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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984On-line version ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.40 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842007000200003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Achados ultra-sonográficos na tireoidite*

 

 

Ilka YamashiroI; Osmar de Cássio SaitoII; Maria Cristina ChammasIII; Giovanni Guido CerriIV

IMédica Radiologista, Mestre em Ciências da Saúde pelo Curso de Pós-graduação do Hospital Heliópolis, São Paulo, SP, Prática Profissionalizante no Setor de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), São Paulo, SP, Brasil
IIMédico Radiologista, Doutor em Medicina, Médico Assistente do Setor de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), São Paulo, SP, Brasil
IIIMédica Radiologista, Doutora em Radiologia, Diretora do Serviço de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), São Paulo, SP, Brasil
IVProfessor Titular do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Chefe do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar os aspectos ultra-sonográficos da glândula tireóide em pacientes portadores de tireoidites.
MATERIAIS E MÉTODOS: Num período de nove meses, foram estudados 38 pacientes atendidos no Serviço de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com diagnóstico prévio de tireoidite. Trinta e seis deles eram do sexo feminino, cujas idades variaram entre 17 e 78 anos. As variáveis observadas e estudadas foram: o volume glandular, a ecogenicidade e a ecotextura, e a presença de linfonodos na cadeia VI cervical (pré-traqueal, o sítio de drenagem linfática preferencial da tireóide) e suas dimensões.
RESULTADOS: Treze pacientes apresentavam bócio. A análise ao ultra-som mostrou que 37 das 38 glândulas apresentavam ecotextura heterogênea com hipoecogenicidade difusa. Todos os pacientes apresentavam alterações nos exames laboratoriais compatíveis com tireoidites. Foram encontrados linfonodos na cadeia cervical VI (pré-traqueal) em 28 pacientes, todos de aspecto reacional. Destes, dez foram submetidos a punção aspirativa por agulha fina e o resultado citológico foi de reação inflamatória. Não foram encontrados casos de tireoidites focais que pudessem simular nódulos.
CONCLUSÃO: Podemos inferir que para auxiliar no diagnóstico das tireoidites os achados ultra-sonográficos de heterogeneidade e hipoecogenicidade glandular, associados aos linfonodos na cadeia cervical VI, são de grande importância quando correlacionados aos exames clínicos e laboratoriais.

Unitermos: Ultra-som; Tireóide; Tireoidite.


 

 

INTRODUÇÃO

A tireoidite é um termo genérico que comporta uma série de entidades clínicas que têm em comum o acometimento da glândula tireóide.

A etiopatogenia pode ser de origem infecciosa, auto-imune, traumática, pós-radioterapia, uso de drogas e outros. Baseados na etiopatogenia e no quadro clínico, destacam-se oito entidades que se apresentam com quadro de tireoidite: 1) tireoidite de Hashimoto; 2) tireoidite subaguda linfocítica; 3) tireoidite subaguda granulomatosa (de Quervain); 4) tireoidite pós-parto; 5) tireoidite infecciosa; 6) tireoidite medicamentosa; 7) tireoidite actínica; 8) tireoidite fibrosante de Riedel.

As tireoidites subagudas e crônicas ocasionam uma lesão inflamatória do parênquima glandular, onde são liberadas, na circulação sanguínea, a tireoglobulina, T3 e T4, razão pela qual, nas fases iniciais, as tireoidites cursam com tireotoxicose. Após as primeiras semanas, a lesão às células foliculares reduz a síntese hormonal, instalando-se um quadro de hipotireoidismo. As tireoidites subagudas, nesta fase, são autolimitadas e o tecido glandular regenera-se, mas na crônica auto-imune (tireoidite de Hashimoto) esta fase é contínua e progressiva, instalando-se o hipotireoidismo.

O objetivo do presente estudo foi avaliar os aspectos ultra-sonográficos da glândula tireóide em pacientes portadores de tireoidites.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Num período de nove meses, foram estudados 38 pacientes atendidos no Serviço de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), com diagnóstico prévio de tireoidite. Trinta e seis desses pacientes eram do sexo feminino, cujas idades variaram entre 17 e 78 anos (média de idade de 47,5 anos).

As variáveis observadas e estudadas foram: o volume glandular, a ecogenicidade e a ecotextura, e a presença de linfonodos na cadeia VI cervical (pré-traqueal, o sítio de drenagem linfática preferencial da tireóide) e suas dimensões.

 

RESULTADOS

Em nossa casuística, a maioria dos pacientes (36) era do sexo feminino, perfazendo percentual de 94,7%. Treze pacientes (34,2%) apresentavam bócio (volume glandular maior que 14,4 cm³). O ultra-som mostrou que 37 das 38 glândulas (97,3%) apresentavam ecotextura heterogênea com hipoecogenicidade difusa (Tabela 1).

 

 

Todos os pacientes apresentavam alterações nos exames laboratoriais compatíveis com tireoidites.

Não foi possível a determinação exata do fator ou fatores causais, devido à ausência de exames pregressos aos realizados neste serviço. Devemos ressaltar que os achados ultra-sonográficos nas tireoidites, principalmente as focais, se sobrepõem aos achados em outras doenças.

Foram encontrados linfonodos na cadeia cervical VI (pré-traqueal) em 28 pacientes (73,6%), todos de aspecto reacional (forma ovulada, com hilo central hiperecogênico). Desses 28 pacientes, 10 foram submetidos a punção aspirativa por agulha fina e o resultado citológico foi de reação inflamatória. Não foram encontrados casos de tireoidites focais simulando nódulos.

 

DISCUSSÃO

O diagnóstico das tireoidites nem sempre é fácil e de pronta obtenção, o que gera muitas dificuldades na pesquisa inicial dessa hipótese, pois nem sempre nas fases iniciais da doença encontramos alterações laboratoriais específicas. Com o avanço dos métodos de imagem, algumas características como tamanho, forma e ecogenicidade da glândula poderão ser mais bem e mais precocemente avaliadas. Dessa maneira, a ultra-sonografia tem ajudado em muito na avaliação da tireóide, principalmente naqueles casos duvidosos, em que as características morfológicas e funcionais ao mapeamento com Doppler colorido poderão sugerir a real etiopatogenia da doença. Algumas dessas características são amplamente aceitas na literatura mundial.

A tireoidite de Hashimoto é a causa mais comum de hipotireoidismo permanente em regiões sem deficiência na ingestão de iodo, correspondendo a mais de 90% dos casos. Sua etiologia é auto-imune e é doença característica de mulheres mais velhas, incidindo cinco a oito vezes mais do que nos homens, com prevalência em torno de 15% neste grupo(1,2). Ao ultra-som, nota-se bócio heterogêneo com micronódulos distribuídos pelo parênquima. Progressivamente, a glândula adquire aspecto de tireoidite crônica hipertrófica, com formação de áreas hipoecóicas mal definidas separadas por traves ecogênicas de fibrose de permeio, conferindo à glândula um aspecto pseudolobulado (Figura 1). Ao mapeamento com Doppler nota-se padrão de hipervascularização difusa, semelhante à doença de Graves (Figura 2). Nos estágios finais da doença a glândula apresenta-se de tamanho reduzido e difusamente heterogênea, devido à intensa fibrose, e avascularizada ao mapeamento com Doppler colorido.

 

 

 

 

A tireoidite subaguda linfocítica é também uma doença auto-imune, indolor, e caracteriza-se por um quadro de tireotoxicose transitória, com infiltrados linfocíticos semelhantes à tireoidite de Hashimoto (Figura 3)(1,2).

 

 

A tireoidite subaguda granulomatosa (de Quervain) também se manifesta com quadro de tireotoxicose e algia cervical, afetando mais as mulheres, numa proporção de 3:1 a 5:1. É uma doença reativa pós-infecção viral (por exemple: Cocksackie, adenovírus, caxumba, sarampo, etc.)(1,3,4). Ao estudo ultra-sonográfico, na fase inicial, observam-se áreas hipoecogênicas, de contornos irregulares e mal definidos, sobretudo nas áreas subcapsulares (Figura 4). Pode ainda evoluir para pseudonódulos nas partes centrais da glândula. Nas fases iniciais a vascularização pode estar reduzida (Figura 5).

 

 

A tireoidite pós-parto também é um processo auto-imune que se manifesta em até um ano no período de puerpério, mais comumente entre o segundo e o quarto mês, acometendo até 7% das mulheres. Existe chance alta de recorrência nas gestações posteriores(5,6). Ao estudo ultra-sonográfico nota-se hipoecogenicidade difusa da glândula, com áreas focais ainda mais hipoecogênicas (Figura 6).

 

 

Os outros casos de tireoidites são mais raros, sendo as infecciosas geralmente de origem bacteriana(5); nos casos de pacientes imunodeprimidos, devem ser considerados como agentes etiológicos o bacilo da tuberculose e os fungos. Ao mapeamento ultra-sonográfico no modo B notam-se focos hipoecogênicos mal definidos, que podem corresponder a áreas de formação de abscessos intraparenquimatosos. O uso de alfa-interferon 2, interleucinas e amiodarona também pode causar tireoidite(7–9).

A tireoidite fibrosante de Riedel é uma forma crônica rara, em que a glândula se apresenta fibrosada e endurecida, com destruição difusa, infiltrando os tecidos adjacentes. Pode causar disfagia e dispnéia, existindo casos em que se observa associação com a fibrose retroperitoneal, mediastinal, pulmonar, colangite esclerosante, pseudotumor orbitário, etc.(1,6). Quando examinada por meio da ultra-sonografia, a glândula se apresenta como uma massa hipoecogênica, infiltrando a musculatura adjacente.

Na maioria dos casos o diagnóstico é feito através de dados clínicos e laboratoriais, sendo o ultra-som uma importante ferramenta na avaliação morfológica da glândula, corroborando o diagnóstico, podendo também dar informações adicionais quanto à extensão da doença e principalmente quanto ao comprometimento linfonodal (cadeia VI, sítio de drenagem preferencial da tireóide)(10). Embora não-mencionados nos trabalhos correntes, esses linfonodos do nível VI podem ser confundidos com nódulos tireoidianos do istmo. Em nossos achados esses linfonodos mostraram ser de origem reacional inflamatória na análise feita por punção aspirativa por agulha fina (Figura 7).

 

 

A casuística do presente trabalho está de acordo com a literatura. A maioria de nossas pacientes eram mulheres, e 97,3% das glândulas examinadas apresentavam-se difusamente hipoecogênicas e heterogêneas no momento do exame (com focos mal definidos hipoecogênicos e traves ecogênicas de permeio), assim como a presença de linfonodo cervical em 73,6% dos casos. No entanto, apenas 34,2% dos pacientes apresentavam-se com bócio no momento do exame.

Vale ressaltar que é preciso cuidado ao analisar esses pacientes, para que nenhum nódulo passe despercebido em meio ao parênquima heterogêneo, já que cerca de 20% dos pacientes portadores de tireoidite de Hashimoto podem desenvolver nódulos malignos ou linfomas intratireoidianos(11). A avaliação dos linfonodos também se torna importante, já que podem traduzir processos malignos previamente desconhecidos, atentando principalmente para sua morfologia ao modo B(12). Cerca de 10% a 15% das tireoidites de Hashimoto cursam com linfonodomegalias globosas de natureza questionável(9).

 

CONCLUSÃO

Podemos inferir que, para auxiliar no diagnóstico das tireoidites, os achados ultra-sonográficos de heterogeneidade e hipoecogenicidade glandular, associados aos linfonodos na cadeia cervical VI, são de grande importância quando correlacionados aos exames clínicos e laboratoriais.

 

REFERÊNCIAS

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3. Basgoz N, Swartz MN. Infections of the thyroid gland. In: Braverman LE, Utiger RD, editors. The thyroid: a fundamental and clinical text. 7th ed. Philadelphia: Lippincott-Raven, 1996;1049–1056.        [ Links ]

4. Solbiati L, Charboneau JW, James EM, Hay ID. The thyroid gland. In: Rumack CM, Wilson SR, Charboneau JW, editors. Diagnostic ultrasound. 2nd ed. St. Louis: Mosby, 1998;703–729.        [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Dra. Ilka Yamashiro
Rua Afonso Celso, 1637, ap. 33, Bairro Chácara Inglesa
São Paulo, SP, Brasil, 04119-062
E-mail: ilkay@terra.com.br

Recebido para publicação em 31/5/2006.
Aceito, após revisão, em 17/7/2006.

 

 

* Trabalho realizado no Setor de Ultra-sonografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HC-FMUSP), São Paulo, SP, Brasil.

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