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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984On-line version ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.40 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842007000200012 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Aspectos radiológicos relevantes no diagnóstico da enterocolite necrosante e suas complicações*

 

 

Beatriz Regina AlvaresI; Daniel Lahan MartinsII; Renato Lopes RomaIII; Inês Minniti Rodrigues PereiraI

IProfessoras Doutoras do Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil
IIMédico Residente do Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil
IIIMédico Assistente do Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A enterocolite necrosante representa uma das emergências gastrintestinais mais freqüentes e graves no período neonatal. Na suspeita clínica dessa doença, o exame radiológico simples de abdome é um procedimento de rotina, desempenhando um papel fundamental no diagnóstico, acompanhamento e detecção de complicações. No presente trabalho, realizamos uma revisão da literatura pertinente e descrevemos os achados radiológicos da enterocolite necrosante, ilustrados com casos do nosso serviço. Concluímos que o diagnóstico radiológico da enterocolite necrosante realizado em todas as suas etapas, contribui para uma conduta terapêutica imediata, reduzindo as complicações e aumentando a sobrevida dos pacientes.

Unitermos: Enterocolite necrosante; Recém-nascido; Diagnóstico radiológico.


 

 

INTRODUÇÃO

A enterocolite necrosante (ECN) representa uma doença de etiologia não-esclarecida que afeta principalmente recém-nascidos (RN) prematuros com peso inferior a 1.500 gramas, sendo uma das emergências gastrintestinais mais freqüentes e graves no período neonatal(1–3).

Os fatores etiológicos mais freqüentemente aceitos para explicar esta doença são isquemia, levando a alterações da mucosa intestinal, crescimento bacteriano excessivo, com formação de gás na parede intestinal e irritação persistente do intestino pela alimentação oral. Os achados clínicos mais sugestivos desta afecção são distensão abdominal, vômitos alimentares e/ou biliosos e presença de sangue nas fezes(2,3).

O exame radiológico simples de abdome é um procedimento de rotina nos RN com ECN, pois desempenha um papel fundamental no diagnóstico, acompanhamento e detecção de complicações que sejam indicativas de intervenção cirúrgica. Visando realizar o diagnóstico precoce das complicações, na vigência do tratamento, os RN devem realizar radiografias simples de abdome em cada seis a oito horas(4,5).

 

ALTERAÇÕES RADIOLÓGICAS

1 – Distensão intestinal generalizada

A alteração radiológica mais precoce da ECN é a distensão aérea intestinal generalizada e persistente(5). Radiologicamente, pode-se considerar distendida uma alça intestinal cuja medida ultrapasse a largura do primeiro corpo vertebral lombar(6,7). Esta alteração pode representar um achado radiológico inespecífico, visível em radiografias de RN com outras anormalidades, principalmente naqueles que se encontram em ventilação contínua com pressão positiva(8). Apesar disso, a possibilidade de ECN deve sempre ser considerada nos exames radiológicos de RN com distensão intestinal generalizada e persistente e com quadro clínico característico(2,6) (Figura 1).

 

 

2 – Distensão localizada de alça intestinal

A distensão localizada de alça intestinal apresentando uma configuração tubular e paredes espessadas, foi inicialmente descrita como um sinal radiológico iminente de perfuração. Atualmente, este sinal radiológico não é mais valorizado como risco iminente de perfuração, porém é útil para levantar a suspeita de ECN na fase precoce, tendo em vista que pode representar sofrimento de alça(9,10) (Figura 2).

 

 

3 – Pneumatose intestinal

Pneumatose significa presença de ar na parede intestinal, representando uma complicação da enterocolite necrosante. Embora também haja destruição da mucosa, a presença de ar intramural é considerada uma conseqüência do crescimento bacteriano excessivo, penetrando na parede da alça através da luz intestinal. O gás pode localizar-se na parede do estômago e intestino delgado, mas predomina na parede do intestino grosso(11).

A pneumatose intestinal representa o achado radiológico mais patognomônico da ECN, aparecendo como imagens radiolucentes curvilíneas, lineares ou bolhosas na parede da alça intestinal. Em alguns casos, o aspecto radiológico lembra o conteúdo fecal, sendo o diagnóstico realizado por meio de radiografias seqüenciais, que demonstram a permanência do gás intramural, ao contrário das fezes, que apresentam mobilidade(2,11–13) (Figura 3A–E).

 



 

4 – Ar no sistema porta

A pneumatose intestinal pode se difundir para o sistema venoso porta, sendo visível em radiografias simples de abdome como imagens lineares radiolucentes em projeção hepática e estendendo-se até a sua periferia(6,11,14,15) (Figuras 4A e 4B). Este tipo de distribuição possibilita o diagnóstico diferencial com ar nas vias biliares, que apresenta aspecto radiológico semelhante ao de ar no sistema porta, porém com localização hepática mais central(6).

 

 

5 – Pneumoperitônio

Pneumoperitônio representa ar livre na cavidade peritoneal, devido à perfuração de víscera oca, sendo uma complicação da enterocolite necrosante(1,2,6,11). Os sinais radiológicos podem ser constatados em radiografias simples de abdome efetuadas em decúbito dorsal, com raios verticais e horizontais, posição ortostática e decúbito lateral esquerdo com raios horizontais(11,16).

Na radiografia realizada em decúbito dorsal com raios verticais observam-se enegrecimento da cavidade abdominal e visualização da parede intestinal devido à presença de ar dentro e fora da alça (Figura 5). Nesta incidência também pode ser visualizado o ligamento falciforme, e a associação destas imagens é descrita como the football sign, por lembrar a configuração de uma bola de futebol americano(11). Nas radiografias em posição ortostática (Figura 6), decúbito dorsal (Figuras 7A e 7B) e decúbito lateral esquerdo com raios horizontais (Figuras 8A e 8B) observa-se o deslocamento do ar na cavidade abdominal, situando-se abaixo das cúpulas diafragmáticas, anteriormente, ou entre o fígado e a parede abdominal direita.

 

 

 

 

 

 

6 – Complicações tardias

Áreas de estenose no intestino grosso representam uma complicação tardia da enterocolite necrosante, manifestando-se clinicamente através de quadro obstrutivo. O exame radiológico simples de abdome evidencia significativa distensão intestinal com ausência de ar no reto(17,18). O diagnóstico é confirmado através do enema opaco, que demonstra as áreas de estenose no intestino grosso. Este exame deve ser realizado com contraste iodado diluído em soro fisiológico, quando houver risco de ruptura intestinal(18,19) (Figuras 9, 10A e 10B).

 

 

 

 

CONCLUSÃO

O diagnóstico radiológico da ECN realizado em todas as suas etapas contribui para uma conduta terapêutica imediata, reduzindo as complicações e aumentando a sobrevida dos pacientes.

 

REFERÊNCIAS

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3. Ostlie DJ, Spilde TL, St Peter SD, et al. Necrotizing enterocolitis in full-term infants. J Pediatr Surg 2003;38:1039–1042.        [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Profa. Dra. Beatriz Regina Alvares
Rua Alberto de Salvo, 238, Distrito de Barão Geraldo
Campinas, SP, Brasil, 13084-759
E-mail: alvaresb@terra.com.br

Recebido para publicação em 29/3/2005.
Aceito, após revisão, em 5/7/2005.

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil.

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