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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984

Radiol Bras vol.37 no.4 São Paulo July/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842004000400002 

EDITORIAL

 

Reconhecimento internacional do título de especialista

 

 

Klaus L. Irion

Radiologista Consultor The Pennine Hospitals NHS Trust, Inglaterra, Pesquisador-Orientador no Programa de Pós-Graduação em Medicina – Pneumologia – da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Membro do Colégio Brasileiro de Radiologia

 

 

Muitos temos o sonho de ver nosso título de especialista reconhecido em qualquer lugar do mundo. Não é muito confortável o fato de sabermos que nosso título de especialista somente é válido no Brasil e em alguns outros poucos países. Somos na maioria bons radiologistas; bem treinados e criteriosamente avaliados através de uma exigente bateria de exames. Muitos Colégios de Radiologia, porém, não podem aceitar nosso programa de treinamento para que possamos nos submeter às suas provas de titulação. Em geral temos que completar tempo de treinamento ou fazer toda a residência em seus países. Algumas diferenças no nosso currículo de residência ainda representam empecilho para que se torne concreta a realidade de termos uma titulação universalmente aceita. Essas diferenças ainda impedem que possamos trabalhar fora da jurisdição do Colégio Brasileiro de Radiologia.

O CBR tem feito um esforço admirável para que nossos critérios de qualificação sejam compatíveis com critérios internacionalmente aceitos. A maior prova disto é que o exame prático e teórico para a obtenção do Título de Especialista do CBR já foi aceito por outros Colégios do exterior, como parte dos requisitos para a validação de nossa titulação. Crédito do CBR, que tem um exame bem elaborado, estruturado e documentado. A Diretoria e a Comissão de Titulação do CBR têm sido incansáveis em procurar manter o nível de exigência de nossa avaliação dentro de padrões de excelência.

O esforço do CBR não se limita apenas à prova de título. A presença do CBR em congressos como o RSNA, a atuação das Câmaras Técnicas que buscam elaborar e divulgar guias de orientação e a revista Radiologia Brasileira que divulga a boa qualidade de nossa radiologia são também fundamentais para que outros Colégios nos considerem com o devido respeito. O CBR tem se esforçado para que tenhamos orgulho de nossa contínua busca pela qualidade.

Por força da legislação brasileira, porém, ainda existem alguns pontos que impedem o reconhecimento universal de nosso título. No Brasil, o treinamento se restringe a três anos, mas na maioria dos centros do exterior, o radiologista deve comprovar um ou dois anos de treinamento em medicina geral, quatro ou cinco anos de treinamento específico em diagnóstico por imagem, além da aprovação nas provas de medicina geral – que no Brasil são aplicadas pelas associações médicas – e da aprovação nas provas de titulação – que no Brasil são aplicadas pelo CBR, para que nossa qualificação venha a ser considerada para validação. Cursos de Mestrado e de Doutorado em áreas clínicas ou cirúrgicas têm sido aceitos por outros Colégios como parte dos requisitos.

Muitos colegas têm expressado o desejo de ver suas qualificações reconhecidas no âmbito internacional, não que necessariamente queiram trabalhar fora do país, mas por uma questão de realização pessoal, de respeito, de reconhecimento.

A oportunidade de efetivamente trabalhar como radiologista em outros países é algo extremamente interessante. Para aqueles com algum tempo de experiência na profissão, assumir efetivamente as atividades de um radiologista é certamente melhor do ponto de vista educativo do que fazer estágios como mero observador. É uma oportunidade muito valiosa para colegas envolvidos com ensino e pesquisa.

Outros países estão também na busca de reconhecimento universal de sua titulação de especialista. Um exemplo disto é o editorial publicado do Dr. Ali Khan, que é um fantástico radiologista, atualmente trabalhando em Manchester, Inglaterra, com publicações nas mais diversas subespecialidades do diagnóstico por imagem, membro titular do Royal College of Radiologists. Além de ter sido editor da Revista Paquistanesa de Radiologia, estende sua contribuição além fronteiras com vários artigos de livre acesso na internet, nas páginas do Emedicine. Aqui reproduzo uma versão adaptada de um de seus editoriais, cujo tema também se refere à busca pela universalização do treinamento, do conhecimento e da troca de experiências. Certamente, esta maior integração beneficiará nossos pacientes e nossos sistemas de saúde.

 

"A obsessão por Olhos Mágicos e Projetis Mágicos.

Por Ali Khan e Margaret Aird
North Manchester General Hospital

Nos últimos vinte e cinco anos de progresso na medicina, certamente os avanços do diagnóstico por imagem foram os mais marcáveis. Nós agora temos "Olhos Mágicos" que são capazes de ver detalhes da estrutura anatômicas de praticamente quaisquer órgãos do corpo. Usando técnicas como a ultra-sonografia, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, além de ver a estrutura anatômica normal e as deformidades provocadas por alguma lesão, podemos também, em alguma extensão, efetuar caracterização tecidual. A expressão imagética de processos fisiológicos, outrora apenas imagináveis, se torna realidade com a medicina nuclear e a tomografia por emissão de pósitrons. Atingir com "Projetis Mágicos" alguns alvos específicos como o sistema retículo-endotelial ou mesmo alguns tipos específicos de neoplasias, já faz parte da rotina da medicina nuclear.

Estes avanços, porém, vêm com um preço: aumento no custo financeiro e aumento na exposição à radiação. Sendo assim, para se otimizar a eficiência dessas novas técnicas, elas devem ser utilizadas seletivamente, com critérios bem estabelecidos.

O radiologista que possui um abrangente conhecimento das especialidades clínicas e cirúrgicas e sendo um médico meticulosamente treinado para operar esses equipamentos e para interpretar seus resultados, é o melhor guardião dessas poderosas técnicas diagnósticas. O treinamento em medicina geral, tanto clínico como cirúrgico, é também requisito fundamental para que cada uma das investigações imagéticas de cada paciente seja apropriadamente utilizada. Para conduzir estas poderosas ferramentas, cada radiologista deve estar atualizado com os avanços tecnológicos e precisa aprimorar-se constantemente, sendo voraz por novos conhecimentos e por pesquisa e também através da realização de auditorias periódicas. O Royal College of Radiology (UK) agora abriu as portas a colegas graduados no estrangeiro e que tenham tido um treinamento apropriado, para que possam se submeter ao exame para reconhecimento do Título de Especialista no Reino Unido (Fellowship Examination). Espera-se que mais e mais radiologistas estrangeiros venham se submeter a esses exames, que pratiquem a especialidade no Reino Unido por algum tempo para que levem novos conhecimentos aos centros de treinamento de sua terra natal, colocando-os dentro de padrões de qualidade competitivos, nos padrões de excelência internacional.

Seguir as regras, utilizando inicialmente métodos menos invasivos e menos dispendiosos como ultra-sonografia e radiologia convencional, é sempre melhor. Os benefícios, os custos e os riscos envolvidos em técnicas mais sofisticadas como a TC-fluoroscopia, a ressonância magnética e a medicina nuclear devem ser cuidadosamente considerados em cada caso individual, antes de se embarcar numa cascata de investigações. Deve-se explorar completamente o resultado de cada exame diagnóstico e, antes que a próxima modalidade diagnóstica venha a ser aplicada, deve-se discutir suas indicações com o paciente e com seu clínico assistente.

O radiologista tem a responsabilidade de instruir seus colegas de outras especialidades sobre o uso apropriado das técnicas diagnósticas imagéticas, e a publicação de guias de orientações, como o livrete "Fazendo o melhor uso de um Departamento de Radiologia", publicado pelo Royal College of Radiologists em 2003, pode ser uma boa ferramenta. Este livrete traz orientações para que se possa reduzir o uso desnecessário de técnicas de investigação imagética e sugere que os clínicos perguntem a si mesmos cinco questões básicas, antes de solicitar um exame: 1) Preciso deste exame? 2) Se preciso, quando? 3) Esta investigação já foi realizada? 4) Eu já elucidei esta questão? 5) É esta a melhor investigação? O Colégio Americano de Radiologia possui um critério similar para avaliar a adequação de investigações diagnósticas. É hora de cada Colégio de Radiologia, em colaboração com outros órgãos responsáveis pelo treinamento de radiologistas, publicar seus próprios guias de orientação, baseados em realidades regionais.

Somente desta maneira os benefícios dessas poderosas ferramentas diagnósticas sobrepujarão suas desvantagens em termos de custo financeiro e/ou de maior exposição à radiação. É muito fácil deixar-se tão fascinado pelos detalhes anatômicos e pela clareza com que algumas doenças são demonstradas através de imagens tridimensionais geradas pela TC helicoidal, que as doses de radiação são muitas vezes esquecidas; sem falar que o departamento financeiro fica horrorizado com os custos de filme e contraste a serem pagos. É também bastante alto o custo de uma investigação por ressonância magnética, que é considerada uma técnica segura em termos de potenciais danos biológicos, porém não se deve desprezar o fato de que sua altíssima sensibilidade muitas vezes demonstra alterações não relacionadas com o problema principal do paciente, freqüentemente irrelevantes, mas que podem desencadear uma nova cascata de investigações, retardando a efetivação da conclusão diagnóstica. O custo financeiro não pode ser desconsiderado nos países em desenvolvimento, nem nos países ricos. O uso desses escassos recursos em casos duvidosos é inapropriado, pois pode privar outros pacientes que realmente poderiam ser mais beneficiados por estas técnicas especializadas.

Os bons jornais de Radiologia, dentre os quais incluo a revista Radiologia Brasileira, constituem um portal de informações com substrato teórico fundamentado e com perspectivas científicas analisadas sob a ótica dos radiologistas que, além de serem médicos com boa experiência clínica, têm o dom necessário para tornarem-se mestres na arte dos "Olhos Mágicos" e para direcionar com segurança os "Projetis Mágicos", atingindo os alvos corretos."