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Radiologia Brasileira

versión impresa ISSN 0100-3984

Radiol Bras vol.44 no.4 São Paulo jul./ago. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-39842011000400012 

ENSAIO ICONOGRÁFICO

 

Variações anatômicas das cavidades paranasais à tomografia computadorizada multislice: o que procurar?*

 

 

Christiana Maia Nobre Rocha de MirandaI; Carol Pontes de Miranda MaranhãoII; Fabiana Maia Nobre Rocha ArraesIII; Igor Gomes PadilhaIV; Lucas de Pádua Gomes de FariasIV; Mayara Stephanie de Araujo JatobáV; Anna Carolina Mendonça de AndradeV; Bruno Gomes PadilhaV

IDoutora, Coordenadora do Setor de Tomografia Computadorizada da Clínica de Medicina Nuclear e Radiologia de Maceió (Medradius), Professora de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Maceió, AL, Brasil
IIMembro Titular do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), Médica Radiologista do Setor de Tomografia Computadorizada da Clínica de Medicina Nuclear e Radiologia de Maceió (Medradius), Maceió, AL, Brasil
IIIDoutora, Médica Otorrinolaringologista da Clínica Sinus, Maceió, AL, Brasil
IVEstudantes de Medicina, Monitores da Disciplina de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Maceió, AL, Brasil
VEstudantes de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Maceió, AL, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A tomografia computadorizada multislice é, atualmente, a modalidade de imagem de escolha para a avaliação dos seios paranasais e das estruturas adjacentes. Ela tem sido cada vez mais utilizada para a avaliação das variações anatômicas, identificando-as de forma precisa e com elevados detalhes anatômicos. Algumas variações anatômicas podem predispor a sinusopatias e constituir regiões de alto risco para lesões e complicações durante atos operatórios. Portanto, o reconhecimento dessas variações é de fundamental importância no pré-operatório de cirurgia endoscópica.

Unitermos: Tomografia computadorizada multislice; Seios paranasais; Variações anatômicas.


 

 

INTRODUÇÃO

Os seios paranasais são extensões cheias de ar que se desenvolvem como expansões das cavidades nasais e promovem a erosão do osso ao redor. De acordo com a literatura, algumas destas regiões são de alto risco para lesões e consequentes complicações durante atos operatórios, sendo o etmoidal e frontal os mais acometidos(1,2). A estes riscos aliam-se as variações anatômicas, juntamente com as doenças que as acompanham, sendo de suma importância o conhecimento destas estruturas pelos cirurgiões endoscópicos, assim como pelos radiologistas que realizam a avaliação préoperatória, a fim de evitar falhas terapêuticas e iatrogenias(2-5).

A aquisição de uma excelente definição da anatomia sinusal para uma pré-avaliação endoscópica pode ser obtida por meio da tomografia computadorizada, que é padrão ouro no estudo destas estruturas, uma vez que fornece informações precisas sobre partes moles, estruturas ósseas e ar, caracterizando, neste aspecto, um exame de alta sensibilidade(5,6).

O objetivo deste ensaio é demonstrar, por meio da tomografia computadorizada multislice de 40 canais, as principais variações anatômicas que podem ser detectadas nos seios paranasais.

 

SEPTO NASAL

Alterações do septo nasal (delimitado pelo vômer, lâmina perpendicular do etmoide e cartilagem septal) resultam em variações morfológicas, como o desvio de septo, a deformidade da junção condrovomeral e o esporão nasal. O desvio de septo é a divergência da linha mediana associada a deformidades ou assimetria das conchas adjacentes (Figura 1A) ou da estrutura da parede nasal, e que possuem apresentação variável na população(6,7).

O esporão de septo nasal (Figura 1B) é uma deformidade óssea geralmente assintomática, mas que pode causar restrição ao fluxo aéreo nasal e estar associado ao desvio de septo. A depender do grau de obstrução e dos sintomas, pode ser necessária a correção cirúrgica(7).

 

VARIAÇÕES DAS CONCHAS NASAIS MÉDIAS

A concha média bolhosa (Figura 2A), variação originada da pneumatização da placa óssea que a compõe por extensão das células etmoidais, pode ser uni ou bilateral (Figura 2B). Os graus de pneumatização da concha são variados, podendo ocasionar obstrução do meato médio ou do infundíbulo, além de possuir relação com desvio do septo nasal para o lado contralateral(8). Outra variação frequentemente as sociada ao desvio e esporão septal é a hipoplasia unilateral (Figura 3A). Quando bilateral, está associada a fóvea etmoidal baixa(7).

A curvatura paradoxal ocorre quando a convexidade da concha média está voltada para a parede medial do seio maxilar. Dependendo do grau de curvatura da concha paradoxal (Figura 3B), pode haver compressão do infundíbulo e obstrução sinusal(8).

 

VARIAÇÕES DOS PROCESSOS UNCINADOS

O processo uncinado é uma extensão superior da parede lateral do nariz e uma importante estrutura anatômica para o recesso frontal, orientando, assim, a sua drenagem. Variações como hipertrofia, desvio e pneumatização (Figura 4) podem interferir na drenagem, gerando anormalidades no complexo ostiomeatal (Tabela 1) e predispondo a obstruções(6,7,9).

 

 

De forma tradicional, o processo uncinado é identificado a partir de sua porção inferior pela arquitetura da unidade ostiomeatal, e as variações de inserção na porção superior são classificadas por Landsberg e Friedman(10) conforme ilustrado na Figura 5.

 

EXTENSÃO DA PNEUMATIZAÇÃO DAS CAVIDADES PARANASAIS

O seio esfenoide se desenvolve a partir de centros ósseos pré-esfenoidais, resultando em extensão variável sua pneumatização (Figura 6A). Apresenta, majoritariamente, recessos relacionados à asa maior, embora também apresente extensões laterais na asa menor do esfenoide, recessos inferolateral e septal(7) (Figura 6B).

 


 

A extensão do seio frontal (Figura 6C) trata-se de uma condição rara caracterizada por aumento da aeração do seio além da margem normal do osso frontal, que se origina da extensão anterior de células etmoidais anteriores. Podem ter extensões relacionadas à lâmina do osso frontal, à crista galli e extensão inferior simétrica do seio frontal para as células etmoidais anteriores. Sua apresentação tem predominância entre as idades de 20 e 40 anos e no sexo masculino, não havendo casos em crianças(11).

Em relação ao seio maxilar, foram descritos quatro recessos: o recesso palatino se estende inferomedialmente para o palato duro em direção à linha média; os recessos alveolares estão relacionados intimamente às raízes dos dentes molares e pré-molares (Figura 6D); o recesso infraorbital se projeta anteriormente ao longo do teto do seio maxilar; e o recesso zigomático se estende no osso malar a distâncias variáveis(7).

 

VARIAÇÕES DA LÂMINA CRIBRIFORME

A lâmina cribriforme pode assumir níveis variáveis e nestes casos aplica-se a classificação de Keros (Figura 7), que se baseia na altura da fossa olfatória em relação ao teto do etmóide, tomando como referência o comprimento da lamela lateral da placa cribriforme. Quanto maior o grau da classificação de Keros, maior a chance de lesão da placa cribriforme e da fossa olfatória, com consequente risco de fístula liquórica iatrogênica e prejuízo do olfato(12).

 

VARIAÇÕES NAS CÉLULAS ETMOIDAIS

As células etmoidais infraorbitárias (Figura 8), ou células de Haller, são células etmoidais localizadas inferiormente à bulla etmoidal, ao longo do assoalho da órbita e relacionadas ao teto do seio maxilar, que podem obstruir a drenagem mucociliar, predispondo a rinossinusites(5,7).

 

 

As células de agger nasi (Figura 9) estão situadas anteriormente à margem superior do ducto nasolacrimal e anteriormente ao plano do infundíbulo do seio maxilar, sendo consideradas as células etmoidais mais anteriores. Estudos evidenciam que suas maiores dimensões estão correlacionadas a sinusopatia frontal e lacrimejamento(6,8,9).

 

 

As células de Onodi (Figura 10) são células etmoidais posteriores que migraram para a região anterior do seio esfenoide, possuindo localização anterossuperior em relação a este e íntima relação com o nervo óptico, sendo responsável por neuropatia óptica em determinadas doenças que as acometem(13).

A bula frontal (Figura 11) é caracterizada por células etmoidais anteriores que invadem o osso frontal, abaulando seu assoalho, porém sem apresentar conexão com este. É mais facilmente demonstrada na tomografia computadorizada sagital, em que surgem como células etmoidais situadas acima da bula etmoidal e em extensão ao seio frontal. Dependendo de suas dimensões e pneumatização, essas células podem modificar o sistema de drenagem do seio frontal, representando um verdadeiro desafio para o diagnóstico e ainda mais para o tratamento cirúrgico das doenças inflamatórias envolvendo este seio.

 

 

Outras variações das células etmoidais podem ser encontradas no recesso frontal (Figura 12), influenciando a sua arquitetura, que é determinada pela patência das paredes e limites pertencentes às estruturas adjacentes(9), como as células frontais, que são classificadas em quatro tipos(14):

a) tipo 1: detectado em 37% dos recessos frontais; são definidas como célula etmoidal única situada anteriormente ao recesso frontal e acima da célula de agger nasi;

b) tipo 2: visto em 19% dos casos, são detectadas duas ou mais células etmoidais anteriores ao recesso frontal, acima da célula de agger nasi (Figuras 12A e 12B);

c) tipo 3: representa 6-8% dos casos e é detectada célula única volumosa, acima da agger nasi, com extensão para o seio frontal;

d) tipo 4: raro, representa 2-4% dos casos e é vista uma célula etmoidal dentro do seio frontal, sem contato com a célula de agger nasi.

 

 

SEPTAÇÃO NOS SEIOS MAXILARES

Os septos do seio maxilar (Figura 6C), paredes finas de osso cortical em seu interior, variam em número, espessura e comprimento. Podem dividir a cavidade em duas ou mais, tendo origem das paredes inferior e lateral do seio. A origem do septo a partir dos dentes permite classificar sua localização de acordo com o seu desenvolvimento em diferentes momentos de erupção dentária(15,16).

 

ÓSTIOS ACESSÓRIOS DOS SEIOS MAXILARES

O óstio acessório do seio maxilar (Figura 13) é geralmente solitário, mas ocasionalmente múltiplo, podendo ser congênito ou secundário a sinusopatia. Um possível mecanismo de formação desta variante é a obstrução do óstio principal, sinusite maxilar ou devido a fatores anatômicos e patológicos no meato médio, resultando na ruptura de áreas membranosa(17).

 

 

CONCLUSÃO

A tomografia computadorizada tem papel fundamental no diagnóstico de variações anatômicas sinusais e de sinusopatias, orientando melhor decisões terapêuticas clínicas e cirúrgicas e atuando como ferramenta essencial no melhor desempenho de técnicas operatórias menos invasivas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dra. Christiana Maia Nobre Rocha de Miranda
Rua Hugo Corrêa Paes, 104, Farol
Maceió, AL, Brasil, 57050-730
E-mail: maiachristiana@globo.com

Recebido para publicação em 13/2/2011
Aceito, após revisão, em 3/6/2011.

 

 

* Trabalho realizado na Clínica de Medicina Nuclear e Radiologia de Maceió (Medradius), Maceió, AL, Brasil.