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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.22 n.5 São Paulo Sept./Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40421999000500005 

ARTIGO

 

7-Epiclusianona, a nova benzofenona tetraprenilada e outros constituintes químicos dos frutos de Rheedia gardneriana*


Marcelo Henrique dos Santos
Departamento de Química - Universidade Federal de Minas Gerais - 31270-901 - Belo Horizonte - MG
Tanus Jorge Nagem
Departamento de Química - Universidade Federal de Ouro Preto - 35400-000 - Ouro Preto - MG
Tânia Toledo de Oliveira
Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular - Universidade Federal de Viçosa - 36571-000 Viçosa - MG
Raimundo Braz-Filho
Setor de Química de Produtos Naturais - LCQUI - CCT - Universidade Estadual do Norte Fluminense - 28015-620 - Campos - RJ

Recebido em 17/6/98; aceito em 16/1/99


 

 

7-Epiclusianone, the new tetraprenylated benzophenone and others chemical constituents from the fruits of Rheedia gardneriana. Phytochemical investigation of the fruits of Rheedia gardneriana led to the isolation of sesquiterpenes mixture, methyl esters of fatty acids (palmitate, estearate, oleate, linoleate, linolenate), sugars (galactose, glucose, fructose), triterpene (oleanolic acid), steroids mixture (stigmasterol and sitosterol) and the new tetraprenylated benzophenone 7-epiclusianone.

Keywords: Rheedia gardneriana; Guttiferae; 7-epiclusianone; steroids; triterpene; sesquiterpenes.

 

 

INTRODUÇÃO

A família Guttiferae apresenta-se constituída de 900 espécies distribuídas em 20 gêneros e tem sido objeto de estudo desde a década de 60, principalmente pela ocorrência de xantonas, substâncias naturais que têm despertado um grande interesse dos pesquisadores de saúde, estimulados pela comprovação de variadas atividades farmacológicas1.

A espécie Rheedia gardneriana é nativa da região Amazônica e cultivada em todo o território brasileiro, sendo conhecida popularmente como bacupari, bacoparé e bacuparí miúdo. A madeira de dimensões relativamente pequenas é usada em construção civil, marcenaria e carpintaria. A casca exsuda resina amarela que serve para curtume e tem aplicações medicinais2. Estudos fitoquímicos anteriores do caule e da raiz descreveram o isolamento de 1,5-diidroxixantona, lupeol, ácido betulínico, reediaxantona B, 1,7-diidroxixantona, isoreediaxantona B, reediacromenoxantona, 8-desoxigartanina, piranojacareubina, 7-preniljacareubina e b-sitosterol3, 4.

O presente trabalho descreve parte do estudo químico dos frutos de um espécime de Rheedia gardnerina, coletados no campus da Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Do extrato hexânico da polpa foi isolada uma mistura de sitosterol (1) e estigmasterol (2) e no extrato etanólico identificou-se por cromatografia em papel os carboidratos glicose, galactose e frutose. O extrato hexânico da casca forneceu uma nova benzofenona tetraprenilada, 7-epiclusianona (3) e uma fração líquida contendo os sesquiterpenos a-copaeno (4), a-muuroleno (5), g-cadineno (6) e cadineno (7). O ácido oleanólico (8) foi isolado do extrato diclorometânico da casca. A transesterificação dos extratos etéricos das sementes, da polpa e da casca forneceu os ésteres metílicos dos ácidos palmítico, esteárico, oléico, linoléico e linolênico, que foram identificados por cromatografia de gás. As estruturas das substâncias naturais 1, 2, 3 e 8 foram deduzidas com base na análise de dados espectrais de RMN (1D e 2D). Os sesquiterpenos 4 - 7 foram identificados através de cromatografia de gás acoplada a espectrometria de massas.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os extratos etéricos da casca, da polpa e das sementes foram submetidos a reação de transesterificação com MeONa/MeOH5. Os ésteres metílicos obtidos foram identificados como palmitato de metila, estereato de metila, oleato de metila, linolato de metila e linolenato de metila por cromatografia gasosa através de comparação com padrões.

Do extrato hexânico da polpa foi isolada uma mistura de sitosterol (1) e estigmasterol (2), que foram identificados por IV, RMN 1H e 13C e comparação com dados da literatura6,7. O extrato etanólico revelou através de cromatografia em papel descendente a presença dos açúcares galactose, glicose e frutose8, 9.

A maior parte do extrato hexânico da casca (1,2%) revelou-se como um material sólido cristalino, p. f. 92-93oC, identificado como 7-epiclusianona (3). A fração líquida foi analisada por cromatografia de gás acoplada a espectrometria de massas (CG/EM), revelando uma mistura bastante complexa, contendo compostos sesquiterpênicos (C15H24), sendo os mais abundantes o a-copaeno (4), a-muuroleno (5), g-cadineno (6) e cadineno (7)10. O ácido oleanólico (8), um triterpeno pentacíclico isolado do extrato diclorometânico da casca, foi identificado por IV, EM e RMN1H e 13C da substância original e de seu derivado acetilado11.

O espectro no IV de 3 mostrou absorções características em 1725 (uC=O não conjugada), 1670 (uC=O conjugada), 1600 (uC=C arom.) cm-1.

Os espectros de RMN 1H (200 MHz, em CDCl3) de 3 confirmou seu caráter aromático pelas absorções entre dH 7,6-7,3 (m). O sinal em dH 17,73, que desapareceu com adição de D2O, e a presença de C=O, sugerida pelo espectro infravermelho, indicaram a presença de hidroxila quelada envolvendo grupo carbonila (uC=O 1670)12.

Nos espectros de ultravioleta de 3 observou-se deslocamentos batocrômicos nas absorções após adição de cloreto de alumínio anidro, estáveis em meio ácido, revelando comportamento típico de um sistema quelatogênico13.

O espectro de RMN 1H (200 MHz) de 3 mostrou também sinais largos de hidrogênios ligados a carbonos sp2 de ligação dupla (C=C-H) em dH 5,16 e 4,86 e simples de metilas ligadas a carbono sp3 entre dH 0,97 e 1,30 e a carbono sp2 entre dH 1,41 e 1,78.

A análise comparativa dos espectros de RMN13C-HBBD (Hydrogen Broad Band Decoupled) e RMN13C-DEPT (Distortionless Enhancement by Polarization Transfer, q=90o e q=135o), a 50 MHz, foi usada para caracterizar a presença de doze sinais de carbonos quaternários, sete metínicos, quatro metilênicos e oito metílicos, acompanhados de sinais de intensidades aproximadamente iguais correspondentes a sete quaternários, quatro metínicos e dois metílicos. Estes fatos, conjuntamente com os valores dos deslocamentos químicos (dC) e as intensidades do sinais sugeriram a presença de dois tautômeros.

Estes dados, juntamente com o do pico correspondente ao íon molecular em m/z 502 ([M].+), revelado pelo espectro de massas e a comparação com benzofenonas preniladas já registradas em espécies da família Guttiferae, permitiram deduzir a fórmula molecular C33H42O4, compatível com uma benzofenona [(C)12 (C=O)]-trioxigenadada [(O)3]-tetraprenilada [(C)20], revelando a mesma fórmula molecular das benzofenonas tetrapreniladas naturais nemorosol (9, C33H42O4)14 , colanona (10, C33H42O4)15 e clusianona (11, C33H42O4)16 , sendo significativamente diferente das pentapreniladas xantochimol (12, C38H50O6) e camboginal ou isoxantochimol (13, C38H50O6)15 .

A frequência da banda de absorção (uC=O 1725 cm-1) atribuída a carbonila não conjugada (C-9) revelou valor semelhante aos registrados para 914, 1116, 12 e 1315.

A comparação dos dados de RMN13C (100 MHz, benzeno-d6) de 3 e os valores descritos na literatura17 para clusianona (11a + 11b, 100 MHz, benzeno-d6) foi usada para confirmar a presença de dois componentes tautoméricos, além de sugerir a presença dos mesmos constituintes tautoméricos nas misturas, já que a comparação dos sinais dos átomos de carbono quaternários, metínicos, metilênicos e metílicos revelou deslocamentos químicos praticamente idênticos (Tabela 1). Assim, a comparação destes dados (Tabela 1) sugeriram inicialmente duas misturas tautoméricas contendo os mesmos componentes 11a + 11b, já que a maior diferença observada (DdC = 0,44 ppm) entre os valores de dC descritos na literatura17 para os constiuintes 11a + 11b e os de 3a + 3b de todos os átomos de carbono quaternários, metínicos, metilênicos e metílicos apresentou-se numa faixa de tolerância atribuível às interferências experimentais.

 

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No entanto, uma diferença significativa foi observada na comparação dos pontos de fusão 92 - 93o C (cristalização em MeOH) de 3 e 150 - 152o C (cristalização em EtOH)]17 da clusianona (11). Esta diferença significativa foi atribuída inicialmente à formação de cristais diferentes nos processos de cristalização, sendo possível admitir a presença ou ausência de H2O nos solventes semelhantes (MeOH e EtOH). Esta avaliação preliminar apoiou-se em experiência observada com o flavonóide oxiaianina A (14, 2',5,5'-triidroxi-3,4',7-trimetoxiflavona) isolado de Apuleia leiocarpa18, 19 e de Distemonanthus bentha-mianus20 e o produto sintético21. O produto sintético (14) revelou espectro IV diferente e a estreita concordância em reações de cor, espectro UV e ponto de fusão21 quando comparado com a substância natural (14)20. Esse resultado, permitindo colocar em dúvida a estrutura lançada na literatura para a oxiaianina A (14) isolada de Distemonanthus benthamianus20, foi esclarecido através de comparação de amostras das três fontes (idênticas através de dados fornecidos por espectros UV e de RMN1H, além de cromatografia em camada delgada analítica), obtendo-se espectros IV idênticos quando cristalizadas no mesmo solvente (e. g. MeOH) e diferentes quando registrados de amostras recuperadas de solução CHCl3 após a evaporação do solvente (IV idênticos ao publicado para o produto sintético21). Assim, a estrutura 14 do flavonóide isolado de Apuleia leiocarpa18, 19 e de Distemonanthus benthamianus20 foi confirmada pelo produto sintético21, sendo os espectros IV diferentes, justificados pelas diferentes estados das amostras utilizadas.

Com base na permanência de dúvidas, enviou-se uma amostra de 3 para obtenção de espectros de RMN uni- [RMN1H, RMN13C-HBBD e RMN13-DEPT (q = 90o e q = 135o)] e bidimensionais [1Hx1H-COSY, 1Hx13C-HMQC-1J CH e 1Hx13C-HMBC-nJ CH (n=2 e 3)]22 em equipamento com probe inverso (1H-detectado) que opera a 400 (1H) e 100 (13C) MHz.

Os espectros bidimensionais de correlação homonuclear de hidrogênio 1Hx1H-COSY e heteronuclear de carbono e hidrogênio através de um ligação 1Hx13C-HMQC-1J CH (Heteronuclear Multiple Quantum Coherence) e a longa distância 1Hx13C-HMBC-nJ CH (n=2 e 3, Heteronuclear Multiple Bond Correlation) permitiram estabelecer as correlações de carbono e hidrogênio ligados diretamente (1JCH, Tabela 2) e a duas (2JCH, Tabela 3) e três ligações (3JCH, Tabela 3). Com base nas interações spin-spin do carbono quaternário C-5 [dC 68,98 (3a) e 66,08 (3b)] com os hidrogênios 3H-17 [dH 1,07 (3a) e 1,14 (3b)], 3H-18 [dH 0,81 (3a) e 0,86 (3b)] e H-19a [dH 2,89 (3a), não se observou pico transversal correspondente à esta interação no 3b] observadas no espectro bidimensional (2D) de correlação heteronuclear a longa distância (2JCH e 3JCH) foi possível a atribuir inequivocamente os deslocamentos químicos destes átomos de carbono (C-5, Tabela 3) e hidrogênio (H-19a, 3H-17 e 3H-18, Tabela 2). Após a atribuição inequívoca do sinal de H-19a (dH 2,89) foi possível assinalar o deslocamento químico do carbono metilênico CH2-19 (dC 26,57) através do espectro 1Hx13C-HMQC-1J CH (Tabela 2). Obviamente, estas atribuições foram facilitadas pela aplicação de parâmetros usuais para estimar valores de deslocamento químico para átomos de carbono e hidrogênio e no reconhecimento do sinal de C-5 como representante de carbono quaternário pela análise comparativa dos espectros de RMN13C-HBBD e RMN13C-DEPT14, além de comparação com dados descritos na literatura para substâncias naturais análogas25, 26. O maior deslocamento químico do C-5 de 3a (dC 68,98) em relação ao do C-5 de 3b (dC 66,08) pode ser justificado pelo maior efeito retirador de elétrons do grupo carbonila adicional localizado no carbono C-4, o que está em acordo com o maior dC do C-1 (dC 63,35) de 3b quando comparado com o do C-1 (dC 58,88) de 3a. Estes dados revelaram-se também em acordo com os tautômeros 3a e 3b. Os dC dos componentes dos equilíbrios (dinâmicos) tautoméricos 15 [dC 30,9 (CH3-1 e CH3-5)]  5a04st.gif (57 bytes)   15a [dC 24,8 (CH3-1 e CH3-5)], 16 [dC 30,1 (CH3-4)] 5a04st.gif (57 bytes) 16a [dC 21,1 (CH3-4)] e 17 [dC 57,0 (CH2-2, CH2-4 e CH2-6)] 17a [dC 46,0 (CH2-4 e CH2-6)]14 foram usados como modelos para demonstrar a maior efeito retirador de elétrons do grupo carbonílico quando comparado com o sistema enólico.

 

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Os deslocamentos químicos dos átomos de carbono (dC) e hidrogênio (dH) do anel aromático não revelaram modificações significativas (Tabela 2) para justificar a presença do tautômero 3c. No entanto, a sensibilidade relativamente baixa de RMN não permite afastar definitivamente a possibilidade de existência de 3c em pequena percentagem.

Outras interações spin-spin heteronuclear de carbono-13 e hidrogênio observadas nos espectros bidimensionais 1Hx13C-HMQC-1JCH e 1Hx13C-HMBC-nJ CH (n=2 e 3) foram utilizadas para estabelecer as correlações dos dC e dH de 3a e 3b resumidas nas Tabelas 2 e 3. Portanto, os dados de RMN13C de 3a e 3b inseridos na Tabela 1 para comparação com os valores descritos na literatura para a clusianona (11a + 11b)17 não correspondem à correta atribuição dos dC e dH (Tabelas 2 e 3) da 7-epiclusianona (3a + 3b). Certamente, diferenças significativas devem ser observadas nos deslocamentos químicos dos átomos de carbono localizados a uma (efeito a), duas (efeito b) e três (efeito g) ligações do central quiral CH-7 (C-1, C-5, C-6, CH-7, CH2-8, CH3-17, CH3-18, CH2-24 e CH-25, além do próprio CH-7) dos componentes tautoméricos das duas misturas 3a + 3b (7-epiclusianona) e 11a + 11b (clusianona)17. Assim, os dC e dH da 7-epiclusianona (3a + 3b) publicados neste artigo permitem sugerir um reexame dos dados lançados na literatura para a clusianona (11a + 11b) com base na interpretação de espectros uni- (1D) e bidimensionais (2D) obtidos em aparelho moderno (1H: 400 MHz; 13C: 100 MHz)17. A possibilidade de avaliação dos dados publicados para a clusianona (11a + 11b) com base na comparação com valores de dC e dH definidos para a 7-epiclusianona (3a + 3b) é inviável porque requer a disponibilidade dos espectros 1Hx1H-COSY, 1Hx13C-HMQC-1J CH e 1Hx13C-HMBC-nJ CH (n=2 e 3) da mistura tautomérica 11a + 11b. De qualquer modo, torna-se evidente e oportuno insistir na necessidade de cuidados especiais quando se compara dados de RMN1H e RMN13C para garantir a identificação de substâncias, especialmente aquelas que incorporam centros quiráis.

A comparação dos dados de raios X da clusianona (11)23 com os da 7-epiclusianona (3)24, permitiu diferenciar claramente a estereoquímica no átomo de carbono quiral C-7 (Figura 1). Outras conclusões tiradas para 11 foram semelhantes para 3, tendo deduzido que: i) a 7-epiclusianona cristalizada (3a) pode ser representada como um híbrido de ressonância das estruturas A, B e C, em ordem decrescente de contribuição. A contribuição relativa da estrutura C foi considerada sem importância significativa com base na torção de 21 (±2o) da ligação entre os átomos de carbono C-3 e C-4 e com a observada planaridade envolvendo os átomos de oxigênio O-4a, o hidrogênio H-4a e o oxigênio O-10a. A participação significativa da estrutura B foi postulada com base na estabilização produzida pela ligação de hidrogênio quelatogênica (intramolecular em sistema cíclico de seis membros) envolvendo o oxigênio O-10a e o hidrogênio H-4a ligado ao oxigênio O-4a, estando os átomos de oxigênio O-4a e O-10a separados pela distância de 2,42 Å e H-4a 0,85 Å de O-4a e 1,65 Å de O-10a, mantendo o ângulo de ligação O-4a ® H-4a ® O-10a de 151,09o.

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Com base nestes dados, os autores deduziram que a assimetria da ponte de hidrogênio decorre provavelmente da alteração sistemática dos comprimentos de ligação do sistema hexacíclico O-10a ® C-10 ® C-3 ® C-4 ® O-4a ® H-4a; ii) ausência de interação do grupo fenila com o sistema conjugado foi deduzida pela distância interatômica 1,48 Å entre os átomos de carbono C-10 e C-11, compatível com uma ligação simples entre carbonos sp2-sp2 (C-10 e C-11), e o ângulo de torção de 37,5o (±2). Outras distâncias interatômicas (em Å) descritas na estrutura parcial D podem também ser usadas como informações adicionais para a compreensão do sistema conjugado.

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O espectro de massas de 3 revelou-se relativamente simples, observando-se a presença de um número reduzido de picos significativos (m/z 502[M].+, 434, 433, 309, 105, 69), que podem ser justificados através de processos de fragmentação que envolvem a eliminação de 3-metil-1-buteno [M-68, m/z 434 (60%)] formado pelo rearranjo de McLafferty, de radical isopropenila [M-69, m/z 433 (100%)] e de 2,6-dimetil-2,5-heptadieno [m/z 433 - 124, m/z 309 (53%)] e a formação dos cations benzoílico [m/z 105 (21%)] e isopropenílico [m/z 69 (15%). A proposta para justificar os principais picos registrados no espectro de massas de 3b foi elaborada ignorando-se a possibilidade de participação de equilíbrio tautomérico (3a + 3c) nas reações que ocorrem no espectrômetro de massas.

Como esperado, a facilidade biogenética17, 27, 28 de prenilação localiza-se na unidade tipo floroglucinol, demonstrando claramente a influência dos grupos hidroxílicos no aumento da densidade eletrônica e favorecendo energeticamente as reações enzimáticas de substituição eletrofílica com o biorreagente pirofosfato de dimetilalila (Esquema 1).

 

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PARTE EXPERIMENTAL

Procedimentos Experimentais Gerais

Os pontos de fusão foram determinados em aparelho Mettler, modelo FP80. Os espectros de infravermelho foram registrados em um espectrofotômetro Mattson FTIR. Os cromatogramas em fase gasosa foram obtidos em cromatógrafo Shimadzu CG 14-A, equipado com detector de ionização de chama, acoplado a um registrador e integrador C-R6A CHROMATOPAC, usando coluna capilar carbowax 20 M (25 m x 0,2 mm), nas condições: temperatura do injetor a 200oC e do detector a 200oC ; gás de arraste H2, com fluxo de 0,4 mL/min; temperatura inicial da coluna 150oC/ min e depois 5oC/min. até (215o C); isoterma de 215oC por 15 minutos. Na cromatografia em papel foi usado n-butanol : ácido acético : água (8:2:1) como solvente e solução acetônica de anilina e difenilamina com revelador. Os espectros na região do ultravioleta foram obtidos de espectrofotômetro uv-visível HITACHI U-2000, de feixe duplo. A cromatografia de gás acoplada a espectrometria de massas (CG/EM) foi realizada em cromatógrafo modelo HP-5890 (série II) acoplado a espectrômetro de massa 5989 A da HP (70 eV), usando-se coluna de metilsilicone e de sílica fundida (30 m x 0,2 mm) nas condições: gás de arraste He e fluxo de 0,4 mL/min; temperaturas do injetor e detector a 200o C; temperatura inicial de 120oC e programação de 4oC/min até 200oC. Os espectros de RNM1H (400 MHz) e de 13C (100 MHz) foram obtidos em espectrômetro Bruker DRX-400, utilizando-se CDCl3 ou benzeno-d6 como solventes e tetrametilsilano (TMS) como referência interna. Para obtenção dos espectros de massa com injeção direta da amostra foi utilizado um espectrômetro VG Auto Spec Q, operando a 70 eV. Para separações cromatográficas em coluna utilizou-se silica gel 60 (70 - 230 mesh - ASTM, Merck). Para análises por cromatografia em camada delgada utilizou-se placas de vidro recorbertas por sílica gel GF254 com 0,25 mm de espessura.

Material Vegetal

Os frutos maduros de Rheedia gardneriana foram coletados no campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa, Minas Gerais, Brasil, em janeiro de 1994, tendo o registro de número 20515 no setor do Horto Botânico.

Extração e Isolamento dos Constituintes Químicos

Os frutos foram separados em três partes: casca, polpa e sementes. Cada parte foi seca individualmente em estufa com circulação de ar a 58oC, pulverizada e pesada, obtendo-se 1105,5 g, 635,0 g e 857,0 g, respectivamente. Partes destes materiais (1 g) foram submetidas a extração com éter de petróleo em aparelho de Soxhlet por 24 horas. Os resíduos obtidos dos extratos foram transesterificados com MeOH/ MeONa5. Os ésteres metílicos produzidos foram submetidos a análise por cromatografia a gás usando-se padrões para comparação. Identificou-se a presença dos ésteres palmitato de metila, estereato de metila, oleato de metila, linolato e metila e linolenato de metila.

O material restante de cada parte foi submetido a extrações sucessivas com n-hexano, diclorometano e etanol. Os extratos obtidos submetidos à cromatografia em coluna de sílica gel usando-se como sistema eluente n-hexano, clorofórmio e etanol e misturas destes solventes em ordem crescente de polaridade.

Do extrato hexânico da polpa (4,0 g) obteve-se sitosterol (1) e estigmasterol (2).

O extrato hexânico da casca forneceu um sólido que, após CC e sucessivas recristalizações em metanol anidro, conduziu ao isolamento de uma substância cristalina de cor amarelo-claro, denominado 7-epiclusianona (3) (7,0 g); na fração líquida foi identificada por cromatografia gasosa acoplado a espectrômetro de massas uma mistura de sesquiterpenos (6,8 g), destacando-se como componentes principais: a-copaeno (4), a-muuroleno (5), g-cadineno (6) e cadineno (7). Também foi isolado como componente principal um material de cor alaranjada, que sofre decomposição quando submetido a cromatografia em coluna de sílica gel, produzindo uma mistura diferente da amostra original, revelada por TLC.

O extrato diclorometânico (9,0 g) da polpa forneceu o ácido oleanólico (8, 2,0 g). No extrato etanólico (147,58 g), uma mistura relativamente complexa, constatou a presença dos açúcares glicose, frutose e galactose através de análise por cromatografia descendente em papel, usando eluente n-butanol:ácido acético:água (8:2:1) e como revelador anilina/difenilamina/acetona.

7-Epiclusianona (3)

P. f. 92-93oC (MeOH). IV (KBr) umax: 3080, 2970, 2900, 2860, 1725, 1670, 1600, 1470 e 1385 cm-1. UV (MeOH, 0,1 %) lmax(e): 205 (24507), 249 (13070) e 284 (13196) nm. RNM1H e 13C: Tabelas 2 e 3; EMIE m/z (%): 502 ([M].+, 5), 433 (M - C5H9, 100), 309 (m/z 433 - C9H16, 53), 105 (21), 69 (15%).

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à CAPES e CNPq pelo auxílio financeiro e bolsa de pesquisa (CNPq); Universidade Federal de Viçosa pelo suporte na coleta do material vegetal e na purificação dos extratos; ao Núcleo de Pesquisa em Produtos (NPPN) - Universidade Federal do Rio de Janeiro pelos espectros de RMN1H (200 MHz), RMN13C (50 MHz) e massas; e ao Curso de Pós-graduação em Química Orgânica - Universidade Federal do Ceará pelos espectros de RMN1H (500 MHz) e RMN13C (125 MHz).

 

REFERÊNCIAS

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* Parte da tese de Mestrado de M. H. dos Santos., Departamento de Química da Universidade Federal de Viçosa, em outubro de 1996, e do Programa de Doutorado (em andamento) no Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais.

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