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Radiologia Brasileira

Print version ISSN 0100-3984On-line version ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.42 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842009000100005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Linfoma não-Hodgkin apresentando-se como massa hepática única*

 

 

Mila Correia Góis PeixotoI; Anibal Araújo Alves Peixoto FilhoI; Alessandra Caivano Rodrigues RibeiroII; Giuseppe D'IppolitoIII

IMédicos Especialistas do Setor de US/TC/RM do Hospital São Luiz, São Paulo, SP, Brasil
IIMédica Radiologista do Setor de Diagnóstico por Imagem do Hospital São Luiz, São Paulo, SP, Brasil
IIILivre-Docente, Professor do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), Responsável pelo Setor de US/TC/RM do Hospital São Luiz, São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as principais características de imagem do linfoma não-Hodgkin apresentando-se como massa hepática única.
MATERIAIS E MÉTODOS: Realizamos estudo retrospectivo mediante análise de casos de pacientes com massa hepática única aos exames de ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética, com diagnóstico histológico de linfoma não-Hodgkin. Esses exames foram analisados por dois examinadores em consenso.
RESULTADOS: Identificamos três pacientes, todos do sexo masculino, na quinta década de vida, com quadro clínico inespecífico e que apresentavam massa hepática única e com diagnóstico de linfoma não-Hodgkin. Na ultrassonografia a lesão hepática apresentava-se como massa com aspecto "em alvo" nos três casos estudados. Na tomografia computadorizada observou-se massa hipodensa e heterogênea, com realce anelar em todos os casos. Na ressonância magnética as lesões apresentavam-se heterogêneas, hipointensas em T1 e hiperintensas em T2, e também com realce anelar após a injeção do contraste. Nenhum paciente apresentava linfonodomegalia ou comprometimento de outras vísceras sólidas no momento do diagnóstico.
CONCLUSÃO: Na presença de massa hepática solitária e com aspecto "em alvo" deve-se considerar, entre as hipóteses, o diagnóstico de linfoma.

Unitermos: Linfoma; Fígado; Ultrassonografia; Tomografia computadorizada; Imagem por ressonância magnética.


 

 

INTRODUÇÃO

O linfoma hepático primário corresponde a 0,4% dos linfomas extranodais e a 0,016% dos casos de linfoma não-Hodgkin (LNH).

Apesar de o linfoma hepático primário ser extremamente raro, o envolvimento secundário não é incomum. Quando não tratados, 16% dos pacientes com LNH e 23% dos pacientes com doença de Hodgkin têm envolvimento hepático. Em autópsias, o envolvimento hepático é mais freqüente, sendo relatado em até 51% dos casos de LNH e em 50-80% dos casos de linfoma de Hodgkin(1-4). É mais comum em homens, na quinta década de vida(3).

O LNH do fígado pode ser tratado por meio de quimioterapia(5) ou procedimento cirúrgico(3), com bons resultados.

O envolvimento hepático linfomatoso secundário é geralmente multinodular e difuso. Por outro lado, o linfoma hepático primário se apresenta como massa única em mais de 70% dos casos(6).

Até o presente momento foram descritos cerca de 100 casos de linfoma hepático apresentando-se como massa única aos exames de ultrassonografia (US), tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM).

Quando se apresenta como massa única, o linfoma hepático pode simular diversas lesões, como metástases e abscesso(7) e, excepcionalmente, outros tumores hepáticos, como o hemangioma e o hepatocarcinoma(8,9), retardando o seu adequado tratamento. Algumas das suas características de imagem podem ajudar na orientação diagnóstica.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizado estudo retrospectivo, transversal e observacional por meio de pesquisa de arquivo, na procura de pacientes com LNH apresentando massa hepática única no momento do diagnóstico da doença e com confirmação anatomopatológica. O período pesquisado foi entre janeiro e dezembro de 2006. Dois observadores em consenso avaliaram os exames de US, TC e RM para a caracterização das referidas lesões hepáticas e descrição dos principais achados de imagem.

 

RESULTADOS

Foram encontrados três casos de pacientes do sexo masculino, todos na quinta década de vida, com quadro clínico inespecífico e que apresentavam massa hepática única aos exames de imagem e com diagnóstico histológico da lesão de LNH.

Os três pacientes apresentavam quadro clínico de febre baixa, com dor abdominal no hipocôndrio direito em dois casos e epigástrica em um. Este último paciente tinha sorologia positiva para o HIV, referia emagrecimento há três meses, e na evolução da doença foi diagnosticada lesão duodenal ulcerada cujo diagnóstico foi de LNH. Ao contrário dos outros dois pacientes, neste caso o comprometimento hepático foi considerado secundário.

A massa hepática media entre 6 e 8 cm de diâmetro (média de 7 cm). Nos três casos estudados a lesão apresentava-se como massa hepática única e com aspecto "em alvo" nos exames de US, TC e RM (Figuras 1 a 6) e com realce anelar após injeção do contraste na TC e RM (Figuras 5 e 6). Em dois casos a lesão foi considerada primária do fígado e em um, secundária a um linfoma duodenal. Não foram observadas diferenças morfológicas entre a apresentação primária e a secundária. Nenhum dos casos estudados apresentava linfonodomegalia abdominal nos exames de imagem.

 

 

Em razão do pequeno número de casos encontrados, descreveremos detalhadamente cada um dos pacientes estudados e os seus principais aspectos de imagem.

Caso 1 - Paciente do sexo masculino, 44 anos de idade, com quadro clínico de febre e dor abdominal leve há dois meses. Ao exame físico apresentava abdome globoso, pouco doloroso no hipocôndrio direito, e fígado palpável a 3 cm da borda costal. A US evidenciou grande lesão em alvo, hiperecogênica, com espesso halo periférico e medindo cerca de 7,0 cm de diâmetro (Figura 1). A TC mostrou lesão hipodensa e mal delimitada na fase sem contraste e com realce periférico após a injeção do meio de contraste (Figura 2). O exame de RM demonstrou grande massa hipointensa e hiperintensa nas imagens ponderadas em T1 e T2, respectivamente, e realce em alvo, semelhante ao observado na TC (Figura 3). O estudo anatomopatológico do fragmento da lesão, obtido por biópsia guiada por US, confirmou tratar-se de LNH. Não foram encontradas outras lesões, confirmando tratar-se de linfoma hepático primário.

Caso 2 - Paciente do sexo masculino, 45 anos de idade, com sorologia positiva para o HIV, apresentando febre baixa associada a dor no hipocôndrio direito, epigastralgia e emagrecimento há três meses. Realizou-se US do abdome, que demonstrou grande massa com aspecto em alvo, medindo cerca de 8,0 cm (Figura 4). Na TC observou-se massa hipodensa com realce periférico nas fases arterial e portal e progressivo na fase de equilíbrio (Figura 5). O paciente foi submetido a endoscopia digestiva alta, que mostrou lesão duodenal ulcerada. Foram realizadas biópsias das lesões duodenal e hepática, sendo diagnosticado LNH em ambas. Este caso foi considerado envolvimento hepático secundário.

Caso 3 - Paciente do sexo masculino, 40 anos de idade, apresentando febre baixa e dor abdominal no hipocôndrio direito há cerca de três meses. Realizou-se TC, que revelou lesão hipodensa mal delimitada na fase pré-contraste e com realce periférico (Figura 6). Esta lesão foi considerada inicialmente um abscesso e foi tentada drenagem percutânea sem sucesso. A biópsia dirigida por TC demonstrou tratar-se de LNH; não havia outras lesões linfonodais ou parenquimatosas, sendo considerado primário do fígado. A lesão regrediu após tratamento quimioterápico.

 

DISCUSSÃO

O trato gastrintestinal é o local mais comum de linfoma extranodal primário, e os dois sítios mais frequentes são o estômago e o intestino delgado(10). O linfoma hepático primário é extremamente raro, tendo sido descritos, na literatura, menos de 100 casos (77 casos até o ano de 1999), porém sua incidência tem aumentado como resultado do aumento do número de pacientes com imunossupressão e transplante de órgãos(3). Geralmente é do tipo não-Hodgkin e em mais de 70% dos casos apresenta-se como massa única(6,10,11). O envolvimento hepático secundário por linfoma é relatado em até 50% dos casos, com apresentação multinodular e difusa(1,6,11).

Os principais sintomas clínicos de pacientes com linfoma hepático são dor abdominal no quadrante superior direito ou epigástrio, perda de peso e febre(4).

A capacidade e a eficácia dos métodos de imagem para o estadiamento do linfoma e conseqüente planejamento do tratamento e seguimento são bem comprovados(4). No entanto, devido à sua apresentação incomum, quando o linfoma acomete isoladamente o fígado, pode se tornar um dilema diagnóstico(6,7).

Os aspectos de imagem mais comuns do linfoma que acomete o fígado são a hepatomegalia homogênea e a infiltração multinodular(1,6,11). A forma de apresentação como massa única é rara, sendo que algumas características epidemiológicas e de imagem podem auxiliar na orientação diagnóstica.

Os três pacientes estudados eram homens na quinta década de vida, como tem sido descrito na literatura(3). Dos três, apenas um era imunodeprimido e nenhum deles apresentava sinais de hepatopatia crônica. Tem sido descrita associação, em 30% dos casos, de linfoma hepático primário com cirrose e hepatite crônica(12-15). Apesar de não estar clara a razão dessa associação, deve-se considerar o diagnóstico de LNH em pacientes cirróticos com volumosa massa hepática e níveis normais de alfafetoproteína. Em pacientes cirróticos com massa hepática, o diagnóstico mais provável é o de hepatocarcinoma. Ao contrário do hepatocarcinoma, que se apresenta freqüentemente como massa hipervascularizada(8), os casos aqui apresentados demonstravam lesão predominantemente hipovascular, que também pode ocorrer no hepatocarcinoma, mas menos freqüentemente e geralmente associada a cápsula fibrótica perilesional(8).

Nos casos apresentados a US detectou grande massa solitária heterogênea, com aspecto em alvo, hiperecogenicidade central circundada por halo periférico espesso hipoecogênico, que já foi descrito como padrão bastante comum em pacientes com linfoma hepático(1,16). As lesões eram volumosas e apresentavam entre 5,0 e 8,0 cm de diâmetro. Na literatura são descritas lesões de até 15,0 cm(17).

Na TC, os três casos apresentaram um aspecto bastante semelhante de massa hipodensa com realce anelar que, associado ao quadro clínico de febre e dor no hipocôndrio direito, sugeriram o diagnóstico de abscesso hepático, o que nos levou erroneamente a tentar a drenagem em um dos casos. Estas lesões apresentaram discreto realce progressivo nos cortes mais tardios, o que já foi descrito no linfoma hepático primário(17), mas que também é identificado em outros tipos de lesão(18).

A RM de um dos pacientes com linfoma hepático primário mostrou lesão com hipossinal em T1, hipersinal heterogêneo em T2 e realce periférico após a injeção do contraste paramagnético, à semelhança do descrito por outros autores(2,6,17,19,20) e considerado por alguns como inespecífico(6,19).

Entre os diagnósticos diferenciais a serem considerados devemos incluir hepatocarcinoma, colangiocarcinoma intra-hepático, metástase de adenocarcinoma e abscesso amebiano. A correlação de dados clínicos e aspectos de imagem, apesar de útil, não dispensa a comprovação histológica, na maioria dos casos(3,21). O diagnóstico de hepatocarcinoma pode ser suspeitado na presença de massa hipervascularizada e elevação de alfafetoproteína(8,22). O colangiocarcinoma intra-hepático e periférico é um diagnóstico de exclusão e geralmente se assemelha aos casos aqui relatados. Mesmo a dilatação das vias biliares é observada em apenas 30% dos casos(23). O abscesso amebiano e a metástase hipovascularizada de hepatocarcinoma podem apresentar aspecto muito semelhante ao aqui observado, e apenas a correlação com os dados clínicos e laboratoriais, além da punção percutânea, podem auxiliar na diferenciação diagnóstica(24).

Concluindo, pacientes imunodeprimidos que apresentam massa hepática única, com aspecto em alvo, podem ser portadores de linfoma hepático e esta hipótese deve ser considerada entre os diagnósticos diferenciais. Em pacientes cirróticos, homens e de meia-idade, este diagnóstico reveste-se de maior importância pela sua freqüência e conduta distinta daquela adotada no hepatocarcinoma.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Giuseppe D'Ippolito
Rua Doutor Alceu de Campos Rodrigues, 95, subsolo, Vila Nova Conceição
São Paulo, SP, Brasil, 04544-000
E-mail: scoposl@uol.com.br

Recebido para publicação em 29/9/2008.
Aceito, após revisão, em 10/12/2008.

 

 

* Trabalho realizado na Scopo Diagnóstico, Serviço de US/TC/RM do Hospital São Luiz, São Paulo, SP, Brasil.

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