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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.24 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2001

https://doi.org/10.1590/S0100-40422001000100022 

NOTA TÉCNICA

Uma rota alternativa para a síntese de PPh2Si(CH3)3 segundo Appel; preparação e purificação dePPh2H (Ph = fenila)


Gelson Manzoni de Oliveira
Departamento de Química, Universidade Federal de Santa Maria, Campus, Camobi, 97105-900 Santa Maria - RS

Recebido em 3/1/00; aceito em 7/6/00


 

 

An alternative way to the Appel's synthesis of PPh2Si(CH3)3; preparation and purification of PPh2H (Ph = phenyl). The unexpected low yield in the Appel's synthesis of PPh2Si(CH3)3 can be attributed to the presence of phenyllithium and its interfering reactions. The method was carried out with hydrolysis of the products formed by the reaction of PPh3 with metallic lithium, phenyllithium and lithiumdiphenylphosphide. PPh2Si(CH3)3 was obtained by subsequent reaction of the resulting diphenylphosphin with elemental lithium and ClSi(CH3)3.

Keywords: organosilylphosphines; lithiumdiphenylphosphide; diphenylphosfide anion.

 

 

INTRODUÇÃO

A ligação fósforo-carbono, no importante material de partida trifenilfosfina, pode ser facilmente quebrada por lítio metálico em THF, à temperatura ambiente, levando à formação de [Ph2P]-Li+ (Ph = fenila) e fenillítio. Este método pode ser considerado de uso geral para obtenção do ánion difenilfosfeto (Li-"counteríon"), embora outras reações sejam também utilizadas para este propósito. Como exemplos podem ser citadas a reação de sódio metálico1 com PPh2Cl e a reação de PPh2H com n-butillítio2.

Organilsililfosfinas, por sua semelhança química com fosfetos alcalinos do tipo RR'PM (R = fenila; R' = fenila, alquila; M = metal alcalino), desempenham um papel importante na química inorgânica sintética. Segundo Appel e Geisler3, a síntese destas fosfinas orgânicas pode ser realizada de maneira relativamente simples, a partir de diarilfosfinas, por clivagem da ligação P-Ph com lítio metálico [R2R'P + 2 Li ® RR'PLi + RLi (R = Fenila; R' = H, alquila, fenila para Ph2PLi)] e adição posterior de clorotrimetilsilano.

Desta forma, e assim como outros métodos citados na literatura4,5 para a síntese de PPh2SiMe3 (Me = metila), aquele proposto por Appel e Geisler (Eintopfreaktion) baseia-se na reação de trifenilfosfina com lítio metálico para a formação do ánion difenilfosfeto, conforme a sequência de equações abaixo.

Ao final, após filtração do cloreto de lítio e extração do solvente a vácuo, o produto é purificado por destilação fracionada em alto-vácuo (0,4 Torr) sobre uma coluna de Vigreux.

Experimentalmente, no entanto, verifica-se que a reação apresenta um rendimento excessivamente baixo, da ordem de 4%, o que pode ser atribuído à presença, no meio reacional, do reativo carbanion fenillítio, formado na primeira etapa da reação. Como alternativa, procedemos à hidrólise dos produtos formados na primeira etapa da síntese de Appel (LiPPh2 e C6H5Li), objetivando a eliminação de fenillítio (e de suas reações interferentes) do meio.

O produto final desejado, PPh2SiMe3, foi preparado a partir da reação de PPh2H com lítio metálico e clorotrimetilsilano, conforme o esquema abaixo:

Interessante é o fato de que, segundo Appel3, a reação de difenilfosfina com lítio metálico deveria ocorrer de acordo com o mesmo mecanismo geral proposto para as demais reações consideradas, ou seja

portanto, mediante quebra da ligação P-Ph, o que levaria também à formação do carbanion fenillítio.

Sabe-se, no entanto, que a reação6,7 de lítio metálico com difenilfosfina produz a clivagem da ligação P-H, formando-se difenilfosfeto de lítio, LiPPh2, e LiH. A reação de PPh2H com Na ou K ocorre mediante liberação de hidrogênio6.

 

PARTE EXPERIMENTAL

Todos os trabalhos foram realizados em atmosfera inerte, com argonio como gás de proteção. O processo de secagem de THF (com Na metálico/benzofenona) foi repetido várias vezes, até obtenção do solvente absoluto; adicionalmente, como medida de segurança, o solvente era destilado imediatamente antes do início das reações. Para as destilações a vácuo usou-se uma bomba de alto-vácuo de duplo estágio Edwards 5 (Two Stage).

A. Síntese se Difenilfosfina, PPh2H

Em um balão de 250 ml de tres bocas com funil gotejador, refluxador e torneira para conexão de argônio, dissolve-se 26,23 g (0,1 mol) de trifenilfosfina em 150 ml de THF. A seguir mistura-se, sob agitação, 1,38 g (0,2 mol) de lítio em pó. O sistema é ligado a um ventil de sobre-pressão de mercúrio e a mistura é agitada durante 4 h. A seguir goteja-se lentamente 0,25 mol de água destilada (previamente desgaseificada, por agitação em alto-vácuo durante 15 min), volume suficiente para um excesso de 25%. A reação fortemente exotérmica ocorre com descoramento total da mistura reacional. O sistema é resfriado e o solvente é extraído a vácuo, cuidadosamente, até cerca de 1/3 do volume total. A mistura é filtrada para separar o precipitado gelatinoso de LiOH (ver nota1 ao final da página).

O produto assim preparado pode ser utilizado para a síntese de PPh2SiMe3, descrita a seguir, ou pode ser purificado para utilização posterior. A purificação é feita por destilação em alto-vácuo, obtendo-se PPh2H puro à temperatura de 78oC, a 1 x 10-3 mbar.

Propriedades: líquido oleoso e inflamável em contacto com o ar, com cheiro desagradável e nauseante. Ponto de ebulição: 78 oC a 1 x 10-3 mbar. Rendimento: 90% em relação a PPh3.

B. Síntese de trimetilsilildifenilfosfina, PPh2SiMe3

Ao filtrado da reação anterior, em um balão de 250 ml com as mesmas características, adiciona-se 100 ml de THF anidro (ver nota2 ao final da página) e 1,38 g (0,2 mol) de lítio em pó. Com o sistema conectado a um ventil de sobre-pressão de mercúrio, a mistura é agitada durante tres horas, adquirindo coloração marrom. Quando não se notar mais alteração da cor, adiciona-se 23,9 g (0,22 mol) de ClSiMe3. O final da reação é atingido quando cessa a formação do precipitado branco de cloreto de lítio, e a solução fica transparente. A mistura é filtrada a seguir sobre uma camada de sílica-gel (previamente secada por aquecimento a 160 ºC em alto vácuo durante tres horas), extraindo-se então o solvente a vácuo, cuidadosamente. O líquido oleoso remanescente é submetido a destilação fracionada em alto-vácuo, ocorrendo fracionamento de PPh2SiMe3 à temperatura de 105 ºC. Recomenda-se a análise por infravermelho do produto isolado, com o objetivo de verificar a eventual presença de difenilfosfina (pode-se tomar como referência a banda de intensidade média, relativamente larga, correspondente ao estiramento P-H, situada em 2283 cm-1, obtida em janela de KBr). Se houver necessidade, a destilação fracionada em alto-vácuo deve ser repetida.

Propriedades: líquido oleoso, incolor, de cheiro nauseante, com ponto de ebulição de 105 oC a 1 x 10-3 mbar. Extremamente sensível à hidrólise, inflama instantaneamente em contacto com o ar. Rendimento: 53% em relação a PPh2H.

 

CONCLUSÃO

A modificação introduzida permitiu-nos aumentar consideravelmente o rendimento final da síntese de Appel para PPh2SiMe3, além de otimizar a preparação - de maneira relativamente simples - de difenilfosfina, PPh2H.

A síntese de PPh2SiMe3 segundo Luther e Beyerle5 baseia-se igualmente na reação de LiPPh2 (formado a partir de trifenilfosfina e lítio) com ClSiMe3, e prescreve a eliminação "in situ" de LiPh, mediante a adição de 2-cloro-2-metilpropano, com formação (e despreendimento) de isobutileno, o que comprova a ação interferente de fenillitio sobre o rendimento da reação. Embora o método de Luther também recomende a purificação do produto por destilação a vácuo (1 Torr), Manning et al. reportam8 a impossibilidade de obter PPh2SiMe3 totalmente livre de PPh2H, por este processo.

A adaptação do método de Appel, por nós realizada, permitiu-nos obter PPh2H e PPh2SiMe3 espectroscopicamente puros (IV, 1H e 31P-RMN), necessários para reações de substituição em complexos carbonílicos e em fosfano-complexos, relatadas recentemente9,10.

 

REFERÊNCIAS

1. Goldsberry, R.; Cohn, K.; Inorg. Synth. 1972, 13, 26.         [ Links ]

2. Fieser, L. F.; Fieser, M.; Reagents for Organic Synthesis, Vol. 1, p. 345, John Wiley & Sons, New York, 1967.         [ Links ]

3. Appel, R.; Geisler, K.; J. Organomet. Chem. 1976, 112, 61.         [ Links ]

4. Grim, S. O.; Del Gaudio, J.; Molenda, R. P.; Tolman, C. A.; Jesson, J. P.; J. Am. Chem. Soc. 1974, 96, 3416.         [ Links ]

5. Luther, G. W.; Beyerle, G.; Inorg. Synth. 1977, 17, 186.         [ Links ]

6. Kuchen, W.; Buchwald, H.; Chem. Ber. 1959, 92, 227.         [ Links ]

7. Becker, G.; Mundt, O.; Rössler, M.; Schneider, E.; Z. Anorg. Allg. Chem. 1978, 443, 42.         [ Links ]

8. Manning, P. J.; Peterson, L. K.; Wada, F.; Dhami, R. S.; Inorg. Chim. Acta 1986, 114, 15.         [ Links ]

9. de Oliveira, G. M.; Hörner, M.; Seiffert, M.; Bortoluzzi, A. J.; J. Chem. Crystall. 1999, 29, 193.         [ Links ]

10. de Oliveira, G. M.; Seiffert, M.; Lorenz, I.-P.; Inorg. Chim. Acta 1999, 288, 101.         [ Links ]

 

 

1 Caso desejável, pode-se transformar o precipitado de LiOH - cuja filtração é bastante trabalhosa - em LiCl, mediante a adição de ClSiMe3, nesta etapa. Tentativas de converter LiOH em LiCl adicionando-se a quantidade estequiométrica de ácido clorídrico concentrado em diluição 1:1 não forneceram resultados satisfatórios.

2 Caso se prefira sintetizar PPh2SiMe3 a partir de difenilfosfina purificada por destilação, pode-se trabalhar com 9,31 g (0,05 mol) de PPh2H em 100 ml de THF, para 0,69 g (0,1 mol) de lítio em pó e 11,97 g (0,11 mol) de ClSiMe3.

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