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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984On-line version ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.40 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842007000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Correlação radiológica e histológica de lesões mamárias não-palpáveis em pacientes submetidas a marcação pré-cirúrgica, utilizando-se o sistema BI-RADS*

 

 

Vaneska de Carvalho MelhadoI; Beatriz Regina AlvaresII; Orlando José de AlmeidaIII

IMédica Residente na área de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas
IIProfessora Assistente do Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas
IIIResponsável pelo Serviço de Mamografia – Policlínica II/Prefeitura Municipal de Campinas

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar as categorias 3, 4 e 5 da classificação BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System) como fator preditivo para malignidade, correlacionando os achados mamográficos e histológicos em lesões não-palpáveis da mama.
MATERIAIS E MÉTODOS: Estudo analítico descritivo de 169 mulheres submetidas a biópsia cirúrgica, após localização estereotáxica de lesões mamárias não-palpáveis. As mamografias dessas pacientes foram classificadas de acordo com a quarta edição do BI-RADS, avaliando-se as categorias 3, 4 (A, B e C) e 5. Correlacionaram-se os achados mamográficos com os exames histológicos das lesões, avaliando-se o valor preditivo positivo em cada categoria.
RESULTADOS: No total de 169 casos, foram diagnosticados 42 casos de câncer (24,8%). Destes, houve apenas um caso na categoria 3, 19 casos na categoria 4 e 22 casos na categoria 5. Os valores preditivos positivos para as categorias 3, 4A, 4B, 4C e 5 foram, respectivamente, de 3,4%, 10,3%, 11,3%, 36% e 91,7%. As microcalcificações foram o achado mais freqüente relacionado à doença maligna, ocorrendo em 61,5% do total.
CONCLUSÃO: Este estudo demonstrou que a classificação BI-RADS permite predizer com segurança que há alta suspeição de malignidade para achados classificados na categoria 5 e diminuta chance para os achados da categoria 3. Quanto à categoria 4, foi constatada elevação progressiva dos valores preditivos positivos nas subcategorias A, B e C, mostrando que esta subdivisão contribui de forma mais detalhada e precisa na indicação de lesões suspeitas para malignidade.

Unitermos: Câncer de mama; Mamografia; BI-RADS; Diagnóstico histológico.


 

 

INTRODUÇÃO

A mamografia é o método mais específico e sensível para o diagnóstico do câncer de mama em sua forma mais precoce(1). O rastreamento mamográfico anual em mulheres acima de 40 anos identifica 100 a 200 casos novos de lesões suspeitas em cada 20.000 mamografias, que se apresentam como lesões não-palpáveis e que necessitam de estudo histológico, sendo uma das opções a sua localização pré-operatória(2). Assim, apesar do bom desempenho da mamografia na identificação da neoplasia mamária em estágio inicial, apenas 15% a 30% das lesões não-palpáveis submetidas à biopsia cirúrgica são malignas(3).

Isso provocou a elaboração de propostas para classificar os achados mamográficos, visando melhorar o desempenho do método e reduzir a freqüência de biópsias com diagnóstico benigno(4).

O Colégio Americano de Radiologia (ACR – American College of Radiology) desenvolveu a classificação Breast Imaging Reporting and Data System (BI-RADS) para padronizar a terminologia do relatório mamográfico, os achados radiológicos e as recomendações a serem tomadas. Na quarta edição do BI-RADS, de novembro de 2003, foram propostas sete categorias para os achados mamográficos: negativos para malignidade (1), benignos (2), provavelmente benignos (3), suspeitos para malignidade (4), altamente suspeitos para malignidade (5), com malignidade comprovada (6) e que necessitam de avaliação adicional (0). A categoria 4 foi subdividida em A, B e C(5,6).

Este estudo teve como objetivos avaliar o sistema BI-RADS (quarta edição) como fator preditivo de suspeição para malignidade em lesões não-palpáveis da mama correlacionando os achados radiológicos e histológicos, e verificar quais os achados mais relevantes para o câncer de mama em cada categoria (3, 4A, 4B, 4C e 5).

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Realizou-se a análise mamográfica de 169 lesões não-palpáveis de pacientes biopsiadas no período de setembro de 2003 a abril de 2004. Esta avaliação foi feita por médicos radiologistas com experiência em diagnóstico mamográfico, sendo os achados classificados de acordo com o sistema BI-RADS e avaliadas as categorias 3, 4A, 4B, 4C e 5.

As mamografias avaliadas no estudo foram realizadas em mamógrafo Mammomat 3000 Nova (Siemens), nas incidências crânio-caudal e médio-lateral oblíqua, além de incidências complementares como magnificação e compressão focal. As pacientes foram submetidas à marcação pré-cirúrgica através de estereotaxia por mamografia em 90,53% (153) dos casos, ou por ultra-sonografia em 9,46% (16).

O tecido mamário obtido nas biópsias cirúrgicas foi processado para cortes em blocos de parafina e coloração pela hematoxilina-eosina e os diagnósticos foram elaborados por médicos patologistas com experiência em patologia mamária.

O estudo foi do tipo analítico descritivo, para avaliar a concordância entre a classificação BI-RADS atualizada e os diagnósticos histológicos em lesões mamárias não-palpáveis, através do cálculo do valor preditivo positivo (VPP). Procurou-se também correlacionar quais os achados radiológicos mais importantes relacionados à neoplasia maligna em cada categoria.

 

RESULTADOS

Entre as pacientes incluídas no estudo, 36,1% tinham menos de 50 anos, 36,7% tinham entre 50 e 59 anos e 27,2%, 60 anos ou mais de idade.

Do total de 169 casos analisados, a distribuição percentual dos diagnósticos mamográficos entre as categorias do BI-RADS foi de 17,2% (29) para a categoria 3, 68,6% (116) para a categoria 4 e 14,2% (24) para a categoria 5. Avaliando somente a categoria 4, as suas subcategorias tiveram distribuição percentual de 25% (29/116) para a subcategoria A, 53% (62/116) para a subcategoria B e 22% (25/116) para a subcategoria C.

Houve 42 casos (24,8%) de câncer mamário, sendo um na categoria 3, três na categoria 4A, sete na categoria 4B, nove na categoria 4C e 22 na categoria 5. Os VPP foram, portanto, de 3,4% (1/29) para BI-RADS 3, 10,3% (3/29) para BI-RADS 4A, 11,3% (7/62) para BI-RADS 4B, 36% (9/25) para BI-RADS 4C e 91,7% (22/24) para BI-RADS 5 (Tabela 1).

 

 

Entre as lesões classificadas como BI-RADS 3, houve apenas um caso de câncer mamário, cujo aspecto radiológico foi de assimetria focal. Nas demais categorias, os achados mamográficos mais relacionados ao câncer mamário foram: para a categoria 4A, microcalcificações puntiformes com distribuição segmentar, em 66,7% (2/3) dos casos; para a categoria 4B, microcalcificações puntiformes, amorfas e heterogêneas, em 57,1% (4/7) dos casos; para a categoria 4C, distorção arquitetural com espículas, em 66,7% (6/9) dos casos; para as lesões classificadas como BI-RADS 5, microcalcificações pleomórficas e ramificadas estavam presentes em 72,7% (16/22) dos casos de câncer. No geral, os achados radiológicos mais relacionados à doença maligna foram as microcalcificações, presentes em 61,5% do total (Tabela 2).

 

 

A neoplasia mamária maligna mais freqüente foi o carcinoma ductal in situ em 59,5% (25/42), seguido por carcinoma ductal invasivo em 33,3% (14/42), carcinoma lobular in situ em 4,8% (2/42) e carcinoma lobular invasivo em um caso.

O diagnóstico de hiperplasia ductal atípica ocorreu em 7,1% (12/169) do total de casos, todos eles na categoria 4. Em 66,7% (8/12) do total, os achados foram as microcalcificações, e em 33,3% (4/12), a distorção arquitetural. Os dois casos BI-RADS 4A apresentaram-se como grupamentos de microcalcificações redondas, lineares e puntiformes, tendendo a coalescer. Já a categoria 4B teve quatro casos de microcalcificações puntiformes, amorfas e heterogêneas, e um caso de grupamento de microcalcificações com distribuição linear. Na categoria 4C, foram um caso de grupamento de microcalcificações pleomórficas com distribuição linear e quatro casos de distorção arquitetural.

 

DISCUSSÃO

A classificação BI-RADS representou a primeira tentativa de padronização dos achados mamográficos em termos descritivos, constituindo-se num importante instrumento para auxiliar tanto na suspeita de malignidade quanto na conduta a ser tomada(5,79). Estudos que correlacionaram os achados mamográficos e histológicos em lesões mamárias não-palpáveis, utilizando a classificação BI-RADS, encontraram VPP para câncer de mama entre 12,3% e 47,8%(4,7,8,1012). No presente estudo, 24,8% do total das lesões mamárias não-palpáveis biopsiadas tiveram o diagnóstico histológico de doença maligna.

O percentual de achados mamográficos provavelmente benignos submetidos à biópsia foi elevado (17,2%), acima dos valores de outros estudos, que variaram entre 2% e 11%(4,7,8,10). Como 96,5% das lesões classificadas na categoria 3 foram benignas, isto contribuiu para a redução do VPP na avaliação global das categorias deste estudo. Ao analisarmos o VPP exclusivo da categoria 3, o valor foi de 3,4%, dentro da média de outros artigos(4,7,8,11). O número elevado de biópsias cirúrgicas em lesões provavelmente benignas pode ser justificado pela dificuldade de acompanhamento mamográfico semestral em muitas pacientes oriundas de outros municípios e estados.

Ao correlacionar os achados radiológicos e histológicos nas lesões mamárias da categoria 4, o VPP em nosso estudo foi de 16,4%, enquanto outros autores encontraram VPP entre 4% e 45%(4,7,8,1012).

No presente estudo, houve 12 casos de lesões mamárias classificadas como BI-RADS 4 com o diagnóstico de hiperplasia ductal atípica que não foram incluídas no cálculo do VPP. Segundo Heywang-Köbrunner et al., a "hiperplasia ductal atípica representa carcinoma ductal in situ incompleto ou lesão borderline, cujo risco de malignização em comparação com a população normal encontra-se aumentado em quatro a cinco vezes"(13). Se os casos de hiperplasia ductal atípica, considerada uma lesão de risco, fossem incluídos no cálculo do VPP da categoria 4, observaríamos uma elevação para 26,7%.

Ao analisar os achados nas subcategorias 4A, 4B e 4C encontramos, respectivamente, VPP de 10,3%, 11,3% e 36%. Ao incluirmos as hiperplasias ductais atípicas nesta categoria, os valores mudariam para 17,2%, 19,4% e 56%. Estes achados demonstraram, portanto, uma sensibilidade crescente da classificação BI-RADS 4A, 4B e 4C para detectar as lesões suspeitas de câncer mamário e aquelas consideradas de risco para malignidade.

Não foram encontrados, na literatura, trabalhos mais recentes sobre os VPP das subcategorias 4A, 4B e 4C, não sendo possível, portanto, estabelecer correlação com os valores obtidos neste estudo(912).

Em relação à categoria 5, foi constatado VPP de 91,7% para malignidade, estando de acordo com dados da literatura(4,7,8,10,11). Nas lesões classificadas como BI-RADS 5, observaram-se um caso de adenose esclerosante e outro de cicatriz radiada, situações nas quais não é possível fazer o diagnóstico diferencial através da mamografia, sendo uma indicação obrigatória de biópsia excisional(6,14).

 

CONCLUSÃO

O presente estudo demonstrou que a classificação BI-RADS permite predizer com segurança que existe alta suspeição para malignidade em lesões classificadas na categoria 5 e diminuta suspeição naquelas classificados como categoria 3. Quanto à categoria 4, foi constatada elevação progressiva dos VPP nas subcategorias A, B e C, mostrando que esta subdivisão contribui de forma mais detalhada e precisa na indicação de lesões suspeitas para malignidade.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dra. Vaneska de Carvalho Melhado
Rua 3-A, 94, Vila Alemã
Rio Claro, SP, 13506-660
E-mail: vaneskacm@hotmail.com

Recebido para publicação em 7/10/2005.
Aceito, após revisão, em 6/4/2006.
Estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

 

* Trabalho realizado no Setor de Radiologia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP.

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