alimentar, o arco duodenal acaba por dilatar-se, dando origem ao megaduodeno. A dilatação pode estar restrita ao bulbo (Figura 8), abranger todo o órgão (Figura 9) ou causar um megaduodeno sem expansão bulbar.

 

 

 

Enteropatia chagásica

Quanto à enteropatia chagásica, pode ocorrer distonia generalizada com hipotonia predominante, motilidade diminuída, alterações do relevo mucoso (pregas mucosas espessas e jejunização do íleo), trânsito lento ou acelerado, floculação fina jejunal, fragmentação irregular da coluna baritada e dilatação do órgão(1) (Figuras 10 e 11).

 

 

 

Porém, a enteropatia chagásica excepcionalmente evolui para a forma ectásica, o que se atribui ao fácil deslocamento do conteúdo líquido jejuno-ileal em direção ao cólon(1).

Colopatia chagásica

O diagnóstico radiológico da colopatia chagásica dificilmente é realizado antes de um característico aumento do calibre do cólon sigmóide, confirmando o megacólon. Na quase totalidade dos casos, dilatação e alongamento colônicos predominam no sigmóide. O reto apresenta-se igualmente dilatado em cerca de 90% dos casos(1) e os demais segmentos estão afetados apenas em poucos casos (Figura 12).

 

 

Em radiogramas simples do abdome, comumente observa-se cólon dilatado e freqüentemente redundante. As haustrações estão diminuídas ou ausentes e a contratilidade comumente é deficiente(3). Estas alterações determinam retenção gradativa de fezes e culminam na formação do fecaloma, caracterizado por um padrão em "miolo de pão" ocupando o lúmen colônico (Figura 13). Um padrão mucoso tipo "cobblestone" ocasionalmente é visto na porção distal do cólon dilatado ou reto à avaliação contrastada(3). Áreas de ulceração também podem ser visualizadas. Achado usual é a retenção prolongada de contraste baritado em radiogramas realizados dias ou semanas após estudo contrastado.

 

 

Simultaneamente e mesmo antecedendo à dilatação, o cólon sigmóide se alonga de tal modo que, na maioria das vezes, se acha redundante à avaliação radiográfica(11) (Figura 14). Outras doenças podem coexistir, como o câncer colônico (ainda que raramente)(2,12) (Figura 15) e a doença diverticular colônica(13) (Figura 16). Fato significativo é a sistemática ausência de divertículos nas porções dilatadas do intestino grosso dos chagásicos(13), estando restritos às porções de calibre normal.

 

 

 

 

As mais habituais complicações são a formação do fecaloma, a impactação fecal e o volvo colônico. Este corresponde à torção do cólon sigmóide sobre seu próprio meso, sendo visualizado ao radiograma simples com uma configuração típica denominada "sinal do grão de café" ou "sinal do U invertido". Observam-se as paredes dos segmentos dilatados convergindo como três linhas separadas para o ponto de torção mesentérica com densidade de partes moles. As paredes mediais adjacentes formam uma linha central mais espessa, enquanto cada parede lateral constitui uma linha mais fina. Comumente a área de torção encontra-se no abdome inferior, e as alças dilatadas, no abdome superior direito. Freqüentemente evidenciam-se ausência de gás no reto e moderada dilatação de alças a montante à zona de torção(14) (Figura 17). O enema opaco é realizado em casos de dúvida quanto a este diagnóstico e a imagem obtida, bastante característica, é comparada a "bico de pássaro", "chama de vela" ou "ás de espadas"(1) (Figura 18). Este ponto radiográfico marca a área de torção.

 

 

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Mediante aspectos clínico-laboratoriais e epidemiológicos, possíveis dúvidas quanto ao diagnóstico de doença de Chagas podem ser sanadas.

Os principais diagnósticos diferenciais relacionados à retenção parcial de contraste baritado no esôfago são o presbiesôfago, esclerose sistêmica, tumor de fundo gástrico, estenose de cárdia, hérnia hiatal, esofagite por refluxo, compressão extrínseca e uso de drogas anticolinérgicas.

Quanto às causas de megagastria, destacam-se a estenose péptica antral ou bulbar, o carcinoma antral, a atonia gástrica e as obstruções em duodeno proximal.

O diagnóstico diferencial da duodenopatia é feito com as obstruções de causas orgânicas em nível do ângulo de Treitz, com o pinçamento aórtico-mesentérico e com o megaduodeno funcional de outras etiologias(1).

No que diz respeito à colopatia chagásica, dilatações secundárias a obstáculos mecânicos, tais como estenoses, tumores e compressões extrínsecas, devem ser descartadas.

 

CONCLUSÃO

Com o extenso número de possibilidades de apresentação radiológica, as manifestações digestivas da doença de Chagas devem ser consistentemente reconhecidas, pois trata-se de uma enfermidade comum em nosso meio, e as adequadas condutas terapêuticas são fundamentadas nas alterações morfológicas vigentes.

 

AGRADECIMENTOS

Aos Drs. Heitor Rosa, Ênio C. Oliveira e Nilva Maria de Sá, pela cessão de algumas imagens presentes no nosso trabalho.

 

REFERÊNCIAS

1.Rezende JM. Manifestações digestivas da doença de Chagas. In: Dani R, Castro LP, eds. Gastroenterologia clínica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996:1729¾55.        [ Links ]

2.Oliveira EC, Leite MSB, Luquetti AO, Almeida AC, Moreira H. Chagasic megacolon associated with colon cancer. Am J Trop Med Hyg 1997;56: 596¾8.        [ Links ]

3.Lopes ER, Rocha A, Meneses ACO, et al. Prevalência de megas em necrópsias realizadas no Triângulo Mineiro no período de 1954 a 1988. Rev Soc Bras Med Trop 1989;22:211¾5.        [ Links ]

4.Vaz MGM, Rezende JM, Ximenes CA, Luquetti AO. Correlação entre sintomatologia e evolução do megaesôfago. Rev Goiana Med 1995;41:1¾15.        [ Links ]

5.Rezende JM, Moreira H. Megacolo chagásico. In: Porto JAF, ed. Clínica das doenças intestinais. Rio de Janeiro: Atheneu, 1976:451¾74.        [ Links ]

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9.Reeder MM, Palmer PES. Infections and infestations. In: Freeny PC, Stevenson GW, eds. Margulis and Burhenne's Alimentary tract radiology. 5th ed. St. Louis: Mosby, 1994:888¾951.        [ Links ]

10.Fonseca LC, Toledo PA. Radiologia do bulbo e do arco duodenal na acalásia. Rev Bras Med 1952;9: 608¾12.        [ Links ]

11.Ximenes CA, Rezende JM, Moreira H, Vaz MGM. Técnica simplificada para o diagnóstico radiológico do megacolo chagásico. Rev Soc Bras Med Trop 1984;17(supl.):23.        [ Links ]

12.Lopes ER. Megaesôfago, megacólon e câncer (editorial). Rev Soc Bras Med Trop 1988;21:91¾4.        [ Links ]

13.Meneghelli UG, Martinelli ALC, Martucci NC, Romanello LMF, Dantas RO. Incidência da doença diverticular do intestino grosso em indivíduos não chagásicos e em chagásicos com e sem megacólon. Arq Gastroenterol 1986;23:3¾8.        [ Links ]

14.Burgener FA, Kormano M. Differential diagnosis in conventional radiology. 2nd ed. New York: Thieme, 1991.        [ Links ]

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Diagnóstico por Imagem do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (HC-FMUFG), Goiânia, GO.
1. Médicos Residentes do Serviço de Diagnóstico por Imagem do HC-FMUFG.
2. Professor Adjunto Doutor do Departamento de Diagnóstico por Imagem e Anatomia Patológica da FMUFG.
3. Professor Adjunto do Departamento de Diagnóstico por Imagem e Anatomia Patológica da FMUFG.
Endereço para correspondência: Dr. Sizenildo da Silva Figueirêdo. Rua 236, no 271, Setor Universitário. Goiânia, GO, 74610-070. E-mail: size75@ig.com.br
Recebido para publicação em 10/1/2002. Aceito, após revisão, em 20/3/2002.