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Química Nova

Print version ISSN 0100-4042On-line version ISSN 1678-7064

Quím. Nova vol.29 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422006000500026 

REVISÃO

 

Alcalóides pirrolizidínicos em espécies do gênero Senecio

 

Pyrrolizidine alkaloids from Senecio species

 

 

Chana de Medeiros da Silva; Aline Abati Bolzan; Berta Maria Heinzmann*

Departamento de Farmácia Industrial, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Maria, Campus Universitário, 97105-900 Santa Maria - RS, Brasil

 

 


ABSTRACT

Senecio species contain a large variety of secondary metabolites and many of these plants afford pyrrolizidine alkaloids. This paper is a review of the literature, describing 62 pyrrolizidine alkaloids already isolated in 62 of more than 2000 species of Senecio, distributed worldwide. The structure-activity relationships involving their toxicity are also discussed, since some Senecio species used for medicinal purposes are responsible for causing serious adverse effects.

Keywords: Senecio; pyrrolizidine alkaloids; hepatotoxicity.


 

 

INTRODUÇÃO

O gênero Senecio (tribo Senecioneae, Asteraceae) é constituído por mais de 2000 espécies de ampla distribuição mundial1. No Brasil, foram catalogadas cerca de 85 espécies pertencentes ao gênero, dentre as quais 33 são nativas da região sul1 e 25 foram identificadas no Rio Grande do Sul2.

Os alcalóides pirrolizidínicos (APs) são considerados um importante grupo de constituintes do gênero Senecio. São conhecidos por causarem intoxicações em animais herbívoros de grande porte, como bovinos, ovinos, suínos e eqüinos, levando a perdas consideráveis na pecuária para o sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai3-5. A literatura também relata a ocorrência de intoxicações fatais em seres humanos devido ao consumo de espécies de Senecio contendo Aps6-8, que têm sido empregadas na medicina popular de diversos países, inclusive na América Latina9-11.

 

TIPOS DE ALCALÓIDES PIRROLIZIDÍNICOS ENCONTRADOS EM ESPÉCIES DE Senecio

APs são ésteres de aminoálcoois com um núcleo pirrolizidínico (necina) e ácidos alifáticos (ácidos nécicos), que podem ocorrer na forma de mono, di e diésteres cíclicos. As necinas caracterizam-se por apresentar um sistema bicíclico com um nitrogênio terciário como "cabeça de ponte", um grupamento hidroximetila em C1 e uma hidroxila em C78 (Figura 1). Os APs podem apresentar a necina insaturada entre os carbonos C1 e C2, sendo esta característica um pré-requisito para a sua toxicidade aguda e crônica8,12,13. Os APs que possuem a necina saturada não são tóxicos aos mamíferos14.

 

 

Segundo Trigo15, por serem muito comuns ao gênero, os APs podem ser utilizados como marcadores quimiossistemáticos para a tribo Senecioneae, uma vez que a maioria apresenta uma estrutura macrocíclica diéster do tipo senecionina (Tabela 1) e/ou são mono e diésteres do tipo triangularina (Tabela 2).

Embora os alcalóides pirrolizidínicos sejam considerados metabólitos secundários característicos do gênero Senecio, eles não estão presentes em todas as espécies e também têm sido relatados em gêneros vizinhos53. Além da variabilidade inter-específica na composição de APs, pode ocorrer variação intra-específica na concentração dos mesmos, conforme a época e o local da coleta, a parte da planta e seu quimiotipo24.

A biossíntese dos APs tem início nas raízes de Senecio, onde são produzidos primeiramente N-óxidos da senecionina. Estes são transportados para os órgãos superiores da planta, onde sofrem alterações estruturais, originando os diferentes APs24. Entretanto, somente se tornam tóxicos quando metabolisados pelo fígado a uma forma pirrólica altamente reativa, conhecida como deidroalcalóide8.

O efeito hepatotóxico destes alcalóides, devido à atuação de seus metabólitos como agentes alquilantes, está bem estabelecido. Primeiramente ocorre uma oxidação (desidrogenação) no carbono-a ao N, catalisada por monooxigenases do citocromo P-45054. Os derivados pirrólicos assim originados são reativos e sofrem conversão espontânea, originando agentes eletrofílicos, que reagem com substâncias celulares de caráter nucleofílico através de uma adição de Michael. A glutationa reduzida apresenta caráter nucleofílico e, devido a esta característica, protege o organismo, uma vez que captura os derivados pirrólicos tóxicos, sendo esta a principal rota de detoxificação utilizada pelo organismo. No entanto, outros nucleofílicos das células, como ácidos nucleicos e proteínas vitais, também reagem com os derivados pirrólicos, formando adutos55. A alteração na estrutura de moléculas vitais leva à alteração de sua função, o que explica as diversas manifestações patológicas ocasionadas pelos APs.

As diferentes espécies animais apresentam suscetibilidades variáveis frente aos APs, na dependência do tipo de metabolismo enzimático destes no microssoma hepático. A produção do núcleo pirrólico em baixas quantidades e as altas taxas de conjugação com a glutationa parecem ser as razões para a maior resistência de ovelhas e hamsters à toxicidade destes alcalóides54. A ingestão crônica de plantas contendo APs, por animais de laboratório, levou ao desenvolvimento de câncer e, paralelamente, metabólitos de alguns APs mostraram atividade mutagênica in vitro56. No entanto, até o momento, não foi encontrada nenhuma correlação entre a exposição de humanos aos APs e o desenvolvimento de câncer. A análise de vários relatos da literatura sobre a exposição de seres humanos aos APs levou Parkash55 e colaboradores à conclusão de que estes compostos não são carcinogênicos aos seres humanos; entretanto, a exposição a estas substâncias pode causar doenças veno-oclusivas e cirrose infantil, responsáveis por vários casos de óbito.

 

AGRADECIMENTOS

Ao CNPq e à CAPES.

 

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Recebido em 20/7/05; aceito em 14/10/05; publicado na web em 5/5/06

 

 

* e-mail: hberta@ccs.ufsm.br

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