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Radiologia Brasileira

versão impressa ISSN 0100-3984versão On-line ISSN 1678-7099

Radiol Bras vol.51 no.2 São Paulo mar./abr. 2018  Epub 15-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/0100-3984.2016.0211 

Original Articles

Proposta para um laudo estruturado de tomografia computadorizada na avaliação da neoplasia de pâncreas baseada na opinião de especialistas

Paulo Gustavo Maciel Lopes1 

Carlos Alberto Matsumoto2 

Edson José Lobo3 

Giuseppe D'Ippolito4 

1Médico Radiologista do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e dos Laboratórios DASA e CDB, São Paulo, SP, Brasil.

2Médico Radiologista do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e do Fleury Medicina Diagnóstica, São Paulo, SP, Brasil.

3Professor Associado do Departamento de Cirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), São Paulo, SP, Brasil.

4Livre-docente, Professor Adjunto do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), São Paulo, SP, Brasil.

Resumo

Objetivo:

Criar um modelo de laudo estruturado de tomografia computadorizada (TC) para a avaliação sistemática do adenocarcinoma ductal de pâncreas (ADP) com base na opinião de clínicos e cirurgiões.

Materiais e Métodos:

Realizamos estudo prospectivo aplicando um questionário abrangendo 21 tópicos para um modelo de laudo estruturado de TC do abdome na avaliação do ADP, contemplando dados sobre localização e tamanho tumoral, efeito sobre estruturas adjacentes, comprometimento vascular e presença de metástases. Utilizamos a escala de Likert para definir a pertinência de se inserir uma determinada informação.

Resultados:

Obtivemos respostas de 18 especialistas de 9 instituições (12 cirurgiões e 6 clínicos). Todos concordaram que deveriam ser descritos o grau de realce, o diâmetro da lesão, a localização e a presença ou a ausência de: obstrução do ducto pancreático, dilatação biliar, atrofia pancreática, metástases hepáticas, nódulos peritoniais, ascite, linfonodomegalias e invasão de estruturas adjacentes. Mais de 80% concordaram que deveria ser mencionada a relação do tumor com os vasos circunjacentes.

Conclusão:

Elaboramos um modelo de laudo estruturado de TC para a avaliação do ADP de pâncreas, atendendo às expectativas dos especialistas envolvidos no atendimento destes pacientes.

Unitermos: Neoplasias pancreáticas/diagnóstico por imagem; Tomografia computadorizada por raios X; Estadiamento de neoplasias; Consenso

INTRODUÇÃO

O adenocarcinoma ductal pancreático (ADP) é a quarta causa de mortes por câncer nos Estados Unidos(1). No Brasil, é responsável por cerca de 2% de todos os tipos de neoplasias malignas diagnosticadas e por 4% das mortes por câncer(2).

A possibilidade de cura do ADP é oferecida pelo tratamento cirúrgico(3). No entanto, a cirurgia curativa ou radical só é possível em uma pequena fração dos portadores dessa doença. A ressecabilidade do ADP localizado na cabeça do órgão gira em torno de 15% a 20% e a do corpo e cauda em 10% dos casos(4). Portanto, no momento do diagnóstico, 80% a 85% desses pacientes podem se beneficiar apenas do tratamento paliativo. Embora para muitos o ADP seja considerado incurável, a cirurgia radical oferece uma sobrevida em cinco anos de cerca de 20%, enquanto a sobrevida global da doença em cinco anos é menor que 5%(5). Além disso, também há um maior tempo de sobrevida e melhor qualidade de vida nos pacientes que se submetem à ressecção quando comparada a outras formas de tratamento não radicais(5).

A indicação do tratamento cirúrgico com o propó sito de ressecção do tumor depende de critérios baseados nas condições clínicas do paciente e no estadiamento da doença(6). Entre as opções cirúrgicas, a mais frequentemente realizada em pacientes com ADP na região cefálica é a duodenopancreatectomia, que apresenta morbidade e mortalidade de até 20% e 2%, respectivamente, mesmo em serviços com grande volume cirúrgico(6). Uma precisa avaliação pré-operatória e estadiamento locorregional, por meio de métodos de imagem, permite evitar cirurgias curativas desnecessárias e auxilia no planejamento cirúrgico, reduzindo complicações inerentes ao procedimento(7,8). Na ausência de metástases a distância (fígado, pulmões, peritônio, etc.), a atenção recai principalmente sobre o comprometimento dos vasos sanguíneos localizados ao redor do pâncreas, sendo os principais: a veia mesentérica superior, a artéria mesentérica superior, a veia porta, a artéria hepática comum e o tronco celíaco. Com base nessa análise, os pacientes são então classificados como ressecáveis, irressecáveis, ou pertencentes a um grupo não bem definido, chamado de limítrofe ou borderline (9). A ressonância magnética e principalmente a tomografia computadorizada (TC) têm sido consideradas as ferramentas de diagnóstico por imagem rotineiramente utilizadas no estadiamento e planejamento terapêutico dos pacientes com doença pancreática(7,8,10,11).

A avaliação multidisciplinar, envolvendo cirurgiões, oncologistas e radiologistas, dos pacientes com ADP é hoje uma rotina, sem a qual muitas condutas inadequadas seriam tomadas. Estas análises conjuntas permitem uma avaliação pré-operatória e pós-operatória e da resposta ao tratamento oncológico indispensável para o atendimento adequado do paciente e estimulam o aperfeiçoamento dos diversos grupos de profissionais, que, assim, podem oferecer aos pacientes uma abordagem terapêutica compatível com o grau de comprometimento e extensão da doença(12). Neste sentido, os melhores resultados são obtidos quando o laudo radiológico contém de maneira clara, pormenorizada e estruturada todas as informações necessárias à adoção do tratamento mais indicado para cada paciente(13).

Recentemente, grupos de especialistas têm sugerido adotar laudos estruturados de exames de imagens para diversas situações clínicas, por exemplo, em pacientes com aneurisma de aorta(14), portadores de carcinoma de reto(15), de próstata(16), de cabeça e pescoço(17), de adenocarcinoma do pâncreas(18,19), entre outros. Apesar de este modelo de laudo ser desejado por muitos especialistas e permitir contribuir para um melhor atendimento ao paciente oncológico, ainda é pouco utilizado no meio radiológico(20).

O objetivo do presente estudo foi construir, a partir da opinião de especialistas, um modelo de laudo estruturado que atenda as necessidades inerentes ao planejamento terapêutico de pacientes portadores de ADP.

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo é uma pesquisa prospectiva, transversal e descritiva, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. Inicialmente, foi realizado um encontro com cirurgiões e gastrenterologistas especialistas em doenças pancreáticas e membros do Grupo de Estudos das Doen ças Pancreáticas, o qual é uma comunidade médica multidisciplinar que reúne mensalmente profissionais de diversas entidades de ensino e tem como objetivo a educação continuada e a troca de conhecimento e experiência nas doenças do pâncreas. Nesse encontro foi apresentado o projeto que visava a estabelecer um modelo de laudo de TC para pacientes com suspeita de serem portadores de ADP e baseado em referências da literatura(17). Com este objetivo, foi aplicado um questionário aos membros do grupo, que abrangia 21 aspectos do comportamento da lesão tumoral, procurando estabelecer quais informações deveriam estar contidas em um laudo de TC do paciente portador de neoplasia de pâncreas (Tabela 1).

Tabela 1 Aspectos que deveriam estar contidos em um laudo radiológico no portador de neoplasia de pâncreas. 

Avaliação morfológica da lesão pancreática, deve-se descrever:
O grau de realce: hipo, iso ou hipervascular?
O maior diâmetro da lesão, quando mensurável?
A localização da lesão (uncinado, cabeça, corpo, cauda)?
Estreitamento ou obstrução abrupta do ducto pancreático, com ou sem dilatação a montante, com ou sem atrofia do parênquima?
Obstrução do hepatocolédoco, com ou sem dilatação a montante?
Avaliação arterial, deve-se descrever:
Artéria mesentérica superior, tronco celíaco, artéria hepática comum: deve-se descrever se está livre ou comprometida?
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º?
Estenose focal ou contorno irregular do vaso?
Grau de extensão na artéria hepática comum para bifurcação ou ramos principais?
Variante anatômica arterial: descrever sempre que houver, se está livre ou comprometida, grau de contato do tumor com a artéria, se há este-nose focal ou contorno irregular do vaso?
Avaliação venosa, deve-se descrever:
Tronco da veia porta e veia mesentérica superior: deve-se descrever se está livre, comprometida ou completamente ocluída?
Grau de contato do tumor com a veia: ≤ 180º ou > 180º?
Estenose focal ou contorno irregular do vaso: presente ou ausente?
Extensão para primeiro ramo venoso da veia mesentérica superior: pre-sente ou ausente?
Trombose venosa: presente ou ausente (veia porta, veia mesentérica superior ou esplênica)?
Circulação colateral: presente ou ausente (peripancreática, hilo hepático, mesenterial, ou no hipocôndrio esquerdo)?
Avaliação extrapancreática, deve-se descrever:
Lesões hepáticas: presente ou ausente (suspeitas, indeterminadas ou benignas)?
Nódulos peritoniais ou omentais: presente ou ausente?
Ascite: presente ou ausente?
Linfonodomegalias ou suspeitos: presente ou ausente (hilo hepático, celíaco, hilo esplênico, periaórtico, interaortocaval)?
Invasão de estruturas adjacentes: presente ou ausente?

Os membros do grupo pontuaram, de acordo com a escala de Likert(21), se os diversos dados deveriam ou não constar no laudo, respondendo a cada afirmação, como segue: 1 = não concordo totalmente; 2 = não concordo parcialmente; 3 = indiferente; 4 = concordo parcialmente; 5 = concordo totalmente.

Para se realizar a análise estatística, as respostas 1 e 2 foram agrupadas indicando não concordância com a necessidade de se manter determinado item no laudo estruturado. Em contrapartida, as respostas 4 e 5 foram agrupadas indicando concordância com a necessidade de se manter determinado item no laudo estruturado. Quando a resposta foi indiferente, o dado foi tratado de forma independente. Além disso, para cada item analisado foi calculada uma média correspondendo às respostas dos participantes do estudo, variando entre 1 e 5, em que, quanto mais próxima de 5, maior a concordância com a inclusão de um determinado dado no laudo estruturado e vice- versa. A análise estatística das informações coletadas foi feita de forma descritiva, mediante cálculo de médias e de frequências (porcentagem).

RESULTADOS

O questionário foi respondido por 18 especialistas de 9 instituições de ensino da cidade de São Paulo, SP. Desses especialistas, 66,7% (12/18) tinham mais de cinco anos de experiência na sua atividade profissional. Entre os especialistas que responderam o questionário, 66,7% (12/18) eram cirurgiões e 33,3% (6/18) eram clínicos.

Para todos os aspectos analisados houve concordância superior a 83% para a sua inserção no laudo, com média de concordância variando entre 4,44 e 5 (numa escala entre 1 e 5, em que 1 significa não concordo totalmente e 5 significa concordo totalmente) (Tabela 2).

Tabela 2 Distribuição de concordâncias entre os participantes do estudo para a inserção dos diversos aspectos tomográficos do ADP. 

Aspectos Médias Concordam
Avaliação morfológica da lesão pancreática, deve-se descrever:
O grau de realce: hipo, iso ou hipervascular? 5,00 100,00%
O maior diâmetro da lesão, quando mensurável? 4,94 100,00%
A localização da lesão (uncinado, cabeça, corpo, cauda)? 4,94 100,00%
Estreitamento ou obstrução abrupta do ducto pancreático, com ou sem dilatação a montante, com ou sem atrofia do parênquima? 5,00 100,00%
Obstrução do hepatocolédoco, com ou sem dilatação a montante? 5,00 100,00%
Avaliação arterial, deve-se descrever:
Artéria mesentérica superior, tronco celíaco, artéria hepática comum: deve-se descrever se está livre ou comprometida? 4,88 94,12%
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º? 4,44 83,33%
Estenose focal ou contorno irregular do vaso? 4,67 88,89%
Grau de extensão na artéria hepática comum para bifurcação ou ramos principais? 5,00 94,44%
Variante anatômica arterial: descrever sempre que houver, se está livre ou comprometida, grau de contato do tumor com a artéria, se há estenose focal ou contorno irregular do vaso? 5,00 100,00%
Avaliação venosa, deve-se descrever:
Tronco da veia porta e veia mesentérica superior: deve-se descrever se está livre, comprometida ou completamente ocluída? 5,00 100,00%
Grau de contato do tumor com a veia: ≤ 180º ou > 180º? 4,78 94,44%
Estenose focal ou contorno irregular do vaso: presente ou ausente? 4,82 100,00%
Extensão para primeiro ramo venoso da veia mesentérica superior: presente ou ausente? 4,67 88,89%
Trombose venosa: presente ou ausente (veia porta, veia mesentérica superior, ou veia esplênica)? 5,00 100,00%
Circulação colateral: presente ou ausente (peripancreática, hilo hepático, mesenterial, ou no hipocôndrio esquerdo)? 4,83 100,00%
Avaliação extrapancreática, deve-se descrever:
Lesões hepáticas: presente ou ausente (suspeitas, indeterminadas ou benignas)? 4,89 100,00%
Nódulos peritoniais ou omentais: presente ou ausente? 4,94 100,00%
Ascite: presente ou ausente? 4,94 100,00%
Linfonodomegalias ou suspeitos: presente ou ausente (hilo hepático, celíaco, hilo esplênico, periaórtico, interaortocaval)? 4,94 100,00%
Invasão de estruturas adjacentes: presente ou ausente? 5,00 100,00%

As Figuras 1 a 4 mostram exemplos de casos de ADP e seus efeitos sobre estruturas adjacentes apresentados para o grupo de especialistas.

Figura 1 Neoplasia na cabeça do pâncreas sem sinais de invasão vascular. Massa hipovascular na cabeça do pâncreas (cabeça de seta). Artéria mesentérica superior (seta preta) e veia mesentérica superior (seta branca pequena). Nota-se um contato inferior a 180° entre o tumor e estes vasos, sem trombo ou distorção parietal, indicando que não há sinais de invasão vascular. 

Figura 2 Neoplasia no corpo e cauda do pâncreas (cabeça de seta) com envolvimento do tronco celíaco (seta). A massa envolve completamente o vaso até a sua origem na aorta. 

Figura 3 Neoplasia na cabeça e colo do pâncreas com envolvimento da veia porta e promovendo dilatação do ducto colédoco e das vias biliares intra-hepáticas. O tumor pancreático (cabeça de seta) envolve, estreita e deforma a veia porta (seta). 

Figura 4 TC com contraste (A) e colangiorressonância (B). Neoplasia de cabeça de pâncreas causando dilatação do ducto pancreático principal (seta em A), com atrofia do corpo e cauda do pâncreas e dilatação das vias biliares. 

Avaliação morfológica da lesão pancreática

Todos os participantes concordaram que deveriam ser descritos o grau de realce da lesão (hipo, iso ou hipervascular), o maior diâmetro da lesão quando mensurável, a localização da lesão, estreitamento ou obstrução do ducto pancreático principal, com ou sem dilatação a montante, com ou sem atrofia do parênquima e obstrução do ducto hepatocolédoco, com ou sem dilatação a montante.

Avaliação arterial

Em relação à descrição no laudo, se estariam livres ou comprometidos a artéria mesentérica superior, o tronco celíaco e a artéria hepática comum, 17 dos 18 especialistas responderam essa questão e a grande maioria (16/17; 94%) concordou que o envolvimento arterial deve ser descrito e 1/17 (6%) ficou indiferente. Quanto ao grau de contato do tumor (≤ 180° ou > 180°) com essas artérias, 15/18 (83%) especialistas concordaram que deveria ser descrito no laudo, 2/18 (11%) foram indiferentes e 1/18 (6%) discordou totalmente. Quanto à existência ou não de estenose focal ou contorno irregular do vaso, 16/18 (89%) concordaram que deveria ser descrito no laudo e 2/18 (11%) foram indiferentes. Em relação ao grau de extensão do comprometimento da artéria hepática comum, para bifurcação ou ramos principais, 17/18 (94%) concordaram com a sua inclusão e 1/18 (6%) ficou indiferente. Todos os participantes concordaram que devem ser descritos a existência ou não de variantes anatômicas arteriais e se essas variantes estariam livres ou comprometidas, o grau de contato do tumor com essas variantes e a presença de estenose focal ou contorno irregular do vaso.

Avaliação venosa

Todos os participantes concordaram que deveriam ser descritos se os troncos da veia porta e veia mesentérica superior estão livres, comprometidos ou completamente ocluídos e se há ou não trombose venosa e circulação colateral. Quanto ao grau de contato do tumor com as veias (≤ 180° ou > 180°), 17/18 (94%) concordaram que deveria ser descrito e 1/18 (6%) ficou indiferente quanto à menção deste aspecto no laudo tomográfico. Em relação à extensão para o primeiro ramo venoso da veia mesentérica superior, 16/18 (89%) concordaram que deveria ser descrito e 2/18 (11%) foram neutros.

Avaliação extrapancreática

Todos os 18 participantes concordaram que deveria ser descrita a presença ou ausência de: lesões hepáticas (suspeitas, indeterminadas ou benignas), nódulos peritoniais, ascite, linfonodomegalias (no hilo hepático, tronco celíaco, hilo esplênico, periaórtico e interaortocaval) e a invasão de estruturas adjacentes.

DISCUSSÃO

Mediante aplicação de um questionário para especialistas em doenças pancreáticas, abrangendo diversos aspectos do exame de TC para a avaliação de pacientes portadores de ADP, foi possível elaborar uma proposta de laudo tomográfico estruturado que atenda não somente as expectativas destes profissionais, mas também melhore a comunicação entre os diversos especialistas envolvidos no atendimento deste grupo de pacientes. Pelo que sabemos, trata-se da primeira iniciativa no meio radiológico de língua portuguesa neste sentido.

O ADP, ainda hoje, é um desafio terapêutico para centros de tratamento de câncer no mundo(5,22). A ressecção cirúrgica completa é a principal oportunidade de cura desses pacientes(18) e a margem cirúrgica livre de doença está diretamente relacionada com o tempo de sobrevida dos pacientes(22-24). Além disso, a ampliação desnecessária da margem de segurança durante a cirurgia não apresenta impacto significativo na sobrevida desses pacientes, mas pode aumentar a morbidade do procedimento(22,23). Dessa forma, o estadiamento realizado por métodos de imagem, entre eles a TC, tem papel fundamental na estratificação desses pacientes e na escolha da terapêutica apropriada(13), e uma clara e completa comunicação dessas informações para o médico assistente é crucial para garantir os melhores resultados terapêuticos em benefício do paciente(19). No entanto, há muitas limitações nos atuais laudos dos exames de imagem desses pacientes, como variabilidade nos termos utilizados para definir a extensão da doença e descrições incompletas, o que pode alterar o prognóstico e o planejamento terapêutico do paciente(18). Também existem discrepâncias entre os principais termos usados pelos radiologistas e suas interpretações pelos médicos assistentes(25).

Muitas iniciativas têm sido tomadas para melhorar a qualidade do laudo radiológico(26,27), e nesse contexto surgiram propostas de modelos de laudos estruturados em diversas condições clínicas, notadamente as promovidas pelo Colégio Americano de Radiologia(26). No entanto, esse modelo ainda sofre alguma resistência entre os radiologistas, principalmente em decorrência de dificuldades inerentes à implementação de laudos estruturados, que demandam maior tempo e energia despendida(20). Alguns estudos têm comparado as vantagens e desvantagens do laudo estruturado em relação ao laudo com texto livre(19,28,29), sem necessariamente demonstrar benefício para elevar a acurácia(28) ou a clareza do laudo(29). No entanto, quando se analisou especificamente o impacto em pacientes portadores de neoplasia de pâncreas, o laudo estruturado apresentou benefícios no planejamento terapêutico, em decorrência da garantia de inclusão de aspectos cruciais no relatório e maior detalhamento e clareza nas informações transmitidas(19).

No nosso trabalho, os principais aspectos propostos por outros grupos de estudo em doenças pancreáticas para constar de um laudo tomográfico na avaliação do carcinoma de pâncreas(18) foram considerados fundamentais pelo time de especialistas reunidos. Dessa forma, foi possível elaborar uma proposta de modelo de laudo estruturado para o ADP validado por profissionais do nosso meio e adaptado à nossa realidade (Tabela 3). Desenhos esquemáticos detalhados ilustrando os critérios de invasão vascular tumoral estão disponíveis na literatura e com livre acesso(18).

Tabela 3 Modelo de laudo estruturado de ADP baseado na opinião de especialistas brasileiros. 

Morfologia da lesão
Realce: hipovascular/isovascular/hipervascular
Maior diâmetro da lesão: .......... cm
Localização da lesão: uncinado/cabeça/corpo/cauda
Obstrução abrupta do ducto pancreático: sim/não
Dilatação a montante: sim/não
Atrofia do parênquima: sim/não
Obstrução do colédoco: sim/não
Dilatação das vias biliares: sim/não
Avaliação arterial
Artéria mesentérica superior: livre/comprometida
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Tronco celíaco: livre/comprometido
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Artéria hepática comum: livre/comprometida
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Extensão para a bifurcação: sim/não
Variação anatômica: sim/não
Qual? ..........................................................................: livre/comprometido
Grau de contato do tumor com a artéria: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Avaliação venosa
Tronco da veia porta: livre/comprometido
Grau de contato do tumor com a veia: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Trombose venosa: sim/não
Veia mesentérica superior: livre/comprometida
Grau de contato do tumor com a veia: ≤ 180º ou > 180º
Estenose focal: sim/não
Contorno irregular do vaso: sim/não
Trombose venosa: sim/não
Veia esplênica: trombose venosa: sim/não
Extensão para primeiro ramo venoso da veia mesentérica superior: sim/ não
Circulação colateral: sim/não
Localização: peripancreática/hilo hepático/mesenterial/hipocôndrio esquerdo
Avaliação extrapancreática
Lesões hepáticas: presente ou ausente
Suspeitas/indeterminadas/benignas)
Nódulos peritoniais ou omentais: sim/não
Ascite: sim/não
Linfonodomegalias ou linfonodos suspeitos: sim/não
Localização: hilo hepático/tronco celíaco/hilo esplênico/periaórtico/ interaortocaval
Invasão de estruturas adjacentes: sim/não

Nosso estudo apresentou algumas limitações. Participaram apenas 18 especialistas opinando sobre o laudo e nossa amostra poderia ter sido maior. Destaque-se que o consenso americano(18) foi baseado na opinião de apenas 15 especialistas e que existem limitações em reunir um número maior de especialistas em neoplasia de pâncreas, por se tratar de uma doença menos prevalente que outras do sistema digestivo. Nossa amostra foi formada majoritariamente por cirurgiões (66,7%), mas como o principal tratamento dos pacientes com ADP é a ressecção cirúrgica, o alvo principal dos laudos radiológicos é composto por esta categoria de profissionais. Os especialistas consultados neste estudo tiveram a sua formação em São Paulo e exercem a sua atividade primordialmente nesta cidade, o que não reflete necessariamente o panorama ou a opinião do resto do país. No entanto, esses profissionais pertencem a instituições que são importantes centros de pesquisa e formação médica, refletindo, em parte, a opinião e a conduta adotada em muitos outros centros de referência.

Concluindo, apesar de o laudo estruturado ainda ser pouco utilizado pelos radiologistas, na avaliação do paciente portador de ADP pode trazer importantes benefícios no tratamento e acompanhamento da doença, sendo bem aceito pelos profissionais envolvidos no atendimento destes pacientes, principalmente pela facilidade de extração de informações imprescindíveis para a conduta. Neste sentido, um modelo de laudo estruturado baseado na opinião de especialistas brasileiros está sendo proposto neste artigo. Sua adoção deverá garantir, em última análise, a transmissão de importantes informações em benefício dos pacientes, evitando cirurgias desnecessárias e permitindo identificar aqueles que poderão efetivamente ser favorecidos por um tratamento considerado curativo.

Trabalho realizado no Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), São Paulo, SP, Brasil.

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Recebido: 24 de Novembro de 2016; Aceito: 10 de Abril de 2017

Endereço para correspondência: Dr. Paulo Gustavo Maciel Lopes. Departamento de Diagnóstico por Imagem - EPM-Unifesp. Rua Napoleão de Barros, 800, Vila Clementino. São Paulo, SP, Brasil, 04024-002. E-mail: pgmlopes87@gmail.com.

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