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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.24 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422001000100006 

ARTIGO

Diterpenos, triterpenos e esteróides das flores de Wedelia paludosa


Geizi Jane A. de Carvalho, Mário Geraldo de Carvalho
Departamento de Química, Instituto de Ciências Exatas, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 23851-970 Seropédica - RJ
Dalva T. Ferreira, Terezinha de J. Faria
Departamento de Química, Universidade Estadual de Londrina, CP 6001, 86051-970 Londrina - PR
Raimundo Braz-Filho
Setor de Química de Produtos Naturais, LCQUI-CCT, Universidade Estadual do Norte Fluminense, 28015-620 Campos - RJ

Recebido em 4/11/99; aceito em 19/9/00


 

 

Diterpenes, triterpenes and steroids from flowers of Wedelia paludosa. Phytochemical investigation of the flowers of Wedelia paludosa afforded two diterpenes, ent-kaur-16-en-19-oic acid and ent-kaur-9(11),16-dien-19-oic acid, three acylated triterpenes, 3b-O-hexa-decanoylolean-12-en-28-oic acid, 3b-O-pentadecanoylolean-12-en-28-oic acid and 3b-O-tetradecanoylolean-12-en-28-oic acid, and three steroids, stigmasterol, 3b-O-b-D-glycopyranosyl sitosterol and 3b-O-b-D-glycopyrano-sylstigmasterol. The substances were identified by their spectral data.

Keywords: Wedelia paludosa; kaurenoic acids; 3b-O-acyloleanoic acids.

 

 

INTRODUÇÃO

A família Asteraceae compreende cerca de 25.000 espécies distribuídas em aproximadamente 1.100 gêneros, sendo representada no Brasil por cerca 180 gêneros1. Esta família aparece com um número relativamente grande de citações bibliográficas, envolvendo farmacognosia, fitoquímica e plantas medicinais2.

As atividades farmacológicas reveladas pelos extratos ou substâncias isoladas de espécies do gênero Wedelia despertaram o interesse para estudo químico3.

A espécie Wedelia paludosa D. C., usada na medicina popular como expectorante e anticonvulsivo, foi estudada anteriormente após a verificação de atividade antibiótica revelada por testes preliminares envolvendo um extrato bruto das partes aéreas. O estudo químico desse extrato revelou a presença de sete ácidos caurenóicos, um labdano e uma seco-caurenolactona4. Recentemente, foi observada também atividade inseticida em ensaios com esta espécie e uma reinvestigação fitoquímica conduziu ao isolamento e caracterização de duas novas lactonas sesquiterpênicas5.

Este artigo descreve os resultados obtidos do estudo químico das flores de um espécimen de Wedelia paludosa. Identificaram-se dois ácidos caurenóicos (1 e 2), estigmasterol (3), glicosídios de estigmasterol (5) e sitosterol (6) e três ésteres derivados do ácido oleanóico (4a-4c). As substâncias 2, 4, 5 e 6 estão sendo registradas pela primeira vez nesta espécie. Os dados de RMN 13C de 2 estão sendo registrados pela primeira vez na literatura.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O fracionamento cromatográfico do extrato etéreo das flores de Wedelia paludosa e a análise espectrométrica das frações permitiu a identificação de dois ácidos caurânicos (1 e 2), estigmasterol (3), uma mistura de 3b-O-b-D-glicopiranosilsitosterol (5) e 3b-O-b-D-glicopiranosilestigmasterol (6) e uma mistura de três ésteres 3b-O-aciloleanóicos (4a, 4b e 4c). Estas substâncias natutais foram identificadas através da análise dos dados espectrais de RMN e massas das frações contendo as substâncias naturais, dos derivados metilados (1a e 2a) e acetilados (5a e 6a) e comparação com dados registrados na literatura.

A análise comparativa dos espectros de RMN 13C-HBBD (Hydrogen Broad Band Decoupled) e RMN 13C-DEPT (Distortionless Enhancement by Polarization Transfer) de 1 permitiu propor a fórmula parcial C5(CH)3(CH2)10 (CH3)2. Os grupos ácido e vinila foram caracterizados pelos valores dos dC185,0 (CO2H), 155,5 (=C) e 103,0 (=CH2) e pelos sinais de dois hidrogênios metilênicos de carbono sp2 em dH 4,74 (sl) e 4,79 (sl) presentes no espectro de RMN de 1H. Estas informações em conjunto e o pico em m/z 302 D ([M].+) revelado pelo espectro de massas e comparação dos deslocamentos químicos dos átomos de carbono (dC) e hidrogênio(dH) com valores descritos na literatura6,7 permitiram a identificação desta substância natural como ácido ent-caur-16-en-19-óico (1). Este diterpeno (1) foi isolado anteriormente desta espécie4.

A substância 2 foi reconhecida numa mistura com 1. A análise do espectro de RMN 1H da mistura de 1 e 2 revelou, além dos sinais do terpeno 1, um sinal adicional na região de absorção de hidrogênios olefínicos (dH 5,25, t, H-11), com integração correspondendo a aproximadamente 50 % do valor da intensidade do singleto largo em dH 4,79 (H-17) de 1. A análise comparativa dos espectros de RMN 13C (HBBD e DEPT, q=135o e q=90o) permitiu reconhecer, além dos sinais dos carbonos de 1, os sinais de uma ligação dupla trisubstituida [dC 138,0 (C-9) e 114,8 (CH-11) e um sinal de grupo metila adicional (dC 23,8, CH3-20).

O espectro de massas da mistura de 1 e 2 apresentou picos em m/z 302 (100) correspondente ao íon molecular de 1 e em m/z 300 (10) compatível com a presença do diterpeno 2 com estrutura semelhante a 1 contendo uma ligação dupla adicional.

A localização da ligação dupla trisubstituida entre os átomos de carbono C-9 e CH-11 foi confirmada pelo resultado de NOE (2 %) observado no sinal do hidrogênio H-11 (dH 5,25) com a irradiação na frequência dos hidrogênios metílicos 3H-20. Estas informações e a comparação dos deslocamentos químicos dos carbonos de 2 com valores de modelos relatados na litratura7 foram usados para deduzir a estrutura do ácido ent-caur-9(11),16-dien-19-oico (2) e atribuir pela primeira vez os deslocamentos químicos dos carbonos deste diterpeno. Esta substância foi também isolada de Wedelia hispida, W. callycina8, W. hookenriana9 e W. buphthalmiflora2.

As estruturas dos esteróides 3, 5 e 6 foram deduzidas através da análise dos espectros de RMN 1H e 13C (HBBD e DEPT) de 3 e dos derivados acetilados 5a e 6a, envolvendo a comparação com valores divulgados na literatura para 310,11, 5a e 6a11,12.

A presença da unidade triterpênica pentacíclica em 4 foi reconhecida pelos deslocamentos químicos e multiplicidade dos sinais de RMN 13C (HBBD e DEPT), comparação com os valores do ácido oleanóico registrados na literatura13 e pelos deslocamentos químicos dos sinais dos hidrogênios H-12 (dH 5,25, t, J=3,6 Hz), H-3 (dH 4,50, t, J=8,8 Hz) e H-18 (dH 2,80, dd, J=9,6 e 6,8 Hz) presentes no espectro de RMN de 1H. Os picos em m/z 439 (55, 4d), 248 (48, 4e), 203 (48, 4f) e 191 (100, 4g) observados no espectro de massas de 4 revelaram-se em acordo com a presença desta unidade. Os valores dos deslocamentos químicos do H-3 (dH 4,50, t, J=8,8 Hz) e CH-3 (dC 80,5) permitiram postular a presença de uma função ester no átomo de carbono CH-3.

Os sinais adicionais presentes nos espectros de RMN 13C e RMN 1H foram correlacionados com unidade acila: dC 173,7 (C-1'), 34,8 (CH2-2'), 31,9 [CH2-(n-3)], 29,1[(CH2)n], 22,5 [CH2-(n-2) e 14,1 (CH3-n); dH 2,30 (t, J=6,0 Hz, H-2'), 1,24 [m, (CH2)n] e 1,00 (t, J= Hz, CH3).

 

 

Além dos picos atribuídos aos fragmentos 4d (55), 4e (48), 4f (48) e 4g (100), o espectro de massas revelou picos em m/z 694 (10, 4a), 680 (6, 4b) e 666 (7, 4c), que foram correlacionados com os íons moleculares dos três ésteres (4a + 4b + 4c) presentes na mistura. A relação M.+ - 498 [15 (CH3) + 44 (O=C-O) + 439 (4d)] = 14n permitiu deduzir o número de CH2 de cada unidade acila: 4a (n=14), 4b (n=13) e 4c (n=12). Esta dedução foi confirmada pelos picos em m/z 239 (12), 225 (5) e 211 (8), atribuídos aos íons acilio 4h, 4i e 4j, respectivamente. Assim, as estruturas dos ácidos 3b-O-hexadecanoilolean-12-en-28-óico (4a), 3b-O-pentadecanoilolean-12-en-28-óico (4b) e 3b-O-tetradecanoilolean-12-en-28-óico (4c) foram deduzidas. Estes ésteres encontram-se registrados na literatura 10,11.

 

PARTE EXPERIMENTAL

Procedimentos experimentais gerais.Os pontos de fusão (p. f.) foram determinados em placa de Kofler e não foram corrigidos. Os espectros na região de infra-vermelho (IV) foram obtidos em pastilha de KBr em um espectrômetro Perkin-Elmer 1420. Os espectros de ressonância magnética nuclear (RMN) foram registrados em um aparelho Brucker AC 200 (1H: 200 MHz; 13C: 50.3 MHz) e Varian UN 400 (1H: 400 MHz ; 13C:100 MHz), usando-se CDCl3 como solvente e TMS como referência interna. Os espectros de massas foram obtidos por impacto de elétrons em espectrômetro VG QUATTRO. Para cromatografia em coluna e camada delgada usou-se sílica gel marca Merck.

Material Vegetal.Um espécime de Wedelia paludosa D.C. foi coletado no mês de outubro de 1990, nas proximidades do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Londrina, Paraná, e identificado pela Professora Dra. Ana Odete de Santos Vieira, Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina.

Isolamentos dos constituintes químicos. As flores de Wedeila paludosa D.C. foram submetidas a secagem em estufa a 60oC, convertida a pó (332,7 g) e extraídas à temperatura ambiente com etanol. A destilação do etanol foi feita sob pressão reduzida e forneceu 131 g de resíduo. Este resíduo foi submetido à processo de partição com MeOH, H2O e éter de petróleo (700 mL MeOH:90 mL H2O:1000 mL de éter de petróleo). O extrato éter de petróleo foi submetido à cromatografia em coluna de sílica gel, utilizando-se como eluente hexano/CH2Cl2/AcOEt/MeOH em gradiente de polaridade, fornecendo 221 frações (250 mL cada) que foram reunidas em grupos após análise por cromatografia em camada delgada de sílica. O grupo VIII (frações 103-132) forneceu a substância 1 (723 mg, p. f. 181-182o C) e a mistura das substâncias 1 e 2 (300 mg, p.f. 181-185o C); o grupo IX (frações 133-142) forneceu a substância 3 (193 mg, p. f. 175-178o C); o grupo VII (frações 90-102) foi submetido a cromatografia em camada delgada preparativa, obtendo-se uma mistura dos ésteres 4a, 4b e 4c (120 mg); e o grupo XVI (frações 208-212) forneceu a mistura das substâncias 5 e 6 (43,5 mg).

Ácido caur-16-en-19-óico (1). Cristais brancos, p. f. 181-182oC; [a]D -94,8 (CHCl3, 2,5). Os dados de RMN 13C (50,3 MHz, CDCl3) e RMN de 1H (200 MHz CDCl3) revelaram-se em acordo com os valores descritos na literatura6,7. Esta substância (100 mg) foi submetida a metilação com diazometano em éter etílico (3 mL), fornecendo o derivado metilado 1a (100 mg). Dados de RMN 1H (200 MHz, CDCl3) revelaram-se semelhantes aos valores de 1, contendo sinal adicional do grupo metoxila em dH 3,56 (s, OMe).

Ácido caur-9(11),16-dien-19-óico (2). A análise dos espectros de RMN e massas da mistura de 1 e 2 permitiu reconhecer os dados de 1 e deduzir os valores correspondentes a 2. dH (200 MHz, CDCl3) e em acordo com valores relatados na literatura8. RMN 13C dC (50,3 MHz, CDCl3): 41,0 (CH2-1), 19,0 (CH2-2), 37,7 (CH2-3), 43,9(C-4), 57,0 (CH-5), 21,8 (CH2-6), 41,2 (CH2-7), 44,2 (C-8), 138,0 (C-9), 38,8 (C-10), 114,8 (CH-11), 33,1 (CH2-12), 43,8 (CH-13), 39,6 (CH2-14), 49,0 (CH2-15), 156,0 (C-16), 105,5 (CH2-17), 28,3 (CH3-18), 185,0 (C-19), 23,8 (CH3-20). Esta mistura (50 mg) foi metilada com diazometano em éter etílico (1,5 mL), fornecendo os derivados metilados 1a e 2a. O espectro de RMN de 1H (200 MHz, CDCl3) revelou-se semelhante ao de 1 + 2, contendo os sinais adicionais em dH 3,65 (s, OMe), e 3,64 (s, OMe).

Estigmasterol (3). Cristais brancos, p. f. 175-178o C. Os dados de RMN 13C e RMN 1H revelaram-se em acordo com valores relatados na literatura10,11.

Mistura dos Ácidos 3b-O-hexadecanoilolean-12-en-28-óico (4a), 3b-O-pentadecanoilolean-12-en-28-óico (4b) e 3b-O-tetradecanoilolean-12-en-28-óico (4c). Óleo amarelo. Estes revelaram-se em acordo com dados descritos na literatura8,9.

Tetra-O-acetil-3-O-b-D-glicopiranosilsitosterol (5a) e tetra-O-acetil-3-O-b-D-glicopi-ranosilestigmasterol (6a). A mistura de 5 + 6 (150 mg) foi submetida a acetilação com anidrido acético (6 mL) e piridina (6 mL). Após o repouso durante 24 horas à temperatura ambiente e extração do produto acetilado com CHCl3 obteve-se a mistura dos derivados 5a e 6a. Os dados espectrais de RMN 13C e RMN 1H revelaram-se semelhantes aos valores relatados na literatura 9,12.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao CNPq, CAPES e FAPERJ pelos auxílios e bolsas concedidas. Agradecemos também à Professora Ana Odete de Santos Vieira, Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Paraná, Brasil, pela identificação da planta.

 

REFERÊNCIAS

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